DF: Chá com Prosa debateu o bioma Cerrado e seus povos
October 1, 2012 0:00 - no comments yet | Es folgt noch niemand diesem Artikel.
Encerrando o mês de setembro, que dentre seus 30 dias possui o 15º dedicado ao bioma Cerrado, o IMS (Instituto Marista de Solidariedade) e o IMAS (Instituto Marista de Assistência Social) promoveram na última sexta-feira (28) uma edição do Chá com Prosa para debater “Convivência e Sustentabilidade no Cerrado”. Os convidados para complementar a iniciativa e contribuir com a discussão sobre o bioma foram a Dr. Mônica Nogueira, antropóloga docente da UnB e pesquisadora-associada da A Casa Verde, e Júlio César Sampaio, engenheiro florestal e especialista em Cerrado da WWF-Brasil.
Sampaio abriu as discussões da tarde apresentando a WWF-Brasil aos participantes e, também, o trabalho da organização para o Bioma Cerrado. Além disso, complementou sua apresentação com dados sobre a conservação dessa savana brasileira. O engenheiro florestal apontou dados dos últimos anos que ressaltam que 48% da vegetação do bioma já foi suprimida e que apenas 3% da área ainda existentes é protegida por áreas de conservação permanentes. “Nos 15 anos da WWF no Brasil já temos uma grande trajetória de projetos. Foi no Cerrado onde tivemos nossa primeira ação e, hoje, atuamos em diferentes pontos com trabalhos de conservação, estudos e conscientização sobre a importância do bioma”, afirmou Sampaio.
O especialista da WWF-Brasil apontou o avanço das divisas agrícolas como o principal inimigo do Cerrado e exemplificou modelos que podem ser adotados para aumentar a produtividade sem a necessidade de suprimir a vegetação nativa. “Há áreas no Cerrado, principalmente de pastagens, que a produtividade é muito baixa o que leva o proprietário a abrir novas áreas para dar conta de alimentar o gado, no caso da pecuária. A pergunta que fica é por que não aumentar a produtividade dessas áreas se já existem tecnologias disponíveis? Muitas vezes esses avanços não chegam na ponta e tem que haver, também, uma mudança de mentalidade do produtor que sempre acha mais fácil desmatar do que investir na produtividade”, explicou.
Na sequência, Mônica Nogueira, apresentou aos participantes um perfil dos povos que compõe o Cerrado: indígenas e tradicionais que afirmaram suas identidades nesse bioma. Segundo Mônica, existe um sentimento de pertencimento desses povos com o Cerrado. “Há um sentimento de territorialidade que os torna, quase que naturalmente, aliados da conservação. Talvez não a conservação ambiental nos termos mais laicos, mas um sentimento que os colocam em embates sérios em defesa de seu lugar”, disse.
“O cerrado está bem no coração do País e tem uma ocupação pré-histórica, que remonta há 11 mil anos. Há indícios de ocupação desde inscrições rupestres até silos subterrâneos usados para conservação e armazenamento de alimentos, além de ossadas humanas em alguns sítios arqueológicos. E os Jês sãos os primeiros descendentes desse homem primitivo, os primeiros a ocupar ordenadamente o Cerrado. Hoje, os povos indígenas que ocupam o bioma são descendentes dos Jês que são os Xavantes, os Xakriabás e os Krahôs, por exemplo”, explicou Mônica.
De acordo com a pesquisadora, histórias e lendas fizeram parte do aprendizado da construção cultural desses povos, dando atribuição de sentido ao ambiente natural no qual estão inseridos. “Esses grupos que compunham o Cerrado foram sendo empurrados para os limites. O mesmo ocorreu com outros grupos, chamados de tradicionais. A colonização trouxe para esse território outros povos que foram se instalando e dando origem ao que hoje chamamos de Tradicionais. Muitos desses povos foram trazidos pela migração forçada ou, então, por momentos econômicos como o ciclo do ouro que, após seu término, deixou homens e mulheres pobres que aqui foram se instalando. Todos esses se misturaram entre si, entre índios e foram estabelecendo áreas de convívio quase que autárquicas. E é nesse contexto que nascem os geraizeiros, morroquianos, retireiros, vazanteiros, por exemplo, e, mais recentemente e num contexto um pouco diferente, as quebradeiras de coco babaçu”.
Ainda de acordo com a pesquisadora, esses grupos são hoje, em geral, camponeses que estão adaptados à realidade ecológica do Cerrado e estabeleceram uma ordem de territorialidade e apego a essa paisagem, se afirmando e reforçando suas identidades como povos do cerrado. “Se verificarmos nos mapas trazidos pelo Júlio [WWF-Brasil] verificaremos que onde estão as áreas mais preservadas lá estarão as comunidades tradicionais”, finalizou Mônica.
Participaram do encontro outras organizações sociais parceiras do IMS e, também, empreendedores da Economia Solidária. Neste mês o tema do Chá com Prosa será “Protagonismo Infanto-Juvenil”.
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