Umbuzeiro: Sonata arbórea
May 5, 2016 2:33 - Pas de commentaire 
SONATA ARBÓREA NÚMERO 1
De Ordep Serra, para Emerson Sales e Débora Nunes
Sempre gostei de contemplar as grandes árvores. Tenho passado bons momentos sob sua sombra. Criei amizade com várias delas. Já dediquei um poema a uma paineira, que chamei de Maria Clara. Ela tem uma personalidade luminosa. Era muito jovem quando a conheci, muito tempo atrás. Ainda tem jeito de menina-moça, que há de ostentar por muitos anos. Sua juventude resiste ao tempo, faz-se inesgotável. A mais antiga paineira que conheço, viçosa há mais de um século, nada tem de velha. Brinca feito menina de espalhar sua paina, como se fossem os cabelos brancos a que renunciou para sempre. Já fazia isso na primeira adolescência. Maria Clara confirma, a brincadeira infantil dura séculos.
Mangueiras me encantam desde a infância. Em seus palácios barrocos vive a graça maternal, forte e acolhedora. A sombra que dão já é nutritiva. As de Salvador são mães de santo poderosas, de seios fartos. Seus frutos instruem o coração. A manga espada corta os dissabores. A manga rosa ensina o rumo dos jardins, esconde na sua polpa uma leira de delícias. A bela carlota provoca doces arrepios, convida aos beijos.
Muitas árvores se enraizaram profundamente na minha memória graças ao esplendor da revelação com que sua beleza me abençoou em diferentes momentos da vida. No horto de minhas lembranças, algumas se destacam por sua atitude impecável. De muitas recordo o gesto solene, glorioso, capaz de dar sentido a uma paisagem, que sem sua dança divina, quase imóvel, simplesmente desaparece.
Conheço árvores com vários temperamentos: carinhosas, enérgicas, sisudas, joviais. Não poucas me conquistaram por seu jeito cordial, sua natureza amável. Outras me seduzem por seu estilo caprichoso, ou me conquistam por seus modos sérios de matrona, sua perfeita dignidade. Algumas combinam modos graves e sentimento jocoso.
Guardo a emoção que senti, ainda criança, ao ver pela primeira vez um bode trepado num umbuzeiro, saboreando as frutas verdes. Me fez a impressão de um sacerdote num rito solene, mas engraçado. Não esqueço a beleza da cena bizarra.
Umbuzeiros são muito espirituosos. Venero esses risonhos anjos do sertão, que brindam com humor seus frutos ácidos. No mundo árido, eles fazem par com os juazeiros, que têm a mesma alegria impossível, desafiadora. (As cabras também os adoram). Respeito muito as gameleiras, com seu ar solene, de profundo mistério, e as graciosas baraúnas. A sabedoria das jaqueiras me impressiona profundamente. As árvores de fruta-pão têm um jeito carinhoso de babás, prontas a nutrir. Os sapotizeiros também, só que acordam mais cedo.
O cajueiro é de circo. Pode embriagar muito mais que a cachaça das batidas. Inúmeros bêbados já tentaram explicar-se, depois de estranhos desvarios, balbuciando inutilmente: “Foi o caju”.
Nada mais bonito que os ipês com suas roupas de baile. Gosto das buganvílias coquetes, das acácias sedutoras, do jacarandá luminoso com seu roxo amor ao espetáculo e sua mística. A quaresmeira, apesar do nome, está sempre disposta a um carnaval. Lembra a esquisita alegria da semana santa baiana. As sucupiras são atrizes, sempre dignas de aplausos. Aprecio muito seu penteado.
A caviúna do cerrado tem jeito de mulher rendeira. Quando se enflora, dana-se a cantar. Nem todos a ouvem, mas sua cantiga é muito bonita. A bela Ingarana é uma soprano lírica, mestra de muitos pássaros.
Todos se alegram quando a cajazeira acende suas lâmpadas. Ela adora festas. Árvore perdulária, joga com alegria seus frutos luminosos ao chão, com a graça incontrolável de quem dissipa fortunas.
A imponência do jequitibá e das grandes castanheiras, a serena força do mogno e a majestade do pau ferro me impressionam profundamente. Esses gigantes da floresta se acham entre os mais belos dos arcanjos pousados na Mãe Terra. Já o cedro, seja do Líbano ou do Brasil, é com certeza um serafim.
É preciso ter coração muito duro para não se comover com as lágrimas douradas de um salgueiro em flor. Seu pranto verde também contempla as dores do mundo, vale por muitas elegias. Quando encontro um desses beatos no meu caminho, rezo logo: ora pro nobis.
Os ciprestres italianos me encantam por sua graça esguia, tão elegante que até nos cemitérios fazem pensar em Vênus e seus caprichos. Gostei de vê-los em Roma, onde não tinham cara de enterro. Em pleno dia, apontavam às estrelas. Mas nos jardins de gente esnobe eles me parecem constrangidos, assumem um jeito realmente fúnebre. Sinto que não gostam de ser tratados como lacaios.
Seria longa a ladainha se eu fosse falar das belas senhoras verdes que conheci nos remanescentes da nossa mata atlântica (hoje brutalmente mutilada), paraíso de uma incurável saudade. Quanto às soberanas amazônicas, tenho sua imagem comigo, mas de quase todas ignoro os nomes: minhas poucas incursões na grande hiléia e meu despreparo botânico me condenaram a amar deusas anônimas. Em todo o caso, boas lembranças me ficaram. Guardo com fervor, entre outros encantos, o que aprendi no Xingu sobre o mistério dos pequizeiros eróticos, com sua deliciosa armadilha. Hoje associo o fruto malicioso às coisas boas da vida, ao perigo sempre desejado, ao insuspeito charme do Deus Jacaré. Graças aos sábios xinguanos, ainda sonho, também, com a grande árvore que guardava no seu tronco todas as águas do mundo. Acho difícil me convencer de que ela não existe.
Admiro as árvores do mangue, que debruçam com doce volúpia sobre águas fecundas. São muito generosas essas pastoras de caranguejos.
Me detenho aqui, a muito custo, porque são muitos os meus amores vegetais: não cabem numa crônica. Justifico meu desvario: ele vem de longos tempos e deriva de graças inesquecíveis.
Quem nunca se apaixonou por uma árvore não conhece ainda o amor. Homem sem essa experiência não está preparado para o encanto das belas mulheres. Não desfrutará como se deve o corpo subitamente selvagem que lhe pede para enraizar-se; não sentirá o frêmito de invisíveis folhas num vendaval delicioso, nem sentirá em lábios sequiosos o sabor de inúmeras frutas. Não está pronto para as melhores dádivas.
Se você acha que sou maluco, está quase certo. Esclareço: minha loucura nada tem de perverso, é alegre e pacífica. Repudio solenemente a má louquice, avara e destrutiva, que mata e desmata. Logo, sou bomluco. Descendo de bugres místicos e de portugueses sonhadores, porém os antepassados mais próximos de meu coração, confesso logo: são negros da Costa, adoradores de árvores, com quem ainda falo em meus delírios. São eles que me me fazem compor sonatas arbóreas.
Collor and Dilma: the impoverishment of politics in Brazil
April 20, 2016 17:04 - Pas de commentaire
I belong to the generation that built the end of the military dictatorship, which took place in 1984. We campaigned in favor of the amnesty for political prisoners and exiles militants and in favor of direct elections for the president (Diretas Já!). My generation also went to the streets in search for ethics in politics and for the impeachment of the corrupted playboy president of that time, Fernando Collor, who finally resigned in 1992.
For this reason, I couldn´t help from being sadly moved by the scenes I viewed at the television a few days ago, on April 17, 2016. The show that was performed -when the Parliament voted in favor of the impeachment process to President Dilma Roussef- illustrates the politics poverty that we are living in Brazil. Everything is not over for her yet, because the Federal Senate still has to vote for the prosecution to start.
Instead of assisting, like in 1992, to a campaign led by social movements – that had won against the dictatorship – and to honorable people leading the impeachment process in the Parliament, I saw the cynically ill face of Eduardo Cunha, the portrait of a Mafioso politician presiding the court. Instead of hearing deputies´ moving speaks, honoring their lives dedicated to the country, I heard angry and/or fascist’s assumptions, side by side with childish declarations like “kisses to daddy and mom who are watching me”. Those deputies, who were authentically thinking that they were defending the country against corruption, may have felt embarrassed in company of such people.
Instead of seeing, like in 1984 and 1992, a united population in defense of its country, enthusiastic with regards to the ongoing democratic progress, I saw part of the Brazilian society cruelly divided, manipulated by political parties and by media that impose their one-sided point of view, instead of providing information. This day will be unforgettable because the degradation of the democratic practice became evident, transformed in a spectacle with no respect to the Constitution.
Everybody knows that the prosecution doesn’t bring any charges against President Roussef for corruption, but only for budgetary mismanagement of the federal budget, which has already been practiced by others presidents. But almost no deputy cited this issue in his/her vote, as if the trial was another. Indeed, it was another, which makes this vote unconstitutional.
The cure could be worse than the disease. If the impeachment goes on and we have the misfortune of getting vice president Temer and the corrupted PMDB ruling the country, things can get worse in terms of political unsustainability. The Supreme Court may also revoke Temer and then the president would be Eduardo Cunha (argh!). If then we have luck and the House impeaches Cunha, the position will be for Renan Calheiros (who is also persecuted for corruption)! And if the Senate also impeaches Calheiros, Gilmar Mendes would in turn replace him. Mendes is the one who defended Collor in 1992, he is the judge of hate, not the one of temperance! We have hideous prospects ahead. Only one alternative remains to be wished: stay Dilma, stay! The PT and her government seriously screwed up, associated with bad people and misbehaved, but her biography is a thousand times more decent than these gentlemen´s ones.
How to find hope in the midst of so much sadness? Exactly in the fact that party politics are so degraded that civil society is in a process of inventing, to create new political models. In Brazil, and in the world, horizontal models are being born. They provide social control at all stages of political processes, they separate political and economic power, they keep careerism apart, have great local roots, favor interpersonal trust as well as collective responsibility. Innovations always begin in an invisible way. The Brazilian population wishes ethical politics - and this demand is from the entire, united, society - and does not want the same anymore. It should evolve in search of a deep political reform.
The hope also comes from the fact that the millions of people who built the Brazilian democracy are vigilant. Many of them evolved in their political practices for more co-responsibility and want to see this evolution in Brazil. We have already made profound changes in the country and we will continue to do so, this time it will be with our children´s, the new generation, support. These, who share horizontal networks and need not to lie at home, do not tolerate the policy that is going on and require consistency between what is said and what is done. The future is theirs and we will help them build it, without allowing any setback.
Collor et Dilma: l'appauvrissement de la politique au Brésil
April 19, 2016 20:31 - Pas de commentaire
Je suis de la génération qui a construit la fin de la dictature militaire, avec la campagne pour l´Amnistie des prisonniers et exilés politiques et pour des élections presidentielles directes (Diretas Já) dans les annés 1970 et 1980. Ensuite, cette génération es t descendue dans la rue à la recherche d'éthique dans la politique, demandant la destitution du président, playboy corrompu, Fernando Collor. Par conséquent, je ne pouvais pas ne pas m´emouvoir devant le spectacle de la pauvreté politique que j´ai vu à la télévision ce 17 avril, bien que le résultat ne soit pas définitif (car il y a encore le vote au Sénat). Ce triste spectacle illustre le moment politique que nous vivons.
En 1992, lors du impeachement de Collor, nous avons eu une campagne dans les rues menée par les mouvements sociaux, les mêmes qui avaient renversé la dictature, et des gens honorables au parlement qui dirigeaient le processus pro-impeachment. Maintenant, je n´ai vu que la face cyniquement maladive d´Eduardo Cunha, le portrait parfait du politique mafieux, en tant que président de la cour. Au lieu d'écouter des discours émouvants de députés qui ont honoré à l´époque leur vie dédiée au Brésil, j'ai entendu des déclarations en colère et / ou fascistes, à côté d´autres, infantines, du genre "j´embrasse maman et papa qui me regardent à la télé." Ceux qui ont voté pensant véritablement défendre le pays de la corruption étaient probablement gênés d'être en telle compagnie.
Au lieu de voir, comme en 1984 et en 1992, une population enthousiaste des progrès démocratiques réalisés dans le pays et unie dans la défense du Brésil, on a vu une division cruelle d´une partie de la société brésilienne, manipulée par les partis politiques et les médias qui imposent leurs vues au lieu d'informer. Ce jour 17 Avril 2016 sera inoubliable, car il a révelé la dégradation du processus politique démocratique et sa transformation en un spectacle mediatique sans respect de la Constitution. Tout le monde sait que l´inculpation de « crime de responsabilité » de la présidente qui est en cours d'ouverture n´est lié à aucune affaire de corruption, mais plutôt à une manipulation « bureaucratique », assez courante, du budget de l´Etat. Mais presque aucun député a cité cette question dans son vote, comme si le procès était un autre. Ce qui était effectivement le cas, c´est ce qui est contraire à la Constitution.
Eh bien, seulement le remède peut être pire que le mal! Si la mise en accusation se confirme, nous aurons le ténébreux Temer (le vice président du corrompu PMDB) comme gouverneur du pays, et les choses pourront empirer encore en termes de précarité politique. Temer peut aussi être révoqué par la Cour Suprême et alors ce sera Eduardo Cunha qui sera le président (Argh!). Si nous avons la chance que Cunha soit mis en accusation par la Chambre (une enquête est en cours), la vacance sera remplie par Renan Calheiros (également en examen)! Et si ce dernier est destitué par le Sénat pour corruption, il peut à son tour être remplacé par Gilmar Mendes , qui a défendu la mise en accusation de Collor et qui est le juge de la haine et non de la tempérance! Cette perspective hideuse avance. Il ne reste plus qu'à prier : Dilma Reste! Le PT et son gouvernement ont fait des erreurs sérieuses, se sont acoquinés avec des gens malsains et ont consommé leurs propres méfaits, mais la biographie de Dilma est mille fois plus décente que celle de ces messieurs.
Comment trouver l´espoir au mileu de tant de tristesse? Justement, dans le fait que la politique partisane est tellement dégradée que la société civile est en train d´inventer de nouveaux modèles politiques. Des modèles horizontaux sont en train de naître au Brésil et dans le monde. Ces modèles prévoient un contrôle par la société civile à chaque étape des processus politiques ; ils séparent la politique du pouvoir économique, refusent le carrièrisme politique, ont un fort ancrage local, favorisent la confiance interpersonnelle et la responsabilité collective. Les innovations sont toujours invisibles au début, mais la population brésilienne, indépendemment de sa couleur polique, aspire à une vie politique plus saine. C´est cela qui nous unit et qui va nous faire évoluer vers une réforme politique profonde.
L´espoir vient aussi du fait que les millions de brésiliens qui avons construit la démocratie sommes vigilants, qu´une grande partie d´entre nous a évolué dans ses pratiques politiques vers une plus grande co-responsabilité. Nous voulons voir le Brésil évoluer dans ce sens, comme sont en train de le faire d´autres pays depuis peu. Nous avons déjà fait de profondes transformations dans ce pays et nous continuerons à en faire, cette fois-ci avec l´aide des jeunes générations , celles de nos enfants. Ils sont immergés dans les réseaux horizontaux et n´ont pas besoin de mentir à la maison, aussi ils ne tolèrent pas cette politique- là et exigent que les gens soient cohérents dans leurs faits et leurs paroles. Le futur leur appartient et nous les aiderons à le construire, sans permettre des reculades.
Voir quelques articles dans la presse internationale.
1 - New York Times: http://www.nytimes.com/…/dilma-rousseff-targeted-in-brazil-…
2 - El País: http://brasil.elpais.com/…/linha-sucessoria-de-dilma-rouss…/
3 - Der Spiegel: http://www.spiegel.de/…/brasilien-hexenjagd-auf-lula-ein-ka…
4 - The Independent: http://www.independent.co.uk/…/brazils-political-process-da…
5 - Le Monde: http://www.lemonde.fr/…/bresil-michel-temer-voit-son-heure-…
6 - Forbes: http://www.forbes.com/…/why-impeaching-brazils-president-di…
Collor e Dilma: empobrecemos imensamente na política
April 19, 2016 1:34 - Pas de commentaire
Sou da geração que construiu o fim da ditadura militar com a campanha pela Anistia e pela Diretas Já e que foi às ruas em busca de ética na política com o impeachment do playboy corrupto Fernando Collor. Por isso mesmo não podia deixar de me emocionar tristemente com o espetáculo de pobreza política que assisti ontem pela TV e que, embora não seja definitivo (pois há ainda o Senado), ilustra em que momento político estamos vivendo.
Ao invés de ver, como em 1992, uma campanha nas ruas liderada pelos movimentos sociais, os mesmos que tinham derrubado a ditadura, e gente honrada no parlamento liderando o processo pró-impeachment, via o rosto cinicamente doentio de Eduardo Cunha, retrato da política mafiosa, como presidente do tribunal. Ao invés de ouvir discursos emocionados de deputados que honravam uma biografia de dedicação ao país, ouvia afirmações raivosas e/ou fascistas, ao lado de bisonhas declarações do tipo “beijinho a papai e mamãe que estão me assistindo”. Os que genuinamente votavam pensando defender o país da corrupção provavelmente sentiam-se constrangidos de estarem na companhia de quem estavam.
Ao invés de ver, como em 1984 e em 1992, uma população entusiasmada pelos avanços democráticos e unida em defesa de seu país, vi uma cruel divisão da sociedade brasileira, manipulada pelos partidos políticos e por uma mídia que impõe seus pontos de vista ao invés de informar. Será inesquecível esse dia 17 de abril de 2016, o dia em que escancararmos a degradação do processo democrático em política “espetaculosa” e sem respeito à Constituição. Vamos e venhamos, o processo de crime de responsabilidade está sendo aberto sem nenhuma comprovação de culpa da presidenta em corrupção, e sim por umas tais de “pedaladas fiscais”. Só que quase nenhum deputado citou esse assunto em seu voto, como se o julgamento fosse outro. E era, e isso é inconstitucional.
Pois é, só que depois da tempestade pode estar vindo a ambulância, e não a bonança! Se passar o impeachment e tivermos a temeridade de Temer e o PMDB governando o país, as coisas podem se agravar ainda mais em termos de insustentabilidade política.Temer poderá ainda ser cassado pelo STF e Cunha será o presidente (Argh!). Se então tivermos a sorte de Cunha ser cassado pela Câmara, a vaga será de Renan Calheiros! E se for cassado pelo Senado por corrupção, por sua vez pode ser substituído por Gilmar Mendes que defendeu Collor no processo de impeachment e que é o juiz do ódio e não da temperança! Que perspectiva horrorosa temos pela frente. Só resta pedir: Fica Dilma! O PT e seu governo erraram gravemente, se misturaram com porcos e agora comem farelos, mas sua biografia é mil vezes mais decente do que a desses senhores.
Como encontrar esperança em meio a tanta tristeza? Exatamente no fato de que a política partidária está tão degradada que há um processo de invenção na sociedade civil visando criar novos modelos políticos. No Brasil e no mundo modelos horizontais estão nascendo, que preveem controle social em todas as etapas dos processos políticos, que separam política e poder econômico, que afastam o carreirismo, que têm grande enraizamento local, que favorecem a confiança interpessoal e a responsabilidade coletiva. As inovações sempre começam invisíveis, mas a população brasileira quer mais seriedade na política – e essa é uma demanda verde-amarela-vermelha-azul e cor de rosa – e não quer mais do mesmo. Ela evoluirá em busca de uma reforma política profunda.
A esperança vem do fato também de que os milhões que construíram a democracia estão vigilantes, que grande parte evoluiu em suas práticas políticas para mais corresponsabilidade e querem ver essa evolução no Brasil. Já fizemos transformações profundas nesse país e continuaremos fazendo, dessa vez com o apoio da nova geração, dos nossos filhos. Esses, que vivem em redes horizontais e que não precisam mentir em casa, não toleram a política que aí está e exigem coerência entre o que se diz e o que se faz. O futuro é deles e os ajudaremos a construí-lo, sem permitir nenhum retrocesso.
Meditação e política
March 23, 2016 21:43 - Pas de commentaire
Em tempos difíceis, a busca de manter a serenidade interna em face da tempestade externa, que é um dos objetivos de quem medita, pode ser um bom caminho. E se a tranquilidade de cada um é preciosa, mais ainda é a de um país inteiro. A boa nova ensinada pela física quântica nos diz que o mundo externo e o mundo interno estão em profunda ligação, assim, manter a calma individualmente contribui para a tranquilização do entorno coletivo. Desse modo, manter a “mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” também pode ser uma atitude política.
Então, vamos lá: tem-se uma tempestade externa que tem raízes ideológicas e de projeto de sociedade distintos. Entretanto, esses projetos vêm se confrontando há décadas sem que o pais se incendiasse, criando possibilidades nada positivas. O clima atual de polarização pode ser colocado em perspectiva, ao se tentar imaginar o que pode sair dessa crise e cada um pode sentir qual opção quer ajudar a construir. Uma maioria esmagadora de brasileiros quer o prosseguimento da via democrática e o fortalecimento das instituições e seu aperfeiçoamento e é pra esse tipo de pessoas que esse texto está sendo escrito.
Ao se colocar a situação atual em perspectiva, outra técnica meditativa pode ser bem vinda: a que se baseia no sentir profundo em torno de quatro palavras: observo, acolho, agradeço e ofereço. Assim, podemos buscar observar os fatos de modo um pouco mais neutro, olhando a realidade em sua complexidade, sem nos limitarmos apenas ao que “tendemos a ver”. Em seguida, passa-se a acolher o que é visto tentando evitar julgamentos, aceitar o que é, sabendo que tudo tem dois lados. O próximo passo é encontrar caminhos para tirar lições positivas do que vemos e sermos capazes de agradecer o que observamos e acolhemos. Finalmente, é hora de oferecer, ou seja, colocarmo-nos na perspectiva do que podemos nos engajar a ser ou fazer em face do que observamos, acolhemos e agradecemos.
Avançando um pouco mais e alinhavando técnicas meditativas com o quadro político atual: se sua mente estiver calma e seu coração tranquilo, seja de que lado você estiver, algumas questões podem ser facilmente entendidas como detonadores da tempestade externa atual: para muitos, a condução coercitiva e a divulgação intempestiva de escutas telefônicas de Lula, de um lado, é inaceitável. Para outros tantos, é a indicação para ministro de Estado de alguém que está sendo investigado, mesmo em face da imensa mobilização social pela lei da “ficha limpa”, que tenta trazer mais ética na esfera pública.
Ok, leitor/a, para você que está muito envolvido emocionalmente com o que está acontecendo, vou tentar dar voz ao que “não quer calar”. De um lado, o clima de FLA-FLU, persecutório, que a mídia vem tentando imprimir no país (até pra manter sua audiência, em queda livre em face das novas mídias sociais). Do outro, você não quer deixar de falar do uso da máquina pública que o governo faz pra defender sua posição. Certamente há muitas outras circunstâncias, que, de um lado e de outro, agravam o quadro simplificado que descrevi, mas o objetivo não é dar razão a um lado ou outro, mas ver o quadro em perspectiva.
Olhando assim, talvez seja possível entender a ira de cada um dos lados e, sem deixar de tomar partido, se essa é sua opção, ajudar a reencontrar caminhos de convivência civilizada, que é a única saída pra manter a democracia. Nos colocarmos em perspectiva significa imaginar o que vai sair dessa crise: como em outros países onde essas polarizações exacerbadas já ocorreram, os partidos ou linhas ideológicas diretamente em disputa serão provavelmente muito prejudicados nas próximas eleições. Se os políticos de um lado e de outro fossem mais serenos, perceberiam que o acirramento das contradições irá possivelmente afastá-los de seus objetivos de poder.
A crise abre novas oportunidades: se petistas e peessedebistas, juntos com seus aliados, pagarão um preço alto nas próximas eleições, é hora de perguntar: existem alternativas que possam substituir essas tendências políticas? dificilmente eleitoras e eleitores irão mudar da água pro vinho. Provavelmente vão buscar propostas próximas à que já vem abraçando historicamente. O que mudou, de fato, é uma tolerância cada vez menor com a falta de ética na política e uma confiança cada vez menor no sistema político atual, em grande parte manipulado pelo poder econômico.
Duas novas agremiações políticas que se desenham no horizonte político brasileiro provavelmente crescerão no vácuo da crise. O contínuo movimento da Vida, seja da natureza, seja da política, não vai cessar. Os dois partidos propõem maior horizontalidade na política e buscam aliar a preocupação com a ecologia e com as condições sociais dos brasileiros. Essas são tendências que se apresentam também em outros países e que animam a juventude, tão descrente da política. São eles que farão a política do futuro.
Os que se digladiam agora, sem calma, sem autoquestionamento e sem perspectivas, podem estar ateando fogo em suas próprias vestes, e na nação. Não seria melhor buscar encontrar algum lugar de paz dentro de si, olhar o longo prazo da sociedade brasileira e ajudar a construir, serenamente, o país melhor que todos queremos? Conflitos são bons e nos fazem avançar. Mentiras, violência e a negação do direito de existência de outras perspectivas de mundo precisam ficar para traz. Dialogar é preciso, e faz bem. Meditar também.
DEBATE dia 16/03: Especialistas baianos avaliam a Conferência do Clima (COP 21), PAF 3, 18:30h
March 10, 2016 10:25 - Pas de commentaire
A Conferência do Clima realizada em Paris, em dezembro de 2015, discutiu um dos assuntos mais importantes para a humanidade hoje: o aquecimento global, suas consequências e medidas para reduzir as emissões de carbono que causam as mudanças climáticas. A análise dos resultados do evento tem suscitado controvérsias entre especialistas: alguns acreditam que houve um "acordo histórico" que poderá amenizar as catástrofes climáticas e outros acreditam que a Conferência foi inócua, pois não se previu punições aos países que descumprirem o acordo. Nesse debate, diversos pontos de vista serão contrastados a partir de análises de especialistas que estiveram presentes no evento.
O certo é que 195 países membros da Convenção do Clima da ONU estiveram presentes, assim como milhares de organizações da sociedade civil, mesmo com o clima de medo por causa dos atentados que ensanguentaram Paris no início do ano passado. A pressão da sociedade civil, preocupada com seu futuro e o das novas gerações empurrou a Conferência, mas a resistência dos setores petrolíferos e de interesses nacionais localizados quase paralisou os trabalhos. Um acordo foi construído e valerá a partir de 2020, incluindo todas as nações da Terra, e não apenas os países ricos, na reestruturação das economias e dos modos de vida para combater o aquecimento global.
Os especialistas e professores doutores Osvaldo Soliano, Asher Kiperstok e Emerson Sales, a professora doutora Débora Nunes e o Sr. Eduardo Athayde, da WWI, debaterão o tema a partir de suas vivências diretas da COP21 realizada em Paris em dezembro de 2015, ou do acompanhamento histórico que fazem da temática ambiental.
Data 16/03/2015 quarta feira, de 18:30h às 21:30h
Local: Auditório do PAF 3 - UFBA, em Ondina
Promoção: Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Urbano e Regional (PPDRU- UNIFACS) e Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC-UFBA)
Avaliação da proposta de PDDU de Salvador
February 13, 2016 19:52 - Pas de commentaire 
Para contribuir com o debate cidadão sobe o projeto de Lei do Plano Diretor Urbano de Salvador (PL 396/2015) o professor Ordep Serra e eu fizemos uma avaliação do que foi produzido até hoje, que pode ser acessado aqui. Acompanhe o processo de discussão em curso no site do Participa Salvador. Participe da 2ª Oficina: "Projeto de Lei do PDDU de Salvador, Reflexões Propositivas", que será realizada dia 16/02, das 14h às 20h no Ministério Público Estadual, em Nazaré.
A imensa sabedoria do nosso próprio corpo: aprendendo com ele
January 25, 2016 12:13 - Pas de commentaire
O texto abaixo tem como fonte "O livro dos Segredos" de Deepak Chopra (2005) - www.chopra.com - e ele foca na inteligência do corpo. Acredito que essa, junto com a inteligência do coração, poderiam ser o tripé de uma existência pessoal e coletiva mais sábia e feliz. Enquanto nossa sociedade concentra suas expectativas na inteligência mental, nós perdemos a oportunidade de aprender todo dia com nossa casa mais íntima: as células, os órgãos e o nosso corpo inteiro.
Nenhum destes pontos é uma aspiração espiritual; são fatos da vida quotidiana, ao nível das suas células.
1- Objetivo mais elevado:
Cada célula do seu corpo aceita trabalhar para o bem-estar do todo; o seu bem-estar individual surge em segundo lugar. Se necessário, morre para proteger o corpo e muitas vezes assim é - o tempo de vida de qualquer célula é uma fração do nosso próprio tempo de vida. As células da pele morrem aos milhares, a cada hora, o mesmo acontecendo com as células imunológicas que combatem os micróbios invasores. O egoísmo não constitui uma opção, mesmo que se trate da própria sobrevivência de uma célula.
2- Comunhão:
Uma célula mantém-se em contato com todas as outras células. As moléculas mensageiras acorrem a toda a parte para comunicar aos recantos mais afastados do corpo qualquer desejo ou intenção, por mais tênue que seja. Retrair-se e recusar-se a comunicar não constituem opções.
3- Consciência:
As células adaptam-se, momento a momento. Mantém-se flexíveis para poderem responder a situações imediatas. Ficar preso a hábitos rígidos não constitui uma opção.
4- Aceitação:
As células reconhecem-se umas as outras como igualmente importantes. Cada função do corpo é interdependente de todas as outras. Desempenhá-la sozinho não constitui opção.
5- Criatividade:
Embora cada célula tenha um conjunto de funções únicas (as células do fígado, por exemplo, podem desempenhar cinqüenta tarefas diferentes), estas conjugam-se de formas criativas. Uma pessoa pode digerir alimentos que nunca comeu antes, ter pensamentos que nunca lhe ocorreram, dançar de uma forma que nunca antes se viu. Agarrar-se a um velho comportamento não constitui opção.
6- Ser:
As células obedecem ao ciclo universal de repouso e atividade. Embora este ciclo se expresse de muitas formas, como as flutuações dos níveis hormonais, da pressão arterial e dos ritmos digestivos, a expressão mais óbvia é o sono. Por que razão precisamos dormir continuamente e ser um mistério para a medicina e, no entanto, surge a disfunção total se não gozarmos dos seus benefícios. No silêncio da inatividade, o futuro do corpo está em incubação. Ser obsessivamente ativo ou agressivo não constitui uma opção.
7- Eficiência:
As células funcionam com o mínimo gasto possível de energia. Por norma, uma célula armazena apenas três segundos de alimento e oxigênio dentro da sua membrana celular. Confia plenamente em que tomarão conta dela. Um consumo excessivo de alimentos, ar ou água não constitui uma opção.
8- Ligação:
Devido à sua herança genética comum, as células sabem que são fundamentalmente iguais. O fato das células do fígado serem diferentes das do coração e das células musculares serem diferentes das cerebrais, não nega a sua identidade comum e esta é imutável. Em laboratório, uma célula muscular pode ser transformada geneticamente numa célula cardíaca recorrendo à sua fonte comum. As células saudáveis permanecem ligadas à sua fonte independentemente do número de vezes que se dividam. Para elas, ser um proscrito não constitui uma opção.
9- Dar:
A atividade primária das células é dar, o que mantém a integridade de todas as outras células. Um empenhamento total em dar torna automático o receber - e a outra metade do ciclo natural. O açambarcamento não constitui uma opção.
10- Imortalidade:
As células reproduzem-se para transmitirem os seus conhecimentos, experiência e talentos, não escondendo nada dos seus descendentes. É um tipo de imortalidade prática, submetendo-se à morte, no plano físico, mas derrotando-a, no plano não físico. O fosso entre as gerações não constitui uma opção.
Quando olho para tudo o que as minhas células aceitaram, será que não se trata de um pacto espiritual, em todos os sentidos da expressão? A primeira qualidade, procurar um objetivo mais elevado, é a mesma que as qualidades espirituais de renúncia e altruísmo.
Dar é o mesmo que devolver a Deus o que é de Deus. Imortalidade é o mesmo que a crença na vida depois da morte.
Todavia, os rótulos adaptados pela mente não constituem uma preocupação do meu corpo.
Para o meu corpo, estas qualidades são pura e simplesmente o modo como funciona a vida. São o resultado da expressão da inteligência cósmica, ao longo de bilhões de anos, como biologia. O mistério da vida foi paciente e cuidadoso no processo de permitir que emergisse todo o seu potencial. Mesmo agora, o acordo tácito que mantém o meu corpo coeso produz a sensação de um segredo porque, segundo todas as aparências, esse acordo não existe.
Mais de duzentos e cinqüenta tipos de células desempenham as suas funções diárias: as cinqüenta funções que uma célula hepática desempenha são totalmente únicas, não se sobrepondo às funções das células musculares, renais, cardíacas ou cerebrais - todavia, seria catastrófico se uma só dessas funções estivesse comprometida.
O mistério da vida encontrou uma forma de se expressar perfeitamente através de mim.
Reveja uma vez mais a lista das qualidades e preste atenção a tudo o que é referido como "não constituindo uma opção": egoísmo, recusa em comunicar, viver como um proscrito, consumo excessivo, atividade obsessiva e agressão.
Se as nossas células não se comportam desta forma, porque o fazemos?
Porque é que a ganância é boa para nós e, no entanto, significa a destruição, ao nível das nossas células, onde a ganância é o erro cometido pelas células cancerosas? Porque permitimos que o consumo excessivo conduza a uma obesidade epidérmica, quando as nossas células medem ao nível da molécula o combustível que consumimos?
Como pessoas, ainda não renunciamos ao comportamento que mataria os nossos corpos num dia. Estamos traindo a nossa sabedoria corporal e, o que é pior, estamos ignorando o modelo de uma vida perfeita que existe dentro de nós.”
Testemunhando a COP 21: um aumento do nível de consciência global
December 14, 2015 19:58 - Pas de commentaire
De um lado, como em todas as Conferências internacionais, os sisudos delegados, em sua maioria homens brancos em terno e gravata, circulando por espaços confortáveis, porém vigiados e restritos. Do outro lado, milhares de cidadãos, de todas as cores, principalmente rapazes e moças em igual número, circulando por toda a cidade de Paris em lugares aonde fervilha a energia da mudança e o pensamento coletivo. Nessa COP, de um lado, o “Le Bourget” e de outro a Conferencia dos Cidadãos pelo Clima, em Montreuil, o ZAC (Zona Ação Clima) no Centro 104, e os espaços “Place 2 B” e Geração Clima, como centros de agregação. Além desses, centenas de outros lugares menores discutindo a questão climática democraticamente, denunciando suas causas e mostrando soluções.
Estive, logicamente, nos lugares aonde estava a cidadania, mas acompanhando de perto aquilo que acontecia internamente no Le Bourget, através de contatos diretos com pessoas trabalhando ali e pela imprensa francesa. Nos primeiros dias, com a interdição de manifestações de rua por causa do estado e emergência causado pelos atentados terroristas, o sentimento geral do lado cidadão era de desarticulação e de indignação. Sentimos o Le Bourget como uma confiscação do poder democrático da cidadania planetária de decidir pelo futuro das gerações presentes e futuras. Sabíamos que o lobby das grandes corporações, sobretudo das empresas petrolíferas, estava agindo a todo vapor dentro do Le Bourget - como nas 20 COPs anteriores - para impedir reais medidas que poderiam evitar catástrofes climáticas, enquanto nós não podíamos nem nos manifestar nas ruas.
Na medida em que o tempo foi passando a ideia de construção de um outro poder, para além dos interesses pequenos das nações e do tempo curto dos mandatos eleitorais, foi ganhando asas. A palavra de ordem “people power” gritada pelos jovens no espaço Geração Clima, ao lado do Bourget, somava-se, entre outros, à articulação de um manifesto por um poder cidadão direto, constituindo-se numa etapa superior de pensar a política, de forma planetária e sem fronteiras, como são o ar, os rios, os oceanos que temos que proteger. A paralisia inicial do lado cidadão começava a se transformar em projeto de forma múltipla e difusa, mas profundamente enraizada na história recente. Por outro lado, uma intensa ação pela internet fazia chegar aos delegados a indignação geral com a incapacidade da Conferência em avançar. O relato da Avaaz (aqui), que promoveu muitas ações nos últimos anos e agiu intensamente em 2015, mostra como se deu a intervenção cidadã por meios virtuais na COP 21.
Mas a Avaaz, com seus imensos serviços prestados e seus 42 milhões de internautas assinantes de petições e financiadores de ações, é apenas uma parte do todo que se move do lado da sociedade planetária. Na base da articulação cidadã estão movimentos ecológicos muito mais antigos, como o WWF e o Greenpeace, entre outros, assim como documentos pioneiros como o “Limites do Crescimento” do Clube de Roma (de 1972), ou “Nosso Futuro Comum” (de 1987), para citar apenas alguns dos que nos fizeram compreender a gravidade dos problemas ambientais. No campo da história da organização propriamente dita dos “side events” participativos das COPs, está a maravilhosa experiência dos Fóruns Sociais Mundiais, grande parlamento cívico mundial informal, que completa agora 15 anos e que tem brasileiros como seus fundadores, como Oded Grajew e Chico Whitaker. Assim, os “altermundialistas” do FSM que propõem que “outro mundo é possível e está em construção” e as primeiras ações e organizações ecologistas estão na origem da consciência que hoje se aprofunda e se organiza em todo o planeta. Daí nasce a força da pressão das redes sociais e das plataformas virtuais como a Avaaz.
Mas, e o Le Bourget, como evoluiu? Um dos mediadores do debate oficial disse a um grupo de ativistas, ainda na primeira semana da Conferência, que se os cidadãos não podiam entrar na COP, os lobistas estavam lá em grande número. Quando lhe perguntamos como a cidadania poderia influenciar os resultados da COP, ele nos respondeu: “pressionem aqueles que não querem que os países avancem, com boicotes que os façam sentir a pressão no bolso, é a única maneira”. As notícias que vinham do Le Bourget dessa forma não apontavam para avanços no curto prazo. Entretanto, a pressão social da mobilização cidadã mundial pela internet redobrou, assim como a força da ideia vinda de muitos focos de constituição de um poder cidadão planetário. Outro fator de pressão foi de caráter interno, sobre o governo francês anfitrião, que precisava ganhar pontos juntos aos seus cidadãos em plena época eleitoral e com ameaça da extrema direita de ganhar diversos governos locais.
Um fato à parte foi a ação do presidente francês da COP, Laurent Fabius, portador, segundo diversas fontes, de uma doença incurável e mortal, que o faz mais sensível à sorte de seus semelhantes e das futuras gerações. Em seu discurso de apresentação de uma proposta de acordo, Fabius disse, com voz embargada, que os delegados não poderiam decepcionar a sociedade e precisavam defender a Vida. A ação de Ban Ki Moon, secretário geral da ONU, de Christiana Figueres, secretaria executiva das Nações Unidas para as mudanças climáticas (UNFCCC), de Manuel Pulgar-Vidal, presidente da COP 20, em Lima/Peru e muitos outros e outras, trabalharam incansavelmente para que a COP de Paris avançasse.
Outro aspecto decisivo para se chegar a um acordo em Paris foi o fracasso da contraofensiva das corporações, sobretudo do petróleo, que tinha sido eficaz nas duas últimas décadas, em negar o aquecimento global por ação humana. Vencidas as mentiras pseudocientíficas, apenas razões econômicas motivavam os discursos dos que eram contra o acordo. Ninguém mais pode questionar as mudanças climáticas de forma crível durante a COP de Paris e assim a questão do financiamento aos países insulares que já começam a desaparecer com a elevação do nível dos oceanos e à reconversão dos países produtores de petróleo para as energias renováveis – entre outros impactos - tornou-se objeto maior dos debates. Vários grupos de pressão por um acordo, no interior mesmo da COP, tendo apoio aguerrido de ONGs presentes, foram se articulando. Pressão interna e pressão externa conduziram a que saísse um acordo, evitando um mal maior.
Mas que acordo é esse? E qual o papel da sociedade civil planetária para o fazer cumprir em cada país e em todo o mundo? Como na maior parte dos processos diplomáticos, o acordo fala bonito, mas de forma vaga. O teto do aquecimento, a partir do qual se calcula as emissões totais de CO2 no planeta, deve “buscar ficar entre 1,5 a 2 graus”, mas as metas nacionais hoje existentes levam à uma subida de 3 graus. Não se instituiu punições a quem ultrapassar nem mesmo as metas auto imposta que não atingem o total pretendido, assim, como atingir sua limitação em níveis menos catastróficos? Os recursos para mitigação dos efeitos do aquecimento e reconversão de economias para formas limpas só começarão a serem aplicados em 2020, enquanto as urgências se multiplicam, com enchentes, secas, furações e elevação do nível do mar.
De todo modo, houve um acordo e ele é ambicioso, mesmo que pareça um leão sem dentes. A sociedade planetária presente em Paris aponta inequivocamente para a constituição de um poder cidadão, que não apenas controle os governos, mas que seja um exemplo de coerência coletivamente construída, essa é a novidade. O “Juramento de Paris”, assinado por personalidades como Edgar Morin, disponível hoje em várias plataformas de petições (veja aqui a do FSM 2016 de Montréal) implica as pessoas que se engajam a construírem um processo político global, mas também a mudar suas escolhas de consumo, sua “pegada ecológica” ou o peso que sua forma de estar no mundo deixa no planeta. O nível de consciência está mudando e isso se refletirá, cedo ou tarde, em mudanças civilizatórias profundas. Hoje podemos escolher ser parte do processo, comece assinando o compromisso.
Poder cidadão em portugues versão 09 de dec.docx
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