DA CATEQUESE NAS TABAS À ALDEIA GLOBAL: SEM FÉ... SEM REI... NEM LEI...
August 29, 2008 0:00 - no comments yet | No one following this article yet.[…]
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber. […] Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela.
(Porto Seguro, Ilha de Vera Cruz, sexta-feira, 1o. maio de 1500 – Pero Vaz de Caminha)
O mais nefasto desastre causado à existência do povo brasileiro não foi apenas o promovido pela escravidão, o látego e a sífilis, com o respectivo extermínio físico da língua nativa e de seus falantes, mas algo mais sutil; não apenas o genocídio sumário da carne e dos afetos desordenados, mas do pensamento, da emoção e da vontade, apagando de sua vida os desejos, o passado e os antepassados, até que fosse subtraído da própria História. Manipulado e submisso, ou ficou de fora ou serviu de montaria para as retóricas e ideologias, permanecendo na escuridão da ignorância, sem história e sem passado.
Após se instalaram aqui os deserdados de Portugal, prevaleceu ao longo dos 500 anos de analfabetismo, a ótica inquestionável do dominador, fundada em privilégios, hierarquias e obediência à Fé, à Lei e ao Rei. O que fosse estranho à essa dogmática visão de mundo do colonizador deveria ser exorcizado. Assim, do “outro” foi devidamente suprimido tudo o que pudesse desafiar a ordem estabelecida. Segundo o educador Paulo Freire: “Não sendo possível às classes dominantes matar ou fazer desaparecer a capacidade de pensar dos homens, mitificam a realidade, condicionando-lhes um pensar falso sobre si e sobre o mundo”.(1)
Toda ordem social domesticadora mantém-se por meio da falsificação, não da realidade, mas da consciência da realidade. A respeito desse processo de inculcação da visão de mundo dominante, Marilena Chaui afirma que “o surgimento do cristianismo produz um efeito inesperado sobre a concepção da história […] introduz a idéia de que a história segue um plano e possui uma finalidade que não foram determinados apenas pela vontade dos homens”.(2)
Para empreender “novo processo civilizatório”, sem precedentes na história, mas segundo os interesses da corte, os colonizadores impuseram o velho padrão cultural europeu aos nativos “selvagens”, pregando o evangelho nas florestas virgens e incultas, domesticando a vida nas tabas, enquanto os colonos se ocuparam em maior medida com a exploração predatória da terra, pródiga em riquezas naturais e materiais, aliada à exploração da mão-de-obra escrava que produzia o que pudesse ser vendido para atender as exigências necessárias à expansão mercantilista.
De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados…
Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! (Pero Vaz de Caminha)
Assim foi semeada a terra virgem: com velhas sementes. “Sifilizaram” o universo cultural dos povos indígenas, ignorando passado, cotidiano e mitos, excluindo-os de sua própria história e conformando-os às novas crenças trazidas na bagagem. Como os índios nativos ignoravam a lógica e os referenciais de vida dos homens brancos e desconheciam as motivações de sua fé, primeiro aprenderam a ajoelhar, depois foram submetidos às lições de catequese na taba. A finalidade moral era domesticar as consciências por intermédio de exercícios que visavam ao controle dos instintos selvagens ou desregrados. Ainda no governo de Salvador de Sá, os “homens da floresta” eram seres “bestiais” e “primitivos” aos olhos da sacralidade clerical, viviam desordenadamente, em desalinho com os costumes e a moral católica tradicional: “Os índios nômades da floresta brasileira não estavam preparados nem mentalmente, nem pelo estado de cultura para suportar uma vida de labuta diária, ao simples aceno ou chamado de outrem”. (Charles Boxer, 1973: p. 137)
Talvez, o dia 27 de agosto de 2008 (ontem) seja sempre lembrado como a data em que impusemos uma segunda derrota aos infelizes indígenas, nativos de direito desta Terra brasilis. Não somos capazes de entender os segredos do outro, pois “o outro guarda um segredo: o segredo do que eu sou”, já o disse Jean Paul Sartre. Quiçá, eu esteja enganado… A história é quem dirá. Leia a seguir entrevista do professor Viveiros de Castro, antropólogo do Museu Nacional da UFRJ, para quem os conflitos na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, são a prova deste insuperável estranhamento que ainda conservamos em relação aos índios até os dias de hoje.
Notas___________________________________________________
(1) FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 101. (2) CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. 5ª reimpressão. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 57-66.
LEIA ENTREVISTA COM ANTROPÓLOGO VIVEIROS DE CASTRO, publicada em 20 de abril de 2008, no Jornal O Estado de S.Paulo. http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/04/20/ali-1.93.19.20080420.7.1.xml.
FONTE: Blog “CLÍNICA DO TEXTO”. Disponível em:
http://clinicadotexto.blogspot.com/2008/08/da-taba-aldeia-global-sem-f-sem-rei-nem.html

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