<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"><channel><title>10 anos do FBES: Envolva-se para o Bem-Vivers RSS Feed</title><link>http://cirandas.org/envolvase</link><description>10 anos do FBES: Envolva-se para o Bem-Vivers Inhalte publiziert bei CIRANDAS</description><item><title>O Bem Viver, Tradição indígena</title><description>&lt;p&gt;Fonte: &lt;a href="http://www.servicioskoinonia.org/agenda/archivo/portugues/obra.php?ncodigo=372"&gt;http://www.servicioskoinonia.org/agenda/archivo/portugues/obra.php?ncodigo=372 &lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Tudo está interconectado, interrelacionado e é interdependente&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vamos partilhar aqui na nossa &lt;em&gt;pacha&lt;/em&gt;, tempo e espaço, todas as reflexões desta torrente de águas e pistas dos nossos avôs e avós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ensinamento dos avôs e avós não é apenas racional, tem o ímpeto e a força da vivência, a clareza da mente e do coração. Ante as novas condições da realidade a que nos levou a modernidade, o desenvolvimento, o humanismo, o antropocentrismo, a deterioração da nossa vida e a vida no seu conjunto, hoje emerge vigorosa, forte, translúcida, a voz dos povos indígenas originários.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Temos de ir para algo, para alguma parte. Em aymara dizemos &lt;em&gt;Taki&lt;/em&gt;, o caminho sagrado. Indubitavelmente aí aparece o &lt;em&gt;allin kausay&lt;/em&gt; (quechua), &lt;em&gt;sumak qamaña&lt;/em&gt; (aymara), &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt; (português). Esse horizonte permite-nos reconstituir a nossa força, a nossa vitalidade, saber quem somos, como vivemos, com que forças, e quem nos acompanha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Harmonia e equilíbrio&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Viver bem&lt;/em&gt; faz-nos refletir que devemos viver em harmonia e em equilíbrio. Em harmonia com a Mãe Terra. A &lt;em&gt;Pachamama&lt;/em&gt; não é um planeta, não é o meio ambiente... é a nossa Mãe Terra. Viver em harmonia com o cosmos, porque o cosmos também tem ciclos, ritmos; viver em harmonia com a história, saber que estamos em tempos do &lt;em&gt;Pachkuti&lt;/em&gt;, a época do reordenamento da vida, da revitalização das forças naturais ante a conduta antinatural do pensamento ocidental.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Viver Bem&lt;/em&gt; é viver em harmonia com os ciclos da vida, saber que tudo está interconectado, inter-relacionado e é interdependente; &lt;em&gt; viver bem&lt;/em&gt; é saber que a deterioração de uma espécie é a deterioração do conjunto. Pensamentos e sabedorias dos nossos avôs e avós que hoje nos dão a clareza do horizonte do nosso caminhar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O movimento indígena originário, no horizonte do &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt;, não somente procura reconstituir o poder político, social, jurídico ou econômico: essencialmente procura reconstituir a Vida, reencontrarmo-nos conosco mesmos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Somos Pachamama&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Somos filhos da Mãe Terra, somos filhos do cosmos, portanto não existe a dicotomia ser humano-natureza, somos natureza, somos &lt;em&gt; Pachamama&lt;/em&gt;, somos &lt;em&gt;Pachamac&lt;/em&gt;, somos vida. Portanto, somos responsáveis também como «agricultores da vida».&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nestas novas condições emergentes, &lt;em&gt;reconstituir a nossa identidade é voltar aos princípios básicos convencionais, não humanos, senão da vida, da natureza&lt;/em&gt;. Voltar à nossa sabedoria, aos nossos ancestrais, ao caminho sagrado. Não é retroceder, senão reconstituir-nos nos princípios e valores que não têm tempo, que não têm espaço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Viver em equilíbrio com quem? Com todas as formas de existência. «Tudo vive», dizemos em aymara: as montanhas, o rio, os insetos, as árvores, as pedras, tudo vive; portanto, é parte de um equilíbrio perfeito da vida. E nós, para reconstituir o &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt;, temos que viver em equilíbrio com todas as formas de existência e não somente com tudo o que vemos; inclusive com o que não vemos: os nossos avôs e avós, os nossos ancestrais, porque eles também estão conosco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Processo de naturalização&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sair desta visão monocultural, uninacional, sair do «monocultivo mental». Assim como o monocultivo deteriorou a Mãe Terra, a vitalidade e a fertilidade da mãe terra, temos de sair do monocultivo mental que também deteriorou a capacidade natural que cada um de nós temos. Estamos emergindo para estados plurinacionais, saindo do estado colonial, da república que somente nos mergulhou numa individualidade humanista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando falamos de &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt;, falamos de um processo de naturalização, e não somente de humanização, porque o processo de humanização que o Ocidente ergueu continua a ver o ser humano como «o rei da criação» e aos demais seres como objectos. Viver bem significa entrar nesse processo de naturalização, voltar à nossa natureza, saber que tudo vive e saber que tudo está interconectado e tudo é interdependente. Sair das premissas do Ocidente. O Ocidente diz «ganhar não é que seja tudo, é que é o único». E conduz-nos a uma concorrência desleal, desonesta entre humanos. Uma concorrência não somente com os humanos, senão com todo o tipo de existência. Viver bem significa compreender que se alguém ganha ou alguém perde, todos ganhamos ou perdemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Viver bem significa observar bem o horizonte, reconhecer que a vida humana não é o único parâmetro, nem a forma de entender através do racional a única. Em aymara dizemos: «sem perder a cabeça, caminhemos a via sagrada do coração». É abrir-nos à vida, é compreender que a vida tem facetas importantes para reconstituir a própria vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Reconstituir a nossa identidade&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Estado que estamos a questionar – humanista, individualista, hierárquico, predador, homogenizador... - emerge de uma cosmovisão, e essa cosmovisão tem um carácter individual, machista e humanista. Portanto, para reconstituir a cultura da vida no horizonte do &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt;, temos que reconstituir a nossa cosmovisão e isso significa a nossa identidade. Significa fazermo-nos as perguntas fundamentais: quem somos realmente, que coração temos, quem foram os nossos avós e com que força puderam caminhar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este é um tempo de reordenamento da vida, &lt;em&gt;pachakuti&lt;/em&gt;, dizemos em aymara e quechua. Reordenamento não somente para alcançar o poder político, senão, essencialmente, para reconstituir a vida. Esse é a mensagem dos avôs e avós, e hoje repercute com mais força ante as condições adversas da humanidade nas que o modernismo e o capitalismo nos submergiram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Viver bem, não «melhor que»&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há que diferenciar &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt; do &lt;em&gt;viver melhor&lt;/em&gt;. Viver melhor significa ganhar à custa do outro, é acumular por acumular, é ter o poder pelo poder. Mas &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt; é devolver-nos o equilíbrio e a harmonia sagrada da vida. Tudo que vive se complementa, num &lt;em&gt;ayni&lt;/em&gt; que é uma consciência de vida; o&lt;em&gt; ayni&lt;/em&gt; é a consciência de que tudo está interrelacionado. A árvore não vive para si mesmo; o inseto, a abelha, a formiga, as montanhas, não vivem para si mesmos, senão em complementaridade, em reciprocidade permanente: a isso chamamos &lt;em&gt;ayni&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Tempo do Pachakuti&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A grande pergunta é: vivemos para quê? Porque desde a visão ocidental sofremos com o vírus que está deteriorando a própria vida no seu conjunto, sem saber que a deterioração de qualquer espécie, pequena ou grande, é a deterioração de todos nós e da própria vida. Hoje a nossa geração desperta à chamada de uma responsabilidade geracional: saber que nós não somos seres individuais, somos os olhos dos avós, somos a voz dos avós, portanto somos também a ação e a esperança dos avós. Também somos a semente de quem virá depois de nós, a semente que irá contribuir para que a cultura da vida se fortaleça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Diante das condições antinaturais, fortalecem-se e revitalizam-se as forças naturais: esse é o tempo no qual estamos vivendo. &lt;em&gt;Pachakuti&lt;/em&gt;: reordenamento da vida, um bom tempo. Nós temos um avô que se chama &lt;em&gt; Tata Avelino Siñani&lt;/em&gt;, que fez a escola &lt;em&gt;ayllu&lt;/em&gt;, mostrando a pedagogia e o sistema comunitário de educação. Ele dizia que o melhor tempo para ver é a obscuridade. Em aymara dizia: agora é a altura, não amanhã, e não ontem, agora. Portanto, toda esta sabedoria do viver bem, o nosso horizonte, caminho, força de &lt;em&gt;viver bem&lt;/em&gt;, nos está a mostrar a grandeza da vida dos nossos avôs e avós, hoje refletida na esperança da nossa geração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Viver bem é devolver-nos o equilíbrio e a harmonia, compreender que há ciclos da Mãe Terra. Portanto, há que semear e colher no seu tempo, e não fora dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sair do monocultivo que destruiu a nossa vida e a fertilidade da Mãe Terra. Sair do «monocultivo mental» que não nos permite ver tanta diversidade na vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Fernando Huanacuni&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Foro Público «El Buen Vivir de los Pueblos Indígenas Andinos»&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description><pubDate>Thu, 28 Feb 2013 17:13:06 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/envolvase/reflexoes-sobre-o-bem-viver/o-bem-viver-tradicao-indigena</link><guid>http://cirandas.org/envolvase/reflexoes-sobre-o-bem-viver/o-bem-viver-tradicao-indigena</guid></item></channel></rss>