Feminismo, elemento central na construção das alternativas à economia verde
June 17, 2012 0:00 - no comments yet
Compreender que o trabalho que as mulheres realizam é algo central na vida em sociedade e não apenas “ajuda”, “apoio” ou algo “complementar” é fundamental na construção de uma alternativa ao modelo de desenvolvimento capitalista, patriarcal y racista, expresso hoje na chamada economia verde. Esse foi um dos pontos de destaque durante a atividade “Feminismo, agroecologia e soberania alimentar: construindo um novo paradigma de sustentabilidade para a vida humana”, realizada no dia 16, em conjunto pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Via Campesina (VC), GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), mulheres da Coordenação Andina de Organizações Indígenas (CAOI), Contag, Rede de Economia Feminista (REF), Movimento de Trabalhadoras Rurais do Nordeste (MMTR-NE) e Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN).
A partir das análises e dos testemunhos das mulheres presentes, concluiu-se que o que estão chamando de economia verde é parte de uma história de mudanças que começaram a acontecer nos anos 1950 na agricultura e que a tornaram cada vez mais artificial. Esse pacote de mudanças, iniciado com a chamada “revolução verde”, se caracteriza pela expansão da monocultura, agroquímicos e, mais recentemente, pelas chamadas biotecnologias, com a produção de sementes artificiais, transgênicas, produzidas em laboratório e que rompem as fronteiras entre as espécies. E esse processo se acelerou ainda mais nos últimos 20 anos, depois da chamada Eco-92, resultando no aumento assustador do poder das grandes corporações e das formas de dominação da natureza.
Em todo o mundo as mulheres estão resistindo contra a mercantilização e a artificialização da vida. Nancy Iza, da CAOI, contou como as mulheres indígenas do Equador lutam pelo reconhecimento do seu saber tradicional, responsável pela manutenção e ampliação de um patrimônio de biodiversidade de espécies. Ao mesmo tempo, relatou como isso está desaparecendo com o avanço dos transgênicos e de como as mulheres do campo têm que lidar com novas doenças que resultam do uso de agrotóxicos e têm que ser tratadas com medicamentos industrializados, não naturais, ampliando ainda mais a dependência.
Rejane Medeiros, da MMM do Rio Grande do Norte, falou sobre a resistência das mais de 150 famílias contra um projeto de inundação da chapada de Apodi. Nessa área, há mais de 60 anos vem se desenvolvendo uma agricultura familiar baseada na agroecologia, no princípio da soberania alimentar e na convivência com o semi-árido. “O governo diz que o projeto é para erradicar a fome. Isso significaria fortalecer as experiências que já estão construídas aqui. Mas implementar esse projeto de irrigação significa aumentar a fome!”, conta Rejane. O mesmo projeto já implementado em parte do estado do Ceará resultou no aumento da pobreza e da exploração dos trabalhadores que perderam suas terras e tiveram que buscar trabalho nos latifúndios da região ou migrar para as cidades como trabalhadores precários. A unidade dos movimentos sociais da região e o apelo à solidariedade nacional e internacional foi fundamental para parar o projeto, que ainda ameaça a região.
Se no passado as populações indígenas, quilombolas e rurais não eram nem consideradas nos projetos, hoje é comum se falar de reconhecimento do saber tradicional. Porém, no campo da empresas isso está associado com a apropriação e a privatização desse saber e o controle dos territórios. Por meio de mecanismos como Redd, por exemplo, empresas privatizam áreas de florestas e indicam a organizações não-governamentais como responsáveis dessas áreas. E as populações que aí viveram tradicionalmente, extraindo algum recurso para construir casas e pequenos barcos, essas sim responsáveis por sua preservação, passam a ser tratadas como criminosas.
Adriana Mezadri, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), destacou outra falsa solução apresentada pela economia verde que são os combustíveis supostamente limpos, criados com base na agricultura de cana de açúcar e soja: “são monocultivos que utilizam muito petróleo, muito agrotóxico e muita água, destinados ao consumo externo”. O mesmo se aplica ao cultivo de eucalipto para a produção de papel que açambarca territórios por mais de 10 anos e mata todo o solo e a biodiversidade. “Ficamos somente com a desgraça, tanto social quanto ambiental, desse modelo” que, além do mais, cria dependência do agricultor. Adriana chamou a atenção para a necessidade de pensar em que medida as mulheres do campo realmente têm poder de decisão sobre o que e como produzir, especialmente na agricultura de larga extensão. “Nosso papel é reconhecido, mas precisamos avançar mais para que ultrapasse a idéia de que é apenas ajuda”.
As mulheres não estão passivas, são cada vez mais sujeitos políticos dessa história, mobilizam-se em grupos e movimentos de mulheres, constroem redes, participam dos enfrentamentos nas áreas que sofrem esses processos, negociam juntos a governos. O impacto do capitalismo verde é vivido, mas há reação de construção e alternativa ao mesmo tempo. Em todas as falas, foi reafirmada a importância da agroecologia e da possibilidade de alimentar o mundo com outro modelo de produção e consumo alimentar, diferente do modelo dominante, que resulta em impactos sociais e ambientais.
A economia verde não compensa
Miriam Nobre, da MMM, chamou atenção para duas grandes questões em debate na conferência oficial Rio+20: a categoria de economia verde como uma resposta à crise econômica e financeira e à situação de pobreza no mundo e a criação de mecanismos e institucionalidade nas ONU correspondentes a economia verde. O principio básico da economia verde é o de compensação, a idéia de que não precisa mudar o modelo de produção e consumo, de que uma empresa pode continuar produzindo mas de que ela pode compensar isso com alteração de alguma parte ou evitando que aconteça poluição em algum outro lugar. “Esse conceito não enfrenta a questão da desigualdade no mundo, fala de combater a pobreza mas não a situação de desigualdade. Isso não funciona mesmo, nos últimos anos houve um processo de aumento de eficiência das empresas, de diminuir a utilização de recursos e de energia para a produção mas com incentivo ao aumento da produção e do consumo, e, com isso, se aumentou a utilização de energia de recursos mas ainda mais por determinados setores da população e determinados setores do mundo”, explica Miriam. Um dilema real que existe é como ampliar o acesso de muitas populações a água potável, energia e alimento de qualidade ao mesmo tempo que conceber a natureza com direitos e não instrumentalizada, a serviço da humanidade. Os operadores dos capitais – bancos, empresas, governos associados – dizem que pra isso são necessárias grandes obras, tecnologias, mas o que acontece concretamente é a diminuição desse acesso. Um exemplo é o caso da água. “Nós mulheres somos responsabilizadas por buscar água e temos que caminhar vários quilômetros para isso para ter acesso. Na ONU, a solução apresentada para lidar com esse problema foi a de comprometer empresas, privatizando o serviço de acesso de água. Isso só fez aumentar o preço e quem não tinha dinheiro teve acesso a água impedido”. A resistência e a mobilização no mundo inteiro mostra, em particular em Cochabamba, na Bolívia, mostrou que é, sim, possível reverter os processos de privatização da natureza e da vida.
Plenária sobre energia expõe postura leviana de empresas extrativas
June 17, 2012 0:00 - no comments yet
Plenárias de convergência começam hoje (17) e vão até amanhã (18). Cinco temas centrais serão discutidos para embasar as Assembleias.
Novas alternativas para a geração de energia é assunto recorrente a ser debatido. Aqui na Cúpula não foi diferente: o assunto foi o tema principal na plenária “Energia e indústrias extrativas”, que aconteceu em dois turnos, pela manhã e à tarde. Representantes de organizações e de movimentos sociais da América Latina, América do Norte, Europa e da África expuseram brevemente seus pontos de vista, a fim de debater ideias e propor possíveis soluções.
É impossível falar de novas alternativas sem mencionar as indústrias que se apropriam do processo de extração e transformação da matéria-prima para a geração de energia. Muitas vezes, essas mesmas indústrias, com discursos em prol do desenvolvimento (sustentável), avançam em seus projetos, mas se esquecem de manter as necessidades básicas dos moradores das regiões onde se instalam, ou de cumprir com o papel ambiental que devem seguir.
Problemas estruturais e falsas soluções
Mas qual modelo de desenvolvimento sustentável é esse que não se preocupa com a maneira como a instalação destas empresas é feita? Durante a plenária, discutiu-se muito a questão dessas apropriações que alteram as vidas dos moradores da região, por vezes realocando-os para outros espaços menores e/ou mais distantes da comunidade de origem e do comércio da região. Sem falar, é claro, nos danos sérios ao meio ambiente, como a contaminação dos reservatórios de água, da destruição de biomas e da poluição.
Fabiano Maciça é de Moçambique e discursou na plenária. Ele e seus vizinhos vivem na pele os problemas estruturais causados por grandes empresas que se instalam em áreas onde já havia comunidades estabelecidas, com suas tradições e hábitos.
A Vale, um das maiores mineradoras do mundo, explora carvão e minério em Moçambique. De acordo com o relato de Fabiano, a empresa preocupa-se mais com as atividades exploratórias do que com a alteração na vida daqueles que moram próximo às áreas onde ela exerce suas atividades.
Fabiano conta que a Vale transporta carvão e minério numa distância de 600 km da sua base até o porto. ”Nós, que temos a tradição de comer do lado de fora das nossas casas, já não podemos mais. Além de o comboio passar dentro das nossas propriedades, ainda existe o problema da poluição”, desabafa.
Para o, pior que essa atitude invasiva por parte da empresa é a expropriação. Uma vez expropriados, as vidas dos moradores de uma região mudam completamente. “Nós somos transferidos para espaços muito menores do que a casa que construímos. Ninguém está contra o desenvolvimento. Desenvolvimento, sim. Mas desenvolvimento sustentável”, esclarece.
Mas o que conduz toda essa lógica de degradação? O modelo economico neoloberal e a voracidade do capitalismo, com sua lógica de produção e consumo — que, no fim das contas, o próprio sistema acaba justificando. Gilberto Cervinsky, do Movimento dos Militantes Atingidos por Barragens no Brasil, diz que o capital acelera e pressiona a lógica econômica por novas demandas tecnológicas. Essa lógica, por sua vez, ao invés de libertar, aumenta a exploração sobre os trabalhadores. O sistema econômico faz com que se produza cada vez mais para tornar obsoletas as mercadorias. Isso cria um círculo vicioso e “a energia é um dos polos centrais para essa apropriação”, explica.
Ainda de acordo com Gilberto, o desenvolvimento sustentável defendido na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) é sinônimo de “negócios com alta lucratividade e vida longa”. Tudo isso acabaria se traduzindo na ‘economia verde’, uma justificativa para a intensificação da apropriação da propriedade privada sobre as terras, as reservas minerais, as águas.
Afinal de contas, a “energia é para quê e para quem?”, provoca Gilberto. É preciso que haja a soberania energética para os povos, mas quem acaba por controlá-los são as corporações.
A real solução
Após a exposição dos problemas estruturais e de suas causas, a parte da tarde da Plenária foi dedicada às soluções que os povos propõe aos governos: energias renováveis. Mas, segundo os participantes do debate, é preciso questionar se essa energia sustentável é para todos, já que os bancos, as empresas energéticas, petrolíferas e outros representantes do capital apresentam propostas na Rio+20 oficial justamente sobre essa questão.
As Plenárias de Convergência seguem até amanhã (18). Ao todo são cinco, dedicadas a temas-chaves para a elaboração do documento final da Cúpula dos Povos, que será produzido durante as Assembleias dos Povos: Soberania Alimentar; Energia e indústrias extrativas; Defesa dos bens comuns contra a mercantilização; Direitos, por justiça social e ambiental; Trabalho: por outra economia e novos paradigmas.
Anatel tenta fechar a Rádio Cúpula
June 17, 2012 0:00 - no comments yetA Agência Nacional de Telecomunicações foi ao Aterro do Flamengo hoje (17) para tentar fechar a Rádio Cúpula, transmitida na frequência 90,7. Junto com a Polícia Militar, a Anatel pediu para tirar a antena da Rádio, mas um grupo de pessoas se reuniu em volta do espaço — em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM), nos Territórios do Futuro 1 — e tentou bloquear a entrada dos responsáveis pela ação do governo.
Até agora (17h30), a Anatel e a Polícia Militar estão conversando com representantes da Rádio sobre a situação. Acompanhe em tempo real o desenrolar do caso na Rádio Cúpula, pelo player abaixo.
Veja as fotos da resistência da Rádio Cúpula à tentativa da Anatel de parar a programação e tirar a antena:
Baixe os programas da Rádio Cúpula
June 17, 2012 0:00 - no comments yetA Rádio Cúpula está sendo transmitida ao vivo das 7h30 às 24h no player disponível na home deste site. Mas, se por acaso você não conseguiu ouvir, disponibilizamos aqui o áudio dos programas veiculados na rádio. Vamos atualizar esta página com frequência para apresentar, aos poucos, todos os programas em mp3. Aproveite!
E se você vier à Cúpula, faça uma visita à Rádio! Ela está nos Territórios do Futuro 1, em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM) e ao Vivo Rio. É só seguir o som!
Baixe e ouça os programas do dia 15 (sexta-feira):
Programa 1, 9:30, 25 min: Intro / Contacto Sur (Port./Esp.)
Programa 2, 10:00, 60 min: Convergencia de medios (Esp.)
Programa 3, 11:00, 40 min: Rede de Radios ARCO (Port.)
Programa 4, 12:30, 40 min: Radio Pop Goiaba (Port.)
Programa 5, 13:20, 40 min: Nas Ondas do Ambiente (Port.)
Programa 6, 14:00, 40 min: RadioTube no Ar (Port.)
Programa 7, 15:00, 50 min: Convergencia de medios (Esp.)
Programa 8, 16:00, 20 min: Entrevista Ambiental (Port.)
Programa 9, 16:20, 40 min: Sobre Econimia Verde (Esp.)
Programa 10, 17:00, 70 min: Planeta Lilás-Redes de Mulheres (Port.)
Programa 11, 18:10, 50 min: Planeta Lilás-Redes de Mulheres (Port.)
Programa 12, 19:00, 60 min: Pulsar Brasil (Port.)
Programa 13, 20:00, 50 min: Convergencia de medios (Esp.)
Programa 14, 21:00, 120 min: Muqueca de Siri-RadiosLivres (Port.)
Cúpula dos Povos e o G20: encontros opostos
June 17, 2012 0:00 - no comments yetNota à imprensa do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20
Não é pura coincidência que a Cúpula do G20 se realizará no México os dias 18 e 19 de Junho, dois dias antes da Rio+20. Ambas as cúpulas são certamente acontecimentos muito diferentes, sobretudo em termos de legitimidade, transparência e multilateralismo.
Quando o G20 anunciou que uma das cinco prioridades da agenda para a Cúpula deste ano era o que chamam de “crescimento verde”, começou a se desvelar a ameaça que agora aparentemente se consolida. A presença no México dos presidentes das maiores economias, muitos dos quais não virão ao Rio de Janeiro, complementa as notícias de que as principais decisões a serem adotadas na Rio+20 já chegarão em um pacote pronto e definido pela reunião do G20. Assim, a atual correlação de forças no mundo utilizará mais uma vez o caminho da imposição de sua lógica dominante.
Os movimentos sociais e organizações da sociedade civil, que realizamos neste momento a Cúpula dos Povos no Rio de Janeiro, repudiamos e denunciamos este acionar que reforça não só o sistema econômico que vem promovendo a mercantilização e financeirização da natureza, como que já sem nenhum pudor, impõe o sequestro das democracias do mundo.
As consequências da atitude antidemocrática, predatória e gananciosa dos governos dos países mais desenvolvidos a serviço dos interesses de suas corporações serão com certeza dramáticas para o futuro do planeta e sua população.
Ao contrario, a Cúpula dos Povos reafirma sua luta contra a mercantilização e privatização da Natureza, em favor da Justiça socioambiental, de uma governança global democrática e a defesa dos Bens comuns da Humanidade.



