<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"><channel><title>noticias RSS de Marcelo Inácio de Sousa</title><link>http://cirandas.org/marceloinacio</link><description>contenido publicado en Marcelo Inácio de Sousa de CIRANDAS</description><item><title>Bauman: explosões de solidariedade são potentes e breves</title><description>&lt;p&gt;Em janeiro deste ano, o jornal El País publicou uma entrevista curta com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, tratando de alguns temas bem relacionados ao momento brasileiro, se olharmos as coisas em perspectiva. Quem fez a entrevista foi o editor-chefe, Ricardo de Querol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na opinião de Querol, sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. Para mim, a fala do Bauman desenha a beira de um precipício - o precipício global. Você pode ler o que ele falou para o El País e tirar suas próprias conclusões:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="float: left; margin-right: 15px;" src="/articles/0032/6342/Bauman.jpg" alt=""&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde que colocou, em 1999, sua ideia da "modernidade líquida" – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que "nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso" –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O polonês (nascido em Poznan, em 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em "&lt;a href="http://www.zahar.com.br/livro/riqueza-de-poucos-beneficia-todos-nos" target="_blank"&gt;A riqueza de poucos beneficia todos nós?&lt;/a&gt;", explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a "trintena opulenta" que veio em seguida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em "Cegueira Moral", escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, "Estado de Crise", um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Pergunta: Você vê a desigualdade como uma "metástase". A democracia está em perigo?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Resposta:&lt;/strong&gt; O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o &lt;span style="background-color: #ffff00;"&gt;colapso da confiança&lt;/span&gt;. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;"&gt;"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao &lt;em&gt;precariat&lt;/em&gt;. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade"&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de &lt;em&gt;precariat&lt;/em&gt; (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... &lt;span style="background-color: #ffff00;"&gt;O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade.&lt;/span&gt; Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o &lt;a href="http://www.movimiento15m.org/" target="_blank"&gt;15-M&lt;/a&gt;), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. Você sustenta que o movimento dos indignados "sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido".&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma &lt;span style="background-color: #ffff00;"&gt;explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves&lt;/span&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. E você também lamenta que, por sua natureza "arco íris", o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;"&gt;&lt;strong&gt;"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; A mudança de um partido por outro não vai resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. &lt;span style="background-color: #ffff00;"&gt;A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea&lt;/span&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse "ativismo de sofá" e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;R.&lt;/strong&gt; A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. &lt;span style="background-color: #ffff00;"&gt;As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia…&lt;/span&gt; Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;[+] INFORMAÇÕES:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar. 192 págs., R$ 39,90.&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Foto: SAMUEL SÁNCHEZ&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;</description><pubDate>Mon, 02 May 2016 21:26:05 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/marceloinacio/solidariedade-outra-politica/bauman-explosoes-de-solidariedade-sao-potentes-e-breves</link><guid>http://cirandas.org/marceloinacio/solidariedade-outra-politica/bauman-explosoes-de-solidariedade-sao-potentes-e-breves</guid></item><item><title>Solidariedade: trampolim para outro mundo possível</title><description>&lt;p&gt;Este texto é uma entrevista feita por Sergio Ferrari com Franco Cavalli, oncologista suíço de fama internacional, ex-presidente da União Internacional contra o Câncer (UICC), ex-deputado nacional socialista e proeminente militante associativo e do movimento de solidariedade. Na entrevista, ele recorda que fundou a Ajuda Médica para a América Central (AMCA), em 1985, como resposta a um pedido de colegas nicaraguenses. O mais importante é "que seguimos existindo e ampliando nossas atividades. Com a confiança total de que outro mundo é possível". Cavalli afirma que "a vida política e a solidariedade não são, para mim, simples trâmites administrativos. São expressões de ternura, de sentimentos firmes, de amor, de compromisso militante". Confira a entrevista:&lt;/p&gt;
&lt;pre&gt;[+] Texto de Sergio Ferrari, colaborador de Adital na Suiça. Colaboração: E-CHANGER&lt;/pre&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Qual foi a razão que impulsionou o nascimento da AMCA há justamente 30 anos, em 1985?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Franco Cavalli -&lt;/strong&gt; Viajei para a Nicarágua, na Semana Santa de 1985. Alguns médicos me contataram e me solicitaram apoio. Era um momento muito difícil porque havia se intensificado a guerra contrarrevolucionária contra o governo Sandinista. E este deveria destinar grande parte dos seus recursos para a defesa. Portanto, o setor médico-sanitário-preventivo, que constituía um dos eixos programáticos do Sandinismo desde a vitória popular de 19 de julho de 1979, vinha se debilitando. Senti-me profundamente interpelado por essa solicitação dos meus colegas "nicas”. E daí nasceu a decisão de criar nossa organização de solidariedad. Por uma viagem "casual”, motivada pelo amor e respondendo também com muito amor a uma demanda de apoio de parte dos nossos parceiros centro-americanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="http://www.adital.com.br/arquivos2/2015_07_entrevista_solidariedade1_sergio-ferrari.jpg" alt="Franco Cavalli, fundador da AMCA, em atuação, visita projeto infantil na Nicarágua" width="450" height="321"&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;SOLIDARIEDADE COM VISÃO POLÍTICA&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Era um momento muito complexo da conjuntura centro-americana… O Sandinismo, apenas seis anos depois de conquistar o poder na Nicarágua, sofria uma devastadora guerra de agressão. Ao mesmo tempo, guerras de libertação nos vizinhos El Salvador e Guatemala. A criação da AMCA esteve imersa em uma clara identificação política…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Sem dúvida. No início, ligada a uma visão reduzida no setor puramente médico. Mas foi se ampliando a partir de outros estímulos da própria realidade. Por exemplo, o contato regular, intenso, com refugiados salvadorenhos, que viviam na Nicarágua. E, em menor medida, com companheiros guatemaltecos. Percebemos, então, como muito importante a solidariedade com um Estado, o nicaraguense, ameaçado e agredido pela principal força mundial. E ao mesmo tempo a solidariedade com os combatentes da guerra de guerrilhas de libertação, que se expandia na região. Importante nessa etapa, e não quero menosprezá-lo, o contato na Nicaragua com numerosos médicos cubanos, que chegaram também como internacionalistas. Foi um elemento promotor da posterior solidariedade com Cuba, que impulsionamos a partir de 1991, com a fundação da mediCuba, na Suíça. Quando nascemos como AMCA, nos estatutos estava claramente definido que somos uma organização não governamental, que tem como tarefa apoiar as forças progressistas centro-americanas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Incluindo também uma ativa militância política no Norte…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Certamente. Em havia me envolvido antes na solidariedade com o povo vietnamita, colaborando com a Central Sanitária Suíça. E militava também na política suíça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;"A PRÁTICA PARA CORROBORAR A MUDANÇA"&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Por que o compromisso político na Suíça, no Norte, e a promoção de uma consciência/prática solidária com o Sul constituíram para você valores essenciais?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Como homem político, tenho um grande interesse pela discussão teórica. Leio e discuto muito sobre Sociologia, Política, Economia. Mas sempre tenho a necessidade de fazer coisas práticas. Não me preenche apenas a teoria. E, nesse sentido, minha postura antiimperialista, que provinha da época das guerras de libertação da Argélia e do Vietnã, não só se contentava com o protesto de rua. Mas necessitava de uma prática propositiva, direta, de aproximação e apoio. E isso se expressa com o trabalho da AMCA e da mediCuba.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Fundado na necessidade de vivenciar, na prática, o sentido profundo da mudança tanto no Sul como no entorno local, regional, nacional…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Penso que sim… Necessito corroborar a mudança. E, para mim, nada do que ocorre em outros lugares do mundo me é indiferente. Sinto-me co-responsável por uma cidadania planetária, como ator político e como cidadão suíço. Não podemos esquecer que é um país que tem uma responsabilidads grande na conjuntura internacional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O que implica ter uma visão clara da necessidade de novas relações interplanetárias mais justas?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Sim, mas esclarecendo que não estou de acordo com os que fazem grandes discursos sobre o global e não veem nem assumem os desafios de transformar também o local. Para mim, é uma ida e uma volta. Exige uma flexibilidade dialética. Por exemplo, voltando à reflexão anterior sobre os políticos suíços que desestimam essa visão de solidariedade, sinto que nessa atitude é possível pecar por oportunismo e reduzir o conceito do político a algo estreito e reduzido. Especialmente, porque se falamos da Suíça nos referimos a um país absolutamente pequeno e algo "artificial", no qual a metade da sua classe trabalhadora – estrangeira – não tem direito a voto. Sumamente atípico em sua composição social, com uma economia fundamentalmente de serviço (bancos, finanças etc.), mas com um poder real no plano internacional. Ninguém pode argumentar que a Suíça não tem nada a ver com o que acontece no resto do mundo. Integra o clube dos poderosos, que têm uma responsabilidads direta pelo subdesenvolvimento e a pobreza de uma grande parte do planeta. Não podemos negar, por exemplo, a responsabilidade significativa de muitas das grandes transnacionais helvéticas na violação de direitos humanos e ambientais na África, Ásia e América Latina. Portanto, não posso me imaginar como um verdadeiro militante progressista suíço que não tenha um compromisso também com a cooperação solidária ou com a solidariedade internacional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;"A SOLIDARIEDADE IMPLICA SENTIMENTOS, PAIXÃO"&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Voltemos à prática da AMCA e à plataforma de base de sua ação: a solidariedade. Um dirigente sandinista a definia como "a ternura entre os povos". É conceito que te interpela?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;img style="float: right; margin-left: 20px;" src="http://www.adital.com.br/arquivos2/2015_07_entrevista_solidariedade2_reproducao.jpg" alt="Hospital em Manágua, capital nicaragüense, apoiado pela AMCA" width="300" height="200"&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Claro, é uma definição magnífica, que continua tendo uma vigência total. E a sinto profundamente: para mim, não é suficiente gritar contra o imperialismo ou assumir bandeiras demasiado intelectuais. Para viver realmente a solidariedade internacional, é necessário um conteúdo sentimental, de amor. Saber que uma criança morre de fome na América Central ou na África, ou onde quer que seja, me parte o coração. Não posso aceitar isso. Voltando à definição – sempre é complexo definir, com simplicidade, os grandes conceitos existenciais –, não quero ficar somente no aspecto da "ternura". Poderá ser reduzido a um simples discurso cristão. E a solidariedade de esquerda, progressista, precisa basear-se em uma análise política; tem que ter apostas e princípios políticos. Porém, insisto, dialeticamente, não se pode reduzir ao político-conceitual. Solidariedade implica envolver-se com ternura, com sentimento, com paixão, com os que mais sofrem. E daí a importância que voluntários, cooperantes, jovens suíços, possam partir para a América Central e outras regiões. Lá, no terreno, na cotidianidade, é muito mais fácil observar e compreender a exploração e a injustiça do que com complexos enunciados teóricos. E, ao mesmo tempo, lá são claramente visíveis a luta e o trabalho cotidiano dos povos para enfrentar essas injustiças.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Um laboratório prático para ganhar em consciência cidadã…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; De fato. Mas não apenas trata-se de compreender a realidade passivamente. Mas também descobrir os esforços para mudar as coisas. Essas populações são a ponta de um diamante de resistências e utopias em favor de outro mundo possível. Mas atenção: não cometamos o erro de pretender ver nessas lutas o modelo a copiar universalmente. Não podem ser imitados. Constituem uma trincheira importante, mas, em cada lugar, em cada rincão do mundo, deve se renovar criativamente a melhor forma de enfrentar, aquí e agora, a injustiça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O PARADIGMA DE CHE&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Falando da América Central, me permito um parêntese… Nos anos oitenta, foram numerosos os europeus, latino-americanos, norte-americanos, internacionalistas, que foram colaborar com os processos dessa região. E vários pagaram, inclusive, com seu próprio sangue esse compromisso.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Agradeço-lhe por introduzir essa reflexão. Para mim, uma das figuras paradigmáticas mais importantes da história, um dos meus heróis, é Che Guevara. E estou convencido de que os companheiros que morreram como internacionalistas são pequenos Che. Gente que foi até o fim. Mais além do seu sacrifício é impossível. Tenho-os muito presentes. Não minto se te digo que pelo menos uma vez por mês penso neles, por exemplo, em Maurice Demierre, já que estava lá, em fevereiro de 1986, quando o assassinou a contrarrevolução, perto de Somotillo. É essencial que os tenhamos sempre muito perto dos nossos corações. Reforça nossa entrega infinita em favor dos pobres. Fortalece o sentimento, o amor do nosso compromisso…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;COOPERAÇÃO SOLIDÁRIA, UMA APRENDIZAGEM MÚTUA&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Voltando ao trabalho da AMCA, se fosse fazer uma análise retrospectiva destas três décadas, qual foi a conquista essencial, de fundo, conceitualmente falando, mais além dos múltiplos projetos realizados exitosamente?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; A primeira conquista é que ainda existimos e com energias. É um êxito chegar aos 30 anos e, inclusive, continuar ampliando nossas atividades. Não são poucas as associações e instituições de solidariedade que duraram muito menos tempo do que nós. A chave desse grande êxito da nossa existência – sem menosprezar erros cometidos – é ter compreendido corretamente o tipo de relação com os nossos parceiros, com os nossos colegas centro-americanos. Não chegamos lá com a nossa "verdade helvética" (&lt;em&gt;nota: "confissões helvéticas" é o nome de dois documentos que expressam a crença comum de Igrejas Reformadas da Suíça&lt;/em&gt;), mas nos colocando no mesmo nível, horizontalmente, dos nossos colegas nicaraguenses, salvadorenhos, guatemaltecos ou mexicanos. Buscando juntos soluções para os problemas e também juntos as respostas para os desafios. Sem pretender transferir conhecimentos verticalmente, mas aprendendo mutuamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro elemento, também essencial para a nossa prática: não ter apostado em oferecer um apoio material, mas reforçar os recursos humanos locais. Tentamos sempre ajudar a desenvolver as potencialidades próprias, para que fosse assegurado que os projetos possam continuar ainda sem a nossa presença. Por exemplo, no setor da pediatria oncológica, na Nicarágua, não necessitam de nós, ou simplesmente, hoje, podemos aportar aspectos muito precisos e determinados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra chave de interpretação positiva da nossa prática é a maneira original de entender a relação com os Estados dos países nos quais estamos presentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;RESPONSABILIZAR O ESTADO, FORTALECER A SOCIEDADE CIVIL&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Poderia desenvolver mais essa reflexão...&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Ainda em épocas de governos neoliberais, tratamos sempre de envolver os representantes do Estado. Uma das minhas críticas a muitas das grandes e famosas organizações humanitárias que trabalham no terreno médico-sanitário é que chegam com tudo programado e resolvido. E implementam seus próprios projetos, instalam, inclusive, um hospital, e pensam que assim resolvem os problemas. As grandes instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, debilitam as estruturas públicas com suas receitas de ajuste neoliberal. E, paradoxalmente, às vezes, em paralelo, muitas ONG, ainda que bem intencionadas, impulsionam seus próprios projetos e infraestruturas, tirando a responsabilidade dos Estados. Estamos convencidos que mesmo com governos de direita é preciso inserir nossos projetos em uma política de responsabilidade do Estado. Por exemplo, na Nicarágua, a escolinha "Barrilete de Colores" nasceu como um projeto alternativo ao Estado neoliberal dos anos noventa. Mas, tão logo voltou o Sandinismo ao governo, a escolinha passou a integrar os planos estatais no setor educacional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Com frequência, as ONG internacionais expressam seu temor ante os riscos de medidas corruptas nos países onde estão presentes e por isso se distanciam dos Estados…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Claro que a nossa visão implica riscos. E, muitas vezes, exige mais tempo. É mais simples chegar com tudo já cozinhado, pensado, programado ao estilo suíço e instalá-lo. Pode ser, inclusive, no início, mais efetivo no curto prazo, ditanciar-se das discussões com os ministros da Saúde e outros funcionários. Mas estamos convencidos de que nossa perspectiva é mais eficaz no longo prazo e, sobretudo, mais duradoura. Conheço dezenas de exemplos de grandes hospitais em distintas partes do mundo construídos com recursos externos por ONG internacionais e que, agora, são puras ruínas. A sustentabilidade passa por envolver os governos e a sociedade civil. Às vezes, com um condimento mais forte de um sobre o outro. Mas sem perder de vista responsabilizar as políticas públicas, associando nossos projetos solidários. E aqui quero incluir o impacto histórico que tem para mim a solidariedade cubana. Os médicos e cooperantes cubanos aportam para melhorar as condições de vida das populações em distintos continentes. E nem sempre tratam-se de governos progressistas. Mas eles se mantêm com persistência em sua prática, em todo caso, desde que não os expulsem. O conceito de solidariedade de Cuba é exemplar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Durante estas três décadas, a existência da AMCA se deu em um cenário internacional de grandes mudanças políticas, que repercutiram na solidariedade internacional. Por exemplo, o impacto profundo da derrota do Sandinismo, em fevereiro de 1990 (pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim e o fim do Socialismo real), para todo o movimento de solidariedade, especialmente na Europa e América do Norte.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; A derrota do Sandinismo teve um efeito terrível. Necessitamos de muito tempo para reorientar nossa prática.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="http://www.adital.com.br/arquivos2/2015_07_entrevista_solidariedade3_reproducao.jpg" alt='Crianças nicaraguenses da escolinha "Barrilete de Colores”, projeto promovido pela AMCA em Manágua' width="500" height="333"&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A SOLIDARIEDADE COMO PLATAFORMA PARA OUTRO MUNDO POSSÍVEL&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Para completar essa reflexão mais conceitual, gostaria de saber como se situa, hoje, em 2015, a solidariedade internacional, segundo slogans ou bandeiras que definiram momentos históricos importantes para essa tal solidariedade. "A imaginação ao poder", do maio francês (fim dos anos 1960); "Pátria livre ou morrer" (da América Central dos setenta e oitenta); ou o "Outro mundo possível", do altermundialismo ligado ao Fórum Social Mundial, a partir de 2001, nutrido pela reflexão zapatista sobre as novas relações interplanetárias…&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; "A imaginação ao poder" responde a um momento histórico, mas tem um condimento muito individualista e quase pequeno burguês. "Pátria livre ou morrer" está ligado a uma conjuntura específica de uma dinâmica político-militar particular, como a nicaraguense dessa etapa histórica. Sem dúvida, me identifico claramente com a visão do "Outro mundo possível". É, hoje, a bandeira política mais importante. Penso que, inclusive, para a juventude, que deve ser o relevo essencial da nossa geração no exercício da solidariedade ativa. São esses jovens – e estamos vivendo isso na AMCA – com outras sensibilidades, outras experiências de compromisso, com novos códigos culturais, os quais percebem que a pobreza cresce no Sul. E que as desigualdades planetárias, com mecanismos globais de dominação, têm responsáveis claros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É muito importante conseguir facilitando para que esses jovens possam viver e aprender sobre as realidades do Sul. É como uma escola prática, como dizia antes. Um método quase 100% seguro de sensibilização e tomada de consciência cidadã… É mais fácil e impactante começar com uma viagem para a Nicarágua ou a América Central do que com um discurso conceitual retórico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Creio que a única possibilidade que a solidariedade internacional tem para sobreviver é oferecer aos jovens visões, opções de práticas concretas e não apenas discursos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Com vistas a 2035, nos 50 anos da AMCA (e algo mais de 90 anos de idade de Franco Cavalli), qual seria o sonho essencial com respeito aos objetivos da solidariedade?&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Cavalli -&lt;/strong&gt; Não sei. É uma aposta demasiado teórica. Uma resposta seria que espero muito que, em 2035, a AMCA não seja mais necessária, porque teremos chegado a outro mundo mais justo, onde a solidariedade como a conhecemos agora deixou de existir.&lt;/p&gt;
&lt;pre&gt;[+] Esta entrevista realizada por Sergio Ferrari – em uma versão mais ampla – faz parte do livro "AMCA y su gente” [AMCA e sua gente, em portugués], publicado na Suíça no marco da celebração dos 30 anos da associação de mesmo nome e apresentado, públicamente, em 30 de julho 2015 em uma actividad pública, em Ascona (Tesino).&lt;/pre&gt;
&lt;pre&gt;[+] A AMCA conta com o apoio da cooperação oficial suíça. Faz parte da plataforma UNITE de cooperação helvética através do intercâmbio de pessoas. E também da FOSIT, Federação da Suíça Italiana para a Cooperação. E tem relações firmes com numerosas organizações e redes, entre elas Medicuba, Médicos do Mundo, Suíça e E-CHANGER/COMUNDO.&lt;/pre&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Aug 2015 19:09:33 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/marceloinacio/solidariedade-outra-politica/solidariedade-trampolim-para-outro-mundo-possivel</link><guid>http://cirandas.org/marceloinacio/solidariedade-outra-politica/solidariedade-trampolim-para-outro-mundo-possivel</guid></item></channel></rss>