Mon, 01 Mar 2010 00:43:00 +0000
February 28, 2010 0:00 - no comments yetONOMATOPÉIA
A idéia veio naquele papo com Ary. Estavam embolados na rede do terraço, na cobertura luxuosa de Lisa. Tinham passado o dia bebemorando os sessenta anos. Nasceram no mesmo dia, se diziam gêmeos idênticos, apesar de algumas falhas: famílias e cidades diferentes, e o pior, ele com o sexo trocado. Erros divinos, desses que os humanos vivem tendo que endireitar, aceitando ou reclamando, e que Ary listava para cobrar quando e se chegasse lá em cima, no juízo final, ou no “fim da picada”, como ele chamava.
Começaram com a cervejada na praia, brincando de bife à milanesa, rolando nas areias de Ipanema diante dos olhares de censura de senhores circunspectos, jovens yuppies e famílias com crianças e baldinhos. No almoço, regaram a feijoada com caipirosca, o que exigiu uma pequena pausa. Depois, uísque ao entardecer, aplaudindo a retirada pomposa do sol.. Cerveja de novo na roda de samba na Lapa.
Tinham chegado agora à fase do "dry martini" – de confidências e grandes sacações sobre a história da humanidade e a vida – já que Buñuel uma vez disse que era quando bebia dry martini que tinha seus insights mais brilhantes. Tudo tinha explicação, motivo. Se não sabiam inventavam, afinal não é isso que diferencia a espécie humana das outras?
Ary saiu da rede, depois de algumas tentativas desajeitadas, quase derrubando Lisa. Alisou a barriga exibindo o corpo meio balofo, pegou os copos para reabastecer:
- Temos que nos preparar para mais essa burrada divina, querida. Doze lustros! A partir de hoje somos legalmente idosos. E o cara não planejou direito, como sempre. Tudo caindo, pele, peito, pau, bunda e cabelo. O tesão não devia cair junto? Mas não, continua lá! E nós é que temos que dar um jeito. Plástica e viagra, é tudo paliativo, pô! Haja criatividade!
Quando voltou, Lisa, deitada com a cabeça nos braços cruzados atrás, abriu o coração:
- Quer saber, maninho? Tem duas coisas que eu sempre quis fazer e nunca consegui. Não quero encerrar o expediente aqui na Terra sem realizar, só não sei como. Uma é mergulhar de cabeça. Toda a vida tive que aturar essa gente que levanta os braços, se debruça, empina a bunda e salta, em mar, rio ou piscina. Que inveja! Você nem pode imaginar o que já passei, humilhação de agachar para furar a onda, ou pular de pé, às vezes até tapando o nariz!
- Houston! – exclamou Ary. We have a problem! Não tenho como resolver isso, jamais consegui também, mas não me gerava angústia. Por que você nunca me contou? Viver esse drama sozinha! Podia ter partilhado, eu podia ao menos consolar. Alegria partilhada é dupla alegria, mas dor partilhada é meia dor, querida! E a outra coisa? Algo que eu possa ajudar, please!
- A outra é mais complicada ainda. É uma relação sadô. Já curti muito em fantasia, mas nunca tive coragem na vida real. Como é que eu ia dizer pro cara “Me dá porrada”? E depois, como é que ia encarar? E se desse certo, gostasse? Ia passar o resto da vida apanhando? Só transei com gente normal, ou pelo menos que pensa que é normal. Todo esse lance de misturar sexo com afeto, amor, respeito até. Nunca deu para extravasar!
Ary saltitou de alegria:
- A-há! Essa eu tenho solução!
- Você? - Lisa se espantou. Você faria isso por mim?
- Eu, não. Deus me livre! Esse negócio de relação hetero tô fora. Me dá nojo só de pensar. Mas sei de um jeito. Olha só: como é que você acha que eu estou me virando depois da morte do Mauro? Depois de quase quatro lustros de casamento com aquele homem maravilhoso, pensei que nunca mais ia querer ninguém, ia pendurar as sapatilhas. Mas a vontade voltou, teimosa. Fazer o quê? Dar uma de bicha velha, catando homem em bar, boite? Nem pensar! Não só pelo risco, pois viver é perigoso mesmo, mas, por mais que eu tente me iludir, sei que o bofe estaria a fim é do dinheiro, prestígio, conforto. Interesse por esta carcaça velha? Difícil! Então vou direto ao ponto. Pago e os dois têm o que querem. Semana passada pesquei um na interrede, lindo, parece um daqueles Baldwin, nunca sei se é Adam, Alan ou Alec. O mais novinho. Um pitéu! Faz o que você quiser. Maior competência. E discrição. Recomendo!
- Sei não, dá um pouco de medo. Muito fora da minha linha. E tenho essa tendência compulsiva... E se vira vício? – Lisa hesitou.
- Atenção! Legalmente idosa, dear! E o que é a velhice sem vícios? Melhor morrer de medo que de tédio! Não se esqueça que o que se leva dessa vida é a pica que se leva.
Depois dessa conversa inspiradora, Lisa passou uma semana tentando decidir. Tinha posto o cartão com o número de telefone do cover de Baldwin junto ao do médico. Olhava para um e para o outro alternadamente, ponderava. Tinha que marcar o início da quimio. Isso não contara ao Ary, a ninguém. O diagnóstico recém recebido: linfoma. Não queria partilhar. Não queria assistir aos esforços do amigo para adaptar algum ditado ou provérbio que desse conta. Ou suportar os olhares de pena e medo que cercam as pessoas nessa situação.
No final da semana já tinha optado. Não seguiu a recomendação de Ary de marcar num motel. Esperou o rapaz em casa mesmo. Tomou umas três doses de uísque à cowboy, para não deixar o bom senso atrapalhar, ligou o rádio para abafar qualquer ruído.
Quando abriu a porta, viu que o garoto era mesmo uma graça, embora nem de longe um Baldwin. Espanou rápido uma idéia tipo “podia-ser-meu-neto”. Ele foi entrando desengonçado, passo ensaiado de malandro, todo blasé. Ao ouvir o que ela queria, comentou apenas:
- Nesses casos tem que ter uma palavra-chave pra parar. Dizer que não ou pedir não vale. Fui parar uma vez e a pessoa ficou pê da vida.. Era só reação instintiva.
Lisa falou a primeira palavra que lhe ocorreu:
- Onomatopéia!
- Que diabo é isso, mulher?
- Precisa saber o que é?
Ele não respondeu, deu de ombros, começou a sessão.
Lisa não soltou um gemido que não fosse de prazer, um ai que não fosse de tesão. Em nenhum momento pensou sequer na palavra-chave. Virada de um lado para o outro, penetrada de todas as formas, em posições que só vira em filme, mordida, espancada, chicoteada, nem em seus devaneios masturbatórios gozara tanto. Especialmente quando ele a amarrava, imobilizava. Volúpia de se entregar passivamente à impotência que a gente cansa de tentar combater na vida. Orgasmos pelo corpo todo, ora em seqüência, ora ao mesmo tempo. Clitóricos, anais e vaginais. Físicos, mentais e espirituais. Assombrava-se com a intensidade daquilo, a existência levada ao extremo,o apogeu dos instintos, Eros e Tanatos de mãos dadas.
O jovem garanhão tinha tudo no lugar, no tempo e na medida certos. Agilidade de felino, força de urso. Principalmente o principal, nem fino nem grosso, nem grande nem pequeno, duro o tempo todo. Um cartão postal. Quando o tempo acabou, Lisa chegou a considerar pedir uma prorrogação. Mas temeu morrer ali na mão dele, encrencar a vida do rapaz.
Esperou-o tomar banho, se vestir. Pagou o combinado. Depois que ele saiu entrou no chuveiro, levou um tempão deixando a água morna acariciar seu corpo. Passava as mãos nos hematomas, nos seios, se tocava toda, chupava os dedos molhados, gozando ainda. Desligou então o aquecedor, uma ducha fria cortou o barato, entorpeceu o corpo. Caiu na real. De que tivera medo, afinal? Podia ter experimentado antes, não tinha a menor chance de viciar. Parecia alegria de porre, que depois deixa a pessoa mais triste. No caso, um delírio orgiástico que a deixava mais insatisfeita que antes. Com um leve sabor de ressaca na boca, se deu conta de que essa de buscar prazer na dor não era de fato sua praia. Não mais. Teve certeza do próximo passo.
Vestiu um conjunto de moletom. Catou todo o lixo da casa, picou os resultados dos exames, os laudos, os cartões com os telefones, despejou tudo na lixeira do prédio. Arrumou uma pasta de documentos em cima da mesa da sala, deixou sobre ela um bilhete.
O rádio continuava ligado, uma estação que nunca tinha ouvido, uma seleção musical estapafúrdia. De repente começou um pout-pourri de trilhas de cinema. Achou graça quando entrou “Luzes da Ribalta”. Gostou da sincronia. Tentou se lembrar da versão em português, cantarolou: “Vidas que se acabam a sorrir, luzes que se apagam, nada mais”. Ou seria o contrário? Foi ao terraço, sentou no parapeito. Não tinha uma luz no céu, mas lá embaixo era uma festa. “Um rio de luzes” – pensou, apreciando o movimento dos faróis dos carros. Bateu palmas para a breguice da imagem.
Tinha que acertar de primeira. Como na vida, não tem ensaio. Levantou os braços, gritou bem alto: “ONOMATOPÉIA!” e se atirou de cabeça. Um mergulho perfeito.
RJ, outubro 2008
Mon, 01 Mar 2010 00:19:00 +0000
February 28, 2010 0:00 - no comments yetCIRANDA
Sarita pôs a poltrona e o corpo na posição vertical para o pouso em João Pessoa. O vôo até que não fora ruim, o serviço de bordo na classe executiva até satisfatório. Nada que compensasse, no entanto, a irritação pelo atraso no aeroporto e pelo absurdo de ter que suportar qualquer desconforto, não para a anual viagem à Europa ou aos States, mas para esse fim de mundo onde o filho viera se enfurnar. Dobrou o blaser de linho cuidadosamente, tirou o espelhinho da bolsa para retocar a maquilagem e mascarar a contrariedade – providência aliás supérflua, pois já há algum tempo qualquer expressão era devidamente apagada de seu rosto por sucessivas cirurgias, liftings e preenchimentos. Mesmo assim, julgou camuflar com rápidas pinceladas de blush o ressentimento com o último caso do marido, cobrir com uma camada de brilho nos lábios a raiva das amigas que souberam antes e não contaram, arrumar com leve escovada nas sobrancelhas os aborrecimentos com os empregados, esconder com um toque no penteado a insatisfação com o serviço do decorador.
No saguão do aeroporto viu o filho que a buscava com o olhar. Reparou a roupa modesta, amarrotada, o cabelo mal cortado, a barba por fazer. Suspirou com a lembrança das expectativas que tivera, de vê-lo no Fórum ou na ONU, juiz ou diplomata, quando acabou a faculdade de Direito e casou com uma médica também recém-formada. Nunca pensou que tomaria esse rumo, de se mandar para o interior. Provavelmente influência “dela”, que provavelmente não conseguira emprego nos grandes centros, provavelmente por incompetência..
O filho a recebeu com um sorriso largo, estendeu os braços. “Fez boa viagem, mãe?” Esquivou-se do abraço, entretendo-se com a bolsa, o blaser; respondeu o menos secamente que pôde. “Razoável, meu bem.” Estava decidida a ser paciente, não entrar em conflito ou polêmica. Já fazia três anos que a chamavam e agora que finalmente acedera ao convite ia agüentar tudo estoicamente, afinal que sacrifícios não se faz por um filho? Ignorou a sugestão de pegarem o ônibus que saía dali a meia hora. Já tinha tratado o carro. Ele pegou a mala e a acompanhou ao guichê da locadora. Sarita agradeceu mentalmente ele tê-la poupado de alguma observação sobre desperdício ou indiferença ao meio ambiente. Pegaram a estrada. Deixou que ele dirigisse mas pediu que fechasse as janelas e ligasse o ar. Lá fora a claridade era ofuscante. Depois de algumas tentativas de puxar conversa e só obter de volta monossílabos, o filho se calou, passou o resto da viagem concentrado na estrada esburacada e poeirenta. Sarita olhava a paisagem inóspita, o desenho dos cactos se esgueirando entre as pedras.
Uma semana se passou. Um século para Sarita, esgotada pelo esforço de não deixar transparecer o desgosto por tudo o que via e ouvia. A casa era rústica, mal aparelhada, desproporcional ao orgulho do casal ao exibir a horta, o jardim, o quarto que prepararam para ela: chão de cimento, sem ar condicionado, cama tosca, colchão de crina, mosquiteiro, coisas que nem imaginava ainda existissem. Os dois se esmeravam em agradá-la. Viviam rindo e se abraçando, preparavam cada refeição como se estivessem fazendo uma festa. As conversas não passavam de alguns comentários gerais; para evitar dar opinião Sarita abortava qualquer assunto, o papo não fluía. Mesmo assim às vezes escapava: “Vocês não tem empregada? A mão-de-obra aqui deve ser barata.” A nora sorria: “Carece não, Sarita, a gente dá conta da nossa bagunça.” E que bagunça! A casa vivia cheia, a porta sempre aberta, gente entrando e saindo a qualquer hora, para pedir alguma coisa ou trazer um bolo ou alguma fruta esquisita, ou mesmo para coisa nenhuma. Crianças, então, só não eram mais numerosas e assíduas que as moscas, que exigiam se cobrir tudo o tempo todo na cozinha. Apavorada com aquele entra-e-sai, Sarita mantinha a mala fechada a cadeado debaixo da cama, uma trabalheira cada vez que ia pegar ou guardar alguma coisa. Preocupava-a também o carro, estacionado em frente, imaginava como ia devolvê-lo, provavelmente avariado ou “depenado”.
Apesar do incômodo da casa, Sarita evitava sair, usava como pretexto o livro chato que o seu clube de leitura escolhera aquele mês. Deu uma ou duas voltas pela “cidade”, para lhe mostrarem satisfeitos a pracinha, o coreto, a igreja, o posto onde ela trabalhava, a escola onde ele lecionava, tudo absolutamente desinteressante. Cumprimentavam todo mundo, paravam para conversar, enquanto ela só queria desaparecer, fugir daquele calorão, daquela poeira, daqueles olhares curiosos. “São quase todos negros”, estranhou, “não esperava, aqui no sertão, e de olhos azuis, alguns?” Mal ouviu a explicação da nora, algo sobre origem de quilombo, endogamia, doença congênita dos olhos. Só atentou para o final: “Sabe o que é mais interessante? É que a padroeira da cidade é exatamente Santa Luzia, que na tradição católica é a protetora da visão. Aliás, você vai poder assistir à festa dela, é na véspera da sua viagem.” “Que bom!” , Sarita exclamou entusiasmadíssima, deixou que pensassem que era pela festa, mas pensava mesmo era na viagem de volta. Já planejava as providências ao chegar ao Rio: pelo menos uns dez dias em Búzios para a Lygia consertar os estragos na pele e no corpo, uma longa visita ao cabeleireiro, o modo como contaria a visita às amigas, omitindo os detalhes vergonhosos.
Chegou enfim a véspera da ansiada volta à “civilização”; Enquanto empurrava a mala para debaixo da cama, depois de guardar a roupa que trocara, o filho chamou:“Vamos dar um pulinho na festa, mãe”; e praticamente a arrastou para fora. Seguiu-os como uma rês a caminho do matadouro; “ o último sacrifício”, pensou. Nem reclamou quando lhe puseram na cabeça um horrendo chapéu de palha: “Ainda muito sol lá fora”, disseram, como se ela não soubesse, não estivesse encharcada de protetor solar e hidratante há dias.
Sentou-se num banquinho do bar da esquina, enquanto os dois se misturaram à pequena multidão que tomava a praça. Uma banda desafinava no coreto e todos dançavam. Tensa, sob o sol ainda causticante do final da tarde, sentia-se imunda, fustigada pelo vento que a cada lufada trazia mais poeira, com todos aqueles pés se arrastando. De repente viu o filho acenando, animado: “Vem, mãe, vai rolar uma ciranda!” Levantou-se, pesada, dirigiu-se ao meio do burburinho e logo os perdeu de vista. Atordoada com o barulho, nauseada com o cheiro de suor, foi puxada, agarrada por mãos ásperas e calejadas, à direita e à esquerda.
No auge da irritação, soltou uma das mãos, arrancou o chapéu da cabeça, jogou-o ao chão. O vento o levou para o meio da roda. Envergonhada por ter perdido o autocontrole, Sarita olhou de esguelha para a mulher que apertava sua mão do lado esquerdo. A mulher abriu um enorme sorriso de poucos dentes e, num movimento rápido, puxou o lenço que trazia à cabeça e arremessou-o para dentro da roda, junto ao chapéu. Um homem do outro lado tirou o boné e jogou também. Uma moça tirou o colar de miçangas e fez o mesmo. Um rapaz jogou as sandálias. Cada um foi jogando algo de seu, era já um monte de chapéus, lenços, colares, sandálias, cintos, bolsas, tudo no meio da roda e todos dançando em volta, girando, girando, girando.
Sarita foi de repente invadida por uma onda gigantesca, um verdadeiro tsunami varrendo o que encontrava dentro dela: irritação, desconforto, mágoas, decepções, ressentimentos, inveja, raiva, intolerância, ciúme, despeito, frustrações. O corpo se abria e expelia aquilo tudo. A pele deixava de separá-la do mundo, suas mãos se acomodavam nas dos vizinhos, viravam um prolongamento delas. A roda era toda uma coisa só, serpenteava, se contraía, se expandia, os símbolos das individualidades abandonados ali no meio. Nunca sentira aquilo antes, tentava dar nome. Não achava palavra que definisse. Estava nua, leve, ainda era ela mas agora parte de algo muito maior, como se tivesse saído do corpo ou seu corpo englobasse tudo. Descerrou os lábios, aderiu ao coro, a onda lhe vinha à boca no canto do refrão.
A dança acabou, a roda se desfez, cada um pegou suas coisas e se afastou. Sarita pegou o chapéu, encontrou o filho, voltaram para casa. Pela primeira vez notou a rede na varanda, se recostou, e ali mesmo adormeceu. Só acordou no dia seguinte, ao ouvir os primeiros movimentos na cozinha. Aspirou o cheiro forte do café e do pão saindo do forno. Descalça, juntou-se a eles, saboreou o suco de graviola, regou a macaxeira cozida com a manteiga de garrafa que nem tinha experimentado antes, tudo sob o olhar intrigado do filho. Caiu na realidade quando ele falou. “ Tá quase na hora, mãe, vou levá-la ao aeroporto.” Respondeu sorrindo: “Carece não, filho, eu dou conta de chegar lá.” Acostumado à nem sempre muito fina ironia da mãe, ele se surpreendeu quando viu que a frase não vinha acompanhada do costumeiro risinho sarcástico. Ela foi se arrumar. Na saída, pegou o chapéu na rede onde o deixara:“Vocês se incomodam se eu levar esse chapéu?” Enlaçou a nora, sussurrou-lhe um “muito obrigada” ao ouvido. Abraçou o filho com força, sentindo seu corpo musculoso, tão diferente de quando o abraçava assim, ainda bebê.
Entrou no carro, ligou o ar e fechou as janelas, na força do hábito. Na esquina viu umas crianças brincando. Abriu a janela, deu-lhes adeus, todos abanaram as mãozinhas. Desligou o ar, não fechou mais as janelas. Pôs-se a acenar para todos que passavam , a pé ou a cavalo, de jegue ou bicicleta. E eles sempre acenavam de volta. Vontade de não acabar aquela estrada, não chegar nunca ao aeroporto.
Após a decolagem, Sarita abriu a bolsa à procura da maquilagem. Viu que tinha esquecido. Reclinou a poltrona e o corpo. Simplesmente sorriu. Estranhamente feliz.
RJ. setembro 2008
Mon, 01 Mar 2010 00:05:00 +0000
February 28, 2010 0:00 - no comments yetTITCHA
A vida de Raquel parecia tirada de um manual. Tudo como deve ser. Infância alegre e despreocupada, cercada de afeto e cuidados. Boa filha, educada e obediente. Boa aluna, inteligente e aplicada. Conheceu David desde criança, as famílias muito amigas freqüentavam a mesma sinagoga, o mesmo clube, iam às mesmas festas e eventos, faziam as mesmas viagens. O coleguinha virou namorado, noivo, marido. A festa de casamento, logo após o mestrado, foi uma confraternização geral. Depois saíram para o doutorado na Alemanha, ele em Física, ela em Filosofia.
Lecionavam agora na UNICAMP. Moravam numa bela casa na Cidade Universitária, alugada, enquanto aguardam a venda do apê do Rio para construir a sua, no terreno que compraram, e aí pensar em ter dois, talvez três filhos. Um quotidiano tranqüilo: acordar cedo, malhar um pouco no pequeno ginásio que montaram no pavilhão ao lado da piscina, dar um mergulho, caminhar para a Universidade, voltar para o almoço, ela preparando o prato principal, ele inventando saladas, retornar ao trabalho e, no final da tarde, pegar um filme ou sair para jantar, ler ou estudar um pouco e dormir, às vezes transar. Nos fins de semana, teatro ou concerto, jantar ou churrasco com os colegas de Departamento, de um ou do outro.
Bonita, Raquel dispensava vaidades. Os cabelos crespos, negros, contrastando com a pele muito clara, usava-os presos num coque displicente. Sempre bem arrumada, nem modernosa nem antiquada. Elegante, sóbria. Calça comprida ou saia midi, blusas de cambraia, linho ou seda, tudo em tons pastéis, preto, bege ou cinza.
Naquele semestre, Raquel começou a primeira aula do jeito habitual: pediu que cada aluno se apresentasse e relatasse sucintamente seus objetivos com o curso e como ele se encaixava no seu plano de estudos. Distribuiu então o programa para iniciar sua exposição de conteúdo, metodologia, critérios de avaliação. Foi interrompida pelo barulho da porta aberta de chofre por uma retardatária.
- Desculpe, gente, custei a achar – pediu, com as mãos postas como em oração.
Coloriu a sala toda. A face ainda avermelhada da corrida, os cabelos castanhos dourados caindo em desalinho sobre os ombros, uma mecha azul no meio, argola de madeira numa orelha, top grená cheio de brilhos e fitinhas, difícil saber como cabia tanto em tão pouco espaço, calça verde oliva manchada, amarrada na altura dos quadris por um cadarço, deixando o umbigo exibir o piercing e a tatuagem esquisita, tênis All-Star prateado, sacola de pano amarelo coberta de broches e adesivos.
Raquel levou um tempo para conseguir retomar a fala e a atenção dos alunos do sexo masculino. No final da aula, chamou-a. Não via seu nome na lista.
- É o seguinte, Titcha, posso te chamar assim? Gosto de estrupiar o inglês como os gringos fazem com nossa língua. Sou de outro curso, de Artes Cênicas. – esticou o corpo com um braço estendido em direção à porta, como se fosse puxar o prédio do Instituto de Artes até ali para provar. Soube de ti, do teu curso, queria fazer de ouvinte.
Raquel hesitou, ponderou. Ela não era da área, podia ter dificuldade de acompanhar, mas a turma não estava cheia. Cedeu. Período de experiência. Em um mês reavaliava.
- Obrigada, Titcha, vou ser tua melhor aluna. Adoro Filosofia! - Abraçou a si mesma. A música do sotaque gaúcho era pontuada o tempo todo por gestos. Era como se falasse com o corpo todo.
Tornou-se mesmo a melhor aluna. Brilhante, intuitiva. Questionava tudo. Tirava das leituras coisas que nem Raquel havia pensado. A aula começava quando ela chegava. Não andava, deslizava, como aquelas bailarinas russas. Raquel ia decifrando sua linguagem corporal. Para fazer uma pergunta, sentava-se sobre uma das pernas, balançando a outra, impaciente. Quando se empolgava com alguma idéia, punha os pés no assento, abraçando os joelhos junto ao corpo. Se discordava, dizia “não” com um braço à frente, acenando adeus com a mão aberta.
A conversa depois da aula, inaugurada no primeiro dia, virou rotina. Enquanto os outros alunos saíam, ela se acercava da mesa de Raquel, às vezes sentava em cima. Raquel já se demorava, arrumando livros e papéis, na expectativa. Tinha sempre um comentário sobre a aula, primeiro, depois sobre Raquel.
- Muito boa a aula hoje, Titcha. Mas me diz: por que tu prende o cabelo? Tão cacheado, ficava lindo solto. O rosto é o quadro, o cabelo a moldura. Não gosto de quadro sem moldura. – agitou os cabelos de um lado para o outro.
O que mais intrigava Raquel mesmo era o cheiro. Tentava definir. Não era perfume, que ela obviamente não usava. Era dela. Cheiro de flor, mas não de uma flor específica. Uma flor genérica. Cheiro da idéia de flor.
- Tinha achado pesado o texto de hoje,Titcha, com a discussão entendi melhor. Tá abafado hoje, né? Por que tu fecha a blusa até em cima? Eu acho importante manter o colo exposto, aberto para receber o que vier. A pior invenção do mundo foi a gravata, matou a sensibilidade dos homens. – com o queixo levantado, deslizou a mão do pescoço pelo colo, quase chegando aos seios.
Nesse dia estava com um vestido de crochê, cor de barbante. Quando se virou para sair, Raquel não conseguiu desgrudar os olhos das costas nuas, com apenas algumas tirinhas coloridas se cruzando atrás. Nunca usava nada por baixo. Dava para ver a ponta de outra tatuagem, parecida com a do umbigo, quase no rego das nádegas.
- Genial o paralelo que tu fez com a mitologia. Arrasou. Sabe? Eu queria ter o olho como o teu. Azul. Profundo. Merecia um realce. Nem precisa delineador, só o lápis. Assim, ó. – Fechou os olhos e aproximou o rosto para mostrar. A boca entreaberta, tão perto que Raquel teve que morder os lábios para contê-los.
Normalmente avessa a shoppings, Raquel começou a freqüentar um, esqueceu as butiques chiques do Cambuí. Comprava saias mais curtas, vestidos e blusas de cores vivas, decotadas. E cosméticos: passou a escolher com mais apuro batom, rímel, lápis, blush, delineador. Diminuiu o exercício matinal para ficar mais tempo se arrumando, escovando os cabelos que agora deixava livres, se olhando no espelho. David apreciava as mudanças. A mulher estava mais solta. Principalmente na cama. Um fogo que não conhecia. Tomava a iniciativa, queria sempre mais. O que não suspeitava é que quando transavam e Raquel fechava os olhos era a outra que ela abraçava, apertava forte para conter seus rodopios e trejeitos, lambia as tatuagens e piercings, beijava, tocava e possuía seu corpo inteiro.
Um dia não apareceu. A aula parecia se arrastar. Os alunos entorpecidos. Raquel vigiava a porta, ouvia sua própria voz monótona como se recitasse uma ladainha. Arranjou um pretexto e encerrou mais cedo. Não foi direto para casa. Deu uma volta para passar pela rua onde ficava sua “republiqueta”, como ela chamava a casa que dividia com algumas colegas.
Da esquina a viu com outra menina, sentadas na grama recostadas numa árvore e uma na outra, falando, rindo, tomando sorvete, de shortinho e camiseta. Se escondeu atrás da guarita do segurança, comprimindo a pasta contra o peito, pra não saber se a dor era da pressão ou do ciúme.
Na aula seguinte ela chegou mais cedo, com uma maçã na mão estendida. Raquel não pegou. Deixou que pusesse na mesa. Só perguntou por quê não viera na aula passada. Queria conhecer o gesto da mentira.
- Problemas em casa. – Coçou a ponta do nariz com o polegar e o indicador. Não gosta de maçã, Titcha? É da feira da pracinha. Aliás, nunca te vi lá, mas também vou quase no final, gosto de acordar tarde no sábado.
Raquel passou a ir à feirinha do sábado. Só que bem cedo, para não encontrá-la. Bastava-lhe saber que depois ela andaria pelo mesmo lugar, talvez tocaria as mesmas frutas.
Final do semestre. Ùltima aula. Raquel propôs que os alunos redigissem sua avaliação, comparando as expectativas do início com o resultado. Esperava ansiosa que acabassem para contar-lhe a novidade: que daria Filosofia e Arte no próximo semestre, que o Departamento ia oferecer a disciplina como eletiva para o curso dela (só não diria que a seu pedido), que ela poderia se matricular regularmente. Antevia sua alegria, sua excitação
Quando todos saíram, ela se debruçou sobre Raquel. Falou primeiro:
- Adivinha o quê, Titcha: vou pra França! Minha irmã vai fazer o doutorado lá, perguntou se quero ir, ajudar com a guria.
Raquel tentava achar o chão com os pés, sob a mesa.
- Que guria? – balbuciou.
- Minha sobrinha, filha dela. Eu já sou titia, não pareço? – Deu um giro completo com o corpo, braços abertos. Como se tias vivessem rodopiando em passarelas.
- Quando? – Raquel quase gaguejou.
- Quando eu virei tia? Ou quando eu vou pra França? Daqui a um mês, Titcha.
- Por quê? – Raquel não conseguiu evitar.
Ela se aproximou mais. Endireitou o corpo, se retesou, apagou o sorriso brejeiro. Como se tivesse virado mulher, de repente. Pela primeira vez falou seu nome:
- Na verdade ainda não decidi, Raquel. Queria tua opinião. É em Montpellier, tem um curso de Teatro ótimo, podia ser bom. Acho que aqui não posso ter o que mais quero, melhor me afastar. Não é assim que deve ser, Raquel? Mas se tu disser que não, eu não vou.
Raquel tentava se recompor. Procurava palavras:
- Pode ser uma boa idéia. Experiência. Sempre pode voltar se não gostar. Bom para aprimorar o Francês, também.
Baixou a cabeça e fingiu se concentrar nas anotações sobre a mesa, passar os conceitos finais para a caderneta, folhear as avaliações dos alunos. Quando levantou os olhos, ela não estava mais lá. Só o cheiro.
Raquel inspirou profundamente. Recolheu suas coisas, prendeu os cabelos com um lápis e saiu. Lá fora, sentiu frio, fechou a blusa até o pescoço, levantou a gola. Na volta para casa, teve que apressar o passo. Tinha escurecido de repente, parecia que ia cair um toró. Estava tudo cinza.
RJ, agosto 2008
Mon, 01 Mar 2010 00:03:00 +0000
February 28, 2010 0:00 - no comments yetVIAGENS
Depois de alguns encontros, basicamente jantares e teatro ou cinema, quando Mário a convidou para um fim-de-semana prolongado num resort em Olivença Sandra resolveu aceitar. Afinal de contas, já estava viúva e evitando todo tipo de relacionamento há mais de seis anos. Mário era advogado da firma onde trabalhava, viúvo e quarentão como ela, e aparentemente tinham muita coisa em comum. Quem sabe não poderia ser um recomeço?
Conversou com a filha, Camila, que só lhe pediu que dessa vez não tivesse que ir para a casa da avó, como sempre que a mãe viajava a trabalho. Apesar de ter apenas 16 anos, era uma pessoinha tão sensata e responsável que a mãe se sentiu confiante para concordar que ficasse sozinha no apartamento, não sem antes listar um monte de recomendações e conselhos. Preocupada principalmente com o fato de que haveria jogo da Copa naquele domingo, sugeriu que Camila não saísse, convidasse alguém para assistir com ela em casa: “Tem sempre muita bagunça, muito bêbado na rua nesses dias” – alertou.
Sandra não tinha muitas ilusões sobre o futuro da relação com Mário, mas estava cansada de ser acusada de ter desistido do amor, de recusar os encontros que as amigas armavam, amigas que lhe repetiam à exaustão que ela era uma mulher jovem e atraente, não podia ficar presa à memória do marido, etc. O problema é que, nas poucas vezes em que saiu com alguém, não conseguia evitar as comparações. E a imagem do marido, com o tempo, foi ficando cada vez mais idealizada, realçadas as qualidades, apagados os defeitos.
Se fora apaixonada por ele em vida, agora falava dele como um verdadeiro ídolo, homem formidável, sensível, educadíssimo, um “cavalheiro como não se vê mais”.
Pelo menos assim se justificava todo o tempo que desperdiçou da própria vida para cuidar dele. Vida que agora tentava recuperar, voltando a trabalhar, buscando se afirmar.
A viagem com Mário seria mais uma tentativa. E logo na ida começaram as decepções. Mário, que ela julgava extremamente gentil e educado, proveniente que era de uma rica família tradicional paulista, começou a se revelar já no avião, chamando a aeromoça a cada cinco minutos para pedir algo ou reclamar. No carro alugado para o trajeto de Ilhéus a Olivença ultrapassava em curvas e faixas contínuas, evitou um trecho engarrafado usando o acostamento, buzinava apressando um motorista mais cauteloso, irritava-se com qualquer obstáculo à sua passagem.
Quando chegaram ao resort, Sandra já ia abrir a mala no apartamento que reservaram , para pegar um biquine e correr para a praia defronte, mas Mário não gostou do apartamento, chamou a recepção, depois o gerente, e foi procurar um que achasse mais conveniente, e nisso levou mais de hora: de um não gostava da vista, noutro o colchão era muito mole, o banheiro do outro mal posicionado. Quando enfim se instalaram, o sol estava se pondo e Sandra, conformada com a tarde perdida, chamou-o para uma volta na praia, para apreciarem o crepúsculo. Mário tinha ligado a TV e se estirado na cama, propôs que deixassem para o outro dia, estava muito cansado.
Foi o fim-de-semana mais longo da vida de Sandra. Nada dava certo. Mário reclamava de tudo, tratava mal a camareira, mandava o prato voltar no restaurante, pois a carne estava sempre aquém ou além do ponto, a tal caminhada noturna era sempre adiada, porque tinha combinado um carteado com outros hóspedes ou porque preferia ficar no quarto bebericando, vendo TV ou “fazendo amor” – na verdade outro desastre: depois de algumas tentativas desajeitadas, ela, se sentindo uma pedra de gelo, insensível às suas carícias meio apressadas e grosseiras, pediu mil desculpas, que tinha avaliado mal, que ainda não estava pronta para aquilo. No fundo, tudo que ela queria era voltar para casa o mais rápido possível, antes que resolvesse nunca mais tentar de novo.
Camila, por sua vez, seguindo o conselho da mãe, chamou os colegas do cursinho para virem assistir o jogo em sua casa. Preparou tudo: salgadinhos, pipoca, refrigerantes, até um bolo de chocolate para comemorarem a vitória no final. Estava animada com a perspectiva de receber sozinha, desmanchando em parte a imagem que faziam dela, de menina certinha e grudada na mãe. Era com certeza muito séria e compenetrada, os colegas às vezes diziam que parecia uma velha. Dedicava-se integralmente aos estudos, rejeitando passeios no shopping, cinemas e “baladas”, preparando-se para o vestibular de Medicina, com o sonho de especializar-se em Psiquiatria, seguindo os passos do pai que idolatrava. Sofrera profundamente com sua doença e morte, sofrimento duplicado por ver a tristeza e desolação da mãe tão dedicada, o que o tornara até mais presente do que fora em vida, sempre ocupado, envolvido em estudos, congressos, etc, quase sem tempo para ela.
Tentou disfarçar seu susto quando viu que, ao saberem que sua mãe não estaria, os colegas que chamara trouxeram outros amigos e, quando deu por si, a casa estava cheia de gente e cada vez chegavam mais, trazendo cerveja, bandeirolas, cornetas, uma algazarra como aquela casa nunca vira. Esmerava-se para atender a todos, controlar a bagunça, nem conseguiu ver o jogo. E, mesmo quando o jogo acabou, ninguém ia embora. Ligaram o som bem alto, dançavam, bebiam , namoravam. Camila não sabia o que fazer, apenas se esforçava para acompanhar a alegria geral e não demonstrar preocupação.
Reparou que alguns tinham ido para o seu quarto, outros para o escritório, e, de repente, viu um grupo no quarto da mãe. Foi até lá pedir-lhes que voltassem à sala, mas estavam bem instalados, sorridentes, usando o tampo de vidro da mesinha de cabeceira para alinhar as fileiras de pó que se revezavam cheirando.
Camila já tinha feito uma concessão, rara para ela, passando do refrigerante para a cerveja que trouxeram, agora a chamavam para se juntar a eles. Num impulso que não soube explicar depois para si mesma, talvez por causa daquela vontade de mudar a imagem que faziam dela, ou pelo medo com as dimensões que a coisa toda ia tomando, aceitou. E ainda fumou um cigarro que lhe puseram nas mãos. Em pouco tempo, sentiu seu corpo tomado de uma grande excitação, um turbilhão, a cabeça zonza com toda aquela gente berrando, as risadas, a música alta. O barulho de um copo quebrando na sala foi a gota d’água. Começou a gritar, desligou o som, empurrou as pessoas para a porta sem ouvir os protestos, só ouvia sua própria voz:”Fora! Fora! Fora!”.
Quando conseguiu que todos saíssem, trancou as portas, andando frenética pela casa, fechando janelas, cortinas, agitadíssima. Tinha a impressão que a casa ia ser invadida. Arrastou o sofá para impedir a entrada pela porta da frente, barrou a porta de serviço com a mesa da cozinha, trancou-se no quarto da mãe, deitou-se em sua cama e escondeu-se sob a colcha. Ouvia ruídos estranhos: alguém tentando quebrar a janela para jogá-la do décimo andar; alguém cavando a parede para entrar pelo apartamento vizinho. Tremia de pânico, esperando pelo pior, suando em bicas, sem coragem de se levantar sequer para ligar o ar. Ainda estava ali toda encolhida quando acordou no dia seguinte, com uma baita dor de cabeça e um travo amargo na boca. Deu graças aos céus quando lembrou que a mãe só chegaria na terça. Pôs mãos à obra: começou a arrumar, varrer, lavar, esfregar, polir, chão, paredes, janelas, móveis, louça, cozinha, banheiro. A noite chegou e ela nem notou, não parava de limpar, trocar as roupas das camas, espanar até o teto, ela que nunca fizera mais que arrumar o próprio quarto, imitava o que via Celeste, a faxineira, fazer. A cada vez que parecia ter acabado, voltava ao quarto da mãe, que nunca lhe parecia suficientemente limpo, lustrava tudo de novo.
Quando Sandra entrou em casa, ficou impressionada. Camila explicou que deu um jeitinho na casa, depois que os amigos saíram, só pedia desculpas porque tinham quebrado um copo, mas ia achar outro igual, podia descontar da mesada. Sandra riu: “Um jeitinho? Um copo? E a economia que vou ter, dispensando a Celeste? Esta casa nunca esteve tão limpa!” As duas sentaram na copa, comendo o bolo de chocolate que restara intacto. Camila quis saber da viagem. E a mãe: “Maravilhosa! É lindo lá, podíamos ir nós duas, depois do vestibular!” “Ótimo, mãe, mas vai ter que ser rápido, que antes de começar a faculdade quero dar um tempo como voluntária numa entidade que trata de adolescentes viciados, que vi na Internet.”
Beijaram-se e cada uma foi para seu quarto. Dormiram felizes: Camila por ter a mãe reencontrado o amor, Sandra de orgulho pela maturidade da filha.
RJ, julho 2008


