TESTEMUNHO SOBRE O HCE - Marcos Arruda 300715
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COMISSÃO DA VERDADE DO RIO DE JANEIRO
CLÍNICAS DO TESTEMUNHO
AUDIÊNCIA PÚBLICA COM EX-PRESAS E PRESOS POLÍTICOS QUE ESTIVERAM INTERNADOS NO HOSPITAL CENTRAL DO EXÉRCITO – HCE
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2015
TESTEMUNHO DE MARCOS PENNA SATTAMINI DE ARRUDA
Vocês que vivem seguros
Em suas casas cálidas,
Vocês que encontram comida quente
E caras amigas quando voltam à casa.
Considerem se isto é um homem
Que trabalha na lama,
Que não conhece a paz,
Que luta por uma migalha de pão,
Que morre por um sim ou não.
Considerem se isto é uma mulher
Sem cabelos, sem nome,
Sem a força de recordar,
Vazios são seus olhos, frio é seu ventre,
Como uma rã no inverno.
Nunca esqueçam que isto aconteceu.
Lembrem-se destas palavras.
Gravem-nas nos seus corações,
Quando em casa ou na rua,
Quando deitados ou se levantando.
Repitam-nas para seus filhos.
Ou que suas casas sejam destruídas,
Que a doença lhes golpeie,
Que seus filhos virem as costas a vocês”.
― Primo Levi, Survival in Auschwitz
- Estudei geologia no Rio de Janeiro e trabalhei três anos como geólogo. Deixei a profissão para trabalhar em fábricas metalúrgicas em São Paulo, ajudando na organização e luta dos operários por seus direitos e contra a ditadura. Fui preso em 11.5.1970 e torturado pela Operação Bandeirantes (OBAN). A brutalidade foi extrema, me levou às portas da morte. Levado ao Hospital Geral do Exército, na manhã seguinte, recebi a Extrema Unção. Passei um mês e meio para melhorar o suficiente para ser levado de volta à OBAN para uma acareação. Só em agosto minha família conseguiu que, depois de três meses internado no Hospital Geral do Exército eu fosse transportado numa cela-ambulância para o Rio de Janeiro, minha cidade de origem. No Rio, fui entregue ao DOI-CODI, no Batalhão da Polícia do Exército sediado na Rua Barão de Mesquita. De lá fui levado para o Hospital Central do Exército (HCE), em Triagem, onde fiquei preso entre os dias 21.8.1970 e 1.2.1971.
- “Esquecer? Nunca Mais!” é o nome do livro publicado pela minha mãe, Lina Penna Sattamini, onde ela conta a saga do filho nas mãos sangrentas da ditadura empresarial-militar que dominou o Brasil durante 21 anos, e o que a família vivenciou para conseguir a minha libertação. Por iniciativa do professor de história do Brasil na Universidade Brown, James Neylor Green, esse livro ganhou uma versão em inglês, com o título “A Mother’s Cry”, da Universidade Duke, dos Estados Unidos, país onde Lina viveu e trabalhou por mais de duas décadas.
- Em setembro de 2014 participei da Comissão que visitou o HCE, composta de membros das Comissões Nacional e Estadual da Verdade, das Clínicas do Testemunho e de ex-presas e presos políticos que ali estiveram internados. Nesta ocasião, entreguei carta em mãos ao Diretor do HCE solicitando o meu prontuário. Até hoje não obtive qualquer resposta. Neste testemunho, não deixo dúvida de haver conhecido por dentro o HCE na época em que lá estive. Portanto, não se pode pôr em dúvida que lá estive como preso político. Então, se o HCE se recusa a fornecer meu prontuário, está violando conscientemente um direito meu como cidadão.
- No HCE fui colocado num quarto-cela no pavilhão chamado de 13a Enfermaria, onde fiquei em torno de 20 dias totalmente incomunicável, sem ninguém que me examinasse nem falasse comigo. E o servente que me trazia comida se recusava a trocar palavras comigo.
- No fim deste tempo, fui transferido para uma enfermaria ampla e aberta, com cerca de 20 camas. Ela ficava no fundo à esquerda do corredor, e defronte dela havia outra enfermaria de mesmas proporções, para militares presos. Como algumas pessoas passaram por lá que não eram presas políticas, percebi que essa enfermaria abrigava presos políticos e presos comuns civis. Todos os que ali conheci haviam sido vítimas de sevícias pelos órgãos da repressão governamental.
- Nomes
- Raimundo Nonato dos Santos – contou que foi torturado pelo I Batalhão da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca, Rio de Janeiro. Estava com as pernas imobilizadas e sofria descontinuamente descargas nervosas espontâneas nas duas pernas. Depois de um mês foi levado de volta à PE. Contou que fora acusado de tentativa de roubo de automóvel.
- José Carlos Tortima, preso político – contou que, por ser membro do PCBR, sofrera violentas torturas no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita durante 9 dias, em fevereiro e março de 1970, fora hospitalizado em estado grave, voltara à PE e estivera preso sete meses na Ilha Grande. Foi trazido ao HCE para tratamento psiquiátrico.
- João Pedro Francisco – contou que sofrera choques violentíssimos nas mãos e tornozelos, que ficaram incinerados. Depois fora pendurado num pau-de-arara enferrujado, que provocara infecção das feridas. Os ossos e tendões de uma das mãos e um dos tornozelos estavam à mostra e João estava sendo submetido a operações plásticas de enxerto.
- Senildo da Silva – contou que estivera na Delegacia de Roubos e Furtos, no DOPS e na PE. Fora torturado com choques e muitas pancadas, que lhe quebraram o fêmur direito em dois lugares e a tíbia direita. Foi transportado para o Hospital Souza Aguiar e depois para o HCE. Os policiais diziam que ele tentara pular do terceiro andar de um prédio para fugir e quebrara a perna. Senildo disse que a própria Polícia quebrara sua perna com pontapés, em meio a sessões de tortura.
- Estrella Dalva Bohadana Bursztyn, arquiteta de 19 anos de idade – contou que fora trancada num quarto escuro durante seis dias no 1o. Batalhão de Infantaria Blindada de Barra Mansa, e depois transferida para o DOI-CODI da rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde foi violentamente torturada com chutes na barriga (quando disse que estava grávida), choques e pancadas. Estrella foi levada para o HCE em péssimo estado, com hemorragia interna e as pernas paralisadas. Contou-me que sofreu aborto, devido às sevícias que sofreu. Ficou em torno de um mês no HCE, entre novembro e dezembro de 1970, e pude comunicar-me com ela graças à ajuda solidária do servente Sr. Valter. Ele e o Sargento-enfermeiro Argolo mostraram total solidariedade para com as presas e presos políticos durante todo o tempo em que estive no HCE. Estrella recebeu alta pelo diretor da enfermaria, Major Dr. Wilson Boia, e foi levada de novo para o DOI-CODI e de lá para o 1o BIB de Barra Mansa, onde voltou a ser torturada brutalmente sofrendo, entre outros danos, fratura de duas costelas.
- Através da Estrella fiquei sabendo da presença de outra presa política, de nome Irony Bezerra, que estava em estado de gravidez avançada. Por isso, não tinha condição de suspender-se até a janela gradeada para participar, durante as noites, das conversas minhas com Estrella. Ela estava na cela ao lado daquela em que Estrella estava presa.
- Os remédios que eu tomava diariamente incluíam pílulas anti-convulsivas (eu tive convulsões depois de horas de pau-de-arara com choques elétricos muito violentos, e elas retornavam de forma intermitente) e soníferos (creio que Valium), em dose que me deixava lerdo e semi-drogado. Nos últimos meses de prisão, eu fingia tomar o Valium e depois guardava as pílulas, ou as jogava na privada, para estar desperto para as conversas com Estrella. Durante esses meses fui tratado com fisioterapia diária, e tive visitas de um neurologista para examinar meu olho esquerdo, cuja pálpebra estava caída desde a tortura com choques elétricos.
- O quadro do pessoal do HCE, quando lá estive, incluía:
- o diretor General Galleno,
- o responsável pela segurança, Capitão Morais, que sempre tratou os membros de minha família com gentileza e humanidade,
- o Major Dr. Wilson Boia, dermatologista, que não dava praticamente nenhuma assistência aos pacientes, tratando-os como animais, aos berros e com ameaças;
- os dois Sargentos-enfermeiros, Argolo, solidário e prestativo com presas e presos, e outro do qual esqueço o nome;
- os dois serventes, Sr. Valter, sempre solidário e prestativo com presas e presos, e o outro, creio que de nome Wilson.
Minha homenagem ao Sargento-enfermeiro Argolo e ao Sr. Valter, pelo espírito solidário com que nos apoiaram naqueles tempos sombrios.
- Durante minha estada no HCE, passei a maior parte do tempo incomunicável, apesar de todos os esforços da minha família de me visitar, e mesmo do advogado, Técio Lins e Silva, que ela contratou de vir entrevistar-se comigo pessoalmente. Só o conheci depois que fui libertado, em 1.2.1970. Expresso aqui minha gratidão a cada membro da minha família e ao Técio, que trabalharam amorosamente pela minha libertação. Em especial à minha mãe, Lina Penna Sattamini, minha avó materna, Maria e minha madrinha Elza Sattamini de Britto Pereira, pelos esforços incansáveis em pressionar os militares pelo meu direito à liberdade.
- A função do HCE, assim como do Hospital Geral do Exército em São Paulo, onde eu já estivera preso entre 12.5.1970 e 21.8.1970, era “recauchutar” presas e presos políticos que haviam sido torturados, para que pudessem retornar aos centros de tortura para mais interrogatórios e novas sevícias. Portanto, os hospitais militares cumpriam a função de elos da cadeia produtiva das torturas e dos assassinatos. Os médicos que realizaram esta função traíram seu juramento ético-profissional, denegrindo assim suas instituições e as Forças Armadas.
- Daquele período de cinco meses e 10 dias que passei de prisão no Rio de Janeiro, apenas três dias não foram no HCE, mas sim no Doi-Codi da rua Barão de Mesquita. Dias de inferno, entre 23 e 25.12.1970, pois fiquei trancado numa cela, situada num corredor em que havia várias celas com outros presos. Dia e noite vinham os soldados, apelidados de ‘Catarinas’, levar um preso para a tortura. Os gritos dos torturados ecoavam por todo o prédio, inclusive durante toda a noite de Natal, levando-nos a um sentimento de compaixão e impotência, e de terror diante da possibilidade de servos o próximo a ser levado para a tortura. Os soldados depois traziam o preso de volta apoiado neles ou arrastado pelo chão. Por falta de medicamento, voltei a ter convulsão e fui levado de volta para o HCE. Só fui libertado em 1.2.1971.
- PROPOSTAS
- Expresso aqui minha gratidão aos membros das Comissões Nacional e Estadual da Verdade, e sugiro que seja criada uma instância governamental permanente, ligada à Secretaria Nacional de Direitos Humanos, para dar continuidade às investigações sobre o HCE em particular, e sobre os Hospitais das Forças Armadas que serviram à repressão durante das décadas da ditadura empresarial-militar.
- Desejo também expressar minha gratidão às psicólogas e psicólogos do Projeto Clínicas do Testemunho, que têm acolhido com espírito de pesquisa, competência e carinho, vítimas das torturas do tempo da ditadura empresarial-militar e suas famílias. Este Projeto tem colaborado ativamente com os trabalhos das Comissões Nacional e Estaduais da Verdade, em particular a CEV-RJ. Defendo que o Governo Federal transforme as Clínicas do Testemunho em projeto de governo, com mandato para realizarem sua missão sem horizonte temporal e contando com recursos suficientes para isto.
Na realidade
Vivemos hoje
Os sonhos
Que sonhamos ontem.
E, vivendo
Estes sonhos,
Sonhamos outra vez.
MARCOS PENNA SATTAMINI DE ARRUDA