<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"><channel><title>Feed RSS do(a) Anarquismo</title><link>http://cirandas.org/anarquismo</link><description>Conteúdo do(a) Anarquismo publicado no CIRANDAS</description><item><title>Bancos têm mais ajuda em um ano que países pobres em 50</title><description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS'; line-height: 18.720001220703125px;"&gt;por &lt;/span&gt;&lt;span style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline; font-family: 'Trebuchet MS'; line-height: 18.720001220703125px;"&gt;Gilson Monteiro, em &lt;a href="http://www.redebrasilatual.com.br/economia/2009/06/em-um-ano-bancos-receberam-mais-ajuda-que-paises-pobres-em-50"&gt;Jornal Brasil Atual&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Trebuchet MS'; line-height: 18.720001220703125px;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline; font-family: 'Trebuchet MS'; line-height: 18.720001220703125px;" class="documentPublished"&gt;&lt;span style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline;"&gt;publicado&lt;/span&gt; 26/06/2009&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: 'times new roman'; font-size: large; line-height: 22.713600158691406px;"&gt;&lt;img alt="Imagem: Reprodução" height="292" src="https://andradetalis.files.wordpress.com/2012/08/bancos-capitalismo-fome.jpg" width="400" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: 'times new roman'; font-size: large; line-height: 22.713600158691406px;"&gt;A indústria financeira internacional recebeu no último ano, quase dez vezes mais verba pública a título de ajuda do que as nações pobres em 50 anos. A constatação faz parte de um relatório divulgado na quarta-feira (24) pela Organização das Nações Unidas (ONU)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-family: 'times new roman'; font-size: large; line-height: 22.713600158691406px;"&gt;Segundo a ONU, que promove o cumprimento das metas do Milênio para o combate à pobreza no mundo, os países em desenvolvimento foram auxiliados em meio século com aproximadamente US$ 2 trilhões das nações ricas. Por outro lado, apenas neste último ano, os bancos ameaçados pela crise financeira receberam US$ 18 trilhões como ajuda pública.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;div&gt;
&lt;div style="margin: 1em 0.25em 2em; padding: 0px; vertical-align: baseline; line-height: 1.5em; clear: both; font-size: 12px; font-family: 'Times New Roman'; color: #000000;"&gt;
&lt;div style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline; font-size: 1.4em !important;"&gt;
&lt;div style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline;"&gt;
&lt;p style="margin: 0px 0px 1em; padding: 0px; vertical-align: baseline; line-height: 1.3em !important; font-family: 'times new roman' !important;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Para o professor de economia Ladislau Dowbor, erra-se ao pensar que é alimentando o mercado rico que o mundo sairá da crise. "A produtividade do dinheiro que vai para as mãos mais ricas é extremamente limitada quando não desorganizadora da economia", avisa. "Quando se faz saneamento básico, um real investido são quatro reais que se deixa de gastar com doenças. Portanto, não é enterrar dinheiro, é liberar recursos para dinamizar a economia", garante.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="margin: 0px 0px 1em; padding: 0px; vertical-align: baseline; line-height: 1.3em !important; font-family: 'times new roman' !important;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ladislau Doubor cita um documento do Banco Mundial &lt;a style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline; text-decoration: none; color: #000000; border-bottom-width: 0.1em; border-bottom-style: solid; border-bottom-color: #cccccc;" href="http://www.wri.org/publication/the-next-4-billion" class="external-link"&gt;&lt;em style="margin: 0px; padding: 0px; vertical-align: baseline;"&gt;The next 4 billion&lt;/em&gt;&lt;/a&gt; (Os próximos 4 bilhões, em tradução livre) para destacar ao desarranjo do direcionamento econômico. O texto simplifica o hiato gerado entre países ricos e pobres. O documento aponta que são quatro bilhões de pessoas do planeta fora do que chamam benefícios da globalização.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="margin: 0px 0px 1em; padding: 0px; vertical-align: baseline; line-height: 1.3em !important; font-family: 'times new roman' !important;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;"Quatro bilhões de pessoas são praticamente dois terços do planeta", pondera Dowbor. "A ruptura social planetária gerada em uma economia mundialmente desenvolvida para apenas um terço da população mundial se tornou um dos dois problemas centrais que ameaçam o planeta em suas mais variadas dimensões", sentencia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="margin: 0px 0px 1em; padding: 0px; vertical-align: baseline; line-height: 1.3em !important; font-family: 'times new roman' !important;"&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O relatório da ONU argumenta que a destinação do dinheiro ao desenvolvimento dos países mais pobres não é uma questão de falta de recursos, mas de vontade política. O texto observa ainda que a crise mundial piorará a situação das nações menos favorecidas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;
&lt;/div&gt;</description><pubDate>Tue, 22 Apr 2014 05:54:46 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/bancos-tem-mais-ajuda-em-um-ano-que-paises-pobres-em-50</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/bancos-tem-mais-ajuda-em-um-ano-que-paises-pobres-em-50</guid></item><item><title>Quais são os maiores pensadores anarquistas?</title><description>&lt;p&gt;
Embora Gerard Winstanley (&lt;b&gt;The New
Law of Righteousness&lt;/b&gt;, 1649) e William Godwin (&lt;b&gt;Enquiry Concerning Political
Justice&lt;/b&gt;, 1793) tenham sido os pioneiros na exposição da filosofia do anarquismo
nos séculos 17 e 18, foi apenas na segunda metade do século 19 que o anarquismo
emergiu como uma teoria coerente, com uma sistemática e um programa desenvolvido.
Este trabalho foi iniciado primeiramente por quatro pessoas -- um alemão, &lt;b&gt;&lt;i&gt;Max
Stirner&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; (1806-1856), um francês, &lt;b&gt;&lt;i&gt;Pierre-Joseph Proudhon&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
(1809-1865), e dois russos, &lt;b&gt;&lt;i&gt;Michael Bakunin&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; (1814-1876) e &lt;b&gt;&lt;i&gt;Peter
Kropotkin&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; (1842-1921). Eles captaram ideias que circulavam entre os trabalhadores
e as expressaram na forma escrita.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nascido na atmosfera da filosofia
  romantica alemã, o anarquismo de Stirner (especialmente em &lt;b&gt;The Ego and Its
  Own&lt;/b&gt;) manifestou-se em uma forma extremada de individualismo, ou &lt;b&gt;egoísmo&lt;/b&gt;,
  que colocava a unicidade individual acima de todas as coisas -- estado, propriedade,
  lei ou obediencia. Suas idéias se constituiram na pedra angular do anarquismo.
  Stirner atacou tanto o capitalismo como o estado socialista, sendo-lhe atribuido
  a fundação tanto do comunismo quanto do anarco-individualismo pelas suas críticas
  egoísticas ao capitalismo e ao estado que o apoia.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No lugar do capitalismo, Max Stirner
  propunha a &lt;i&gt;"união dos egoístas",&lt;/i&gt; associações de indivíduos únicos que
  cooperavam como iguais de forma a maximizar sua liberdade e satisfazer seus
  desejos (incluindo os emocionais como a solidariedade, ou "interelacionados"
  como Stirner os chamava).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O individualismo por definição não
  sugere nenhum programa concreto de mudança das condições sociais. Pierre-Joseph
  Proudhon foi o primeiro a qualificar abertamente a si mesmo como anarquista.
  Suas teorias como &lt;b&gt;mutualismo&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;federalismo&lt;/b&gt; exerceram um profundo
  efeito no crescimento do anarquismo como um movimento de massa mostrando claramente
  como o mundo anarquista poderia funcionar e ser coordenado. As ideias de Proudhon
  expõem as bases imediatas tanto para o anarquismo individual como para o social,
  com uma ênfase nos diferentes aspectos do mutualismo. Entre as obras mais importantes
  de Proudhon destacam-se &lt;b&gt;What is Property&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Economic Contradictions&lt;/b&gt;,
  e &lt;b&gt;The Political Capacity of the Working Classes&lt;/b&gt;.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Michael Bakunin, figura central no
  desenvolvimento das ideias e do ativismo anarquista moderno, enfatizou o papel
  do &lt;b&gt;coletivismo&lt;/b&gt;, da &lt;b&gt;insurreição em massa&lt;/b&gt;, e da &lt;b&gt;revolta espontanea&lt;/b&gt;
  na conquista da liberdade e de uma sociedade sem classes. Ele tambem enfatizou
  a natureza social da humanidade e da individualidade, rejeitando o individualismo
  abstrato do liberalismo como oposto à liberdade. Suas idéias tornaram-se dominantes
  no século 20 em largos setores do movimento operário radical. Muitas de suas
  idéias se identificam com o que mais tarde foi chamado de sindicalismo. Bakunin
  influenciou bastante o movimento sindical -- especialmente na Espanha, que deu
  lugar à maior revolução social anarquista. Em suas obras destacam-se &lt;b&gt;God
  and the State&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;The Paris Commune and the Idea of the State&lt;/b&gt;, entre
  várias outras. &lt;b&gt;Bakunin on Anarchism&lt;/b&gt;, editado por Sam Dolgoff é uma excelente
  coleção de seus melhores escritos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Peter Kropotkin, um cientista prático,
  elaborou uma análise anarquista detalhada e sofisticada das condições modernas
  prescrevendo uma ponte para uma futura sociedade -- &lt;b&gt;anarco-comunista&lt;/b&gt;
  -- que continua sendo a teoria mais preponderante entre os anarquistas. Ele
  identificou a &lt;b&gt;ajuda mútua&lt;/b&gt; como a melhor forma para o crescimento e o
  desenvolvimento dos indivíduos, definindo a competição entre &lt;b&gt;humanos&lt;/b&gt;
  (e outras espécies) como contrária aos seu melhor interesse e desenvolvimento.
  Entre suas melhores obras se destaca &lt;b&gt;Mutual Aid&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;The Conquest of Bread&lt;/b&gt;,
  &lt;b&gt;Fields, Factories, and Workshops&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Modern Science and Anarchism&lt;/b&gt;,
  &lt;b&gt;Act for Yourselves&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;The State: Its Historic Role&lt;/b&gt;, entre muitas
  outras.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As várias teorias apresentadas pelo
  "fundador do anarquismo" não são, contudo, mutuamente exclusivas: elas se interligam
  de muitas maneiras, e algumas partes se referem a diferentes níveis da vida
  social. O individualismo está estreitamente ligado à forma como conduzimos nossa
  vida privada: apenas pelo reconhecimento da individualidade e da liberdade dos
  outros e pelos agrupamentos resultantes é que nos tornamos capazes de nos proteger
  e maximisar nossa própria individualidade e liberdade; mutualismo tem a ver
  com as relações gerais de uns para com os outros: pelo trabalho mútuo conjunto
  e pela cooperação quando nos asseguramos que não trabalhamos para os outros.
  A produção sob o anarquismo seria coletivista, com as pessoas trabalhando juntas
  para si próprias, e para o bem comum, uma política social e diversificada que
  se extende comunalmente.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As idéias anarquistas naturalmente
  não pararam de se desenvolver com a morte de Kropotkin. Nem tampouco elas foram
  produto de apenas quatro homens. O anarquismo é pela sua própria natureza uma
  teoria em evolução, com mutos ativistas e pensadores diferentes uns dos outros.
  Dos muitos outros anarquistas que poderiam ser mencionados aqui, mencionamos
  apenas alguns deles.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nos Estados Unidos, Emma Goldman
  e Alexander Berkman foram os principais ativistas e pensadores. Goldman uniu
  o egoismo de Stirner com o comunismo de Kropotkin resultando uma apaixonada
  e poderosa teoria que combinava o bom com o melhor. Ela tambem situou o anarquismo
  no centro da teoria e do ativismo feminista (veja &lt;b&gt;Anarchism and Other Essays&lt;/b&gt;
  e &lt;b&gt;Red Emma Speaks&lt;/b&gt;). Alexander Berkman, parceiro de longa data de Emma,
  produziu uma introdução clássica das idéias anarquistas chamada &lt;b&gt;What is Communist
  Anarchism?&lt;/b&gt; (também conhecida como &lt;b&gt;ABC of Anarchism&lt;/b&gt;). Tanto ele como
  Goldman foram expulsos para os EEUU pelo governo da Russia após a revolução
  de 1917 quando foram considerados perigosos demais para permanecerem na "terra
  da liberdade". Voltairine de Cleyre tambem exerceu um importante papel no movimento
  anarquista norte-americano, enriquecendo tanto os EEUU como a teoria anarquista
  internacional com seus artigos, poemas e discursos. Em sua obra estão alguns
  clássicos como &lt;b&gt;Anarchism and American Traditions&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;Direct Action&lt;/b&gt;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Itália, pelo seu dinâmico e forte
  movimento anarquista, produziu alguns dos melhores escritores anarquistas. Errico
  Malatesta passou mais de 50 anos lutando pelo anarquismo ao redor do mundo e
  seus escritos estão entre os melhores da teoria anarquista (veja &lt;b&gt;Anarchy&lt;/b&gt;
  ou &lt;b&gt;The Anarchist Revolution&lt;/b&gt; e &lt;b&gt;Malatesta: Life and Ideas&lt;/b&gt;, ambos
  editados por Vernon Richards). Luigi Galleani sugeriu um poderoso anarco-comunismo
  anti-organizacional que proclamava que o &lt;i&gt;"Comunismo é simplesmente uma fundação
  econômica na qual o indivíduo tem a portunidade de regular a si mesmo e executar
  suas funções."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The End of Anarchism?&lt;/b&gt;] Camillo Berneri, antes de
  ser assassinado pelos comunistas durante a Revolução Espanhola, dava continuidade
  à sua excelente tradição crítica, anarquismo prático associado com o anarquismo
  italiano.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se alguém levou o anarco-individualismo
  até as últimas consequencias esta pessoa foi Ben Tucker, sem dúvida o "rei"
  do anarco-individualismo. Tucker em seu livro &lt;b&gt;Instead of Book&lt;/b&gt; usou seu
  intelecto e inteligência para atacar todos aqueles que ele considerava inimigos
  da liberdade (na maioria capitalistas, inclusive alguns anarquistas sociais!).
  Tucker foi acompanhado por Lawrence Labadie, que prosseguiu com a chama do anarco-individualismo
  depois da morte de Tucker, acreditava &lt;i&gt;"que a liberdade em todos os caminhos
  da vida é a melhor maneira de alçar a raça humana à condição de felicidade."&lt;/i&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não há dúvidas de que o russo Leo
  Tolstoy é o mais famoso escritor relacionado ao anarquismo religioso, e foi
  ele quem exerceu maior impacto na disseminação das ideias espirituais e pacifistas
  associadas com sua tendencia. Influenciando pessoas notáveis como Gandhi e o
  &lt;b&gt;&lt;i&gt;Catholic Worker Group&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; ligado a Dorothy Day, Tolstoy apresentou
  uma interpretação radical do cristianismo que implicava em responsabilidade
  individual e liberdade em oposição ao autoritarismo e à hierarquia que caracteriza
  muitos dos fundamentos do cristianismo. A obra de Tolstoy, como a de outros
  radicais libertários cristãos como William Blake, tem inspirado muitos cristãos
  em torno da visão libertária da menságem de Jesus, idéia que está crescendo
  nas igrejas. Este anarco-cristianismo sustenta, como Tolstoy, que &lt;i&gt;"o Cristianismo
  em seu verdadeiro sentido significa o fim do governo"&lt;/i&gt; (veja, por examplo,
  a obra de Tolstoy em &lt;b&gt;The Kingdom of God is within you&lt;/b&gt; e Peter Marshall
  em &lt;b&gt;William Blake: Visionary Anarchist&lt;/b&gt;).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Recentemente, Noam Chomsky (em &lt;b&gt;Deterring
  Democracy&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Necessary Illusions&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;World Orders, Old and New&lt;/b&gt;
  entre outros) e Murray Bookchin (&lt;b&gt;Post-Scarcity Anarchism&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;The Ecology
  of Freedom&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Towards an Ecological Society&lt;/b&gt;, e &lt;b&gt;Remaking Society&lt;/b&gt;,
  entre outros) colocaram o movimento anarquista social como ponta de lança da
  análise e da teoria política. A obra de Bookchin posiciona o anarquismo no centro
  do pensamento humano, constituindo-se um constante perigo para aqueles que sopram
  mistificação ou tentam corromper o movimento para criar uma sociedade ecológica.
  Colin Ward em &lt;b&gt;Anarchy in Action&lt;/b&gt; que de alguma forma atualiza &lt;b&gt;Mutual
  Aid &lt;/b&gt;de Kropotkin, expõe e documenta a natureza anarquista na vida diária
  sob o capitalismo. Esta obra enfatiza a importancia da auto-ajuda coletiva em
  oposição à dupla malévola da privatização e da nacionalização.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Poderíamos nos extender mais; há
  muito mais escritores que poderiam ser mencionados. Mas por trás deles, existem
  milhares de militantes anarquistas "comuns" que nunca escreveram livros mas
  cujo bom senso e atitudes alimenta o espírito da revolta dentro da sociedade
  e ajudam a construir um novo mundo na casca do velho. Conforme Kropotkin declarou,
  &lt;i&gt;"o anarquismo nasceu &lt;b&gt;entre as pessoas&lt;/b&gt;; e continuará a ser pleno de
  vida e de poder criativo enquanto houver pessoas."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Kropotkin's Revolutionary
  Pamphlets&lt;/b&gt;, p. 146]&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 16:38:55 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/quais-sao-os-maiores-pensadores-anarquistas</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/quais-sao-os-maiores-pensadores-anarquistas</guid></item><item><title>Quantos tipos de anarquismos existem?</title><description>&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca3int"&gt;&lt;/a&gt;Introdução&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Anarquistas, em geral
podem ser caracterizados por algumas idéias chave, podem ser agrupados em diversas
categorias, dependendo da organização econômica a qual consideram ser a mais determinante
para a liberdade humana. Contudo, todos os tipos de anarquistas possuem uma base
comum. Segundo Rudolf Rocker:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
  &lt;i&gt;"De acordo com os fundadores do Socialismo, os anarquistas almejam a abolição
  de todos os monopólios econômicos, e a propriedade coletiva da terra e de todos
  os meios de produção, para que estejam a disposição de todos sem distinção;
  a liberdade pessoal e social é concebível apenas em uma base de igualdade econômica
  para todos.&lt;/i&gt;
  &lt;p&gt;&lt;i&gt;Dentro do movimento
    socialista os anarquistas adotam o ponto de vista de que a guerra contra o
    capitalismo precisa ser ao mesmo tempo uma guerra contra todas as instituições
    que representam alguma forma de poder político, pois a história da exploração
    econômica sempre andou lado a lado com a opressão política e social. A exploração
    do homem pelo homem e a dominação do homem sobre o homem são inseparáveis,
    uma não existe sem a outra." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Anarcho-Syndicalism&lt;/b&gt;, pp. 17-18]&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
  Estes são os pontos em que os anarquistas concordam. As diferenças mais visíveis
  estão entre os anarquistas &lt;b&gt;&lt;i&gt;"individualistas"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;e&lt;i&gt;&lt;b&gt;"sociais"&lt;/b&gt;,
  &lt;/i&gt;embora a idealização das concepções econômicas de cada um não sejam mutuamente
  exclusivas. Dos dois, os anarquistas sociais (comunistas-anarquistas, anarco-sindicalistas
  e outros) sempre se constituiram na vasta maioria, sendo que o anarquismo individual
  ficou mais restrito aos Estados Unidos.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nesta seção mostramos
  as diferenças que permeiam o movimento anarquista. Para deixar claro, tanto
  o anarquismo social como o anarquismo individual ambos se opõem ao estado e
  ao capitalismo, a discordancia se situa na natureza da futura sociedade livre
  (e em como ela será alcançada)
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resumidamente, os
  anarquistas sociais preferem soluções comunais para os problemas sociais e visões
  comunais de uma sociedade ideal (isto é, uma sociedade que protege e encoraja
  a liberdade dos indivíduos). Anarquistas individualistas, como o nome sugere,
  preferem soluções individuais e tem uma visão mais individualista dessa sociedade.
  Contudo, precisamos não esquecer que tais diferenças de ambas as escolas não
  ocultam o que elas tem em comum, principalmente o desejo de maximizar a liberdade
  individual e acabar com a exploração, o dominio estatal e o capitalistado.
  &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além dessa discordância,
  os anarquistas também discordam em assuntos como sindicalismo, pacifismo, "estilo
  de vida", direitos animais e outras idéias, mas estes pontos, embora importantes,
  são apenas diferentes aspectos do anarquismo.  Neste contexto de idéias
  chaves, o movimento anarquista (como a própria vida) está em constante estado
  de mudança, discussão e pensamento -- o que é de se esperar em um movimento
  cujo valor mais alto é a liberdade. &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Colocando nossas
  cartas na mesa, os escritores deste FAQ consideram-se a si mesmos como da parte
  "social" do anarquismo. Isto não significa que nós desprezamos as muitas importantes
  idéias associadas com anarquismo individualista, apenas achamos que o anarquismo
  social é mais apropriado para a sociedade moderna, e que ele cria uma forte
  base para a liberdade individual, e que mais reflete o tipo de sociedade que
  nós gostaríamos de viver. &lt;br&gt;

   
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca31"&gt;&lt;/a&gt;Quais são as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais?&lt;/h2&gt;
Existe uma tendência
ao individualismo em ambos os campos uma vez que ambos rejeitam qualquer tipo
de estado, as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais não são muito
grandes. Ambos são anti-estado, anti-autoritarios e anti-capitalistas. As maiores
diferenças estão na forma.
&lt;p&gt;A primeira linha
  de pensamento refere-se ao significado da ação no aqui e no agora (e quanto
  à maneira em que a anarquia será aplicada). &lt;br&gt;
  Individualistas geralmente preferem educação e a criação de instituições alternativas,
  como fundos de ajuda mútua, sindicatos, comunas, etc. Geralmente defendem greves
  e outras formas não violentas de protesto social (como boicotes, não pagamento
  de impostos e coisas assim).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tais atividades,
  argumentam, ajudarão a presente sociedade gradualmente a se afastar de qualquer
  sistema de governo em direção a um auto-governo anarquista. &lt;br&gt;
  Inicialmente evolucionistas, não revolucionários, os anarquistas sociais passaram
  a adotar táticas de ação direta pra criar situações revolucionárias. Eles consideravam
  a revolução conflitante com os princípios anarquistas por envolver a expropriação
  da propriedade capitalista e, portanto, meios autoritários.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois dariam de
  volta à sociedade toda a riqueza subtraída dessa sociedade pela propriedade
  dos meios de produção em um novo e alternativo sistema econômico, baseado em
  fundos de apoio mútuo [mutual banks] e cooperativas. Dessa forma, seria efetuada
  uma "liquidação social" com o anarquismo sendo implantado pela reforma e não
  pela expropriação. &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A maioria dos anarquistas
  sociais reconhecem a necessidade da educação e de criar alternativas (como sindicatos
  libertários), mas qualquer desacordo nesse campo por si só é suficiente. Eles
  não acreditam que o capitalismo possa ser reformado peça por peça até chegar
  no anarquismo, embora eles não ignorem a importancia das reformas para a luta
  social incremente as tendências sociais sobre o capitalismo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isso não significa
  que o pensamento revolucionário esteja em contradição com os princípios anarquistas,
  da mesma forma que não é autoritarismo destruir a autoridade (seja ela estatal
  ou capitalista). A expropriação da classe capitalista e a destruição do estado
  pela revolução social é um ato libertário, não autoritarias, ato tão natural
  quanto se opor àqueles que governam e exploram a vasta maioria.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com efeito, os anarquistas
  sociais são em geral evolucionistas &lt;b&gt;e&lt;/b&gt; revolucionários, tentando fortalecer
  as tendências libertárias dentro do capitalismo ao mesmo tempo em que tentam
  aboli-lo pela revolução social. Embora alguns anarquistas sociais sejam exclusivamente
  evolucionistas, este fato não se constitui por si só na diferença mais importante
  entre anarquistas e individualistas. &lt;br&gt;
   

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A segunda maior diferença
  relaciona-se à forma como a economia anarquista é proposta. Individualistas
  preferem um sistema de distribuição [com base no mercado] voltado para o sistema
  anarquista [com base na necessidade] social. &lt;br&gt;
  Ambos concordam que o atual sistema de direitos de propriedade capitalista precisa
  ser abolido e o direito de uso precisa substituir os direitos de propriedade
  (isto é, a abolição do aluguel, do juro e dos lucros, da &lt;i&gt;"usura"&lt;/i&gt;, o termo
  preferido pelos anarquistas individualistas para esta maldita trindade).
  &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com efeito, ambas
  as escolas se baseiam na obra clássica de Proudhon &lt;b&gt;Que é Propriedade?&lt;/b&gt;
  e argumentam que a posse substitui a propriedade em uma sociedade livre (veja
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB3.htm"&gt;seção B.3&lt;/a&gt; para
  uma discussão de pontos de vista anarquistas sobre a propriedade).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Diante da bandeira
  dos direitos de uso, as duas escolas do anarquismo propõem sistemas diferentes.
  O anarquismo social em geral defende a autogestão comunal (ou social) e uso.
  Isto envolveria autogestão social dos meios de produção e distribuição, com
  possessões pessoais significando coisas de uso, mas não aquilo que foi usado
  para criá-las (&lt;i&gt;"seu relógio é seu relógio, mas a fábrica de relógios pertence
  ao povo."&lt;/i&gt; [Alexander Berkman, &lt;b&gt;The ABC of Anarchism&lt;/b&gt;, p. 68])
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;"O uso efetivo,"
  argumenta Berkman, "será considerado o único documento -- não apenas para a
  autogestão mas também para a posse. A organização de carvão mineral, por exemplo,
  estará a cargo dos mineiros de carvão, não como proprietários mas como agentes
  operacionais . . . A posse coletiva, administrada cooperativamente no interesse
  da comunidade, tomará o lugar da gestão privada conduzida pelo lucro." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 69]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este sistema seria
  baseado em trabalhadores autogestionados em seu trabalho e (para a maioria dos
  anarquistas sociais) a libre distribuição do fruto do trabalho (isto é, um sistema
  econômico sem dinheiro). Alguns anarquistas sociais, como os mutualistas, são
  contra esse sistema de comunismo libertário (ou livre), mas, em geral, a grande
  maioria dos anarquistas sociais almejam o fim do dinheiro e, consequentemente,
  da compra e da venda.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em contraste, os
  anarquistas individualistas acham que esse sistema de direitos de usufruto incluem
  o produto de seu trabalho. Defendendo uma gestão social, anarquistas individualistas
  propõem um sistema baseado no mercado em que trabalhadores possam dispor de
  seus próprios meios de produção e trocar o produto de seu trabalho livremente
  com outros trabalhadores. Eles argumentam que isto não se trata de capitalismo,
  mas do verdadeiro mercado livre.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com o tempo, os capitalistas
  através do estado distorceram o mercado pra criar e proteger seu poder econômico
  e social (disciplina do mercado para as classes trabalhadoras, em outras palavras,
  ajuda estatal para as classes dominantes). Este estado criou monopólios (de
  dinheiro, terras, tarifas e patentes) e a proteção dos direitos de propriedade
  capitalista pelo estado que constituem o suporte das desigualdades econômicas
  e da explortação.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com a abolição do
  governo, uma &lt;b&gt;real&lt;/b&gt; livre competição resultaria e significaria o fim do
  capitalismo e da exploração capitalista (veja o ensaio de Benjamim tucker &lt;b&gt;State
  Socialism and Anarchism&lt;/b&gt; como um excelente sumário deste argumento).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas individualistas
  argumentam que os meios de produção (terras trabalhadas) são o produto do trabalho
  individual e apenas eles estão habilitados a vender os meios de produção que
  eles usam, se desejarem. Contudo, eles rejeitam o direito de propriedade capitalista
  e defendem um sistema de &lt;i&gt;"ocupação pelo uso".&lt;/i&gt; Se os meios de produção,
  como a terra, não estão sendo usados, passarão a ser de propriedade comunal
  a disposição dos interessados para uso. Eles imaginam este sistema, chamado
  de mutualismo, como o consequencia do controle dos trabalhadores na produção
  e o fim da exploração capitalista e da usura.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta segunda diferença
  é a mais importante. Os individualistas temem ser forçados a participar de uma
  comunidade e com isso perder sua liberdade (incluindo a liberdade de trocar
  livremente seus produtos uns com os outros).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Max Stirner colocou
  sua posição com clareza quando argumentou que &lt;i&gt;"O comunismo, pela abolição
  de toda propriedade pessoal, me tornará ainda mais dependente dos outros, tanto
  no geral como no coletivo. . .", uma condição que vai tolher a liberdade de
  meus movimentos, um poder invisível sobre mim. O comunismo revolta pela pressão
  que exerce contra a propriedade individual, mas muito mais horrível é este poder
  colocado nas mãos da coletividade." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The Ego and Its Own&lt;/b&gt;, p. 257]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Proudhon também argumentou
  contra o comunismo, afirmando que a comunidade torna-se o proprietário sob o
  comunismo e que tanto o capitalismo como o comunismo são baseados na propriedade
  e portanto na autoridade (veja a seção &lt;i&gt;"Características do comunismo e da
  propriedade"&lt;/i&gt; em &lt;b&gt;Que é Propriedade?&lt;/b&gt;)Tanto os anarquistas individualistas
  argumentam que a gestão social coloca a liberdade individual em perigo como
  uma forma de comunismo que submete o indivíduo à sociedade ou à comuna.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eles temem que, através
  de uma forma de moralidade individual, a socialização neutralize o controle
  dos trabalhadores, passando essa "sociedade" a lhes dar órdens sobre o que produzir
  e o que fazer com o produto de seu trabalho. De qualquer forma, isso reforça
  o argumento de que o comunismo ou a gestão social em geral seria muito parecido
  com o capitalismo, atraves da exploração e da autoridade dos gestores repassados
  àquela "sociedade".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desnecessário dizer
  que os anarquistas sociais não concordam com isso. Eles argumentam que os comentários
  de Stirner e Proudhon estão totalmente corretos --  mas apenas no que diz
  respeito ao comunismo autoritário.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conforme Kropotkin
  argumenta, &lt;i&gt;"antes e em 1848, a teoria [do comunismo] foi colocada em cheque
  por Proudhon no que diz respeito a seus efeitos sobre a liberdade. A velha idéia
  de Comunismo como sendo um amontoado de comunidades monásticas sob o governo
  de velhos ou de homens da ciência. O último vestígio de liberdade e da energia
  individual seria destruido, se a humanidade se tornasse esse tipo de comunismo."&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Faça você mesmo&lt;/b&gt;, p. 98] Kropotkin sempre defendeu o anarco-comunismo
  tal qual despontou a partir de 1870, é importante destacar que Proudhon e Stirner
  não podem ser considerados frontalmente contra coisas às quais eles não tinham
  familiaridade.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mesmo que se submetesse
  o individuo à comunidade, os anarquistas sociais argumentam que a &lt;i&gt;autogestão
  &lt;/i&gt;comunal proveria as eventuais necessidades de proteção à liberdade individual
  em todos os aspectos da vida pela abolição do poder da propriedade privada,
  em todas suas formas e manifestações. Além do mais, mesmo que fosse abolida
  &lt;b&gt;toda&lt;/b&gt; a "propriedade", o anarco-comunismo reconheceria a importancia da
  posse e do espaço individual. Tanto que Kropotkin arguia contra formas de comunismo
  que
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;"Administrar uma
  comunidade sob o modelo de vida familiar... todos na mesma casa e ... forçar
  seus membros a encontrar-se continuamente com os mesmos 'irmãos e amigos'...
  é um erro fundamental pois impõe a todos a 'grande família' e não consegue garantir
  uma maior liberdade, nem um lar para cada indivíduo."&lt;/i&gt;&lt;b&gt;[Small Comunal Experiments
  and Why They Fail, &lt;/b&gt;pp. 8-9&lt;b&gt;] &lt;/b&gt;O alvo do anarco-comunismo é, citando
  o próprio Kropotkin, um lugar onde "os frutos da produção estão a disposição
  de todos, tendo cada um a liberdade para consumi-los e disponibilizá-los em
  sua própria casa." &lt;b&gt;[The Place of Anarchism in the Evolution of Socialist
  Thougtht, &lt;/b&gt;p. 7] -- Esse espaço para a expressão individual, tanto no consumo
  como na produção, tem sido amplamente apoiado por trabalhadores autogestionados.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para o anarquista
  social, a oposição do anarquista individualista ao comunismo é válida apenas
  no que diz respeito ao Estado ou ao Comunismo autoritário e ignora a natureza
  fundamental do anarco-comunismo. Anarco-comunistas não sufocam a individualidade
  com a comunidade mas pelo contrário usam a comunidade para defender a individualidade.
  Em vez de a "sociedade" controlar o individuo, o anarco-individualista a protege,
  o anarquismo socia caracteriza-se pela importancia que dá à individualidade
  e à expressão individual:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt; &lt;br&gt;
  "O anarco-comunismo preserva a mais valorosa de todas as conquistas -- a liberdade
  individual -- e mais do que isso, a amplia e dá a ela uma base sólida -- liberdade
  econômica -- sem a qual a liberdade política é uma ilusão; ela não pede ao indivíduo
  para que rejeite deus, a tirania universal, o deus rei, o deus parlamento, para
  dar a si mesmo um deus mais terrível que seus predecessores -- o deus Comunidade,
  ou abdicar de sua própria independência, de seu futuro, de seus desejos. Pelo
  contrário, 'nenuma sociedade é livre enquanto houver um indivíduo que não o
  seja!. . . '" [&lt;b&gt;Op. Cit., pp&lt;/b&gt;. 14-15]&lt;/blockquote&gt;
Acrescente-se a isto
que os anarquistas sociais sempre reconheceram a necessidade da coletivização
voluntária. Se as pessoas desejam trabalhar para si mesmas, isto não é visto como
um problema (veja Kropotkin em &lt;b&gt;A Conquista do Pão&lt;/b&gt;, p. 61 e &lt;b&gt;Faça Você
Mesmo&lt;/b&gt;, pp. 104-5 e Malatesta em &lt;b&gt;Vida e Idéias&lt;/b&gt;, p. 99 e p. 103). Para
os anarquistas sociais uma associação existe apenas o benefício dos indivíduos
que a compõem; estes são os meios pelos quais as pessoas cooperam visando satisfazer
as necessidades comuns. Portanto, &lt;b&gt;todos&lt;/b&gt; os anarquistas enfatizam a importancia
da livre associação como a base de uma sociedade anarquista. Nisto todos concondam
com Bakunin:

&lt;p&gt;&lt;i&gt;"Em uma comunidade
  livre, o coletivismo pode apenas surgir em função da pressão das circunstancias,
  não da imposição de cima mas pela livre movimentação expontânea de baixo." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Bakunin
  e Anarquismo&lt;/b&gt;, p. 200]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se individualistas
  desejam trabalhar para si mesmos e trocar seus bens uns com os outros, os anarquistas
  sociais não fazem nenhuma objeção. Uma vez que essas duas formas de anarquismo
  não são mutuamente exclusivas. Os anarquistas sociais apoiam o direito dos indivíduos
  &lt;b&gt;não &lt;/b&gt;comungarem na comuna enquanto Anarquistas Individualistas e reconhecem
  o direito desses indivíduos se organizarem entre si em suas associações comunísticas.
  Contudo, se, em nome da liberdade, um indivíduo exigir direitos de propriedade
  baseado na exploração do trabalho dos outros, os anarquistas sociais deverão
  rápidamente se opor a esta tentativa de recriação do estatismo em nome da "liberdade".
  Anarquistas não respeitam a "liberdade" de ser um governante! Nas palavras de
  Luigi Galleani: &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"No less
  sophistical is the tendency of those who, under the comfortable cloak of anarchist
  individualism, would welcome the idea of domination . . . But the heralds of
  domination presume to practice individualism in the name of their ego, over
  the obedient, resigned, or inert ego of others."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The End of Anarchism?&lt;/b&gt;,
  p. 40]&lt;/blockquote&gt;

Para os anarquistas
sociais, a ideia de que os meios de produção possam ser vendidos implica no risco
de que a propriedade privada possa ser reintroduzida em uma sociedade anarquista.
Em um livre mercado, alguns vingam outros falham. Se os competidores "fracassados"
virarem desempregados eles poderiam vender seu trabalho para os "bem sucedidos"
para poderem sobreviver. Isto criaria uma relação social de autoritarismo e de
dominação via "livre contrato". A obrigatoriedade do cumprimento de tais contratos
(ou coisa parecida), em todos seus aspectos, &lt;i&gt;"abriria... o caminho para a reconstrução
das bases daquilo que chamamos de Estado"&lt;/i&gt;[Peter Kropotkin, &lt;b&gt;Kropotkin's
Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, p. 297]
&lt;p&gt;Benjamim Tucker,
  o anarquista mais influenciado pelas idéias do liberalismo e do livre mercado,
  tambem enfrentou os problemas associados com todas as escolas do individualismo
  abstrato -- particularmente, a aceitação das relações sociais autoritarias como
  uma expressão de "liberdade". Há uma certa semelhança disto com as relações
  entre a propriedade e o estado. Tucker argumentava que o estado se caracterizava
  por dois aspectos: a agressão e &lt;i&gt;"a imposição da autoridade sobre uma determinada
  área e tudo que diz respeito a ela, é geralmente exercida com um duplo propósito:
  a mais completa opressão aos opositores e extensão de seus domínios". &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Instead
  of a Book&lt;/b&gt;, p. 22]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contudo, os produtores
  e os fazendeiros também tinham autoridade sobre uma determinada área (a propriedade
  em questão) e de tudo que estava sobre ela (trabalhadores e feitores), com a
  diferença que o controle formal das ações dos trabalhadores era regulada por
  leis estatais. Em outras palavras, a produção individual &lt;i&gt;autogestionária&lt;/i&gt;
  em tais relações sociais é como se fosse um mini-estado, uma vez que origina-se
  de uma mesma base (o monopólio do poder sobre uma determinada área e sobre aqueles
  que a utilizam)

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas sociais
  argumentam que a aceitação do isolamento dos Anarquistas Individualistas e de
  suas concepções individualistas de liberdade individual podem desaguar num obstáculo
  à liberdade individual pela criação de relações sociais que são essencialmente
  autoritárias e estatistas por natureza. &lt;i&gt;"Os individualistas, &lt;/i&gt;argumenta
  Malatesta, &lt;i&gt;dão uma grande importancia a um conceito abstrato de liberdade
  e erram quando não levam isso em consideração, esquecendo que o fato da real
  e concreta liberdade advem da cooperação solidária e voluntária." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The
  Anarchist Revolution&lt;/b&gt;, p. 16] Esse procedimento coloca o trabalhador num
  nível e o administrador em outro, o cidadão num nível e o estado em outro, um
  sob o domínio  e sujeição do outro. Da mesma forma o capataz e o fazendeiro.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esse tipo de relacionamento
  social não é em nada positivo e reproduz outros aspectos do estado. Conforme
  disse Albert Meltzer, isto pode parecer inóquo mas tem sérias implicações, porque
  &lt;i&gt;"a escola de Benjamim Tucker -- em função de seu individualismo -- aceita
  a necessidade da polícia para reprimir greves tanto quanto para garantir a "liberdade"
  dos empregados. Coisas como essas são aceitas pelos Individualistas confessos...
  a necessidade da força policial, de governo, só que a primeira definição de
  anarquismo é &lt;b&gt;sem governo.&lt;/b&gt;" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Anarchism: Arguments For and Against&lt;/b&gt;,
  p. 8] Isto explica em parte porque os anarquistas sociais defendem a gestão
  social como a melhor maneira de protejer a liberdade individual.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aceitando a gestão
  individual este problema pode apenas ser "adiado" pela aceitação, como fez Proudhon
  (o suporte das idéias econômicas de Tucker), da necessidade de cooperativas
  para abrir espaços de trabalho que requer mais de um trabalhador. Isto naturalmente
  complementa seu apoio pela &lt;i&gt;"ocupação e uso"&lt;/i&gt; da terra, que efetivamente
  aboliria os senhores da terra. Apenas quando as pessoas que usam um suporte
  próprio isto pode fazer com que a gestão individual não resulte em autoridade
  hierarquica (i.e. estatismo/capitalismo). Esta solução, conforme indicado na
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secGcon.htm"&gt;seção G&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;é uma das coisas
  que os Anarquistas Individualistas aprovam. Por exemplo, encontramos Joseph
  Labadie escrevendo para seu filho aconselhando-o a evitar qualquer forma de
  &lt;i&gt;"dominação sobre os outros" &lt;/i&gt;[citado por Carlotta Abderson, &lt;b&gt;All American
  Anarchist&lt;/b&gt;, p. 222] Como Wm. Gary Kline acertadamente observa, os anarquistas
  individualistas dos US &lt;i&gt;"fazem suas pontuações a partir de uma sociedade com
  pleno emprego e com nenhuma disparidade significante na distribuição da riqueza"
  &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The Individualist Anarchists&lt;/b&gt;, p. 104] É nesta visão de uma sociedade
  de pleno emprego que tais idéias se tornam verdadeiramente anarquistas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando os individualistas
  atacam a "usura", eles não levam em consideração o problema da acumulação do
  capital, que resulta em uma barreira &lt;b&gt;natural&lt;/b&gt; que é a introdução do mercado,
  dessa forma recriam a usura em novas formas (veja seção C.4 &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC4.htm"&gt;"Por
  que o mercado foi dominado pelas grandes corporações?"&lt;/a&gt;) ancorar um "livre
  mercado" em bancos, como defende Tucker e outros Anarquistas Individualistas,
  poderia resultar no domínio de alguns grandes bancos, cujo interesse econômico
  direto em apoiar capitalistas seria maior que simplesmente investir em cooperativas
  (que lhes dariam mais retorno que as cooperativas). A única solução real para
  esse problema seria através de uma comunidade autogestionária que administrasse
  os bancos, como originalmente desejou Proudhon.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É a percepção dessa
  semente de economia capitalista que faz com que os anarquistas sociais rejeitem
  o anarquismo individualista em favor do comunalismo, da descentralização, e
  da produção pela livre associação e trabalho cooperativo. (Para mais informações
  sobre as idéias dos anarquistas individualistas, veja seção G -  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secGcon.htm"&gt;"O individualismo
  anarquista é capitalista?"&lt;/a&gt;) &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca32"&gt;&lt;/a&gt;Existem diferentes tipos de anarquistas sociais?&lt;/h2&gt;
Sim. Os anarquistas
sociais tem quatro vertentes maiores -- o mutualismo, o coletivismo, o comunismo
e o sindicalismo. As diferenças não são grandes pois dizem respeito apenas a diferenças
estratégicas. Uma diferença que se destaca é entre os mutualistas e os outros
tipos de anarquismo social. O mutualismo é baseado em uma forma de socialismo
de mercado -- cooperativas de trabalhadores distribuem a produção via um sistema
de bancos cumunitários. Essa rede de bancos mútuos seria &lt;i&gt;"formada por toda
a comunidade, não para uma especial vantágem de algum indivíduo ou classe, mas
para o benefício de todos. . . "[que] não tem outro objetivo. . . a não ser cobrir
os riscos e bancar as despesas&lt;b&gt;.&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;[Charles A. Dana, &lt;b&gt;Proudhon and his
&lt;i&gt;'Bank of the People'&lt;/i&gt;,&lt;/b&gt; pp. 44-45] Esse sistema poria um fim à exploração
capitalista e à opressão &lt;i&gt;"introduzindo o mutualismo no lugar do crédito, o
trabalho assumiria um novo aspecto e se tornaria verdadeiramente democrático."

&lt;/i&gt;&lt;b&gt;[Op. Cit., p. 45]&lt;/b&gt;
&lt;p&gt;A versão anarquista
  social do mutualismo difere da forma individualista pela comunidade local (ou
  comuna) ter seus próprios bancos mútuos independente de cooperativas. Isto significa
  que tais bancos provêem fundos de investimentos diretamente para os cooperados
  sem intermediários capitalistas. Outra diferença é que alguns anarquistas sociais
  mutualistas apoiam a criação do que Proudhon chamou de &lt;b&gt;&lt;i&gt;"Federação agro-industrial"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  como complemento da federação de comunidades libertárias (chamadas por Proudhon
  de comunas).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta &lt;i&gt;"confederação.
  . .  teria como objetivo proporcionar segurança recíproca entre o comércio
  e a indústria" &lt;/i&gt;e desenvolvimento em larga escala como rodovias, ferrovias,
  etc. Com o propósito de &lt;i&gt;"proteger os cidadãos dos estados federados [sic!]
  dos capitalistas e do feudalismo financeiro, interna e externamente." &lt;/i&gt;Isto
  porque o &lt;i&gt;"political right requires to be buttressed by economic right." &lt;/i&gt;
  Dessa forma a federação agro-industrial seria uma ferramenta da natureza anarquista
  da sociedade contra os efeitos desestabilizantes das mudanças de mercado (que
  pode gerar variações inadequadas em riqueza e em poder).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tal sistema seria
  um exemplo prático de solidariedade, como &lt;i&gt;"as indústrias são como irmãs,
  elas são parte do mesmo corpo; nenhuma sofre sem que a outra sofra também. Seu
  conjunto forma uma federação, não para serem absorvidas e misturadas, mas para
  serem ordenadas no sentido de garantir mutuamente as condições necessárias para
  uma prosperidade comum. . . Uma harmonia que não menospreza sua condição de
  liberdade; pelo contrário, dá à liberdade mais segurança e força." &lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;The Principle of Federation&lt;/b&gt;, p. 70, p. 67 and p. 72]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As outras formas
  de anarquismo social não dariam este suporte mutualista para o mercado, mesmo
  as não capitalistas. Segundo eles, a liberdade seria mais servida pela produção
  comunal e pela troca de informações e produtos livremente entre as cooperativas.
  Em outras palavras, as outras formas de anarquismo social são baseadas na gestão
  (comum) ou social através de federações de associações de produtores e comunas
  em lugar do sistema mutualista de cooperativas individuais.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nas palavras de Bakunin,
  a &lt;i&gt;"futura organização social precisa ser construída em bases sólidas, por
  uma livre associação ou federação de trabalhadores, primeiro em seus sindicatos,
  depois em suas comunas, regiões, nações e finalmente em uma grande federação,
  internacional e universal" &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;"a terra, os instrumentos de trabalho e
  todo e qualquer capital tornar-se-a propriedade coletiva a disposição da sociedade
  como um todo para ser utilizada apenas pelos trabalhadores, em outras palavras,
  pelas associações agrícolas e industriais."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Michael Bakunin: Selected
  Writings&lt;/b&gt;, p. 206 and p. 174] &lt;br&gt;

  Apenas pela extenção destes princípios de cooperação entre os indivíduos em
  seus locais de trabalho é que se poderá maximizar a liberdade individual e proteger
  (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secI1.htm#seci13"&gt;seção I.1.3&lt;/a&gt; 
  porque a maioria dos anarquistas se opõem ao mercado). Essa era a idéia de Proudhon.
  As confederações industriais &lt;i&gt;"garantiriam o uso mútuo dos meios de produção
  que seriam de propriedade de cada um desses grupos, ao mesmo tempo que haveria
  um contrato recíproco tornando propriedade coletiva o conjunto... da federação.
  Dessa forma, os grupos federados seriam capazes de... regular o rateio da produção
  de forma a atender as flutuantes necessidades da sociedade." &lt;/i&gt;[James Guillaume,
  &lt;b&gt;Bakunin on Anarchism&lt;/b&gt;, p. 376] &lt;br&gt;
  Embora estes anarquistas apoiem os mutualistas enquanto trabalhadores autogestionários
  na produção cooperativa, vêem essas confederações e essas associações como sendo
  o ponto focal para a expressão do apôio mútuo, não o mercado. Autonomia local
  e autogestão seria a base de qualquer federação, a fim de que&lt;i&gt; "os trabalhadores
  das mais variadas fábricas não troquem as mãos pelos pés assumindo o controle
  da produção como um poder superior e comecem a chamar-se a si mesmos de 'corporação'".
  &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 364] &lt;br&gt;

  Em adição à essa federação industrial haveriam também indústrias cruzadas e
  confederações de comunidades responsáveis por tarefas que não fossem da exclusiva
  jurisdição ou capacidade de alguma federação de indústria em particular ou de
  alguma área de natureza social. Novamente, aqui há similaridades com as idéias
  mutualistas de Proudhon. &lt;br&gt;
  Os anarquistas sociais depositam uma grande confiança na gestão comum dos meios
  de produção (excluindo aqueles que são puramente individuais) e rejeitam a idéia
  individualista de que tais meios possam ser "vendidos" por aqueles que os utilizam.
  A razão, conforme observado anteriormente, é porque se isso for feito, o capitalismo
  e o estatismo poderia voltar a tomar forma dentro da sociedade livre. Além do
  mais, outros anarquistas sociais não concordam com a idéia mutualista de que
  o capitalismo possa ser reformado em direção a um socialismo libertário pela
  introdução do banco mútuo. Para eles o capitalismo pode apenas ser substituído
  por uma sociedade livre através da revolução social. &lt;br&gt;
  A maior diferença entre coletivistas e comunistas é sobre a questão do "dinheiro"
  após a revolução. Anarco-comunistas consideram a abolição do dinheiro como sendo
  essencial, enquanto os anarco-coletivistas consideram o fim da gestão privada
  dos meios de produção como sendo mais importante. Conforme relata Kropotkin,
  o anarquismo coletivista &lt;i&gt;"expressa um estado de coisas em que tudo que for
  necessário para a produção estará disponível para todos através dos grupos de
  trabalho e das comunas livres, enquanto que as formas de retribuição do do trabalho,
  comunistas ou outros, seriam determinadas por cada grupo envolvido." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Kropotkin's
  Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, p. 295] &lt;br&gt;
  Dessa forma, tanto o coletivismo quanto o comunismo ambos organizariam a produção
  em comum via associação de produtores, eles diferem na forma como os bens produzidos
  seriam distribuidos. O comunismo é baseado no livre consumo de tudo enquanto
  que o coletivismo parece basear-se na distribuição de bens de acordo com trabalho
  efetuado. Por outro lado, os anarco-coleitvistas pensam que, com o tempo, com
  o aumento da produtividade e com o fortalecimento do senso de comunidade, o
  dinheiro desaparecerá. Ambos concordam que, no final das contas, a sociedade
  funcionará de acordo com o que é sugerido pela máxima comunista: &lt;b&gt;&lt;i&gt;"Exigir
  de cada um conforme sua capacidade, e dar a cada um de acordo com suas necessidades".
  &lt;/i&gt;&lt;/b&gt;Eles apenas não concordam em como chegar rapidamente a esse ponto.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarco-comunistas
  acham que depois da revolução &lt;i&gt;"o comunismo - mesmo que parcial - tem mais
  chances de se estabelecer que o coletivismo" &lt;/i&gt;. [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 298]
  &lt;i&gt;"Se abolirmos a gestão privada dos meios de produção, e em seguida voltarmos
  ao sistema de remuneração de acordo com o trabalho realizado, traremos de volta
  a desigualdade." &lt;/i&gt;[Alexander Berkman, &lt;b&gt;The ABC of Anarchism&lt;/b&gt;, p. 80]
  Quanto mais rápido chegar-se ao comunismo, menores serão as chances do crescimento
  das desigualdades. &lt;br&gt;
  O sindicalismo é a outra grande vertente do anarquismo social. Os anarco-sindicalistas,
  como os outros sindicalistas, querem criar um movimento sindical industrial
  baseado em idéias anarquistas. Defendem a descentralização, sindicatos federados
  que usam a ação direta para se impor sobre o capitalismo até que estejam suficientemente
  fortes para abolí-lo. Sob os mais variados aspectos o anarco-sindicalismo em
  muito se assemelha ao anarco-coletivismo. O anarco-sindicalismo assume uma grande
  importancia no que diz respeito ao trabalho anarquista dentro dos movimentos
  de trabalhadores e na criação de sindicatos que serão uma amostra do futuro
  livre da sociedade. &lt;br&gt;
  Mesmo sob o capitalismo, os anarco-sindicalistas procuram criar&lt;i&gt; "livres associações
  de livres produtores." &lt;/i&gt;De forma que essas associações funcionariam como
  &lt;i&gt;"uma escola prática de anarquismo" &lt;/i&gt;e levam muito a sério as palavras
  de Bakunin de que as organizações de trabalhadores precisam criar &lt;i&gt;"não apenas
  idéias mas também fatos do próprio futuro" &lt;/i&gt;neste período pré-revolucionário.
  &lt;br&gt;

  Tanto os anarco-sindicalistas, como todos os anarquistas sociais, &lt;i&gt;"estão
  convencidos de que a ordem econômica socialista não pode ser criada por decretos
  e estatutos de um governo, mas apenas pela colaboração solidária dos trabalhadores
  com seus braços e cérebros voltados especialmente para a produção; isto é, que
  tudo funcione de tal forma que os produtores possam assumir o papel de gestores
  de todos os planos e que eles mesmos sejam os responsáveis pelos destinos das
  indústrias e pelas decisões dos organismos econômicos, direcionando sistematicamente
  a produção e a distribuição dos produtos no interesse das comunidades com base
  no livre acordo mútuo". &lt;/i&gt;[Rudolf Rocker, &lt;b&gt;Anarcho-syndicalism&lt;/b&gt;, p. 55]
  &lt;br&gt;
  As diferenças entre sindicalistas e outros anarquistas sociais revolucionários
  é mínima e gira em torno de questões relativas a sindicatos anarco-sindicalistas.
  Os anarquistas coletivistas concordam que a construção de sindicatos libertários
  é importante e que um trabalho em meio ao movimento dos trabalhadores é essencial
  no sentido de &lt;i&gt;"desenvolver e organizar . . . o poder social das massas de
  trabalhadores." &lt;/i&gt;[Bakunin, &lt;b&gt;Michael Bakunin: Selected Writings&lt;/b&gt;, p.
  197] &lt;br&gt;
  Os comunistas anarquistas em geral tem conhecimento da importancia do trabalho
  no meio operário mas acreditam em organizações sindicalistas enquanto criadas
  por trabalhadores em luta, de tal forma que consideram o &lt;b&gt;&lt;i&gt;"espirito da
  revolta" &lt;/i&gt;&lt;/b&gt;como mais importante que a simples fundação de sindicatos e
  filiação de trabalhadores a eles. Também não dão muita importancia ao local
  de trabalho, considerando que a luta travada ali dentro assume importancia igual
  a qualquer outra luta contra a hierarquia e a dominação fora do posto de trabalho
  (a maioria dos anarco-sindicalistas concorda com isso, todavia, trata-se apenas
  de uma questão de ênfase). Alguns anarco-comunistas acham que o movimento operário
  é reformista por natureza e se recusam a colaborar com ele, mas são uma pequena
  minoria. &lt;br&gt;

  Tanto comunistas quanto anarquistas coletivistas reconhecem a necessidade dos
  anarquistas juntos formarem uma organização anarquista. Eles acham essencial
  que os anarquistas trabalhem juntos como anarquistas para clarear e transmitir
  suas idéias aos outros. Os sindicalistas são de grande importancia dentro dos
  grupos anarquistas e federações, defendendo que sindicatos industriais e comunitários
  são auto-suficientes. Os sindicalistas acreditam que os anarquistas e o movimento
  sindical podem se fundir em um só, embora a maior parte dos anarquistas não
  concordem. Os não-sindicalistas apontam para a natureza do sindicalismo e proclamam
  a necessidade de sindicatos revolucionários, e que os anarquistas precisam participar
  deles como parte de um grupo anarquista ou federação. A maior parte dos não
  sindicalistas consideram a fusão do anarquismo e do sindicalismo um suporte
  potencial para a &lt;b&gt;confusão&lt;/b&gt; que resulta em que nem um nem outro funcione
  corretamente. &lt;br&gt;
  Na prática, alguns anarco-sindicalistas rejeitam totalmente a necessidade de
  uma federação anarquista, enquanto que outros anarquistas são totalmente anti-sindicalistas.
  Todavia, Bakunin foi o inspirador tanto das idéias anarco-comunistas como anarco-sindicalistas,
  da mesma forma que Kropotkin, Malatesta, Berkman e Goldman, todos simpáticos
  às idéias dos movimentos anarco-sindicalistas. &lt;br&gt;
  Para consultas futuras sobre os mais variados tipos de anarquismo social, recomendariamos
  o seguinte: o mutualismo é geralmente associado com as palavras de Proudhon,
  o coletivismo com Bakunin, o comunismo com Kropotkin, Malatesta, Goldman e Berkman.
  O sindicalismo difere no sentido de que é mais o produto da luta dos trabalhadores
  do que obra de nomes "famosos" (embora hajam acadêmicos do naipe de um George
  Sorel considerado o pai do sindicalismo, embora tenha escrito sobre o movimento
  sindical quanto ele já existia). De qualquer forma, Rudolf Rocker é por muitos
  considerado como o principal teórico do anarco-sindicalismo e as obras de Fernand
  Pelloutier e Emile Pouget são essenciais para a compreensão do anarco-sindicalismo.
  A excelente antologia &lt;b&gt;No Gods No Masters &lt;/b&gt;de Daniel Guerin faz uma abrangente
  explanação sobre o desenvolvimento do anarquismo social na forma de uma leitura
  bastante agradável. &lt;br&gt;

   
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca33"&gt;&lt;/a&gt;Quantos tipos de anarquismo verde existem?&lt;/h2&gt;
A ênfase em idéias anarquistas
como caminho para solução das crises ecológicas é corriqueira na maior parte do
pensamento anarquista de nossos dias. Peter Kropotkin já dizia que uma sociedade
anarquista teria como base uma confederação de comunidades que integrariam o trabalho
manual e intelectual da mesma forma que descentralizariam e integrariam a indústria
e a agricultura (veja sua obra clássica, &lt;b&gt;Fields, Factories, and Workshops&lt;/b&gt;).
&lt;br&gt;
A idéia de uma economia em que &lt;i&gt;"o pequeno é bonito" &lt;/i&gt;(para usar o título
do clássico de E.F. Schumacher) foi proposto durante os anos 70 antes que fosse
incorporado por aqueles que mais tarde formariam o movimento verde. Em adição,
em &lt;b&gt;Mutual Aid&lt;/b&gt; Kropotkin documentou como a cooperação com as espécies e
entre elas juntamente com seu desenvolvimento é em geral mais benéfica que a competição.
A obra de Kropotkin, conbinada com a de William Morris, e a dos irmãos de Reclus
(os quais, como Kropotkin, foram geógrafos mundialmente renomados), e muitos outros
serviram de bases para o corrente interesse anarquista pelos assuntos ecológicos.

&lt;br&gt;
Contudo, embora hajam muitos temas de natureza ecológica em meio aos anarquistas
clássicos, apenas recentemente que as similaridades entre o pensamento ecológico
e o anarquismo começaram a vir à tona (essencialmente a partir da publicação do
ensaio clássico de Murray Bookchin &lt;i&gt;"Ecologia e Pensamento Revolucionário"&lt;/i&gt;
em 1965). Não há nenhum exagero em afirmar que foram as idéias e a obra de Murray
Bookchim que colocaram os assuntos ecológicos e a ecologia no coração do anarquismo,
dos ideais anarquistas e nas análises dos muitos aspectos do movimento verde.
&lt;br&gt;
Antes de discutir os tipos de anarquismo verde (também chamados de eco-anarquismo)
seria oportuno explanar exatamente o &lt;b&gt;que&lt;/b&gt; é que anarquismo e ecologia tem
em comum. Citando Murray Bookchin, &lt;i&gt;"tanto o ecologista quanto o anarquista
dão uma forte ênfase na expontaneidade" e "tanto o ecologista quanto o anarquista,
constituem uma identidade única dentro de formações diferenciadas. &lt;b&gt;A diversificação
e o enriquecimento das partes dá orígem a uma expansão.&lt;/b&gt;" &lt;/i&gt;E acrescenta,
&lt;i&gt;"da mesma forma que o ecologista procura expandir o range de um eco-sistema
e promove o livre intercâmbio entre as espécies, o anarquista por sua vez, procura
expandir o range das experimentações sociais e remover todos os obstáculos ao
seu desenvolvimento" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Post-Scarcity Anarchism&lt;/b&gt;, p. 72, p. 78]

&lt;br&gt;
Esta preocupação dos anarquistas para com o livre desenvolvimento, a descentralização
e a expontaneidade é refletida nas idéias ecológicas e concernentes. Hierarquia,
centralização, estado e concentração de riqueza reduz a diversidade e o livre
desenvolvimento dos indivíduos e de suas comunidades, os desvia de sua verdadeira
natureza, e enfraquece o eco-sistema social pois as sociedades do atual eco-sistema
social humano estão separadas. Conforme Bookchim afirma, &lt;i&gt;"a menságem reconstrutiva
da ecologia . . . [é que] nós precisamos conservar e promover a variedade" &lt;/i&gt;mas
fora da moderna sociedade capitalista &lt;i&gt;"tuda essa expontâneidade, criatividade
e individualidade é destruída pela padronização, pela regulamentação e pela massificação."
&lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 76, p. 65] &lt;br&gt;
Portanto, de muitas maneiras, o anarquismo pode ser considerado a aplicação prática
das idéias ecológicas na sociedade, as bandeiras anarquistas do fortalecimento
dos indivíduos e das comunidades, da decentralização do poder político, social
e econômico visam a potencialização dos indivíduos e do livre desenvolvimento
de uma vida social rica e diversa em sua natureza. &lt;br&gt;
Quantos tipos de anarquismo verde existem? Os eco-anarquistas destacam dois pontos
focais. &lt;b&gt;&lt;i&gt;Ecologia Social&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; e anarquismo &lt;b&gt;&lt;i&gt;"primitivista".&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;

Em adição, alguns anarquistas influenciados pela &lt;b&gt;&lt;i&gt;Deep Ecology&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, em
pequeno número. Sem qualquer sombra de dúvida a Ecologia Social é a corrente mais
forte. A Ecologia Social é associada com as idéias e obra de Murray Bookchim,
relacionando assuntos ecológicos desde os anos 50 e, a partir dos anos 60, e combinando
tais assuntos com o anarquismo social revolucionário. Sua obra inclui &lt;b&gt;Post-Scarcity
Anarchism&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;Toward an Ecological Society&lt;/b&gt;, &lt;b&gt;The Ecology of Freedom&lt;/b&gt;
e uma série de outros autores. &lt;br&gt;
Os Ecologistas Sociais associam as raízes da crise ecológica com as relações de
domínio entre as pessoas. O domínio da natureza é visto como um produto do domínio
dentro da sociedade, mas esse domínio apenas aumenta as proporções da crise sob
o capitalismo. Nas palavras de Murray Bookchim:
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"A noção
  de que o homem precisa dominar a natureza emerge diretamente da dominação do
  homem pelo homem. . ." Mas não se trata apenas de relações comunais orgânicas.
  . . dissolvidas dentro de relações de mercado, o planeta em si mesmo foi reduzido
  a um mero &lt;/i&gt;&lt;b&gt;suporte&lt;/b&gt;&lt;i&gt; à exploração. Essa tendência ao longo dos séculos
  encontrou seu mais exacerbado desenvolvimento no moderno capitalismo. Argumentando
  que a natureza é inerentemente competitiva, a sociedade burguesa não apenas
  lançou homens contra outros homens, como também lançou a massa da humanidade
  contra o mundo natural. Da mesma forma como o homem é convertido em commodities,
  muitos aspectos da natureza humana é convertida para a commodity, um &lt;/i&gt;&lt;b&gt;suporte&lt;/b&gt;&lt;i&gt;
  a ser manufaturado e como uma mercadoria qualquer." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p.
  63] &lt;br&gt;

  &lt;i&gt;"A valorização do mercado em detrimento do espírito humano é paralela à valorização
  do capital em detrimento da terra." &lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;, p. 65]&lt;/blockquote&gt;
Boa parte dos ecologistas
sociais consideram essencial atacar a hierarquia e o capitalismo, não a civilização
como sendo a causa raiz dos problemas ecológicos. Esta é uma das áreas chaves
em que eles discordam das idéias Anarquistas "Primitivistas", os quais tendem
a ser mais críticos em &lt;b&gt;todos&lt;/b&gt; os aspectos da vida moderna, tanto que alguns
vão mais longe e proclamam para o "fim da civilização" incluindo, aparentemente,
todas as formas de tecnologia e organizações em larga escala. &lt;br&gt;
Indo mais longe, os anarquistas "Primitivistas" defendem o retorno às formas "Hunter-Gatherer"
da sociedade humana, opondo-se à tecnologia como sendo hierárquica por natureza.
O magazine britânico &lt;i&gt;"Green Anarchist" &lt;/i&gt;dá suporte vocal a esta idéia.

&lt;br&gt;
Contudo, poucos anarquistas vão tão longe. Aparentemente, a maioria dos anarquistas
atualmente defendem que tal "Primitivismo" não é anarquista de todo, pois o tal
retorno à sociedade do "Hunter-Gatherer" resultaria em uma paralização na maioria
dos países com o colapso das infraestruturas sociais. Pelo fato da maioria das
pessoas não serem simpáticas às idéias de tais "Primitivistas", elas jamais seriam
aceitas nos meios libertários (i.e. pela livre escolha dos indivíduos) e não seriam
os anarquistas os únicos a rechaçar essas idéias, poucos abraçariam voluntariamente
essa proposta. &lt;br&gt;
Isto provocou o desenvolvimento por parte de algumas facções de "Anarquistas Verdes"
de uma forma de eco-vanguardismo de maneira a, como disse Rousseau, "forçar o
povo a ser livre" (como pode ser visto em artigos publicados em 1998 na celebração
de atos terroristas). Em adição, a posição de "atrasar o relógio" é pouco convincente,
quando afirma que as sociedades aborígenas em geral foram anárquicas, quando se
sabe que tais sociedades desenvolveram-se formas de estatismo e de propriedade
o que revela que tais sistemas "anarquistas primitivos" não são a resposta.
&lt;br&gt;
Contudo, poucos eco-anarquistas assumem essas posições tão extremas. A maior parte
dos anarquistas "Primitivistas", mesmo aqueles que são anti-tecnologia e anti-civilização,
como bem expressa David Watson, crêem que a melhor maneira de lidar com isso é
o &lt;i&gt;"reconhecimento do modo de vida dos aborígenes" &lt;/i&gt;e desenvolver uma aproximação
crítica de tudo que se refere à tecnologia, racionalismo e progresso em relação
à Ecologia Social. Esses eco-anarquistas rejeitam &lt;i&gt;"um primitivismo dogmático
que prega um simples retorno linear aos nossos primórdios" .&lt;/i&gt; &lt;br&gt;
Para esses eco-anarquistas, o Primitivismo &lt;i&gt;"reflete não apenas um período de
vida antes do estado, mas também legitima respostas sobre as reais condições de
vida sob a civilização" &lt;/i&gt;temos que respeitar e aprender com as &lt;i&gt;"tradições
paleotíticas e neolíticas" &lt;/i&gt;(associadas com as tribos Nativas Americanas e
outros povos aborígenes). Mas isso não significa que &lt;i&gt;"devamos abandonar os
modos de pensar que se desenvolveram através dos séculos . . . não podemos reduzir
a experiencia da vida, e das inevitáveis questões fundamentais do &lt;b&gt;porque&lt;/b&gt;

vivemos, e do &lt;b&gt;como&lt;/b&gt; vivemos. . . embora, a diferença entre o espiritual
e o secular não seja tão clara. O entendimento dialético de que somos nossa história
seria uma inspirada razão para que honrássemos não apenas os ateísticos revolucionários
espanhóis que morreram por um ideal, mas também os pacifistas religiosos prisioneiros
de sua consiência. Os espíritos dançarinos dos Lakotas, dos hermitãos taoístas
e dos místicos sufis executados." &lt;/i&gt;[David Watson, &lt;b&gt;Beyond Bookchin: Preface
for a future social ecology&lt;/b&gt;, p. 240, p. 103, p. 240, pp. 66-67] &lt;br&gt;
Tal anarquismo &lt;i&gt;"Primitivista" associa-se a um range de magazines, a maior parte
oriúndos dos Estados Unidos, como o &lt;/i&gt;&lt;b&gt;Fifth Estate&lt;/b&gt;. Em uma questão referente
à tecnologia, os eco-anarquistas defendem que &lt;i&gt;"o mercado capitalista que deu
início ao processo e que permanece como o núcleo do complexo, é apenas parte de
algo maior: uma adaptação forçada dos organismos da sociedade humana para serem
instrumentos econômicos da civilização e de suas técnicas massivas, não apenas
hierárquica e externa mas inerentemente 'celular' e interna." &lt;/i&gt;[David Watson,
&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, pp. 127-8] &lt;br&gt;

Por esta razão os anarquistas "Primitivistas" são mais críticos em todos os aspectos
da tecnologia, que inclui a chamada aos anarquistas socieais para o uso de uma
teconologia essencial &lt;b&gt;apropriada &lt;/b&gt;de forma a libertar a humanidade e o planeta.
&lt;br&gt;
Não é o &lt;b&gt;uso&lt;/b&gt; da tecnologia que determina seus efeitos, os efeitos da tecnologia
são determinados em larga escala pela sociedade que a cria. Em outras palavras,
a tecnologia é escolhida com uma tendência a reforçar o poder hierárquico por
parte daqueles que a detém, são essas pessoas que escolhem qual tecnologia será
introduzida dentro da sociedade (é bom lembrar que os povos oprimidos possuem
o excelente hábito de devolver a tecnologia contra os poderosos de tal forma que
as mudanças tecnológicas e as lutas sociais estão interrelacionadas --  veja
&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secD10.htm"&gt;seção D.10&lt;/a&gt;).
&lt;br&gt;
O uso de tecnologia apropriada envolve mais que uma seleção no range de tecnologias
disponíveis, uma vez que a tecnologia acaba influenciando aqueles que as utilizam.
Na verdade trata-se de uma avaliação crítica em todos os aspectos da tecnologia
e modificá-la ou rejeitá-la visando maximizar a liberdade individual, o fortalecimento
e a felicidade. Poucos Ecologistas Sociais discordam dessa avaliação, todavia,
algumas diferenças são mais questões de ênfase do que divergências de cunho político.
Finalmente, os anarquistas "Primitivistas" como a maioria dos anarquistas, são
completamente contra o apoio da Ecologia Social a candidatos em eleições municipais,
estaduais ou nacionais. Alguns Ecologistas Sociais defendem a participação nesses
fóruns políticos como um meio para desenvolver assembléias populares democráticas
visando criar um contra poder ao estado, mas poucos anarquistas concordam com
isso. A grande maioria vê esse procedimento como inerentemente reformista por
esperarem que o uso de eleições trará algum tipo de mudança social (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secJ5.htm#secj514"&gt;seção J.5.14&lt;/a&gt;

para uma completa discussão sobre isso). &lt;br&gt;
Em vez disso eles propõem o uso da ação direta como meio divulgar as idéias anarquistas
e ecológicas, rejeitando o eleitoralismo como um peso morto que em 100% das vezes
procura destruir as idéias radicais e corromper as pessoas envolvidas (veja seção
J.2 -- &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secJ2.htm"&gt;Que é Ação Direta?&lt;/a&gt;)
Para mais informações sobre o Anarquismo "Primitivista" veja o &lt;b&gt;Future Primitive&lt;/b&gt; 
e o excelente &lt;b&gt;Elements of Refusal &lt;/b&gt;de John Zerzan, como também&lt;b&gt; Beyond
Bookchin&lt;/b&gt; and &lt;b&gt;Against the Mega-Machine&lt;/b&gt; de David Watson. Finalmente,
há a &lt;i&gt;"deep ecology"&lt;/i&gt; que, em função de sua natureza biocêntrica, muitos
anarquistas a rejeitam como sendo anti-humana. Existem poucos anarquistas que
acham que o &lt;b&gt;povo&lt;/b&gt;, como povo, são a causa das crises ecológicas, conforme
muitos &lt;i&gt;"deep ecologists"&lt;/i&gt; parecem sugerir. &lt;br&gt;

Murray Bookchin, por exemplo, não poupou críticas à &lt;i&gt;"deep ecology" &lt;/i&gt;e as
idéias anti-humanas que estão associadas a ela (veja &lt;b&gt;Which Way for the Ecology
Movement?&lt;/b&gt;, por exemplo). &lt;br&gt;
David Watson também atacou a &lt;i&gt;"deep ecology" &lt;/i&gt;(veja &lt;b&gt;How Deep is Deep Ecology?&lt;/b&gt;,
escrita por George Bradford). A maior parte dos anarquistas também concordam que
o problema não está no povo mas no atual sistema, e que apenas o povo pode mudar
isso, Nas palavras de Murray Bookchin:
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"[O problema
  da Deep Ecology] está em percorrer os caminhos autoritários de um biologismo
  crú que usa 'leis naturais' para diminuir o senso de humanidade e ignorar a
  realidade do fato de que é o capitalismo o responsável, não uma abstração chamada
  'Humanidade' e 'Sociedade'" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The Philosophy of Social Ecology&lt;/b&gt;, p.
  160]&lt;/blockquote&gt;

Resumir a crítica e
a análise ecológica em um protesto simplista contra a raça humana ignora a verdadeira
causa e a dinâmica da destruição ecológica, nesta direção não será encontrado
o caminho para estancar essa destruição. Torna-se um erro grosseiro colocar as
coisas em termos de que o "povo" é o responsável quando sabemos que a vasta maioria
sequer tem conhecimento das decisões que afetam suas vidas, comunidades, indústrias
e eco-sistemas. A verdade é que o que está em jogo é um sistema social que coloca
os lucros e o poder acima do povo e do planeta. Focar a "humanidade" (falhando
em distinguir entre o rico e o pobre, o homem e a mulher, os brancos e as pessoas
de cor, os explorados e exploradores, opressores e oprimidos) como a responsável
pelo sistema que nós vivemos significa de fato ignorar as causas institucionais
dos problemas ecológicos. Diante das constantes críticas anarquistas aos seus
porta-vozes, muitos &lt;i&gt;Deep Ecologists&lt;/i&gt; tem recuado em aceitar idéias anti
humanas como o seu movimento. &lt;br&gt;
A &lt;i&gt;Deep Ecology&lt;/i&gt;, particularmente a organização &lt;b&gt;&lt;i&gt;Earth First!&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
(EF!), tem mudado consideravelmente com o transcorrer do tempo, e EF! atualmente
mantem um estreito relacionamento com o sindicato &lt;b&gt;&lt;i&gt;Industrial Workers of
the World&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; (IWW). &lt;br&gt;

A &lt;i&gt;deep ecology &lt;/i&gt;não faz parte do eco-anarquismo, ela compartilha muitas
idéias e grupos como o EF! estão começando a ter mais aceitação entre os anarquistas,
pois começaram a rejeitam idéias misantropicas e ver que a hierarquia, não a raça
humana, é o problema (para uma discussão entre Murray Bookchin e o lider Earth
Firster! Dave Foreman veja o livro &lt;b&gt;Defending the Earth&lt;/b&gt;). &lt;br&gt;
 
&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca34"&gt;&lt;/a&gt;O anarquismo é pacifista?&lt;/h2&gt;
A vertente pacifista
existe a muito tempo entre os anarquistas, com Leo Tolstoy sendo uma de suas maiores
figuras. Essa vertente é usualmente chamada de &lt;b&gt;&lt;i&gt;"anarco-pacifismo"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
(o termo &lt;b&gt;&lt;i&gt;"anarquismo não-violento"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; é muitas vezes usado, mas tal
terminologia é inadequada porque implica em que o restante do movimento é &lt;i&gt;"violento"&lt;/i&gt;,
que não é o caso!). A união entre pacifismo e anarquismo não serpreende diante
dos ideais e argumentos fundamentais do anarquismo. &lt;br&gt;

A violencia, ou as formas ocultas de violência ou constrangimento, é um dos meios
chaves pela qual a liberdade individual é destruída. &lt;br&gt;
Confome Peter Marshall observou, &lt;i&gt;"a forma com que os anarquistas proporcionam
respeito às particulariedades do indivíduo ao longo de sua existencia é uma forma
de não violência e um estilo não violento que tem sido ampliado pelos valores
anarquistas." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Demanding the Impossible&lt;/b&gt;, p.637] &lt;br&gt;
Malatesta é ainda mais explícito quando escreve que &lt;i&gt;"a essência do anarquismo
é remover a violência das relações humanas"&lt;/i&gt; e que os anarquistas &lt;i&gt;"se opõem
à violência." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Life and Ideas&lt;/b&gt;, p. 53]. Contudo, embora muitos anarquistas
rejeitem a violência e proclamem o pacifismo, o movimento, em geral, não é essencialmente
pacifista (no sentido de se opor a todas as formas de violência em todo o tempo).

&lt;br&gt;
Mesmo sendo anti-militarista, ao se posicionar contra a violência organizada do
estado, reconhece que existem importantes diferenças entre a violência do opressor
e a violência do oprimido. Estas coisas explicam porque o movimento anarquista
sempre teve que dedicar uma boa parte do tempo e de energia se opondo à máquina
do militarismo e das guerras capitalistas, enquanto que ao mesmo tempo, apoiava
e organizava uma resistência armada contra a opressão (como foi o caso do exército
Makhnovista durante a Revolução Russa que resistiu ao mesmo tempo ao Exército
Vermelho e ao Exéricito Branco, e como foi o caso das milícias organizadas pelos
anarquistas para resistir aos fascistas durande a Revolução Espanhola -- veja
seções &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca54"&gt;A.5.4&lt;/a&gt; e
&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca56"&gt;A.5.6&lt;/a&gt;,
respectivamente). Em questão de não-violência, como uma regra eterna, o movimento
divide-se ao longo das linhagens Individualista e Social. A maioria dos anarquistas
Individualistas simplesmente apoiam as táticas não-violentas para a mudança social,
como fazem os Mutualistas. Contudo, o anarquismo Individualista não é pacifista
como eles, tanto que muitos apoiam a idéia da violência como forma legítima de
auto-defesa contra a agressão. A maior parte dos anarquistas sociais, por outro
lado, apóiam o uso da violência revolucionária, pela utilização da força física
quando ela for requerida tanto para demolir o poder como plara resistir à agressão
do estado e do capitalismo (o mesmo sucede com o anarco-sindicalismo, consulte
Bart de Ligt, que escreveu o clássico pacifista, &lt;b&gt;The Conquest of Violence&lt;/b&gt;).
Malatesta descreveu a violência como sendo: &lt;i&gt;"um mal em si mesma", &lt;/i&gt;e que
é &lt;i&gt;"justificada apenas quando ela é necessária para defender-se a si mesmo e
aos outros da violência" &lt;/i&gt;e que o &lt;i&gt;"escravo está em todo o tempo em estado
de legítima defesa, consequentemente, sua violência contra o dominador, contra
o opressor, é sempre moralmente justificável." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 55, pp.
53-54]. Alguns alegam que as palavras de Bakunin dizem respeito à opressão social

&lt;i&gt;"um ataque dirigido menos aos indivíduos e mais à organização das coisas e
à posição social", &lt;/i&gt;bandeiras anarquistas como &lt;i&gt;"básicamente destruir posições
e coisas" &lt;/i&gt;mais do que pessoas, aparece como a bandeira de uma revolução anarquista
cujo alvo é o fim das classes privilegiadas &lt;i&gt;"não como indivíduos, mas como
classe." &lt;/i&gt;[citado por Richard B. Saltman, &lt;b&gt;The Social and Political Thought
of Michael Bakunin&lt;/b&gt; p. 121, p. 124 e p. 122]. A questão da violência é relativamente
importante para a maioria dos anarquistas, embora não a glorifiquem e pensem que
deveria haver um esforço para que houvesse o mínimo possível durante uma luta
social ou revolução. Todos anarquistas concordam com o pacifista anarco-sindicalista
alemão Bart de Ligt quando ele afirma que &lt;i&gt;"a violência e a guerra que são as
condições características do mundo capitalista não tem nada a ver com a liberdade
do indivíduo, que é a missão histórica das classes trabalhadoras. O fim da violência
só acontecerá quando toda violência for deliberadamente colocada a serviço da
revolução." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The Conquest of Violence&lt;/b&gt;, p. 75]. De forma similar, todos
anarquistas concordariam com de Ligt, no que diz respeito ao nome de um dos capítulos
de seu livro, &lt;i&gt;"o absurdo do pacifismo burguês". &lt;/i&gt;Para de Ligt, e para todos
os anarquistas, a violência é inerente ao sistema capitalista e qualquer tentativa
de fazer um capitalismo pacifista está condenado ao fracasso. É por isso que,
de um lado, a guerra significa apenas uma faceta da competição econômica quando
esta fracassa por outros meios. As nações vão à guerra quando elas enfrentam uma
crise econômica, quando elas não conseguem ganhar uma luta econômica elas apelam
para o conflito. Por outro lado, &lt;i&gt;"a violência é indispensável nesta moderna
sociedade. . . [porque] sem ela as classes dominantes seriam completamente incapazes
de manter suas posições de privilégios na manutenção das massas exploradas em
cada país." O exército é usado principalmente e acima de tudo em função dos trabalhadores. 

. . quando eles se tornarem descontentes." &lt;/i&gt;[Bart de Ligt, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
p. 62]. Tão antiga quanto o estado e o capitalismo, a violência é inevitável e,
portanto, para os anarco-pacifistas, um pacifismo consistente precisa ser anarquista
da mesma forma que o anarquismo consistente precisa ser pacifista. Para aqueles
anarquistas que são não-pacifistas, a violência aparece como inevitável e desgraçadamente
resulta da opressão e exploração dos meios de produção pelas classes privilegiadas.
O uso da violência será inevitável para que renunciem seu poder e riqueza. Aqueles
que detem a autoridade raramente cedem seu poder a não ser pela força. A necessidade
de uma violência &lt;i&gt;"provisória para por um fim à generalização e perpetuação
da violência é inevitável àqueles que pretendem sair da condição de servidão."
&lt;/i&gt;[Malatesta, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 55]. Polarizar no assunto violência versus
não-violência é ignorar o assunto principal, em como é que mudaremos a sociedade
para melhor. &lt;br&gt;
&lt;i&gt;"it's the same as if rolling up your sleeves for work should be considered
the work itself. . .[t]he fighting part of revolution is merely rolling up your
sleeves. The real, actual task is ahead."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;ABC of Anarchism&lt;/b&gt;, p. 40]&lt;i&gt;.
&lt;/i&gt;A maioria das lutas sociais e revoluções começam relativamente pacíficas (via
greves, ocupações e coisas parecidas) e apenas degenera para a violência quando
aqueles que estão no poder tentam manter suas posições (um clássico exemplo ocorreu
na Itália, em 1920, quando a ocupação de fábricas pelos trabalhadores foi seguida
pelo terror fascista -- veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca55"&gt;seção A.5.5&lt;/a&gt;).
Conforme já foi dito, todos os anarquistas são anti-militaristas e se opõem tanto
à máquina militar (mesmo à "indústria" da defesa) quanto à guerra estatista/capitalista
(embora alguns anarquistas como Rudolf Rocker e Sam Dolgoff, tenham apoiado a
facção capitalista anti-fascist durante a segunda grande guerra como um mal menor).
A menságem anti-guerra dos anarquistas e dos anarco-sindicalistas foi propagada
antes mesmo de começar a primeira guerra mundial, pela ação de sindicalistas e
anarquistas na Inglaterra e na América do Norte apoiados pela esquerdista CGT
francesa conclamando os soldados para que não obedecessem órdens de atacar companheiros
trabalhadores de outros paises. Emma Goldman e Alexander Berkman ambos foram presos
e deportados da América por organizarem a &lt;b&gt;&lt;i&gt;"No-Conscription League"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;

em 1917 ocasião em que muitos anarquistas na Europa foram presos por recusarem-se
a participar das forças armadas durante a primeira e a segunda guerra mundial.
A influência anarco-sindicalista da IWW foi esmagada pela repressão governamental
dirigida contra essas organizações em função das menságens anti-bélicas que apontavam
as poderosas elites como as beneficiárias. Mais recentemente, anarquistas, (incluindo
gente como Noam Chomsky e Paul Goodman) tem participado ativamente em movimentos
pela paz da mesma forma que contribuem na resistência pela objeção de consciência
onde quer que exista. Os anarquistas participaram ativamente na oposição a guerras
como a Guerra do Vietnam, a guerra das Falklands da mesma forma que a Guerra do
Golfo (incluindo, na Itália, a ajuda na organização de greves de protestos contra
ela). O mesmo aconteceu durante o último conflito quando muitos anarquistas levantaram
o slogan &lt;b&gt;&lt;i&gt;"Nenhuma guerra exceto a guerra de classes"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; que marcou
a oposição anarquista à guerra -- decididamente um mal consequente do sistema
de classes, no qual as classes opressoras de diferentes países matam-se uns aos
outros pelo poder, pelo lucro e em proveito de seus governantes. Em vez de participarem
nessas organizações, os anarquistas proclamam às classes trabalhadoras lutar pelos
seus próprios interesses e não pelos interesses de seus opressores:
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"Mais
  do que nunca precisamos evitar compromisso; entre capitalistas e escravos, entre
  governantes e governados; pregue a expropriação da propriedade privada e a destruição
  dos estados como o único &lt;b&gt;meio&lt;/b&gt; de garantir a fraternidade entre os povos
  e a Justiça e a Liberdade para todos" &lt;/i&gt;[Malatesta,&lt;b&gt; Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 251]&lt;/blockquote&gt;
(Notamos aqui que as
palavras de Malatesta foram em parte escritas contra Peter Kropotkin que, por
razões que ninguém conhecia melhor que ele, rejeitou tudo que ele defendeu por
décadas e apoiou os aliados na Primeira Grande Guerra como um mal menor contra
o autoritarismo e o Imperialismo alemão. Naturalmente, conforme apontado por Malatesta,
&lt;i&gt;"todo governo e toda classe capitalista" &lt;/i&gt;criaram &lt;i&gt;"divisões. . . entre
os trabalhadores e rebeldes de seus próprios países." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p.
246]). A aproximação entre o pacifismo e os anarquistas é evidente. A violência

&lt;b&gt;é&lt;/b&gt; autoritária e coercitiva, e o uso dela entra em contradição com os princípios
anarquistas. Por isso que os anarquistas concordam com Malatesta quando ele diz
que &lt;i&gt;"somos em princípio contra a violência e por essa razão acreditamos que
a luta social deve ser conduzida tão humanamente quanto possível." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op.
Cit.&lt;/b&gt;, p. 57]. A maior parte, senão todos, dos anarquistas que não são estritamente
pacifistas concordam com os pacifistas-anarquistas qudo eles defendem que a violência
pode muitas vezes ser contraprodutiva, alienando as pessoas e dando ao estado
uma desculpa para poder reprimir tanto o movimento anarquista como os movimentos
populasres por mudança social. Todos anarquistas apoiam a ação direta não-violenta
e a desobediência civil, que na maior parte das vezes se apresenta como o melhor
caminho para uma mudança radical. Dessa forma, pelo apresentado, é raro encontrar
anarquistas que sejam puramente pacifistas. A maioria aceita o uso da violência
como um mal necessário e advogam seu uso mínimo. Todos concordam que a revolução
que&lt;b&gt; institucionaliza&lt;/b&gt; a violência apenas recriará o estado em uma nova versão.
Eles defendem, que não é necessário ser autoritário para destruir o autoritarismo
ou usar a violência pra resistir à violência. Embora a maioria dos anarquistas
não sejam pacifistas, a maioria deles rejeita a violência exceto em casos de auto-defesa
e ainda assim minimizada.
&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca35"&gt;&lt;/a&gt;Que é Anarco-Feminismo?&lt;/h2&gt;
Uma contínua oposição
ao estado e a todas as formas de autoritarismo tiveram expressão entre as primeiras
feministas do século 19, e mais recentemente no movimento feminista dos anos 60,
fundados com base na prática anarquista. &lt;br&gt;

Esta é a orígem do termo anarco-feminismo, referindo-se a mulheres anarquistas
que atuam entre as mulheres e os movimentos anarquistas para lembrar-lhes seus
princípios. Anarquismo e feminismo sempre estiveram estreitamente ligados entre
si. Muitas feministas de destaque foram também anarquistas, incluindo a pioneira
Mary Wollstonecraft (autora de &lt;b&gt;A Vindication of the Rights of Woman&lt;/b&gt;), Communard
Louise Michel, Voltairine de Cleyre e a campeã das liberdades femininas, Emma
Goldman (veja seus famosos ensaios &lt;i&gt;""The Traffic in Women"&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;"Woman Suffrage"&lt;/i&gt;,
&lt;i&gt;"The Tragedy of Woman's Emancipation"&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;"Marriage and Love"&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;"Victims
of Morality"&lt;/i&gt;, por exemplo). &lt;b&gt;Freedom&lt;/b&gt;, a mais antigo jornal anarquista
do mundo, foi fundado por Charlotte Wilson em 1886. Em adição, todos os maiores
pensadores anarquistas (inclusive Proudhon) defenderam a igualdade da mulher.
O movimento &lt;b&gt;"Mulheres Livres"&lt;/b&gt; na Espanha durante a revolução espanhola
é um exemplo clássico de mulheres anarquistas organizando a si mesmas para defender
suas liberdades básicas e criar uma sociedade baseada na liberdade da mulher e
na igualdade (veja &lt;b&gt;Free Women of Spain&lt;/b&gt; por Martha Ackelsberg para mais
detalhes a respeito dessa importante organização). Tanto anarquistas como feministas
tem compartilhado muitas histórias comuns e uma preocupação com a liberdade individual,
igualdade e dignidade para membros do sexo feminino (embora, conforme explanaremos
com mais detalhes abaixo, os anarquistas tenham sempre sido muito críticos do
feminismo por não ter avançado suficientemente). &lt;br&gt;

Entretanto, não foi nenhuma surpreza que uma nova vertente de feminismo nos anos
60 expressasse uma maneira anarquista própria inspirada em personalidades anarquistas
como Emma Goldman. Cathy Levine revela que nessa época, &lt;i&gt;"grupos independentes
de mulheres começaram a funcionar sem estrutura, líderes, ou outros suportes da
esquerda feminina, criando, de forma independente e expontânea, organizações similares
às formadas por muitas décadas e regiões. Contudo, nada aconteceu por acaso" &lt;/i&gt;[citado
por Clifford Harper, &lt;b&gt;Anarchy: A Graphic Guide&lt;/b&gt;, p. 182]. Nada disso aconteceu
por acaso porque, como a escola feminista percebeu, as mulheres foram ao longo
do tempo as primeiras vítimas da hierarquia social, fato que remonta à subida
do patriarcado e às ideologias de dominação durante a era Neolítica. Marilyn French
(em &lt;b&gt;Beyond Power&lt;/b&gt;) defende que a primeira maior extratificação da raça humana
ocorreu quando os homens começaram a dominar as mulheres, relegando às mulheres
a uma classe social "subalterna" e "inferior". Peggy Kornegger destaca a forte
conecção entre feminismo e anarquismo, tanto em teoria quanto em prática.
&lt;br&gt;
&lt;i&gt;"A perspectiva radical feminina é o anarquismo em toda sua pureza", &lt;/i&gt;escreveu
ela. &lt;i&gt;"Os postulados de teoria básica da família nuclear [revelam-se] como a
base de todo o sistema autoritario. A lição que a criança aprende, do pai que
ensina a obediência a deus, é [direcionada] para a &lt;b&gt;obediência&lt;/b&gt; à grande
e anônima voz da Autoridade. Passar da infância para a idade adulta é tornar-se
um autômato, incapaz de questionar ou mesmo pensar com clareza" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;].
De forma semelhante, o Zero Collective defende que o anarco-feminismo &lt;i&gt;"consiste
em reconhecer o anarquismo do feminismo e a consiência de seu desenvolvimento." &lt;/i&gt;

[&lt;b&gt;The Raven&lt;/b&gt;, no. 21, p. 6].  O anarco-feminismo destaca a prática autoritária
e seus valores de dominação, exploração, agressividade, competitividade, insensibilidade,
etc., todos altamente valorizados em civilizações hierárquicas e tradicionalmente
reconhecidas como "masculinos". Em contraste, a prática não-autoritária e valores
como cooperação, cuidado, compaixão, sensibillidade, carinho, etc., são tradicionalmente
tidos como "femininos" e desvalorizados. Segundo a escola feminista tais fenômenos
remontam do surgimento das sociedades patriarcais durante a idade do Bronze e
suas conquistas das cooperativas fundamentadas em sociedades "organicas" 
em que a prática "feminina" e valores prevaleciam e eram respeitados. Seguindo-se
a estas conquistas, contudo, tais valores vieram a ser tidos como "inferiores",
especialmente pelo homem, até mesmo os homens foram submetidos a dominação e exploração
sob o patriarcado. (Veja e.g. Riane Eisler, &lt;b&gt;The Chalice and the Blade&lt;/b&gt;;
Elise Boulding, &lt;b&gt;The Underside of History&lt;/b&gt;). &lt;br&gt;
As anarco-feministas fazem referência à criação de uma sociedade não-autoritária,
uma sociedade anarquista baseada na cooperação, no cuidado, no apoio mútuo, etc.,
uma &lt;i&gt;"femininalização da sociedade". &lt;/i&gt;As Anarco-feministas tem notado que
esta &lt;i&gt;"femininalização" &lt;/i&gt;da sociedade não pode ocorrer sem a autogestão e
a descentralização. Isto porque os valores patriarcais-autoritários e suas tradições
trariam de volta seus vícios e reproduziriam as hierarquias. Tal feminismo implica
em descentralização, que por seu turno implica em auto-gestão. Muitas feministas
reconhecem isto, como o reflexo de seus experimentos com formas coletivas de organizações
feministas que eliminam a estrutura hierárquica e as formas competitivas de tomada
de decisões. Algumas feministas argumentam que as organizações de democracia direta
assumem formas políticas marcadamente femininas [veja e.g. Nancy Hartsock &lt;i&gt;"Feminist
Theory and the Development of Revolutionary Strategy,"&lt;/i&gt; em Zeila Eisenstein,
ed., &lt;b&gt;Capitalist Patriarchy and the Case for Socialist Feminism&lt;/b&gt;, pp. 56-77].
Como todos os anarquistas, as anarco-feministas reconhecem que a auto-libertação
é a chave para que a igualdade da mulher e portanto, a liberdade. Segundo Emma
Goldman:

&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"Seu
  desenvolvimento, sua liberdade, sua independencia, precisa vir de si própria.
  Primeiro, pelo reconhecimento de si própria como uma personalidade, e não como
  como um objeto sexual. Segundo, pela recusa do direito de alguém sobre seu corpo;
  pela recusa em gerar crianças, a menos que queira, pela recusa em ser uma serva
  de Deus, do Estado, da sociedade, do marido, da família, etc., por tornar sua
  vida simples, mas profunda e rica. Em suma, pela tentativa de aprender os princípios
  e a substancia da vida em todas suas complexidades; pela libertação pessoal
  do medo da opinião e da condenação pública."&lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Anarchism and Other Essays&lt;/b&gt;,
  p. 211].&lt;/blockquote&gt;
 O anarco-feminismo
tenta manter o feminismo diante das influências e do domínio das ideologias autoritárias
tanto da direita quanto da esquerda. E propõem ações diretas e instâncias de auto-ajuda
em oposição às campanhas reformistas de massa amparadas pelo movimento feminista
"oficial", movimentos criados em torno de organizações hierárquicas e centralistas
que com suas ilusões que acabam por tormar as mulheres opressoras, políticas,
e soldadas, sob a alegação de que estão em direção à "igualdade". As anarco-feministas
destacam que as que se denominam "gestoras da ciência" que são mulheres que tem
que aprender de forma a tornar-se gestoras em empresas capitalistas é essencialmente
um instrumento das técnicas para o controle e a exploração do conjunto de trabalhadores
em hierarquias corporativas, uma sociedade "femininalizada" requer a eliminação
do capitalismo e da escravidão e o fim de todos os tipos de dominação. As anarco-feministas
acreditam que aprender como tornar-se um efetivo explorador ou opressor não é
um indicativo de igualdade (conforme disse uma componente do Mujures Libres, &lt;i&gt;"não
queremos substituir a hierarquia masculina por uma hierarquia feminina" &lt;/i&gt;[citado
por Martha A. Ackelsberg, &lt;b&gt;Free Women of Spain&lt;/b&gt;. p.2] -- veja tambem a seção
&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm#secb14"&gt;B.1.4&lt;/a&gt; para
uma futura discussão sobre patriarcado e hierarquia). As tradicionais hostilidades
entre o anarquismo tradicional e o feminismo liberal, se revelaram na luta por
libertação e igualdade das mulheres. Frederica Montseny (figura destacada no movimento
anarquista espanhol) defendia que tal feminismo advoga a igualdade com os homens,
mas não muda em nada as instituições existentes. Ela criticou o feminismo liberal
(mainstream) &lt;i&gt;"é apenas ambição dar para uma mulher de uma determinada classe
a oportunidade de uma participação mais integral em um sistema de privilégios"
&lt;/i&gt;e se estas instituições &lt;i&gt;"são injustas quando os homens tomam partido delas,
elas também serão injustas quando as mulheres tomarem partido delas". &lt;/i&gt;[quoted
by Martha A. Ackelsberg, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, pp. 90-91, p. 91]. &lt;br&gt;

Na história do movimento anarquista, conforme as anotações de Martha Ackelsberg,
o feminismo liberal/mainstream foi considerado como sendo &lt;i&gt;"exclusivamente focado
na estragégia da emancipação da mulher; a luta dos sexos não poderia estar separada
da luta de classes ou do projeto anarquista como um todo." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
p. 91]. O anarco-feminismo continua sua tradição em revelar que todas as formas
de hierarquia estão erradas, não apenas o patriarcado, e que o feminismo está
em conflito com seus próprios ideais se seu alvo é ter as mesmas chances que um
homem tem para ser um chefe. O anarco-feminismo, portanto, como todos os anarquistas
se opõe ao capitalismo como um impedimento a liberdade. O ideal de "iguais oportunidades"
dentro do sistema capitalista levarão mulheres livres a ignorar o fato de que
qualquer sistema onde houver mulheres da classe trabalhadora sendo oprimidas por
chefes (sejam eles machos ou fêmeas) é nocivo. Para as anarco-feministas, a luta
pela libertação da mulher não está separada da luta contra a hierarquia &lt;b&gt;como
tal.&lt;/b&gt; Conforme L. Susan Brown destacou:
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"O anarco-feminismo,
  como expressão da sensibilidade anarquista aplicada às preocupações femininas,
  toma o indivíduo como seu ponto inicial, e se opõe às relações de domínio e
  subordinação, com base em formas econômicas não instrumentais que preservem
  a liberdade da existência humana, tanto de homens como de mulheres." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The
  Politics of Individualism&lt;/b&gt;, p. 144]&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;As anarco-feministas
tem muito a contribuir para nosso entendimento acerca das orígens da crise ecológica
nos valores autoritários da civilização hierárquica. Por exemplo, uma componente
da escola feminista defendeu que a dominação da natureza tem só tem paralelo na
dominação da mulher, a qual se identifica com a natureza através da história (Veja,
por exemplo, Carline Merchant, &lt;b&gt;The Death of Nature&lt;/b&gt;, 1980). Tanto as mulheres
como a natureza são vítimas da obsessão pelo controle que caracteriza a personalidade
autoritária. Por esta razão, um crescente número de ecologistas radicais e de
feministas estão reconhecendo que a hierarquia precisa ser desmantelada de forma
a alcançar suas respectivas metas. Em adição a isto, o anarco-feminismo lembra-nos
da importancia de tratar mulheres igualmente como os homens, e ao mesmo tempo,
respeitar as diferenças das mulhres com os homens. Em outras palavras, que a diversidade
no reconhecimento e no respeito inclui tanto homens como mulheres. Os anarquistas
homens assumem que, por se oporem (em teoria) ao sexismo, eles não são sexistas
na prática. Tal presunção é falsa. O anarco-feminismo exige consistência entre
teoria e prática diante do ativismo social e lembra-nos todos que nós podemos
lutar não apenas no plano externo mas também no plano interno.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca36"&gt;&lt;/a&gt;Que é Anarquismo Cultural?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;No que nos diz respeito,
definimos anarquismo cultural como a promoção de valores anti-autoritários dentro
daquilo que a sociedade tradicionalmente define como "cultura" -- por exemplo,
arte, música, drama, literatura, educação, moralidade sexual, tecnologia, diversões
infantís, e por aí afora.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
As expressões culturais se caracterizam como anarquistas quando entendidas como
um ataque deliberado, direto, ou quando subverte tendências mais tradicionais
das formas de cultura que promovem valores e atitudes autoritárias, particularmente
de dominação e de exploração.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
Uma novela que retrata o mal do militarismo pode ser considerada como anarquismo
cultural se retrata o modelo de que "guerra é inferno" e mostra aos leitores como
o militarismo se conecta com as instituições autoritárias (p.e. capitalismo e
estatismo) ou métodos de condicionamento autoritários (i.e. baseados em valores
das tradicionais famílias patriarcais). Ou, conforme John Clark expressou, o anarquismo
cultural &lt;i&gt;"implica no desenvolvimento das artes, media, e outras símbólicas
formas de expressão que expõem os mais variados aspectos do sistema de dominação
contrastando com um sistema de valores baseado na liberdade e na comunidade." &lt;/i&gt;
[&lt;b&gt;The Anarchist Moment: Reflections on Culture, Nature and Power&lt;/b&gt;]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
O anarquismo cultural é importante -- senão essencial -- por causa dos valores
autoritários que permeiam todo o sistema de dominação que vai da política à economia.
Esses valores jamais serão erradicados mesmo em processos combinados de revolução
política e econômica se não forem também acompanhados por profundas mudanças psicológicas
na maioria da população.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
A aquiescência maciça no corrente sistema tem raíz na estrutura psíquica do ser
humano (sua &lt;i&gt;"estrutura de caráter", &lt;/i&gt;para usar a expressão de Wilhelm Reich),
que é produzida por muitas formas de condicionamento e socialização que tem se
desenvolvido na civilização autoritária-patriarcal durante os últimos cinco ou
seis mil anos. Em outras palavras, mesmo se o capitalismo e o estado acabassem
amanhã, as pessoas se empenhariam logo em seguida em criar novas formas de autoridade
para substituí-los. Através da autoridade -- um forte líder, um comandante, alguém
que desse ordens e que nomeasse alguém para a responsabilidade de pensar pelos
outros -- personalidades submissas/autoritárias se sentem mais confortáveis. Infelizmente,
a maioria dos seres humanos temem a real liberdade, e consequentemente, não sabem
o que fazer com ela -- a prova disso é a longa lista de revoluções e de movimentos
libertários que fracassaram quando os ideais revolucionários de liberdade, democracia,
e igualdade foram desprezados rapidamente, dando lugar a uma nova hierarquia juntamente
com novas classes governantes. Esses fracassos são geralmente atribuidos às maquinações
de políticos e capitalistas reacionários, e também às vascilações dos líderes
revolucionários; mas os políticos reacionários atraem seguidores pelo simples
fato de que acham um solo favorável para fazer crescer seus ideais autoritários
na estrutura do caráter das pessoas ordinárias. Como pré requisito de uma revolução
anarquista é necessário um período de elevação do nível de conscientização em
que as pessoas gradualmente tornem-se avessas à prática submissa/autoritária em
seu meio, veja como tais práticas são reproduzidas pelo condicionamento, e compreenda
como elas podem ser mitigadas ou eliminadas através de novas formas de cultura,
particularmente novos métodos de educação e de cuidados para com as crianças.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
Falaremos deste assunto mais profundamente na seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm#secb15"&gt;B.1.5&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
(&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm#secb15"&gt;Qual a base
da psicologia de massas da civilização autoritária?&lt;/a&gt;), J.6 (&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secJ6.htm"&gt;Qual método de ensino
para as crianças os anarquistas defendem?&lt;/a&gt;), e J.5.13 (&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secJ5.htm#secj510"&gt;Que é Escola Moderna?&lt;/a&gt;)
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
As idéias culturais anarquistas são apresentadas por quase todas as escolas do
pensamento anarquista e a conscientização é considerada como parte essencial de
qualquer movimento anarquista. Para os anarquistas, é importante &lt;i&gt;"construir
um  novo mundo no lugar do velho" &lt;/i&gt;em todos os aspectos de nossas vidas
e criar uma cultura anarquista é parte dessa atividade. Alguns anarquistas, contudo,
consideram a conscientização como insuficiente em si mesma e procuram combinar
atividades de cultura anarquista com organização, usando a ação direta e a construção
de alternativas libertárias em oposição à sociedade capitalista. O movimento anarquista
caracteriza-se por combinar práticas de auto-atividade com trabalho cultural,
com ambas atividades apoiando-se e ajudando-se mutuamente.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca37"&gt;&lt;/a&gt;Existem anarquistas religiosos?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;
Sim, existem. A maior
parte dos anarquistas se opõem à religião e à idéia de Deus como uma invenção
anti-humana e uma justificação para o autoritarismo e escravidão, porém, muitos
crentes em religião tem pautado suas idéias em conclusões anarquistas. Como todos
anarquistas, esses religiosos anarquistas combinam a oposição ao Estado com uma
oposição crítica à propriedade privada e à desigualdade. Em outras palavras, o
anarquismo não é necessáriamente ateísta. De acordo com Jacques Ellul, &lt;i&gt;"de
acordo com os pensadores cristãos, o pensamento bíblico conduz diretamente ao
anarquismo, a única posição "política anti-política" ."&lt;/i&gt; [citado por Peter
Marshall, &lt;b&gt;Demanding the Impossible&lt;/b&gt;, p. 75]
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existem variados
  tipos de anarquismo inspirados por idéias religiosas. Conforme Peter Marshall
  relata, a &lt;i&gt;"primeira  expressão clara de uma sensibilidade anarquista
  pode ser encontrada nos taoístas da velha China por volta do sexto século AC"
  e no "Budismo, particularmente em sua forma Zen, ... teve... um forte espírito
  libertário."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 53, p. 65] Alguns combinam idéias anarquistas
  com influências pagãs e espiritualistas. Contudo, o anarquimo religioso atualmene
  tomou a forma de anarquismo cristão, no qual vamos nos concentrar aqui.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os cristãos anarquistas
  levam a sério as palavras de Jesus a seus seguidores de que &lt;i&gt;"os reis e os
  homens importantes da terra dominam sobre o povo. Porém entre vocês é diferente"&lt;/i&gt;
  (Marcos 10:42,43). De forma similar, o dístico de Paulo de que "&lt;i&gt;não há nehuma
  autoridade exceto Deus"&lt;/i&gt; é obviamente associada à autoridade estatal sobre
  a sociedade. Isto significa, para um verdadeiro cristão, que o Estado além de
  usurpar a autoridade de Deus tira de cada indivíduo a chance de se governar
  a si mesmo e de descobrir que (conforme o título do famoso livro de Tolstoy)
  &lt;b&gt;o Reino de Deus está dentro de você&lt;/b&gt;.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De forma sililar,
  a pobreza voluntária de Jesus, seus comentários sobre os efeitos corruptores
  da riqueza e o clamor bíblico de que o mundo foi criado para a humanidad viver
  em comunhão, tem tudo a ver com a base da crítica socialista à propriedade privada
  e ao capitalismo. Somando-se a isto, a primitiva igreja cristã (que poderia
  ser considerada como um movimento de libertação de escravos, embora mais tarde
  tenha sido cooptada como religião de Estado) baseava-se na divisão em comum (comunista)
  dos bens materiais, um tema que continuamente aparece em movimentos radicais
  cristãos (suspeita-se que a Biblia teria sido usada para expressar as aspirações
  radicais libertárias dos oprimidos, e que, com o tempo, foi tomando a forma
  da terminologia anarquista e marxista). Veja o comentário de John Ball durante
  a Revolta Camponesa em 1381 na Inglaterra:
&lt;/p&gt;
  &lt;p&gt;&lt;i&gt;"When Adam delved
    and Eve span,&lt;/i&gt; &lt;br&gt;
    &lt;i&gt;Who was then a gentleman?" [Quando Adão plantava e Eva tecia, quem era o patrão?] &lt;/i&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A historia do anarquismo
  cristão inclui a &lt;b&gt;&lt;i&gt;Heresia do Espírito Livre&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; na Idade Média, quando
  muitos se levantaram em revolta como os &lt;b&gt;&lt;i&gt;Anabatistas&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; no século
  XVI. Depois disto, a tradição libertária dentro da cristandade surge novamente
  nos escritos de Willian Blake no século XVIII e depois na obra do americano
  Adam Ballou produzida em 1854: &lt;b&gt;&lt;i&gt;Practical Christian Socialism,&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;plena
  de conclusões anarquistas. Contudo, o anarquismo cristão só se tornou claramente
  reconhecido no movimento anarquista com a obra do famoso escritor russo Leon
  Tolstoy.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tolstoy levou a sério
  a menságem da Bíblia e considerou que o verdadeiro cristão precisa se opor ao
  Estado. Com esta leitura da Bíblia, Tolstoy chegou a conclusões anarquistas:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"governar
  significa usar a força, e usar a força significa fazer para os outros o que
  certamente não gostaríamos que fosse feito para nós. Consequentemente, governar
  significa fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros fizessem para
  nós, isto é, fazer o mal."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Kingdom of God is Within You&lt;/b&gt;, p.
  242]&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
Um verdadeiro cristão
deve ser avesso a governar os outros. A partir dessa posição anti-estatista ele
naturalmente passou a defender uma sociedade auto-organizada:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"Porque
  pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que
  governantes o farão não em proveito próprio mas em proveito dos outros?"&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;The Anarchist Reader&lt;/b&gt;, p. 306]&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Tolstoy proclamava ação
não-violenta contra a opressão, e via a transformação espiritual dos indivíduos
como a chave para a criação de uma sociedade anarquista. Conforme Max Nettlau
argumentava, a &lt;i&gt;"grande verdade expressa por Tolstoy é que o reconhecimento
do poder do bem, da bondade, da solidariedade - e de tudo que se chama amor -
está dentro de &lt;b&gt;nós mesmos,&lt;/b&gt; e que isto pode e precisa brotar, desenvolver-se
e exercitar-se &lt;b&gt;em nossa própria existência&lt;/b&gt;." &lt;/i&gt; [&lt;b&gt;A Short History
of Anarchism&lt;/b&gt;, pp. 251-2]
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como todos os anarquistas,
  Tolstoy criticava a propriedade privada e o capitalismo. Da mesma forma que
  Henry George (cujas idéias, tanto quanto as de Proudhon, tiveram um forte impacto
  sobre ele) ele se opunha à propriedade da terra, arguindo que &lt;i&gt;"não há nada
  que justifique a propriedade da terra, e sua consequente valorização, as pessoas
  não foram criadas para viver em espaços restritos, mas para ocupar a terra livre
  tão abundante no mundo"&lt;/i&gt; Contudo, &lt;i&gt;"nesta luta [pela propriedade da terra]
  não são aqueles que trabalham na terra, mas aqueles que participam em um governo
  violento que saem ganhando."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 307] Segundo Tolstoy os
  direitos de propriedade de qualquer meio de produção requer a violência do Estado
  para protegê-lo (a possessão é &lt;i&gt;"sempre protegida pelos costumes, opinião
  pública, pelo senso de justiça e reciprocidade, nunca precisa ser protegida
  pela violência."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;]). Acrescentando, ele argumenta que:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;
&lt;i&gt;"Dezenas
  de milhares de acres de terras cobertas por florestas pertencem a um único proprietário
  - enquanto que milhares de pessoas... precisam ser contidas pela violência.
  Criam-se fábricas e ofícios onde muitas gerações de trabalhadores são fraudadas.
  Enquanto que centenas de milhares de sacas de grãos, pertencentes a um só dono,
  aguardam os tempos de fome para serem vendidas pelo triplo do prêço."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;]
&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;Tolstoy argumenta que
o capitalismo conduz o indivíduo tanto à ruína moral como física, e que os capitalistas
são &lt;i&gt;"condutores de escravos."&lt;/i&gt; Ele considera impossível para um verdadeiro
Cristão ser um capitalista, pois o &lt;i&gt;"patrão é um homem cujo ganho consiste na
supressão de valores pertencentes a trabalhadores cuja ocupação principal baseia-se
em trabalhos forçados, contra a natureza humana"&lt;/i&gt;  portanto, &lt;i&gt;"ele [patrão]
arruina vidas humanas em proveito próprio."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Kingdom Of God is Within
You&lt;/b&gt;, p. 338, p. 339] Tolstoy qualifica as cooperativas como &lt;i&gt;"atividade
social onde a moral e o auto-respeito impedem pessoas que não querem fazer parte
da violência, tomem parte nela."&lt;/i&gt; [citado por Peter Marshall, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
p. 378]
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A partir de sua oposição
  à violência, Tolstoy rejeita tanto o Estado como a propriedade privada e defende
  táticas pacifistas para dar um fim à violência dentro da sociedade e criar uma
  sociedade justa. Nas palavras de Nettlau, ele &lt;i&gt;"defendia a . . . &lt;b&gt;resistência
  ao mal&lt;/b&gt;; e à forma de resistência - pela força ativa - ele acrescentou outro
  caminho: &lt;b&gt;a resistência pela desobediência, a força passiva.&lt;/b&gt;"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 251] Em suas idéias sobre uma sociedade livre, Tolstoy foi claramente
  influenciado pela vida rural russa &lt;b&gt;e&lt;/b&gt; pelas obras de Peter Kropotkin (como
  &lt;b&gt;Fields, Factories and Workshops&lt;/b&gt;), J. P. Proudhon e do não anarquista
  Henry George.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As idéias de Tolstoy
  tiveram uma forte influência em Gandhi, que inspirou muita gente em seu país
  ao uso da resistência não-violenta para acabar com o domínio britânico da Índia.
  Aparentemente, a visão de Gandhi de uma Índia livre enquanto uma federação de
  comunas é similar à visão anarquista de Tolstoy de uma sociedade livre (embora
  tenhamos clareza de que Gandhi não foi um anarquista). O &lt;b&gt;Catholic Worker
  Group&lt;/b&gt; nos Estados Unidos foi também fortemente influenciado por Tolstoy
  (e Proudhon), assim como por Dorothy Day, uma destacada anarquista e pacifista
  Cristã fundadora do jornal &lt;b&gt;Catholic Worker&lt;/b&gt; em 1933. A influência de Tolstoy
  e do anarquismo religioso em geral pode também ser encontrado nos movimentos
  ligados à Teologia da Libertação nos países latinos e na América do Sul que
  combinam idéias cristãs com ativismo social em meio às classes trabalhadoras
  e marginalizados (embora não haja dúvida que a Teologia da Libertação em geral
  inspira-se mais em um Estado socialista que em idéias anarquistas).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em países onde a
  Igreja controla &lt;i&gt;de fato&lt;/i&gt; o poder político, como a Irlanda, partes da América
  do Sul, e Espanha, que exerceu grande influência em todo século XIX e no começo
  do século XX, os anarquistas foram fortemente anti-religiosos porque a Igreja
  tinha o poder de reprimir a dessidência e a luta de classes. Tanto que, quase
  todos anarquistas eram ateístas (e concordavam com Bakunin que se Deus existisse
  seria necessário, para a liberdade e dignidade humana, aboli-lo), existe uma
  tradição minoritária dentro do anarquismo que desvincula conclusões anarquistas
  da religião. Nesta mesma direção, muitos anarquistas sociais consideram o pacifismo
  tolstoyano como dogmático e extremo, vendo a necessidade (algumas vezes) do
  uso da violência para resistir a um grande mal. Contudo, muitos anarquistas
  concordam com tolstoyanos no que se refere à necessidade de uma transformação
  dos valores individuais como o aspecto chave para a criação de uma sociedade
  anarquista, e da importancia da não-violência enquanto tática geral (embora,
  convenhamos, seja raro o anarquista que rejeite totalmente o uso da violência
  na auto-defesa, quando não restar outra alternativa). &lt;br&gt;
   
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;
&lt;a name="seca38"&gt;&lt;/a&gt;Que é &lt;i&gt;"anarquismo sem adjetivos"?&lt;/i&gt;
&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Nas palavras do historiador
George Richard Esenwein, &lt;i&gt;"anarquismo sem adjetivos" &lt;/i&gt;em seu sentido lato
&lt;i&gt;"refere-se a uma indiscutível forma de anarquismo, uma doutrina sem qualquer
etiqueta de qualificação como comunista, coletivista, mutualista, ou individualista.
Para outros, . . .  isto simplesmtente significa uma atitude de tolerancia
e de coexistência diante das diferentes escolas anarquistas." &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Anarchist
Ideology and the Working Class Movement in Spain, 1868-1898&lt;/b&gt;, p. 135]. O criador
dessa expressão foi o cubano Fernando Tarrida del Marmol que a utilizou em novembro
de 1889 em Barcelona. Ele dirigiu suas palavras aos anarquistas comunistas e coletivistas
na Espanha os quais a cada dia que passava acirravam cada vea mais os debates
sobre os méritos de suas respectivas teorias.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
"Anarquismo sem adjetivos" era uma tentativa de mostrar grande tolerância entre
as tendências anarquistas e deixar claro que os anarquistas não imporiam um plano
econômico preconcebido em cima de ninguém -- mesmo em teoria. Essas preferências
econômicas dos anarquistas seriam de uma &lt;i&gt;"importancia secundária" &lt;/i&gt;diante
da abolição do capitalismo e do estado, e através da livre experimentação com
base em uma sociedade livre. Esta perspectiva teórica conhecida como &lt;i&gt;"anarquismo
sin adjetives" &lt;/i&gt;foi produto de um intenso debate no meio do próprio movimento.
As raízes deste argumento podem ser encontradas no desenvolvimento do Anarco-comunismo
depois da morte de Bakunin em 1876. De forma não muito diferente dos anarco-coletivistas
(como pode ser visto na famosa obra de James Guillaume &lt;i&gt;"On Building the New
Social Order"&lt;/i&gt; na referência a &lt;b&gt;Bakunin on Anarchism, &lt;/b&gt;os coletivistas
não concebiam seu sistema econômico envolvido com um livre comunismo), os anarco-comunistas
desenvolveram, produziram e enriqueceram a obra de Bakunin, da mesma forma que
Bakunin desenvolveu, produziu e enriqueceu a obra de Proudhon. Os Anarco-comunistas
se associaram com anarquistas como Elisee Reclus, Carlo Cafiero, Errico Malatesta
e (o mais famoso) Peter Kropotkin. Rapidamente, as idéias anarco-comunistas se
espalharam entre os anarco-coletivistas como a mais forte tendencia na Europa,
exceto na Espanha. Aqui o assunto principal não foi a questão do comunismo (Ricardo
Mella é um caso a parte) mas uma questão de modificação da estratégia e da tática
influenciada pelos anarco-comunistas. Nessa época (1880 e anos seguintes), os
anarco-comunistas se dedicaram a estabelecer células locais de militantes anarquistas,
geralmente em oposição ao sindicalismo (embora Kropotkin não tenha sido um desses
pois reconhecia a importancia dos trabalhadores nessas organizações) quando não
adotavam uma postura anti-organização. Como era de se esperar, após muitas discussões
mudaram de estratégia e de tática diante dos coletivistas espanhóis que apoiavam
vigorosamente a organização e a luta da classe trabalhadora. Este conflito logo
se espalhou para fora da Espanha e a discussão encontrou seu caminho nas páginas
do &lt;b&gt;La Revolte&lt;/b&gt; em Paris. Isto fez com que muitos anarquistas concordassem
com os argumentos de Malatesta que &lt;i&gt;"não cabe a nós a palavra final, tudo não
passaria de uma mera hipótese." &lt;/i&gt; [quoted by Max Nettlau, &lt;b&gt;A Short History
of Anarchism&lt;/b&gt;, pp. 198-9]. Com o passar do tempo , a maioria dos anarquistas
concordaram (usando as palavras de Nettlau) que &lt;i&gt;"não podemos prever o desenvolvimento
econômico do futuro" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 201] e chegaram à conclusão de que
aquilo que tinham em comum (oposição ao capitalismo e ao estado) era mais importante
que suas diferentes visões de como uma sociedade livre deveria funcionar. Com
o passar do tempo, a maioria dos anarco-comunistas viram que ignorar o movimento
operário não enriqueceria a classe trabalhadora e que embora divergindo dos anarco-coletivistas,
todos estariam juntos, lado a a lado, após a revolução. De forma semelhante, nos
Estados Unidos o debate foi ainda mais intenso entre os anarco-comunistas e os
individualistas. Benjamin Turcker chegou a dizer que os anarco-comunistas não
erama anarquistas enquanto que John Most dizia quase a mesma coisa sobre as idéias
de Tucker. Apenas pessoas como Mella e Tarrida defendiam a idéia da tolerancia
entre os grupos anarquistas, segundo Voltairine de Cleyre &lt;i&gt;"chame a você mesmo
apenas de 'anarquista' e procure como Malatesta por um 'anarquismo sem adjetivos',
mesmo na ausência de governo muitos diferentes projetos experimentais provavelmente
serão implementados nas mais variadas localidades até que se encontre o caminho
mais apropriado." &lt;/i&gt;[Peter Marshall, &lt;b&gt;Demanding the Impossible&lt;/b&gt;, p. 393]
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tais debates tiveram
  um profundo impacto no movimento anarquista, conforme pode ser verificado em
  anarquistas como Cleyre, Malatesta, Nettlau e Reclus que adotaram a perspectiva
  da tolerancia incorporada na expressão "anarquismo sem adjetivos" (veja &lt;b&gt;A
  Short History of Anarchism &lt;/b&gt;de Nettlau, pags. 195 a 201, um excelente resumo
  deste tema). &lt;br&gt;
  Importante destacar também, a posição dominante dentro do movimento anarquista
  hoje é de que a maioria dos anarquistas reconhecem o direito das outras tendências
  ao nome "anarquista" tendo, obviamente, suas próprias preferências para com
  relação a tipos específicos de teoria anarquista e seus próprios argumentos
  que as justifiquem. Contudo, é importante lembrar que as diferentes formas de
  anarquismo (comunismo, sindicalismo, religioso, etc) não são mutuamente exclusivas
  e você não é obrigado a apoiar nem a combater ninguém. Esta tolerância se reflete
  na expressão "anarquismo sem adjetivos". Para finalizar, alguns "anarco"-capitalistas
  estão tentando usar a tolerância associada com "anarquismo sem adjetivos" para
  justificar que sua ideologia seria aceita como parte do movimento anarquista.
  Ora, eles afirmam, anarquismo é apenas e tão somente se opor ao estado, questões
  econômicas são questões secundárias. Contudo, o uso de "anarquismo sem adjetivos"
  é válido desde que o tipo de economia a ser alcançada seja &lt;b&gt;anti-capitalista&lt;/b&gt;
  (i.e. socialista). Em outras palavras, o fato é que o capitalismo tem que ser
  abolido tanto quanto o estado e uma vez feito isso o próximo passo será desenvolver
  a livre experimentação. Explicando melhor, a luta contra o estado é apenas uma
  parte da dura luta pelo fim da opressão e da exploração e não pode ser isolada
  delas. Como os "anarco"-capitalistas não desejam a abolição do capitalismo tanto
  quanto o estado eles não são nem anarquistas nem "anarquistas sem adjetivos"
  nem tampouco podem se proclamar "anarquistas" capitalistas (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secFcon.htm"&gt;seção F&lt;/a&gt; sobre
  porque o "anarco"-capitalismo não é anarquismo).&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 16:37:43 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/quantos-tipos-de-anarquismos-existem</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/quantos-tipos-de-anarquismos-existem</guid></item><item><title>Alguns exemplos de "anarquismo em ação"</title><description>&lt;h2&gt;&lt;a name="seca5int"&gt;&lt;/a&gt;Introdução&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O anarquismo mais do que qualquer outra teoria trata dos esforços de milhões de revolucionarios que tem mudado o mundo durante os últimos séculos. Discutiremos aqui alguns dos momentos mais célebres do movimento, todos eles de natureza profundamente anti-capitalista. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O anarquismo&lt;b&gt; trata&lt;/b&gt; de mudar o mundo radicalmente, não simplesmente fazer o presente sistema menos inumano, por meio do fomento das tendências anarquistas existentes. Embora uma revolução puramente anarquista ainda não tenha ocorrido, houveram várias de caráter e níveis de participação elevadamente anarquista. E ainda que &lt;b&gt;todas&lt;/b&gt; tenham sido destruídas, em cada caso o foi pelas mãos de forças externas (apoiadas tanto por comunistas como por capitalistas), não devido a problemas internos do anarquismo. Estas revoluções, apesar de não terem sobrevivido frente a forças opressivas, constituem uma inspiração para os anarquistas e são prova de que o anarquismo é uma teoria social viável que pode ser colocada em prática em grande escala. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É importante assinalar que estes exemplos são experimentos sociais de ampla escala e não supõem que ignoremos a corrente oculta da prática anarquista que existe na vida cotidiana, inclusive sob o capitalismo. Piotr Kropotkin (em&lt;b&gt; El Apoyo Mutuo&lt;/b&gt;) e Colin Ward (em &lt;b&gt;Anarchy in Action&lt;/b&gt;) documentaram as muitas maneiras pelas quais o povo comum, geralmente desconhecendo o anarquismo, trabalham unidos em igualdade para solucionar seus próprios problemas. Como disse Colin Ward,&lt;i&gt; "uma sociedade anarquista, uma sociedade que se organiza sem autoridade, sempre existiu, como a semente sob a neve, enterrada sob o peso do estado e de sua burocracia, do capitalismo e seu desperdício, seus privilégios e suas injustiças, seu nacionalismo e suas lealdades suicidas, suas diferenças religiosas e seu separatismo supersticioso"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Anarchy in Action&lt;/b&gt;, p.14]. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O anarquismo não trata somente de uma sociedade futura, trata também da luta que ocorre hoje. Não é uma condição mas um processo que criamos com nosso ativismo e nossa auto-libertação. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todavia, há 60 anos atras, muitos comentaristas desenharam o movimento anarquista como coisa passada. Não somente haviam sido destruídos pelo fascismo os movimentos anarquistas europeus, como também a sua recuperação pós-guerra foi impedida, por um lado, pelo capitalismo ocidental, e por outro pelo oriente leninista. Durante este mesmo período, o anarquismo foi reprimido nos EEUU, América Latina, China, Korea (onde uma revolução social de conteúdo anarquista foi reprimida antes da guerra da Korea) e Japão. Inclusive um ou outro país que escapou do pior da repressão, a combinação da Guerra Fria e o isolamento internacional viram os sindicatos libertários, tais como o SAC da Suecia se converterem em reformistas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas também os anos 60 foram uma década de luta renovada, e por todo o mundo a 'Nova Esquerda voltou seus olhos para o anarquismo, como também em outras direções, buscando suas idéias. Muitas das principais figuras da explosão massiva de maio de 1968 na França se consideravam anarquistas. Mesmo tendo esses movimentos se degenerado, deram lugar a outros que mantiveram o ideal vivo e iniciaram a formação de novos movimentos. A morte de Franco em 1975 deu lugar a um renascimento massivo do anarquismo na Espanha, com mais de 500 mil pessoas assistindo à primeira reunião da CNT pós franquismo. O retorno a uma democracia limitada em alguns países latinoamericanos ao final dos anos 70 e durante os anos 80 permitiu o crescimento do anarquismo ali. Finalmente, no final dos anos 80, foram os anarquistas os que deram os primeiros golpes contra a URRS leninista, tendo lugar em Moscou, em 1987, a primeira manifestação anarquista desde 1928. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje o movimento anarquista, embora ainda frágil, organiza centenas de milhares de revolucionários em muitos países. Espanha, Suécia e Itália tem movimentos libertarios que contam com mais de 250 mil filiados entre eles. Quase todos os demais países europeus tem vários milhares de anarquistas ativos. Grupos anarquistas tem aparecido pela primeira vez em outros países, incluindo Nigéria e Turquia. Na América do Sul o movimento teve uma assombrosa recuperação. Uma página de contatos divulgada pelo grupo venezuelano&lt;b&gt; Correo A&lt;/b&gt; lista mais de 100 organizações em quase todos os países. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Possivelmente a recuperação esteja ocorrendo mais lentamente na América do Norte, mas lá também, todas as organizações libertarias estão crescendo notavelmente. Conforme se acelera este crescimento, muitos mais exemplos de anarquia em ação serão criados e mais e mais pessoas tomarão parte em organizações e atividades anarquistas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante, é importante assinalar exemplos massivos do anarquismo operando em grande escala para poder evitar as falsas acusações de "utopianismo". Como a historia está escrita pelos vencedores, estes exemplos de anarquia em ação são muitas vezes ocultados em livros obscuros. Raramente se mencionam nas escolas e universidades (ou se mencionam, se desvirtuam). Não é necessário dizer que os poucos exemplos que damos são apenas alguns, há muito mais. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O anarquismo tem uma grande historia em muitos países, e não dá para documentar cada exemplo, apenas os que consideramos mais importantes. Também lamentamos se parecermos eurocentristas. Devido a considerações de tempo e espaço, ignoramos a Alemanha (1919-21), Portugal (1974), a revolução mexicana, os anarquistas da revolução cubana, a luta dos coreanos contra o imperialismo japonês (e depois dos EEUU e da União Soviética) durante e depois da segunda guerra mundial, Hungria (1956), a rebelião nos finais dos anos 60 do "negar-se a trabalhar" (em particular o "verão quente" na Itália, 1969), a greve de mineiros do Reino Unido (1984-85), a luta contra a "Poll Tax" na Gran Bretanha (1988-92), as greves na França em 1986 e 1995, o movimento COBAS da Itália dos anos 80 e 90, e muitas outras grandes lutas nas quais as idéias anarquistas de autogestão anarquista estiveram comprometidas (idéias que geralmente nascem do próprio movimento, sem que os anarquistas joguem necessariamente o papel de "líder"). Para os anarquistas, as revoluções e as lutas populares são &lt;b&gt;&lt;i&gt;"festivais dos oprimidos"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, quando as pessoas comuns começam a agir por si próprias, a mudar a si mesmas e ao mundo. &lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca51"&gt;&lt;/a&gt;A Comuna de Paris&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A Comuna de Paris de 1871 jogou um papel importante no desenvolvimento do movimento e das idéias anarquistas. Bakunin por sua vez comentou,&lt;i&gt; "o socialismo revolucionário (i.e. anarquismo) acaba de ensaiar seu primeiro golpe e demonstração prática na Comuna de Paris"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Bakunin on Anarchism&lt;/b&gt;, p. 263]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Comuna de Paris foi criada depois da derrota da França pelas mãos da Prussia na guerra franco-prusiana. O governo francês tratou de mandar tropas para recuperar o canhão da Guarda Nacional Parisiense para evitar que caísse nas mãos do povo. Os soldados se negaram a abrir fogo sobre a multidão rebelde e apontaram as armas contra seus oficiais. Isto ocorreu em 18 de março. A Comuna começava. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas eleições livres convocadas pela Guarda Nacional de Paris, os cidadãos elegeram um conselho formado por uma maioria de Jacobinos e Republicanos e uma minoria Socialista (Blanquistas - socialistas autoritários - a maior parte, e seguidores de Proudhon). O conselho proclamou a autonomia de Paris e seu desejo de recriar a França como uma confederação de comunas (i.e. comunidades). Dentro da Comuna, os integrantes do conselho podiam ser revogados e se lhes pagava um salário médio. Além disso, tinham que prestar contas ao povo que os elegeram. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Está claro por quê este sucesso se prendeu à imaginação dos anarquistas - tem grandes similaridades com as idéias anarquistas. De fato, o exemplo da Comuna de Paris foi de muitas maneiras similar a como Bakunin havia prognosticado que a revolução ocorreria - uma cidade principal se declararia autônoma, organizando-se e dando exemplo, e exortaria ao resto do mundo a seguí-la. (Ver &lt;i&gt;"Carta a Albert Richards" &lt;/i&gt;em &lt;b&gt;Bakunin on Anarquism&lt;/b&gt;). A Comuna de Paris iniciou o processo de criação de uma nova sociedade, organizada de baixo para cima. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Muitos anarquistas tiveram um papel importante dentro da Comuna, por exemplo Louise Michel, os irmãos Reclus, e Eugene Varlin (este último assassinado em uma repressão posterior). Referente às reformas iniciadas pela Comuna, tais como a reabertura dos postos de trabalho como cooperativas, os anarquistas puderam ver suas idéias de trabalho associadas começar a realizar-se. No chamamento da Comuna ao federalismo e à autonomia, os anarquistas vêem sua &lt;i&gt;"organização social do futuro ... levada a cabo de baixo para cima, através da livre associação ou federação de trabalhadores, começando pelas associações, seguindo as comunas, as regiões, as nações, e finalmente culminando em uma grande federação internacional e universal"&lt;/i&gt; [Bakunin,&lt;b&gt; ibid.&lt;/b&gt;, p. 270]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todavia, para os anarquistas a Comuna durou pouco. O estado não fora abolido dentro da Comuna, como havia sido abolido fora. Os comuneiros se organizaram &lt;i&gt;"de maneira Jacobina"&lt;/i&gt; (usando as mesmas palavras de Bakunin). Como assinalou Piotr Kropotkin, não&lt;i&gt; "romperam com a tradição do estado, de governo representativo, e não trataram de obter dentro da Comuna essa organização do simples ao complexo que havia inaugurado ao proclamar a independência e a livre federação de comunas"&lt;/i&gt; &lt;b&gt;[Fighting the Revolution&lt;/b&gt;, p. 16]. Alem disso, suas tentativas de reforma econômica não foram suficientemente longe, não trataram de formar cooperativas em todos os postos de trabalho nem formar associações destas cooperativas para a coordenação e o apoio mutuo em suas atividades econômicas. Não obstante, como a cidade estava sitiada pelo exército francês, se compreende que os comuneiros pensaram em outras coisas. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em lugar de abolir o estado dentro da comuna organizando federações de assembléias democráticas de massas, como as "seções" parisienses da revolução de 1789-93 (ver &lt;b&gt;Great French Revolution&lt;/b&gt; de Kropotkin), a Comuna de Paris manteve um governo representativo e sofreu por isso. &lt;i&gt;"Em vez de atuar por sua conta ... o povo, confiando em seus governadores, lhes confiou o encargo de tomar a iniciativa"&lt;/i&gt; [Kropotkin, &lt;b&gt;Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, p.19], e assim o conselho se converteu no&lt;i&gt; "maior obstáculo à revolução"&lt;/i&gt; [Bakunin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 241]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O conselho se isolou mais e mais do povo que o elegeu, tornando-se mais e mais inútil. Enquanto que sua irrelevancia aumentava, o mesmo ocorria com suas tendências autoritárias, chegando a criar-se um&lt;i&gt; "Comitê de Saúde Pública"&lt;/i&gt; pela maioria Jacobina, para&lt;i&gt; "defender"&lt;/i&gt; (pelo terror) a " revolução". O Comitê se opôs à minoria libertário-socialista e foi afortunadamente ignorado na prática pelo povo de Paris que defendia sua liberdade contra o exército francês, que os atacava em nome da civilização capitalista e da "liberdade". Em 1 de maio, as tropas governamentais entraram na cidade, seguindo-se sete dias de duras lutas nas ruas. Pelotões de soldados e membros da burguesia armados invadiram as ruas, matando impunemente. Mais de 25 mil pessoas foram mortas nas lutas pelas ruas, muitas assassinadas depois de renderem-se, e seus cadáveres foram enterrados em sepulturas comuns. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Para os anarquistas, as lições da Comuna de Paris foram três. Primeiro, uma confederação de comunidades descentralizada é a forma política necessária para uma sociedade livre. Segundo, &lt;i&gt;"Há tantas razões para um governo dentro da Comuna como para um governo sobre ela"&lt;/i&gt; {Piotr Kropotkin,&lt;b&gt; Fighting the Revolution&lt;/b&gt;, p. 19]. O que quer dizer que uma comunidade anarquista há que ser baseada na confederação de bairros e assembléias de trabalho cooperando livremente. Terceiro, é criticamente importante unificar as revoluções política e econômica en uma revolução &lt;b&gt;social&lt;/b&gt;.&lt;i&gt;" Eles trataram de consolidar a Comuna primeiro, postergando a revolução social para mais tarde, enquanto que a única forma de proceder era&lt;b&gt; consolidar a Comuna por meio da revolução social!"&lt;/b&gt;&lt;/i&gt; [Kropotkin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,p. 19]. &lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca52"&gt;&lt;/a&gt;Os Mártires de Haymarket&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A festividade socialista do Primeiro de Maio, se bem que nos anos recentes tenha sido seqüestrada pelos leninistas, se originou com a execução de quatro anarquistas em Chicago em 1886 por organizar trabalhadores na luta pela jornada de oito horas. A American Federation of Labor havia lançado uma chamada à greve para 1 de maio de 1886, apoiando esta demanda. Em Chicago os anarquistas eram a força principal no movimento sindical, e em parte como resultado de sua presença, os sindicatos atuaram sobre esta chamada com as greves do 1 de maio. Se convocou uma manifestação em repúdio à brutalidade policial durante estas greves. (A policia havia atacado um piquete, matando uma pessoa). Conforme se dissolvia a manifestação, foi atacada pela policia. Uma bomba foi lançada em cima das forças policiais, que abriram fogo sobre a multidão. Ao final, todos os anarquistas conhecidos foram presos, a policia baixou ordens de &lt;i&gt;"lançar a rede primeiro e consultar as leis depois"&lt;/i&gt; do procurador do estado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Oito anarquistas foram julgados por cumplicidade em assassinato. Não houve nenhuma pretensão de que nenhum dos acusados houvesse cometido nem planejado o bombardeio. Pelo contrario, se instruiu o jurado que&lt;i&gt; "A lei está sendo julgada. A anarquia está sendo julgada. Estes homens foram selecionados pelo Grande Júri, e condenados&amp;nbsp; por serem líderes. Não são mais culpáveis que os milhares de seus seguidores. Senhores do júri; condene-os, façam deles um exemplo, acabem com eles e salvem nossas instituições, nossa sociedade"&lt;/i&gt;. O jurado estava formado por homens de negócios e um parente de um dos policiais mortos, dessa forma, as vítimas foram declaradas culpadas. Sete foram sentenciados à morte, um a 15 anos de cárcere. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma campanha internacional resultou em que duas das sentenças fossem comutadas para prisão perpétua. Dos cinco restantes, um burlou ao verdugo suicidando-se à véspera da execução. Os quatro restantes foram enforcados em 11 de novembro de 1887. São conhecidos na historia operaria como os Mártires de Haymarket. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Albert Spies (um dos mártires) se dirigiu à corte depois de haver sido condenado à morte:&lt;i&gt; "se credes que enforcando-nos podeis acabar com o movimento operário ... o movimento no qual os milhões de oprimidos, os milhões que trabalham na miséria e na necessidade esperam sua salvação -- se esta é vossa opinião, então enforquem-nos! Aqui pisotearás uma faísca, mas ali e acolá, por traz de vocês, pela tua frente, e por todas as partes, as chamas surgirão. É um fogo subterrâneo. Não o podereis apagar".&lt;/i&gt; Naquele dia, e nos anos posteriores, este desafio ao estado e ao capitalismo atrairia milhares ao anarquismo, particularmente dentro dos EEUU. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Para compreender por quê o estado e a classe patronal estavam tão determinados a enforcar aos anarquistas de Chicago, é necessário dar-se conta de que eram considerados como "líderes" de um movimento operário radical e massivo.  Em 1884, os anarquistas de Chicago publicavam o primeiro diário anarquista, o&lt;b&gt; Chicagoer Arbeiter-Zeiting&lt;/b&gt;. Era redigido, lido, publicado, e era propriedade dos imigrantes alemães do movimento operário. A circulação combinada do diário, do semanário (&lt;b&gt;Vorbote&lt;/b&gt;) e a edição do domingo, (&lt;b&gt;Fackel&lt;/b&gt;) mais que dobrou, de 13 mil exemplares em 1880 para 26.980 em 1886. Haviam periódicos anarquistas para outros grupos étnicos também. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os anarquistas foram muito ativos na Central Labor Union, fazendo dela, nas palavras&lt;i&gt; de Albert Parsons (um dos mártires), &lt;/i&gt;"o grupo embrionário da futura 'sociedade livre'". Aparte de seu trabalho sindical organizador, o movimento anarquista de Chicago originou também centros sociais, pic-nics, palestras, bailes, bibliotecas e um montão de atividades. Todas elas contribuíram para formar uma cultura obreira distintamente revolucionaria no coração do&lt;i&gt; "American Dream"&lt;/i&gt;. A ameaça à classe dominante e a seu sistema era demasiado grande para permitir que continuasse . Daí para a frente veio a repressão, a corte canguru, e o assassinato estatal daqueles que o estado e a classe capitalista considerava "líderes" do movimento.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca53"&gt;&lt;/a&gt;A formação de sindicatos&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Em fins do século passado na Europa o movimento anarquista começou a criar as condições para a aplicação das idéias anarquistas na vida diária. Isto ocorreu como resposta ao desastroso período da "propaganda pela ação" em que os anarquistas individualmente assassinavam líderes governamentais na tentativa de provocar um levante popular e em vingança pelo assassinato dos comuneiros. Reagindo a esta fracassada e contraproducente campanha, os anarquistas voltaram às suas raízes e às idéias de Bakunin, começando assim a formar sindicatos revolucionários de massas &lt;br&gt;
(sindicalismo e anarco-sindicalismo). &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre 1890 e o início da primeira guerra mundial, os anarquistas estabeleceram sindicatos revolucionários na maioria dos países europeus, especialmente na Itália e França. Enquanto que os anarquistas norte e sul americanos também organizaram seus sindicatos com êxito. Quase todos os países industrializados tiveram seu movimento sindical, se bem que foram mais fortes na Europa e na América do Sul. Estes sindicatos se organizavam de maneira confederativa, de baixo para cima, &lt;br&gt;
segundo as idéias anarquistas. Combatiam o capitalismo diariamente envolvendo-se em assuntos como aumentos salariais e melhores condições de trabalho, mas também lutavam pela abolição do capitalismo através da greve geral revolucionaria. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A técnica organizativa anarquista alentava a participação, a militancia e o fortalecimento de seus membros proporcionando o crescimento dos sindicatos anarco-sindicalistas e seu impacto no movimento operário, alem disso também obtiveram conquistas na melhoria das condições de trabalho e no cultivo da consciência de classe. A poderosa COB (Confederação Operária Brasileira) no Brasil e a IWW (Industrial Workers Word), por exemplo, ainda inspiram ativistas sindicais e através de sua grande historia legaram muitos cânticos e slogans sindicalistas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A maioria das associações de sindicatos foram reprimidas durante a primeira guerra mundial, mas nos anos seguintes de pós-guerra alcançaram grande crescimento. Esta onda de militancia foi conhecida na Itália como "os anos vermelhos", onde alcançou sua máxima expressão com as ocupações de fábricas (ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca55"&gt;A.5.5&lt;/a&gt; - Os Anarquistas nas Ocupações de Fábricas na Itália). Mas também durante estes anos, em alguns países ocorreu a destruição destes sindicatos por causa da amplitude de sua influencia. Por outro lado, o triunfo da Revolução Russa conduziu muitos ativistas para o campo da política autoritária. Os partidos comunistas deliberadamente minaram os sindicatos &lt;br&gt;

libertários, incitando lutas intestinais e divisões. Mais importante ainda, durante estes anos o capitalismo tomou a ofensiva com uma nova arma - o fascismo. O fascismo nasceu na Itália e Alemanha em uma tentativa dos capitalistas para esmagar fisicamente as amplas organizações que a classe trabalhadora havia construído. Nestes países os anarquistas se viram forçados a fugir para o exílio, sumir de vista, ou se converterem em vítimas de assassinatos em campos de concentração. Nos EEUU, a IWW foi esmagada por uma onda de repressão apoiada com toda força pelos meios de informação, o estado e a classe capitalista. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;
Na Espanha, contudo, a CNT, união anarco-sindicalista, prosseguiu crescendo, chegando a um milhão e meio de membros em 1936. A classe capitalista abraçou o fascismo para salvar seu poderio das mãos dos trabalhadores, que estavam cada vez mais confiantes em seu poder e em seus direitos de auto-gerir suas próprias vidas (ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca56"&gt;A.5.6&lt;/a&gt; - Anarquismo e a revolução espanhola). Em outros locais, os capitalistas apoiaram estados autoritários para esmagar o movimento operário e pôr o capitalismo a salvo nestes países. Somente a Suécia escapou ilesa, alí a organização sindicalista SAC até hoje permanece organizando trabalhadores (e o faz de fato, como muitos &lt;br&gt;
outros sindicatos, crescendo à medida que os trabalhadores rechaçam os sindicatos burocráticos cujos líderes estão mais interessados em proteger seus privilegios e negociar com a direção das empresas e o governo do que defender seus membros). &lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca54"&gt;&lt;/a&gt;Os Anarquistas na Revolução Russa&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A Revolução Russa de 1917 viu um grande crescimento do anarquismo nesse país assim como muitos experimentos baseados nas idéias anarquistas. Não obstante, a cultura popular viu a Revolução Russa não como um movimento de massas, de gente comum lutando por sua liberdade, mas como o meio pelo qual Lenin impôs sua ditadura na Rússia. A Revolução Russa, da mesma forma que a maior parte da historia, é um bom exemplo do jargão "a historia é escrita pelos vencedores". Ambas as historias, a capitalista e a leninista, do período entre 1917 e 1921 ignoram aquilo que o anarquista Voline chamou de "a revolução desconhecida", a revolução que surge de baixo para cima pelas ações do povo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A derrubada inicial do Czar ocorreu devido à ação direta das massas, a revolução alcançou tal ímpeto que o novo estado "socialista" não foi suficientemente forte para detê-la. Para as esquerdas, o fim do czarismo foi o ponto culminante de anos de esforços de socialistas e de anarquistas em todo o mundo, representando a ala progressista do pensamento humano vencendo a tradicional opressão. A queda do Czar foi celebrada pelas esquerdas em todo o mundo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas ruas, postos de trabalho e no campo, mais e mais gente se convencia de que a abolição do feudalismo não era politicamente suficiente. A derrubada do Czar teria um efeito real muito pequeno se a exploração feudal continuasse na economia, assim, os trabalhadores começaram a tomar os postos de trabalho e os camponeses a tomar a terra. Através da Rússia, o povo comum começou a construir suas próprias organizações, sindicatos, cooperativas, comitês de fábrica e conselhos (ou "soviets" em russo). Estas organizações originalmente se formaram de maneira anarquista, com &lt;br&gt;

delegados revogáveis e federados uns com os outros. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os anarquistas participaram neste movimento, adotando todas as tendencias da autogestão. Segundo observou Jacques Sadoul (oficial francês) no começo de 1918, "O partido anarquista é o mais ativo, o mais militante de todos os grupos de oposição e provavelmente o&amp;nbsp; mais popular ... Os bolcheviques estão preocupados" [ citado por Daniel Guerin, Anarquismo, pp.95-96]. Os anarquistas foram particularmente ativos no movimento de produção autogestionária dos trabalhadores (ver M. Brinton, The Bolsheviks and Worker's Control). &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todavia, ainda no começo de 1918, os socialistas autoritários do partido bolchevique, uma vez no poder, iniciaram a eliminação física de seus rivais anarquistas. Inicialmente, os anarquistas apoiaram aos bolcheviques, posto que os líderes bolcheviques ocultaram sua ideologia de estado ao apoiarem os sovietes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante, este apoio "se dissolveu" rapidamente a medida que os bolcheviques se mostraram como eram na realidade, ou seja, não buscavam o verdadeiro socialismo, procuravam assegurar e garantir o poder para si próprios, não mais buscavam a propriedade coletiva da terra e dos meios de produção mas a propriedade do governo. Por exemplo, os bolcheviques destruíram sistematicamente o movimento de controle operário quando os estes triunfavam aumentando a produção mesmo sob as mais difíceis circunstancias. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lenin suprimiu o controle dos trabalhadores baseando-se na duvidosa premissa de que isso reduzia a produtividade, argumento que depois se revelou falso nos casos onde o controle dos trabalhadores se estabeleceu. (ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC2.htm#secc23"&gt;Seção C.2.3&lt;/a&gt;). É interessante notar que os apologistas do capitalismo de hoje, muitas vezes argumentam que o controle por parte dos trabalhadores reduziria a produtividade, usando um argumento leninista já desacreditado. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enquanto destruíam o movimento de autogestão dos trabalhadores,
  os bolcheviques &lt;br&gt;

  sistematicamente minaram, aprisionaram, e assassinaram seus maiores opositores,
  os anarquistas, assim como limitaram a liberdade das massas que diziam proteger.
  Os sindicatos independentes, os partidos políticos, o direito de greve,
  a autogestão no trabalho e no campo -- tudo foi destruído em nome
  do "socialismo". Para os de dentro, a revolução havia morrido
  poucos meses depois que os bolcheviques tomaram o poder. Para o mundo externo,
  os bolcheviques e a URSS representavam o "socialismo" enquanto sistematicamente
  destruíam as bases do verdadeiro socialismo. Os bolcheviques pisotearam
  os elementos socialistas libertários dentro de seu país, os esmagamentos
  dos levantes de Kronstadt e da Ukrania foram a pá de cal na cova do socialismo
  e da autodeterminação dos sovietes.. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O levante do Kronstadt em fevereiro de 1921 foi de imensa importância
  para os anarquistas. O primeiro grande levante do povo pelo verdadeiro socialismo.
  "Kronstadt foi a primeira tentativa totalmente independente do povo para livrar-se
  de todo controle e levar a cabo a revolução social: e essa tentativa
  se fez diretamente ... pela classe trabalhadora, sem pastores, sem políticos,
  sem líderes, sem tutures" [Voline, The Unknown Revolution, citado por
  Guerin, Ibid., p.105]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Ukrania, as idéias anarquistas se aplicaram com êxito. Nas
  áreas sob a proteção do movimento Makhnovista, as pessoas
  da classe trabalhadora organizavam suas vidas diretamente, baseando-se em suas
  próprias idéias e necessidades, a verdadeira autodeterminação
  social. Sob a liderança de Nestor Makhno, um camponês autodidata,
  o movimento não apenas lutou contra as ditaduras branca e vermelha mas
  também resistiu aos nacionalistas ukranianos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Opondo-se à convocatória para a "autodeterminação
  nacional", ou seja, um novo estado ukraniano, Makhno fez uma chamada à
  autodeterminação da classe trabalhadora na Ukrania e no mundo
  inteiro. Chegou a ser conhecido como o "Robin Hood" da Ukrania. A experiência
  da autogestão anarquista na Ukrania teve um final sangrento quando os
  bolcheviques se voltaram contra os makhnovistas (seus antigos aliados contra
  os "brancos" pro-czaristas) quando não necessitavam mais deles. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O último desfile anarquista em Moscou antes de 1987 teve lugar com o
  funeral de Kropotkin em 1921, quando aproximadamente 10 mil pessoas acompanharam
  seu ataúde. Muitas deles haviam sido colocados em liberdade nesse dia,
  e seriam assassinados pelos leninistas nos anos seguintes. A partir de 1921,
  os anarquistas começaram a descrever a URSS como uma nação
  "estadista-capitalista" para indicar que embora os patrões anteriores
  houvessem sido eliminados, surgiram outros, a burocracia estatal soviética
  passou a exercer o mesmo papel que os chefes exercem no Ocidente. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mais informação sobre a Revolução Russa e
  o papel que os anarquistas jogaram, são recomendados os seguintes livros:
  The Unknown Revolution de Voline, The Guillotine at Work de G.P. Maximov, The
  Bolshevik Myth y The Russian Tragedy ambos de Alexander Berkman, The Bolsheviks
  and Worker's Controls de M. Brinton, The Kronstadt Uprising de Ida Mett, History
  of the Makhnovist Movement de Peter Ashinov. Muitos destes livros foram escritos
  por anarquistas ativos durante a revolução, muitos foram encarcerados
  pelos bolcheviques e deportados para o ocidente devido à pressão
  internacional exercida por delegados anarco-sindicalistas em Moscou que os bolcheviques
  tratavam de converter ao leninismo. A maioria destes delegados permaneceram
  fieis a seus ideais libertários e convenceram seus respectivos &lt;br&gt;
  sindicatos a repudiar o bolchevismo e romper com Moscou. Já no princípio
  dos anos 20 todas as confederações anarco-sindicalistas se uniram
  aos anarquistas em seu repúdio ao "socialismo" da Rússia como
  capitalismo de estado e ditadura do partido. &lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca55"&gt;&lt;/a&gt;Os anarquistas nas ocupações de fábricas na Italia&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Ao final da primeira guerra mundial ocorreu uma radicalização
  massiva em toda Europa e no resto do mundo. Houve uma explosão de afiliações
  nos sindicatos, greves, manifestações e toda classe de agitação
  alcançaram grandes níveis. Isto se deveu em parte à guerra,
  em parte ao aparente êxito da revolução russa. Através
  da Europa, as idéias anarquistas se tornaram mais populares e as uniões
  anarco-sindicalistas aumentaram de tamanho. Na Gran Bretanha, por exemplo, se
  produziu o movimento das ligas sindicais e as greves de Clydeside, na Alemanha
  o auge do sindicalismo industrial, e na Espanha um grande crescimento na anarco-sindicalista
  CNT. Desafortunadamente, também houve grande crescimento nos partidos
  democrata-social e comunista. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em agosto de 1920, houveram greves de ocupação de fábricas
  na Itália, como resposta aos baixos salários e ao endurecimento
  patronal. Estas greves começaram nas fábricas de engenharia e
  imediatamente se estenderam às ferrovias, transportes rodoviários,
  e outras industrias, e os camponeses tomaram a terra. Os grevistas, contudo,
  fizeram algo mais que ocupar os locais de trabalho, puseram parte deles em regime
  de autogestão. Dalí a pouco 500 mil grevistas estavam trabalhando,
  produzindo para eles mesmos. Errico Malatesta, que tomou parte nestes êxitos,
  &lt;br&gt;
  escreveu: &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;"os trabalhadores concluíram que o momento estava maduro para a tomada
  de uma vez por todas dos meios de produção. Se armaram para sua
  própria defesa ... e começaram a organizar a produção
  por sua própria conta ... O direito de propriedade foi de fato abolido
  .. era um novo regime, uma nova forma de vida social que surgia. E o governo
  ficou à parte ao sentir-se impotente para oferecer oposição."
  [Vida e Idéias p.134]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante esta época a Union Sindicalista Italiana (USI) cresceu até
  chegar a quase um milhão de membros e a influencia da Union Anarquista
  Italiana (UAI) com seus 20 mil membros cresceu em proporção. Segundo
  nos conta o repórter marxista galês Gwyn A. Williams "os anarquistas
  e os sindicalistas revolucionários constituíam o grupo mais revolucionário
  da esquerda ... O traço mais saliente na história do anarquismo
  e sindicalismo em 1919-1920 foi o rápido crescimento ... Os sindicalistas
  sobretudo captaram a opinião da classe obreira militante que o movimento
  socialista inutilmente tratava de captar." [Proletarian Order, pp. 194-195].
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Daniel Guerin dá um bom resumo da extensão do movimento, "a direção
  das fábricas ... se efetuava por meio de comitês de trabalhadores
  técnicos e administrativos. A autogestão se expandiu ... A autogestão
  emitiu seu próprio dinheiro ... Se requeria estrita auto-disciplina ...
  [e] uma estreita solidariedade se estabeleceu entre as fábricas ... [onde]
  as minas e o carvão se colocavam em um fundo comum e se repartiam eqüitativamente"
  [Anarchism, p.109]. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Sobre as fábricas ocupadas tremulava "um bosque de bandeiras negras
  e vermelhas" posto que "o conselho do movimento de Turin era essencialmente
  anarcosindicalista" [Williams, op. cit., p.241, p.193]. Os trabalhadores ferroviários
  se negaram a transportar tropas, os trabalhadores entraram em greve contra as
  consignas das associações reformistas e os camponeses ocuparam
  a terra. Tais atividades eram "já diretamente guiadas ou indiretamente
  inspiradas pelos anarco-sindicalistas" [ibid., p. 193] &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não obstante, depois de quatro semanas de ocupação os
  trabalhadores decidiram abandonar as fábricas. Isto devido à atuação
  do partido socialista e aos sindicatos reformistas. Se opuseram ao movimento
  e negociaram com o estado por uma volta à "normalidade" em troca da promessa
  de aumentar legalmente o controle pelos trabalhadores, em associação
  com os chefes. Esta promessa não se manteve. A falta de organizações
  inter-fábrica independentes fez que os trabalhadores dependessem dos
  burocratas dos sindicatos para obter informações sobre o que se
  passava em &lt;br&gt;
  outras cidades, e usaram esse poder para isolar as fábricas e as cidades
  entre si. Isto desembocou em uma volta ao trabalho, "apesar da oposição
  de anarquistas individualmente dispersos por todas as fábricas" [Malatesta,
  op. cit., p.136]. A confederação local de uniões sindicais
  não podia proporcionar a infra-estrutura necessaria para um movimento
  de ocupação totalmente coordenado, posto que os sindicatos reformistas
  se negavam a colaborar com elas; embora os anarquistas constituíssem
  uma grande maioria, se viram impedidos por uma minoria reformista. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este período da historia italiana explica o crescimento do fascismo
  na Itália. Como indica Tobias Abse, "o auge do fascismo na Itália
  não pode desprender-se dos sucessos do biênio vermelho, os dois
  anos vermelhos de 1919 e 1920, que lhe precederam. O fascismo foi uma prevenção
  contra-revolucionária ... lançado como resultado da fracassada
  revolução" ["The Rise of Fascism in an Industrial City" p. 54,
  en Rethinking Italian Fascism, pp.52-81]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante a época da ocupação das fábricas Malatesta
  sustentou que "Se não a levarmos até ao final, pagaremos com lágrimas
  de sangue pelo medo que agora provocamos na burguesia". Sucessos posteriores
  o confirmaram, quando os capitalistas e os ricos donos da terra apoiaram aos
  fascistas para ensinar à classe trabalhadora qual era seu lugar. Todavia,
  inclusive nos mais obscuros dias do terror fascista, os anarquistas resistiram
  às forças do totalitarismo. "Não é casualidade que
  a mais forte resistência da classe trabalhadora ao fascismo ocorreu em
  ... os povos e cidades em que havia uma forte tradição anarquista,
  sindicalista ou anarco-sindicalista" [Tobias Abse, Op. Cit., p.56]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os anarquistas participaram, e muitas vezes organizaram seções
  do Arditi del Popolo, uma organização operária dedicada
  à auto defesa dos interesses dos trabalhadores. Os Arditi del Popolo
  organizaram e alentaram a resistência operaria aos esquadrões fascistas,
  derrotando muitas vezes contingentes superiores em numero de fascistas. Os Arditi
  foram os maiores defensores de uma frente operária unida, revolucionaria
  contra o fascismo na Itália, como sugeriu Malatesta e a UAI. Sem embargo,
  os partidos socialista e comunista se retiraram da organização,
  os socialistas firmando um "Pacto de Pacificação" com os fascistas.
  Os líderes dos socialistas autoritários preferiram a derrota e
  o fascismo ao risco de que seus seguidores se "infetassem" de anarquismo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inclusive depois da criação do estado fascista, os anarquistas
  ofereceram resistência dentro e fora da Itália. Muitos italianos,
  anarquistas e não anarquistas, viajaram à Espanha para resistir
  a Franco em 1936. Durante a segunda guerra mundial, os anarquistas jogaram um
  papel importante no movimento partisano italiano. O fato do movimento antifascista
  estar dominado por elementos anticapitalistas levou os EEUU e o Reino Unido
  a colocar conhecidos fascistas em posições governamentais nas
  localidades que "libertavam" (muitas delas já haviam sido tomadas pelos
  partisanos, resultando que as tropas aliadas "libertavam" o povo de seus próprios
  habitantes!). &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não é de surpreender que os anarquistas fossem os mais consistentes
  e triunfantes opositores ao fascismo. Os dois movimentos não poderiam
  estar mais aparte, o primeiro pelo estatismo totalitário a serviço
  do capitalismo enquanto que o outro era por uma sociedade livre, não-capitalista.
  Nem tampouco surpreende que quando seus privilégios e poder estavam em
  perigo, os capitalistas e os donos da terra se voltavam ao fascismo para que
  os salvasse. Este processo é muito comum na historia (tres exemplos,
  Italia, Alemanha e Chile). &lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca56"&gt;&lt;/a&gt;O Anarquismo e a Revolução Espanhola&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Nos anos 30 a Espanha tinha o maior movimento anarquista do mundo. Ao começo
  da guerra "civil" espanhola, mais de um milhão e meio de trabalhadores
  e camponeses eram membros da CNT (Confederação Nacional do Trabalho),
  federação de uniões anarcosindicalistas, e 30 mil eram
  membros da FAI (Federação Anarquista Ibérica). A população
  total da Espanha era então de 24 milhões. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A revolução social que se contrapôs ao golpe fascista em
  18 de Julho de 1936 é o maior experimento do socialismo libertário
  feito até hoje. Naquela ocasião a última união sindicalista
  de massas, a CNT, não apenas rechaçou o levante fascista como
  fomentou amplamente a ocupação de terras e fábricas. Mais
  de sete milhões de pessoas, inclusive cerca de dois milhões de
  membros da CNT, puseram a autogestão em prática nas mais difíceis
  circunstancias e de fato melhoraram as &lt;br&gt;
  condições de trabalho e a produção. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durante os excitantes dias que se seguiram ao 19 de Julho, a iniciativa e o
  poder estavam verdadeiramente nas mãos dos membros da CNT e da FAI. Foi
  o povo comum, sem dúvida, sob a influencia dos faístas (membros
  da FAI) e dos militantes da CNT que, depois de derrotar o levante fascista,
  puseram em marcha a produção, distribuição e novamente
  o consumo (sob termos certamente muito mais igualitários) assim como
  organizaram e se ofereceram como voluntários (às centenas de milhares)
  às milícias, que se movimentaram para libertar aquelas partes
  da Espanha que &lt;br&gt;
  haviam caído sob Franco. De todas as maneiras possíveis a classe
  operaria espanhola estava criando com seus próprios atos um mundo novo
  baseado em suas próprias idéias de justiça social e liberdade
  -- idéias inspiradas, certamente, no anarquismo e no anarcosindicalismo.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A extensão completa desta histórica revolução não
  pode ser coberta aqui. Se discutirá mais detalhadamente na Seção
  I. Poremos em relevo alguns pontos de interesse especial esperando que eles
  dêem alguma indicação da importância destes fatos
  e animem as pessoas a averiguar mais sobre eles. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Toda a industria da Catalunia foi colocada sob a autogestão pelos trabalhadores
  ou controlada por eles (ou seja, eles assumiram totalmente todos os aspectos
  da direção no primeiro caso, ou no segundo, colocando a antiga
  direção sob seu controle). Em alguns casos, as economias dos povos
  e regiões inteiras se transformaram em federações de coletividades.
  O exemplo de Alcoy (população de 45 mil) se dá como exemplo
  típico: &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;"Tudo era controlado pelos sindicatos. Mas isso não significava que
  tudo era decidido por uns poucos comitês burocráticos de cima sem
  consultar aos membros do sindicato. Aqui se praticava a democracia libertaria.
  Assim como na CNT havia uma dupla estrutura recíproca; desde a base ..
  até acima, e por outro lado uma influencia recíproca desde a federação
  dessas mesmas unidades locais a todos os níveis até abaixo, desde
  a fonte e volta à fonte" [Gaston Leval, citado em The Anarchist Collectives,
  Ed. Sam Dolgoff, p.105]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na frente social, as organizações anarquistas criaram escolas
  racionais, um serviço de saúde libertário, centros sociais,
  etc. O movimento Mujeres Libres combateu o papel tradicional da mulher na sociedade
  espanhola, potenciando milhares dentro e fora do movimento anarquista (ver Free
  Women of Spain de Martha A. Ackelsberg para mais informações sobre
  esta importantíssima organização). Esta atividade na frente
  social se baseou no trabalho iniciado muito antes do principio da guerra; por
  exemplo, os sindicatos muitas vezes fundavam escolas racionais, centros de trabalhadores,
  etc. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Espanha, sem dúvida, como em todas as partes, o movimento anarquista
  foi esmagado pelo leninismo (o partido comunista) por um lado e pelo capitalismo
  (Franco) por outro. Desgraçadamente, os anarquistas colocaram a unidade
  antifascista anterior à revolução, ajudando seus inimigos
  a lhes derrotarem e à revolução. Que tenham sido forçados
  pelas circunstancias a chegar a esta posição ou que a poderiam
  ter evitado é algo que ainda hoje permanece em debate. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para mais informação sobre a revolução espanhola,
  recomendamos os seguintes livros: Lessons of the Spanish Revolution de Vernon
  Richards; Los Anarquistas en La Revolución Española de José
  Peirats, Free Women of Spain de Martha A. Ackelsberg; The Anarchist Collectives
  editado por Sam Dolgoff; "Objectivity and Liberal Scholarship" de Noam Chomsky
  (em The Chomsky Reader); The Anarchists of Casas Viejas de Jerome R. Mintz;
  e Homenaje a Catalunya de George Orwell.
&lt;/p&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca57"&gt;&lt;/a&gt;A rebelião maio-junho na França em 1968&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Os acontecimentos de maio-junho na França puseram de novo o anarquismo
  na paisagem radical depois de um período durante o qual muita gente havia
  descartado o movimento como morto. Esta rebelião de dez milhões
  de pessoas começou humildemente. Expulsos pelas autoridades da universidade
  de Nanterre em Paris por atividades contra a guerra no Vietnã, um grupo
  de anarquistas (incluindo Daniel Cohn- Bendit) convocaram em seguida uma manifestação.
  A chegada de 80 policiais indignou muitos estudantes, que deixaram seus estudos
  para juntar-se à batalha e &lt;br&gt;
  expulsar os policiais da universidade &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inspirados por este apoio, os anarquistas tomaram o edifício da administração
  e invocaram um debate de massas. A ocupação se expandiu, Nanterre
  foi cercado pela polícia, e as autoridades fecharam a universidade. No
  dia seguinte os estudantes de Nanterre se concentraram na universidade de Sorbonne
  no centro de Paris. A pressão da polícia continuou e a detenção
  de mais de 500 pessoas provocou um descontentamento que deu começo a
  cinco horas de luta pelas ruas. A polícia também atacou aos transeuntes
  com porretes e gás lacrimogêneo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma proibição total de manifestações e o fechamento
  da Sorbonne fez com que milhares de estudantes tomassem as ruas. A crescente
  violencia policial provocou a construção das primeiras barricadas.
  o jornalista Jean Jacques Lebel escreveu que a uma da madrugada, "Literalmente
  milhares de pessoas ajudaram a construir barricadas... mulheres, operários,
  transeuntes, gente de pijama, formaram correntes humanas para carregar pedras,
  madeira, ferro." Durante uma noite inteira de batalha 350 guardas foram feridos.
  Em sete de maio 50 mil manifestantes entraram em choque com a polícia
  em uma batalha que durou todo o dia nas ruas do Quartier Latin (Bairro Latino).
  O gás lacrimogêneo da polícia foi respondido com coquetéis
  molotov e a canção: "Viva a Comuna de Paris!" &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 10 de maio, manifestações massivas e contínuas forçaram
  o ministro da educação a entrar em negociações.
  Mas nas ruas surgiram 60 barricadas e os jovens trabalhadores se uniam aos estudantes.
  Os sindicatos condenaram a violência policial. Manifestações
  massivas por todo o pais culminaram em 13 de maio com um milhão nas ruas
  de Paris. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Diante deste protesto massivo, a policia se retirou do Bairro Latino. Os estudantes
  tomaram a Sorbonne e instituíram uma assembléia de massas para
  difundir a luta. De pronto as ocupações se difundiram espalhando-se
  para cada universidade na França. Desde a Sorbonne chegava uma torrente
  de propaganda, folhetos proclamações, telegramas e posters. Slogans
  como "Tudo é possível," "Sê realista, Peça o impossível,"
  "A vida sem tempos mortos," e "É Proibido Proibir" cobriram as paredes.
  "Todo o Poder à Imaginação" estava nos lábios de
  todo mundo. Como indicou Murray Bookchin, "as forças motivadoras da revolução
  hoje... não são simplesmente a escassez e a carência econômica
  mas também a qualidade de vida diária ...&amp;nbsp; a tentação
  de controlar seu próprio destino" [&lt;b&gt;Post-Scarcity Anarchism&lt;/b&gt;, pp.
  249-250]. &lt;br&gt;

  &lt;br&gt;
  Muitos dos slogans mais famosos daqueles dias foram criados pelos Situacionistas.
  A Internacional Situacionista foi formada em 1957 por um pequeno grupo de dissidentes
  radicais e artistas. Eles desenvolveram uma análise coerente e altamente
  sofisticada da moderna sociedade capitalista (às vezes na forma de enigmáticos
  jargões [&lt;i&gt;N.T.: no original: if jargon riddled&lt;/i&gt;])
  e de como substituí-la por uma sociedade nova e mais livre. A vida moderna
  não é vida, diziam, é mera sobrevivência, dominada pela economia de consumo
  onde todo mundo, todas as coisas, todas as emoções e relações se tornam mercadoria.
  As pessoas não são apenas produtores alienados, eles são também consumidores
  alienados. Eles definiram este tipo de sociedade como «Sociedade do Espetáculo».
  A vida em si fora roubada e revolução significava brincadeira, alegria e diversão.
  O objeto da mudança revolucionária não era apenas o local de trabalho, mas também
  a existência cotidiana: «Falar sobre revolução e luta de classe sem aludir explicitamente
  à vida cotidiana, sem entender o caráter subversivo do amor e da recusa aos
  constrangimentos, é falar com um cadáver na boca». [citado por Clifford Harper,
  &lt;b&gt;Anarchy: A Graphic Guid&lt;/b&gt;e, pág. 153] &lt;br&gt;
  &lt;br&gt;
  Como os muitos outros grupos cuja política influenciou para os eventos de Paris,
  os Situacionistas argumentaram que «os conselhos de trabalhadores são a única
  resposta. Toda outra forma de luta revolucionária acaba tomando um caminho oposto
  àquele tomado originalmente». [citado por Clifford Harper, Op. Cit., pág. 149]
  Estes conselhos seriam autogeridos e não seriam instrumento para um partido
  «revolucionário» chegar ao poder. Como os anarquistas de Noire et Rouge e os
  socialistas libertários de Socialismo ou Barbarie, o apoio deles a uma revolução
  autogerida de baixo teve uma grande influência nos eventos de maio e nas idéias
  que os inspiraram. &lt;br&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 14 de maio os operários de Sud-Aviation trancaram as portas dos escritórios
  dos chefes das fábricas. No dia seguinte ocorreu o mesmo nas fábricas
  de Cleon-Renault, Lockhead-Beauvais e Mucel-Orleans. Nessa mesma noite foi ocupado
  o Teatro Nacional de Paris como assembléia permanente para o debate das
  massas. Depois, a maior fábrica da França, a Renault-Billancourt,
  foi ocupada. Muitos tomaram a decisão de continuar a greve por tempo
  indeterminado sem consultar aos dirigentes do sindicato. Chegando o 17 de maio,
  uma centena de fábricas em Paris passaram &lt;br&gt;

  para o controle dos operários. Ao final da semana em 19 de maio 122 fábricas
  foram ocupadas. No dia seguinte, a greve e as ocupações se generalizaram
  com aproximadamente seis milhões de pessoas envolvidas. Os gráficos
  disseram que não permitiriam que houvesse monopólio nas reportagens
  informativas na televisão e no radio, e decidiram publicar periódicos
  para que a imprensa 'desenvolva com objetividade o papel de prover informação
  como é seu dever.' Em alguns casos os impressores faziam questão
  de alterar as manchetes ou artigos antes de publicar o jornal. Este foi o caso
  na maioria dos jornais de direita como 'Le Figaró ou 'La Nation'. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a ocupação da Renault, os ocupantes na Sorbonne se prepararam
  para juntar-se em seguida com os grevistas da Renault, e tendo à frente
  bandeiras anarquistas vermelhas e negras, 4 mil estudantes se dirigiram até
  a fábrica ocupada. O estado, os patrões, os sindicatos e o Partido
  Comunista contemplaram seu pior pesadelo - uma aliança entre os trabalhadores
  e os estudantes. Dez mil policiais da reserva juntamente com dirigentes sindicais
  fecharam a chave as portas das fábricas. O Partido Comunista mandou seus
  adeptos destruírem a rebelião. Se uniram ao governo e aos patrões
  para elaborar uma série de reformas, mas com as fábricas tomadas
  os trabalhadores os ignoraram. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A própria luta e as atividades se expandiram sendo organizadas por assembléias
  de massa autogeridas e coordenadas por comitês de ação.
  As greves muitas vezes foram organizadas também por assembléias.
  Como disse Murray Bookchin a "perspectiva de rebelião se expressou na
  proliferação da autogestão em toda sua plenitude - nas
  assembléias gerais e suas nuances administrativas, os comitês de
  ação - dirigindo todos os setores da economia, afetando todos
  os aspectos da própria vida " [Ibid., pp. 251-252]. Dentro das assembléias,
  "uma fome de vida tocou milhões de pessoas, um renascimento dos sentidos
  que o povo não sabia que lhes pertencia" [Ibid., p. 251]. Não
  foi uma greve de estudantes ou de trabalhadores. Foi uma greve do &lt;br&gt;
  povo que não se ocupou de quase nenhuma divisão de classe. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em 24 de maio, os anarquistas organizaram uma manifestação. Trinta
  mil pessoas se dirigiram até Place de la Bastille. A policia protegeu
  os edifícios do governo utilizando das ferramentas de sempre - gas e
  porretes - mas La Bourse não estava protegida e foi queimada por alguns
  manifestantes. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste momento alguns grupos de esquerda perderam seus nervos. O grupo trotskiista
  JCR mandou as pessoas voltarem ao Bairro latino. Outros grupos como UNEF e o
  Parti Socialiste Unifié (Partido Socialista Unificado) abandonaram a
  ocupação dos edificios de Finanças e Justiça. Cohn-Bendit
  descreve este acontecimento "Quanto a nós, não nos demos conta
  de quão facilmente se posicionaram contra todo o povo ... Agora sabemos
  que se em 25 de maio, em Paris, ao amanhecer, fôssemos informados de que
  os edifícios mais importantes estavam ocupados teríamos derrotado
  o Gaulismo. . . . " Mais tarde durante a noite Cohn-Bendit foi expulso. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o crescimento das manifestações e ocupações
  o estado se preparou para utilizar todo seu poder para controlar a rebelião.
  Clandestinamente, os militares mais importantes prepararam 20 mil soldados leais
  para ocuparem Paris. A polícia ocupou centros de comunicações
  como as estações de televisão e correios. Na segunda-feira,
  27 de maio, o governo garantiu um aumento de 35% do salário mínimo
  e um aumento médio de 10%. Os líderes da CGT organizaram uma manifestação
  de 50 mil trabalhadores pelas ruas de Paris dois dias depois. Paris foi coberta
  com anúncios pedindo um 'Governo do povo'.&amp;nbsp; Desafortunadamente a
  maioria pensava sempre em querer mudar o governo em lugar de tomar o poder por
  si próprio. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em 5 de junho a maioria das greves havia terminado e uma atmosfera daquilo
  que o capitalismo chama de normalidade reaparecia na França. As greves
  que continuaram depois desta data foram sufocadas com ocupações
  militares. Em 7 de junho atacaram a siderúrgica de Flins o que provocou
  uma batalha de quatro dias que resultou na morte de um operário. Três
  dias depois, os grevistas da Renault foram fuzilados pela policia com um saldo
  de dois mortos. Isolados, aquele punhado de militantes não poderiam lograr
  êxito. Em 12 de junho, as manifestações foram proibidas,
  grupos radicais foram declarados fora da lei e seus membros foram presos. Atacados
  por todos os lados, com o aumento da violência estatal e atraiçoados
  pelos sindicatos, a greve geral e as ocupações terminaram. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então porque fracassou a rebelião? Certamente não por
  causa da ausência de uma vanguarda bolchevike. Estava infectada por elas.
  Afortunadamente os grupos tradicionais e os autoritários da esquerda
  foram isolados. Os interessados na rebelião não necessitavam de
  uma vanguarda para dizer-lhes o que fazer e a "vanguarda dos trabalhadores"
  correu desesperadamente atrás do movimento querendo controla-lo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não, foi a carência de organizações independentes
  autogeridas para coordenar a luta que resultou no isolamento das ocupações.
  Assim, divididos feneceram. Também, como Murray Bookchin afirma "faltava
  uma consciência entre os trabalhadores que era necessário trabalhar,
  e não simplesmente ocupar ou fazer greve" [p. 269]. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta consciência foi alentada pela existência de um movimento anarquista
  forte antes da rebelião. A esquerda autocrata, embora muito ativa, foi
  demasiado débil entre os grevistas, e por isso a idéia de organizações
  autogeridas não era muito conhecida. Não há dúvida
  de que a rebelião demonstrou que os acontecimentos podem mudar a qualquer
  momento. A classe trabalhadora, juntamente com a energia e a bravura dos estudantes
  pediram coisas que não eram possíveis dentro do sistema existente.
  A greve geral demonstra com formidável clareza o potencial que há
  nas mãos dos trabalhadores. As assembléias de massa e as ocupações
  nos dão um excelente, embora breve, exemplo de anarquia em ação
  e como as idéias anarquistas podem difundir-se e serem aplicadas na prática.
&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 16:22:44 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/alguns-exemplos-de-anarquismo-em-acao</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/alguns-exemplos-de-anarquismo-em-acao</guid></item><item><title>O Que Pretende o Anarquismo?</title><description>&lt;h2&gt;INTRODUÇÃO&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Estes versos de Percy Bysshe
  Shelley nos dão uma idéia do que o anarquismo pretende na prática e os
  ideais que o movem:
&lt;/p&gt;

  &lt;b&gt;&lt;i&gt;O homem&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; &lt;b&gt;&lt;i&gt;de
  alma virtuosa não manda, nem obedece&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; &lt;br&gt;
  &lt;b&gt;&lt;i&gt;o poder, que qual peste assoladora contamina tudo quanto toca,&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  &lt;br&gt;
  &lt;b&gt;&lt;i&gt;E a obediência, a maldição de todo engenho, virtude, liberdade, verdade,&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  &lt;br&gt;
  &lt;b&gt;&lt;i&gt;faz dos homens escravos, e do esqueleto humano&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; &lt;br&gt;
  &lt;b&gt;&lt;i&gt;um autômato mecanizado.&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;

&lt;p&gt;
Como sugerem os versos de Shelley,
os anarquistas dão grande prioridade à liberdade, desejando-a para si e para os
demais. Também consideram a individualidade -- aquilo que faz de cada um uma pessoa
única -- como um aspecto muito importante da humanidade. Reconhecem, sem embargo,
que a individualidade não existe em um vazio sem que haja um fenômeno &lt;i&gt;social&lt;/i&gt;.
Fora da sociedade, a idividualidade é impossivel, posto que cada um necessita
dos demais para desenvolver-se, expandir-se e crescer.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ademais, ha um efeito recíproco
  entre o desenvolvimento individual e o social: os indivíduos crescem dentro
  de e são formados por uma sociedade particular, ao mesmo tempo que ajudam a
  moldar e a mudar aspectos dessa sociedade (assim como a si mesmos e a outros
  indivíduos) com suas ações e pensamentos. Uma sociedade que não está baseada
  em indivíduos livres, em suas esperanças, seus sonhos e ideias resultariam ôcos
  e mortos. Assim pois, &lt;i&gt;"a formação de um ser humano ... é um processo coletivo,
  um processo em que a comunidade e o individuo, ambos, &lt;b&gt;participam"&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;
  [Murray Bookchin, &lt;b&gt;A Crise Moderna&lt;/b&gt;, p. 79]. Consequentemente, qualquer
  teoria política que se baseia puramente no social ou no individual é falsa.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para desenvolver a individualidade
  em seu gráu máximo, os anarquistas consideram essencial criar uma sociedade
  baseada em tres principios: &lt;i&gt;liberdade, igualdade e solidariedade&lt;/i&gt;, que
  são interdependentes.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A liberdade é essencial
  pra o completo florescer da inteligencia, a criatividade e a dignidade humana.
  Estar sob a dominação de outro é ser privado da oportunidade de pensar e agir
  por si mesmo, que é a única maneira de crescer e desenvolver a propria individualidade.
  A dominação tambem sufoca a inovação e a responsabilidade pessoais, levando
  à conformidade e à mediocridade. Assim pois a sociedade que eleva ao máximo
  o crescimento do indivíduo necessariamente estará baseada na associação voluntaria,
  não na coerção e na autoridade. Citando Proudhon, &lt;i&gt;"todos associados e todos
  livres"&lt;/i&gt;. Ou como assinala Luigi Galleani, o anarquismo é &lt;i&gt;"a autonomia
  do individuo dentro da livre associação"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;A FINALIDADE DO ANARQUISMO&lt;/b&gt;,
  p. 35] (Ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca22"&gt;Seção A.2.2&lt;/a&gt;
  &lt;b&gt;Por que os anarquistas dão importancia à liberdade?&lt;/b&gt;).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se a liberdade é essencial
  para o completo desenvolvimento da individualidade, a igualdade é essencial
  para que exista a verdadeira liberdade. Não pode haver liberdade real em uma
  sociedade hierárquica de classes estratificadas, minada por grandes desigualdades
  de poder, riqueza e privilegio. Posto que em tal sociedade somente uns poucos
  -- aqueles no alto da hierarquia -- são relativamente livres, enquanto o resto
  são meio escravos. Daí que sem igualdade, a liberdade se converte em uma burla
  -- na melhor das hipóteses "libertade para eleger o amo (chefe)", como sob o
  capitalismo. Ademais, inclusive as elites sob estas condições não são realmente
  livres, posto que tem que viver em uma sociedade atrasada, feia e esterilizada
  pela tirania e pela alienação da maioria. E posto que a individualidade se desenvolve
  em toda sua potencia somente com o mais amplo contato com outros indivíduos
  livres, os membros da elite são restringidos em suas possibilidades de desenvolvimento
  pela escasses de indivíduos livres com quem relacionar-se. (Ver tambem a &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca25"&gt;seção A.2.5&lt;/a&gt;&lt;b&gt;Por
  que os anarquistas são a favor da igualdade?&lt;/b&gt;).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Finalmente a solidaridade
  significa ajuda mutua: trabalhar voluntaria e cooperativamente com outros que
  compartilham os mesmos fins e interesses. Mas sem liberdade nem igualdade, a
  sociedade se converte em uma pirâmide de classes em competencia baseada na dominação
  dos de baixo pelos de cima. Em tal sociedade, segundo sabemos, o lema é "dominar
  ou ser dominado", "cada um por si". Assim, o "individualismo robusto" se promove
  às custas do sentimento comunitario, onde os de baixo se ressentem dos de cima
  e os de cima temem aos de baixo. Sob estas condições, não pode haver solidariedade
  social, sem uma forma parcial de solidariedade das classes cujos interesses
  são contrarios, o que debilita a totalidade da sociedade. (Ver mais sobre o
  tema em: seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca26"&gt;A.2.6&lt;/a&gt;&lt;b&gt;Por
  que a solidariedade é importante para os anarquistas?&lt;/b&gt;).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É bom lembrar que solidariedade
  não significa altruísmo. Errico Malatesta deixou claro:
&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"todos somos egoistas,
  todos buscamos a satisfação propria. Mas o anarquista encontra sua maior satisfação
  na luta pelo bem de todos, por alcançar uma sociedade em que ele (sic) possa
  ser um irmão entre irmãos, entre gente sadia, inteligente, educada e alegre.
  Contudo aquele que se adapta, aquele que está satisfeito em viver entre escravos
  e obter ganhos do trabalhdo de escravos, não é, nem pode ser, anarquista" &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;VIDA
  E IDÉIAS&lt;/b&gt;, p.23].

&lt;/ul&gt;
Para os anarquistas, a &lt;b&gt;verdadeira&lt;/b&gt;
riqueza são os seres humanos e o planeta em que vivemos.
&lt;p&gt;Ademais, honrar a individualidade
  não quer dizer que os anarquistas sejam idealistas, crendo que as pessoas ou
  as ideias se desenvolvem fora da sociedade. A individualidade e as ideias crescem
  e se desenvolvem dentro da sociedade, como resposta aos intercambios e experiencias
  materiais e intelectuais, que as pessoas analizam e interpretam de uma forma
  ativa. O anarquismo é portanto, uma teoria &lt;b&gt;materialista,&lt;/b&gt; que reconhece
  que as ideias se desenvolvem e crescem a partir do intercambio social e da atividade
  mental do individuo (ver &lt;b&gt;Deus e o Estado&lt;/b&gt; de Mikhail Bakunin para uma
  discussão clásica do materialismo versus o idealismo).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto significa que uma sociedade
  anarquista será a criação de seres humanos, não de alguma deidade ou outro principio
  transcedental, já que:
&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;

  &lt;i&gt;"nada se ajusta por si
  só, menos ainda as relações humanas. São os homens (sic) os que fazem os acordos,
  e o fazem segundo suas atitudes e entendimento das coisas"&lt;/i&gt; [Alexander Berkman
  &lt;b&gt;O ABC do Anarquismo&lt;/b&gt;, p. 42].
&lt;/ul&gt;
Por conseguinte, o anarquismo
se baseia no poder das ideias e na habilidade das pessoas para atuar e transformar
suas vidas segundo o que consideram correto. Em outras palavras, na liberdade.

&lt;h2&gt;&lt;a name="seca21"&gt;&lt;/a&gt;QUAL É A ESSENCIA DO ANARQUISMO?&lt;/h2&gt;
Conforme vimos, &lt;i&gt;"an-archia"&lt;/i&gt;
implica &lt;i&gt;"sem autoridade (hierárquica)"&lt;/i&gt;. Os anarquistas não são contra as
"autoridades" no sentido de especialistas que são particularmente eruditos, destros
ou sábios, se bem que creem que tais autoridades não deveriam ter poder coercitivo
sobre outros para obrigar-lhes a seguir suas recomendações (ver a seção &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secBcon.htm"&gt;B.1&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; para
ampliar esta distinção). Em resumo, anarquismo é anti-autoritarismo.

&lt;p&gt;Os anarquistas são antiautoritarios
  porque creem que nenhum ser humano devedominar a outro. O dominio é intrinsecamente
  degradante e deprimente, posto que somente a vontade e o juizo do dominado e
  a vontado e o juizo do dominador, destruindo assim a dignidade e o amor proprio
  que vem apenas da autonomia pessoal. Alem do mais, a dominação torna possivel
  e geralmente leva à exploração, que é a raiz da desigualdade, da pobreza e da
  crise social.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao mesmo tempo que autoritarios,
  os anarquistas reconhecem que os seres humanos tem uma natureza social e uma
  influencia mutua. Não podemos escapar da "autoridade" desta influencia mutua,
  posto que, como nos recorda Bakunin:
&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"A abolição desta influencia
  mutua seria a morte. E quando defendemos a liberdade das massas, não estamos
  de nenhuma maneira sugerindo a abolição de nenhuma das influencias naturais
  que os individuos ou grupos de individuos exercem sobre elas. O que queremos
  é a abolição das influencias artificiais, privilegiadas, legais, oficiais"&lt;/i&gt;
  -- em outras palavras, essas que nascem da autoridade hierárquica [citado por
  Malatesta, em &lt;b&gt;Anarquia&lt;/b&gt;]
&lt;/ul&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca22"&gt;&lt;/a&gt;PORQUE OS ANARQUISTAS ENFATIZAM A LIBERDADE?&lt;/h2&gt;
Um anarquista pode ser considerado,
segundo Bakunin, como &lt;i&gt;"um apaixonado amante da liberdade, considerando-a como
a única condição sob a qual a inteligencia, a dignidade e a felicidade humana
podem desenvolver-se e crescer ..."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;A Comuna De Paris e a Ideia do Estado&lt;/b&gt;].
Dado que os seres humanos são criaturas pensantes, negar-lhes a liberdade é negar-lhes
a oportunidade de pensar por sua conta, que é negar-lhes a propria existencia
como seres humanos. Para os anarquistas, a liberdade é o resultado de nossa humanidade,
porque:

&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"o próprio fato ... de
  que uma pessoa tenha conciencia de si mesma, de ser diferente dos demais, cria
  o desejo de atuar livremente. A ansia de liberdade e auto-expressão é uma característica
  dominante muito fundamental"&lt;/i&gt; [Emma Goldman, &lt;b&gt;Fala Emma, a Vermelha&lt;/b&gt;,
  p. 393].
&lt;/ul&gt;
Por esta razão, o anarquismo
&lt;i&gt;"propõe resgatar o amor proprio e a independencia do individuo de todo freio
e invasão da autoridade. Apenas em liberdade o homem (sic) pode crescer em toda
sua estatura. Apenas em liberdade aprenderá a pensar e a mover-se, e a dar o melhor
de si mesmo. Apenas em liberdade compreenderá a verdadeira força dos laços sociais
que unem aos homens, e que são a verdadeira base de uma vida social normal"&lt;/i&gt;
[&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;, p. 59].
&lt;p&gt;Como assinalamos anteriormente,
  a liberdade é a precondição para o máximo desenvolvimento do potencial individual,
  o qual é tambem um produto social que pode ser alcançado apenas e através da
  comunidade. Uma comunidade livre, saudavel, produzirá individuos livres, que
  por sua vez moldarão a comunidade e enriquecerão as relações sociais entre os
  seres que a compõem. As liberdades, ao serem produzidas socialmente, &lt;i&gt;"não
  existen porque foram estabelecidas legalmente em um papel, mas somente quando
  se converterem em um hábito congênito de um povo, e quando qualquer tentativa
  de impedi-las choque com a resistencia violenta da população ... Cada um ganha
  o respeito dos demais quando cada um sabe defender sua dignidade de ser humano.
  Isto é verdade não somente na vida privada; sempre foi assim tambem na vida
  política"&lt;/i&gt; [Rudolf Rocker, &lt;b&gt;Anarcosindicalismo&lt;/b&gt;]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resumindo, a liberdade se
  desenvolverá somente no seio da sociedade, não em oposição a ela. Murray Bookchim
  disse: &lt;i&gt;"Toda liberdade, independencia, e autonomia que o povo desfrutou em
  um dado período histórico é o produto de velhas tradições sociais e ... desenvolvimento
  coletivo -- o qual não impede que os individuos joguem um papel importante nesse
  desenvolvimento, realmente estão obrigados em última instancia a fazê-lo se
  querem ser livres"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Anarquismo Social ou Anarquismo de Estilo&lt;/b&gt;]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todavia a liberdade requer
  um âmbito social &lt;b&gt;adequado&lt;/b&gt; para crescer e desenvolver-se. Tal âmbito &lt;b&gt;tem
  &lt;/b&gt;que ser descentralizado e baseado na gestão direta da obra por aqueles que
  a realizam. Centralização quer dizer autoridade coercitiva, enquanto que auto-gestão
  é a essencia da liberdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O capitalismo, por outro
  lado, se baseia na autoridade centralizada, cujo propósito é manter a gestão
  do trabalho fora do alcance dos que trabalham. Ou seja, &lt;i&gt;"que a verdadeira,
  plena e final libertação dos trabalhadores só é possivel sob uma condição: a
  apropriação do capital, a saber, das materias primas e das ferramentas de trabalho,
  incluindo a terra, pelo corpo coletivo dos trabalhadores"&lt;/i&gt; [Mikhail Bakunin,
  em Dolgoff, ed., &lt;b&gt;Bakunin Sobre Anarquismo&lt;/b&gt;, p.255].

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Daí que, como sustenta Noam
  Chomsky, um &lt;i&gt;"anarquista consequente deve opo-se à propriedade privada dos
  meios de produção e à escravidão assalariada que é um dos componentes do sistema,
  como incompativeis com o principio de que o trabalho deve ser empreendido livremente
  e sob o controle dos produtores"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Notas Sobre o Anarquismo&lt;/b&gt;].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim pois, para os anarquistas
  liberdade quer dizer uma sociedade não autoritaria na qual os individuos praticam
  a auto-gestão, i.e. se governam eles mesmos. As consequencias disto são importantes.
  Primeiro, isso implica que uma sociedade anarquista não será coercitiva, ou
  seja, uma sociedade onde a violencia ou a ameaça de violencia não será usada
  para "convencer" o individuo a fazer nada. Segundo, que os anarquistas apoiam
  firmemente a soberania individual, e que, em função deste apoio, tambem se opõem
  às instituições baseadas na autoridade coercitiva, ou seja, a hierarquia. E
  finalmente, isso implica que a oposição anarquista ao "governo" quer dizer somente
  que se opõem às organizações centralizadas, hierárquicas, burocráticas, ou seja,
  o governo. Não se opõem ao auto-governo atraves de confederações de organizações
  descentralizadas, de base, desde que se apoem na democracia direta e não na
  delegação de poder a "representantes". A autoridade é o oposto à liberdade,
  de forma que qualquer organização baseada na delegação de poder é uma ameaça
  à liberdade e à dignidade do povo submetido a esse poder.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas consideram
  a liberdade como o único entorno social dentro do qual a dignidade humana e
  a diversidade podem florescer. Sob o capitalismo e o estadismo, pelo contrario,
  não há liberdade para a maioria, uma vez que a propriedade privada e a hierarquia
  asseguram que a inclinação e o juízo da maioria dos individuos estarão subordinados
  à vontade do patrão, restringindo gravemente sua liberdade e impossibilitando
  &lt;i&gt;"o completo desenvolvimento dos poderes materiais, intelectuais e morais
  latentes em cada pessoa"&lt;/i&gt; [Bakunin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;] (Ver a &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secBcon.htm"&gt;Seção B&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;
  para uma discussão mais aprofundada sobre a natureza hierárquica e autoritaria
  do capitalismo e estadismo.)

&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;&lt;a name="seca23"&gt;&lt;/a&gt;OS ANARQUISTAS ESTÃO DE ACORDO COM A ORGANIZAÇÃO?&lt;/h2&gt;
Sim. Sem a associação, uma
vida verdadeiramente humana é impossível. A liberdade &lt;b&gt;não pode&lt;/b&gt; existir
sem sociedade nem organização. Como indica George Barret em &lt;b&gt;Objeções ao Anarquismo&lt;/b&gt;:

&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"para alcançar o sentido
  pleno da vida devemos cooperar, e para cooperar temos que chegar a acordos com
  nossos semelhantes. Supor que tais acordos significam limitações à liberdade
  é na verdade um absurdo; ao contrario, são um exercicio de nossa liberdade.&lt;/i&gt;

  &lt;p&gt;&lt;i&gt;"Se vamos inventar
    um dogma sustentando que chegar a acordos é prejudicar a liberdade, então
    a liberdade imediatamente se transforma em tirania, posto que proibe aos homens
    os mais ordinarios prazeres cotidianos. Por exemplo, eu não posso passear
    com um amigo pois vai contra o principio da Liberdade se concordamos estar
    em um certo lugar a uma certa hora para uma reunião. Não posso nem sequer
    extender minha influencia alem de mim mesmo, porque para fazê-lo tenho que
    cooperar com alguem mais, e a cooperação leva consigo um acordo, e isso vai
    contra a liberdade. Se verá de imediato que este argumento é absurdo. Eu não
    limito minha liberdade, simplesmente a pratico, quando entro em acordo com
    um amigo para dar um passeio"&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/ul&gt;

Quanto à organização, os anarquistas
pensam que &lt;i&gt;"longe de criar autoridade, é a única cura para ela e o único meio
pelo qual cada um de nós se acostumará a tomar parte ativa e consiente no trabalho
coletivo, e cessará de ser um instrumento passivo nas mãos dos dirigentes"&lt;/i&gt;
[Errico Malatesta, &lt;b&gt;Vida e Ideias&lt;/b&gt;].
&lt;p&gt;O fato de que os anarquistas
  serem favoráveis à organização pode parecer a principio estranho, mas isso se
  deve a que vivemos em uma sociedade na qual virtualmente todas as formas de
  organização serem autoritarias, fazendo-as parecer como as únicas formas possiveis.
  O que quase nunca se reconhece é que este modo de organização tem sido condicionado
  historicamente, surgido de uma classe particular de sociedade -- cujos motivos
  principais são a dominação e a exploração. Segundo os arqueólogos e antropólogos,
  este tipo de sociedade existe apenas há 5.000 anos, tendo surgido com os primeiros
  estados primitivos baseados na conquista e na escravidão, onde o trabalho dos
  escravos criava um excedente que sustentava a classe dominante.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Anteriormente, por centenas
  de milhares de anos, as sociedades humanas e proto-humanas eram o que Murray
  Boochkin chamou &lt;i&gt;"orgânicas"&lt;/i&gt;, ou seja, baseadas em formas cooperativas
  de atividade econômica involucrando o apoio mutuo, o livre acesso aos recursos
  de produção e o compartilhamento dos frutos do trabalho comunal de acordo com
  as necessidades de cada um. Embora tais sociedades provavelmente tivessem categorias
  baseadas na idade, não haviam hierarquias no sentido de relações de dominio-subordinação
  institucionalizadas, impostas por sansões coercitivas resultantes da estratificação
  de classes e provocando a exploração econômica de uma classe por outra [ver
  Murray Bookchin,&amp;nbsp;&lt;b&gt; Ecologia da Liberdade&lt;/b&gt;].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Há que se notar, todavia,
  que os anarquistas &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; anseiam por um retorna "à idade da pedra". Simplemente
  notamos que posto que o modo de organização hierárquico é um desenvolvimento
  relativamente recente no curso da evolução humana, não há razão para supor que
  de alguma forma está "destinado" a ser permanente. Não cremos que os seres humanos
  estejam genéticamente "programados" para uma conduta autoritaria, competitiva
  e agressiva, por não haver provas convincentes que apoiem esta premissa. Ao
  contrario, tal conduta está condicionada socialmente, ou &lt;b&gt;aprendida,&lt;/b&gt; e
  como tal, pode ser &lt;b&gt;desaprendida&lt;/b&gt; [ver Ashley Montagu, &lt;b&gt;A Natureza da
  Agressividade Humana&lt;/b&gt;]. Não somos nem fatalistas nem deterministas genéticos,
  pois cremos no livre arbitrio, que significa que as pessoas podem mudar a maneira
  de fazera as coisas, incluindo a forma como organizam a sociedade.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não cabe duvida que a sociedade
  necessita ser organizada melhor, posto que no presente a maior parte da riqueza
  -- que é produzida pela maioria -- e o poder estão distribuidos entre uma pequena
  minoria elitista no topo da pirâmide social, causando privações e sofrimentos
  aos demais, particularmente aos que estão mais embaixo. Desta maneira, esta
  elite que controla os meios de coerção atraves de seu controle do estado (ver
  &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB2.htm#secb24"&gt;Seção B.2.4&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;),
  pode assim submeter a maioria e ignorar seus sofrimentos -- um fenômeno que
  ocorre em menor escala em todas as hierarquias. Não é de estranhar, pois, que
  as pessoas nas estruturas autoritarias e centralizadas cheguem a odiar essas
  elites como uma negação de sua liberdade. Alexander Berkman disse:
&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"a sociedade capitalista
  está tão mau organizada que todos seus membros sofrem: da mesma forma que quando
  tens uma dor em alguma parte, todo teu corpo dói e adoeces..., nenhum membro
  de uma organização ou sindicato pode ser impunemente discriminado, suprimido
  ou ignorado. Fazer isso seria como ignorar uma dor de dente; te sentirias completamente
  enfermo"&lt;/i&gt; [Alexander Berkman. &lt;b&gt;ABC Do Comunismo Anárquico&lt;/b&gt;, p. 53].

&lt;/ul&gt;
Dessa forma, isto é precisamente
o que ocorre na sociedade capitalista, o que resulta em estar realmente &lt;i&gt;"completamente
enferma"&lt;/i&gt;.

&lt;p&gt;Por estas razões, os anarquistas
  rechaçam as formas autoritarias de organização e em seu lugar apoiam associações
  baseadas em acordos voluntarios. O acordo voluntario é importante porque, segundo
  Berkman, &lt;i&gt;"apenas quando cada um é uma unidade livre e independente, cooperando
  com os demais de boa vontade devido a seus interesses mutuos, poderá o mundo
  funcionar com êxito e chegar a ser poderoso"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 53]. Na
  esfera "política" isto quer dizer democracia direta e confedeação, que são a
  expressão e o meio ambiente da liberdade. A democracia direta (ou participatoria)
  é essencial posto que a liberdade e a igualdade implicam na necessidade de foros
  onde as pessoas possam discutir e debater entre iguais e que permitam o livre
  exercicio do que Murray Bookchin chama &lt;i&gt;"o papel criativo da dissenção"&lt;/i&gt;.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As ideias anarquistas sobre
  a organização libertária e a necessidade da democracia direta e de uma confederação
  serão discutidas a fundo nas seções &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca29"&gt;A.2.9&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;
  e &lt;b&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca210"&gt;A.2.10&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;.

&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;&lt;a name="seca24"&gt;&lt;/a&gt;OS ANARQUISTAS SÃO A FAVOR DA LIBERDADE "ABSOLUTA"?&lt;/h2&gt;

Não. Os anarquistas não creen
que cada qual possa fazer &lt;i&gt;"o que vier na telha"&lt;/i&gt;, já que certas ocasiões
invariavelmente trazem consigo a negação da liberdade dos outros.
&lt;p&gt;Por exemplo, os anarquistas
  não apoiam a "liberdade" de violar, explorar, ou obrigar aos demais. Tampouco
  toleramos a autoridade. Ao contrario, posto que a autoridade é um atentado contra
  a liberdade, a igualdade e a solicariedade, (sem mencionar a dignidade humana),
  os anarquistas reconhecem a necessidade de recusá-la e destruí-la.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O exercicio da autoridade
  não é liberdade. Ninguem tem o "direito" de mandar nos demais. Conforme assinala
  Malatesta, o anarquismo apoia &lt;i&gt;"a liberdade para todos... com o único limite
  da igual liberdade dos demais; o que &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; significa ... que reconheçamos,
  nem pretendamos respeitar, a "liberdade" para explorar, oprimir, mandar, o que
  é opressão e certamente não é liberdade."&lt;/i&gt; [Errico Malatesta, &lt;b&gt;Vida e Ideias&lt;/b&gt;,
  p. 53].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na sociedade capitalista,
  a resistencia a todas as formas de autoridade hierárquica é a marca da pessoa
  livre -- tanto no privado (o patrão) como no público (o Estado). Como disse
  Henry David Thoreau eem seu ensaio &lt;b&gt;Desobediencia Civil&lt;/b&gt; (1847):

&lt;/p&gt;&lt;ul&gt;
  &lt;i&gt;"A desobediencia é a verdadeira
  base da liberdade. Os obedientes são necessariamente escravos."&lt;/i&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca25"&gt;&lt;/a&gt;POR QUE OS ANARQUISTAS SÃO A FAVOR DA LIBERDADE?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Como dizíamos em A.2, os
  anarquistas se dedicam à igualdade social porque apenas neste contexto pode
  florescer a liberdade individual. Embora muita besteira tenha sido escrita sobre
  "igualdade", e muito do que se crê sobre ela é realmente estranho. Antes de
  discutir o que os anarquistas querem dizer por igualdade, devemos apontar o
  que não queremos dizer.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas não creem
  na "igualdade de dotação", que não somente não existe, mas que seria muito indesejavel
  se se pudesse conseguir. Cada um é único. As diferenças humanas determinadas
  biologicamente não só existem, como são "motivo de regozijo, não de medo nem
  de pesar". Por que? Porque "a vida entre clones não valeria a pena, posto que
  a pessoa só sentiria alegria ao ver que outros tem habilidades diferentes das
  suas" [Noam Chomsky Red and Black Revolution, No.2].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O fato de alguns sugerirem
  seriamente que os anarquistas ao dizerem "igualdade" querem dizer que todo mundo
  deve ser identico é um triste reflexo do estado da cultura intelectual de hoje
  e da corrupção das palavras -- corrupção que se usa para desviar a atenção para
  longe do sistema injusto e autoritario e direcionar as pessoas para discussões
  sobre biologia.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tampouco são os anarquistas
  a favoraveis à chamada "igualdade de resultados". Não temos desejo de viver
  em uma sociedade onde todo mundo recebe os mesmos bens, vive no mesmo tipo de
  casa, veste o mesmo uniforme, etc. Parte do motivo da rebelião anarquista contra
  o capitalismo e o estatismo é a padronização de tão grande parte da vida (ver
  George Reitzer The McDonaldisation Of Society sobre porque o capitalismo conduz
  à padronização e à conformidade].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A "igualdade de resultados"
  só pode ser estabelecida e mantida à força, o que, em todo caso NÃO seria igualdade,
  posto que alguns teriam mais poder que outros! "Igualdade de resultados" é particularmente
  detestada pelos anarquistas, já que reconhecemos que cada individuo tem diferentes
  necessidades, habilidades, desejos e interesses. Obrigar todos a consumir o
  mesmo seria uma tiranía. É obvio pois, que se uma pessoa necessita tratamento
  médico e outra não, as duas não receberiam "o mesmo" cuidado médico. O mesmo
  se passa com outras necessidades humanas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para os anarquistas, estes
  "conceitos" de "igualdade" não tem sentido. A igualdade, na teoria anarquista,
  não significa negar a diversidade ou unicidade individual. Como observou Bakunin:
  "uma vez tendo a igualdade
  triunfado e for bem estabelecida, será que não haverá mais nenhuma diferença
  em talentos e em graus de aplicação dos diferentes individuos? Haverão diferenças,
  não tantas como existem hoje, quiçá, mas sempre haverão diferenças. Disso não
  cabe dúvida. Isto é uma verdade proverbial que &lt;br&gt;
  provavelmente nunca deixará de ser verdade -- que nenhuma árvore jamais produza
  &lt;br&gt;
  folhas exatamente idênticas. Quanto mais sobre os homens, sendo os homens criaturas
  muito mais complicadas que as folhas . Mas tal diversidade, longe de constituir
  uma aflição é . . . uma das vantagens da humanidade. Graças a ela, a raça humana
  é um todo coletivo donde cada ser humano complementa o resto e necessita dela;
  pois esta variação infinita nos seres humanos é a verdadeira causa e a base
  principal de sua solidariedade -- um argumento muito importante a favor da igualdade"
  [Integral Education].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para os anarquistas, igualdade
  quer dizer igualdade social, ou, usando um termo de Murray Bookchin, a "igualdade
  de desiguais". Isto significa que as relações sociais hierárquicas são abolidas
  em favor daqueles que fomentam a participação e estão baseadas no princípio
  de "uma pessoa, um voto". Portanto, a igualdade social no trabalho, por exemplo,
  quer dizer que cada um tem a mesma voz nas decisões acerca de como se desenvolve
  e se encaminha o trabalho. Os anarquistas creen firmemente na máxima "aquilo
  que afeta a todos é decidido por todos".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto não quer dizer, contudo,
  que a perícia seja ignorada e que todo mundo decida tudo. No tocante à perícia,
  diferentes pessoas tem diferentes interesses, talentos, habilidades, assim pois
  é óbvio que quiram estudar diferentes coisas e fazer diferentes tipos de trabalho.
  Tamben é óbvio que quando uma pessoa está enferma consulta com um médico --
  um especialista -- que gestiona seu próprio trabalho sem ter que ser dirigido
  por um comitê. Sentimos ter que expor e esclarecer estas uestões, &lt;br&gt;

  pois cada vez mais gente se empenha a dizer disparates. É ponto pacífico que
  um hospital gerido de uma maneira socialmente igualitaria, não colocará seu
  pessoal não-médico para votar sobre como os doutores devem fazer uma operação!

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De fato, a igualdade social
  e a liberdade individual são inseparaveis. Sem a autogestão coletiva das decisões
  que afetam a um grupo (igualdade) para complementar a autogestão individual
  das decisões que afetam o individuo (liberdade), uma sociedade livre é impossivel.
  Sem ambas, alguns teriam poder sobre outros, fazendo decisões por eles (i.e.
  governando-os), e dessa maneira alguns &lt;br&gt;
  seriam mais livres que outros.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Seção D.3 ("Por quê os
  'anarco-capitalistas' geralmetne dão pouco ou nenhum valor à "igualdade" e o
  que querem eles dizer com essa terminologia?") elabora as ideas anarquistas
  sobre a igualdade em mais detalhes.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca26"&gt;&lt;/a&gt;POR QUE A SOLIDARIEDADE É IMPORTANTE PARA OS ANARQUISTAS?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A solidariedade, ou o apoio
  mútuo, é uma ideia chave do anarquismo. É o laço de união entre o individuo
  e a sociedade, o meio atraves do qual os individuos trabalham juntos para satisfazer
  seus interesses comuns de forma a apoiar e nutrir a liberdade e a igualdade.
  Para os anarquistas, o apoio mutuo é um traço fundamental da vida humana, uma
  fonte de força e felicidade e um requisito principal para uma plena existencia
  humana.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Erich Fromm, famoso psicólogo
  e humanista socialista, disse que "o desejo humano de praticar a união com os
  demais tem suas raizes nas condições específicas de existencia que caracteriza
  a especie humana e é um dos mais fortes motivos da contuta humana" [To Be or
  To Have, p. 107]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto os anarquistas
  consideram o desejo de formar "vínculos" (usando o termo de Max Stirner) com
  outros como uma necessidade natural. Estas ligações, ou associações, dever ser
  baseadas na igualdade e na individualidade para que sejam totalmente satisfatorias
  para aqueles que as compõem -- i.e. devem ser organizadas de maneira anarquista,
  i.e., voluntarias, descentralizadas e não-hierárquicas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A solidaridade -- a cooperação
  entre individuos -- é necessária para a vida e está longe de ser uma negação
  da liberdade. "Quê resultados maravilhosos tem obtido esta singular força da
  individualidade humana quando se fortalece com a cooperação com outros indivíduos",
  observa Emma Goldman. "A cooperação -- em contraposição às lutas intestinais
  e à dissenção -- tem funcionado a favor da sobrevivencia e da evolução das especies...
  Só o apoio mútuo e a cooperação voluntaria... podem criar as bases de uma vida
  individual e associativa livre" [Habla Emma La Roja, p. 95].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Solidaridade quer dizer
  associar-se juntos como iguais para satisfazer necessidades e interesses comuns.
  As formas de associação que não estão baseadas na solidariedade (aquelas baseadas
  na desigualdade) esmagarão a individualidade dos que estão sujeitos a elas.
  Como indica Ret Marut, a liberdade necessita da solidariedade, em reconhecimento
  dos interesses comuns:
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;"O mais nobre, puro e verdadeiro
  amor da humanidade é o amar-se a si mesmo: eu &lt;br&gt;
  quero ser livre!, eu quero ser feliz! eu quero desfrutar de todas as coisas
  belas do &lt;br&gt;
  mundo. Mas minha liberdade está assegurada somente quando os demais ao meu redor
  são livres. Eu só posso ser feliz quando as pessoas ao meu redor são felizes.
  Eu só posso estar alegre quando as pessoas que vejo e conheço vêem o mundo com
  os olhos da alegria, e só posso encher minha taça de pura felicidade quando
  estiver seguro em minhas convicções que os demais, tambem, podem encher seu
  copo da mesma forma que eu. E por essa razão, é por tratar-se de minha própria
  satisfação, de meu proprio eu, quando me sublevo contra todo perigo que ameaça
  minha liberdade e felicidade..." [Ret Marut (alias B. Traven), The Brickburner
  magazine]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na prática, solidariedade
  quer dizer que reconheçemos, como o slogan do&amp;nbsp; Industrial Workers of the
  World, que "uma afronta a um é uma afronta a todos".

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sob uma sociedade hierárquica,
  a solidariedade é importante não apenas pela satisfação que nos dá, mas também
  porque é necessária para resistir aos que estão no poder. Estando unidos, aumentamos
  nossa força para conseguir o que queremos. Em larga escala, organizados em grupos,
  juntos poderemos começar a gerir nossos próprios assuntos coletivos e assim
  suprimir os patrões de uma vez por todas. "os vínculos ... multiplicarão os
  bens do individuo e assegurarão sua propriedade ameaçada" [Max Stirner El Unico
  Y Su Propiedad, p. 258]. Atuando com &lt;br&gt;
  solidaridade, podemos dessa forma substituir o sistema em vigor por um mais
  de nosso agrado. Há poder na "união".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A solidariedade é pois o
  meio pelo qual podemos obter e assegurar nossa propria liberdade. Concordamos
  trabajar juntos para não ter que trabalhar para outro. Concordando compartilhar
  com os demais aumentamos nossas opções para desfrutar mais, não menos. O apoio
  mútuo é em meu próprio interesse -- ou seja, eu me dei conta de que é vantajoso
  para mim chegar a acordos com os demais com base no respeito mutuo e na igualdade
  social; pois que se eu domino alguem, isto significa que as condições que permitem
  o dominio existem, assim pois muito provavelmente eu &lt;br&gt;
  tamém serei dominado algum dia.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Segundo a visão de Max Stirner,
  a solidariedade é o meio pelo qual asseguramos que nossa liberdade seja reforçada
  e defendida contra aqueles no poder que nos querem dominar: "Então tú mesmo
  não conta para nada?" ele pergunta. "Estas disposto a permitir que façam de
  ti o que bem entenderem? Defende-te e ninguem te tocará. Se há milhões de pessoas
  atraz de ti, então és uma potencia formidavel e ganharás sem dificuldade" [Ibid.].

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por conseguinte, a solidaridade
  é importante para os anarquistas porque é o meio pela qual a liberdade pode
  ser criada e defendida contra o poder. A solidariedade é força e um produto
  de nossa natureza de seres sociais. Não obstante, a solidariedade não deveria
  ser confundida com "rebanhismo" que implica em seguir um lider passivamente.
  Para que seja efetiva, a solidariedade tem que ser criada por gente livre, cooperando
  juntos como iguais. O "grande nós" não é solidariedade, mesmo que o desejo do
  "rebanho" seja um produto de nossa necessidade de união e solidariedade. É uma
  "solidariedade" pervertida pela sociedade hierarquizada, que condiciona as pessoas
  a obedecer a líderes cegamente.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca27"&gt;&lt;/a&gt;POR QUE OS ANARQUISTAS DEFENDEM A AUTO-LIBERTAÇÃO?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A liberdade, por sua propria
  natureza, não pode ser concedida. Um individuo não pode ser libertado por outro,
  mas deve romper suas próprias cadeias atraves de seu proprio esforço. Consequentemente,
  o esforço proprio pode ser parte de uma ação coletiva, e em muitos casos assim
  há de ser para alcançar seus fins. Como assinala Emma Goldman:
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;
  "a historia nos diz que cada classe (ou grupo, ou individuo) alcançou a verdadeira
  &lt;br&gt;
  &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; libertação de seus amos por seus próprios esforços"
  [Habla Emma La Roja p. 142]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas durante muito
  tempo tem argumentado que o povo somente pode libertar-se atraves de suas proprias
  ações. Os vários métodos anarquistas propostos para facilitar este processo
  serão discutidos na Seção J ("QUE FAZEM OS ANARQUISTAS?") e não discutiremos
  isso aqui. Não obstante, todos estes métodos se baseiam no povo organizando-se,
  delineando suas proprias agendas, e atuando de forma que os fortaleça e eliminando
  sua dependencia de líderes que façam as coisas por eles. O anarquismo se baseia
  no povo "atuando por si mesmo" (fazendo o que os &lt;br&gt;
  anarquistas chamam "ação direta").
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A ação direta tem um efeito
  potenciador e libertador sobre aqueles comprometidos com ela. A auto-atividade
  é o meio pelo qual a criatividade, a iniciativa, a imaginação e o pensamento
  crítico dos que estão sujeitos à autoridade podem desenvolver-se. É o meio atraves
  do qual a sociedade pode caminhar. Como indica Errico Malatesta "Entre o homem
  e a sociedade à sua volta há uma ação recíproca. Os homens fazem da sociedade
  o que ela é e a sociedade faz dos homens o que eles são, e o resultado é portanto
  uma especie de circulo vicioso ... Afortunadamente a sociedade existente não
  foi criada pela vontade inspirada de uma classe dominante, que conseguiu reduzir
  todos seus sujeitos a instrumentos passivos e inconscientes... É o resultado
  de milhares de lutas intestinas, de mil fatores humanos e naturais ..." [Vida
  E Ideas, p. 188].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A sociedade, enquanto molda
  os individuos, é por sua vez criada por eles, através de suas ações, pensamentos
  e ideais. O ataque a instituições que limitam a liberdade de alguem é mentalmente
  liberador, uma vez que põe em marcha o processo de colocar em dúvida as relações
  autoritarias em geral. Este processo nos dá a intuição sobre o funcionamento
  da sociedade, alterando nossas ideias e criando novos ideais. Citando outra
  vez Emma Goldman : "A verdadeira emancipação começa ... na alma da mulher" E
  do homem também, acrescentamos. É somente aqui que podemos "iniciar [nossa]
  regeneração interna, desfazendo-nos do peso dos prejuízos, das tradições e dos
  costumes" [Op. Cit., p. 142]. Mas este processo deve ser auto-dirigido, pois
  como assinala Max Stirner, "o homem que é posto em liberdade não é mais que
  um alforriado ... um cão arrastando uma corrente" [Max Stirner, El Unico Y Su
  Propiedad p. 168].

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em uma entrevista durante
  a revolução espanhola, o militante anarquista espanhol Durruti disse "Trazemos
  um mundo novo em nossos corações". Apenas a auto-atividade e a auto-libertação
  nos permite criar tal visão em nossos corações e nos da segurança para tratar
  de realizá-la no mundo real.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas, não obstante,
  não creem que a auto-libertação deva esperar para o futuro, depois da "gloriosa
  revolução". O pessoal é político, e dada a natureza da sociedade, a forma como
  atuamos aqui e agora terá influencia sobre o futuro de nossa sociedade e de
  nossas vidas.. Por conseguinte, inclusive em sociedades pre-anarquistas os anarquistas
  devem criar, como disse Bakunin, "não apenas ideias mas tambem os fatos do proprio
  futuro". Podemos fazê-lo criando relações sociais e organizações alternativas,
  atuando como pessoas livres em uma sociedade não &lt;br&gt;
  livre. Apenas atraves de nossas ações aqui e agora podemos assentar os alicerces
  de uma sociedade livre.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A revolução é um processo,
  não um ato, e cada "ação revolucionaria espontânea" é geralmente resultante
  e baseada no trabalho paciente de muitos anos de organização e educação do povo
  por pessoas com ideias "Utópicas". O processo de "criar um mundo novo dentro
  da casca do velho" (usando outra expressão da IWW) construindo instituições
  e relações alternativas, é apenas um componente do que deve ser uma grande tradição
  de compromisso e de militancia revolucionarios.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Malatesta esclareceu isso
  "fomentar todo tipo de organizações populares é a consequencia lógica de nossas
  idéias básicas, e portanto deveria ser uma parte integral de nosso programa
  ... os anarquistas não queren emancipar ao povo; querem que o pueblo se emancipe
  a sí mesmo ..., queremos que a nova forma de vida surja do povo e que corresponda
  a seu estado de desenvolvimento e que avance conforme ele avança" [Vida e Ideas,
  p.90]
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca28"&gt;&lt;/a&gt;É POSSIVEL SER ANARQUISTA SEM OPOR-SE À HIERARQUIA?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não. Vimos que os anarquistas
  detestam o autoritarismo. Se alguem é anti-autoritario, ele deve opor-se a todas
  as instituições hierárquicas, já que elas encarnam o principio da autoridade.
  O argumento (se é que se necessita) é o seguinte:

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A hierarquia é uma organização
  piramidal composta por uma série de graduações, categorias ou cargos de poder
  crescente, prestigio e (normalmente) remuneração. Os eruditos que estudam a
  forma hierárquica afirmarm que os dois principais ideais que ela encarna são
  o domínio e a exploração. Por exemplo, em seu artigo "O quê os chefes fazem?"
  (Review of Radical Political Economics, 6, 7), um estudo da feitoria moderna,
  Steven Marglin falou que a principal função da hierarquia corporativa não é
  uma maior eficiencia na produtividade (como dizem os capitalistas), mas uma
  maior controle sobre os trabalhadores, sendo o propósito de tal controle uma
  exploração &lt;br&gt;
  mais efetiva.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em uma hierarquia o controle
  se mantem atraves da coerção, ou seja, da ameaça de sanções negativas de toda
  espécie: física, econômica, psicológica, social, etc. Tal controle, inclusive
  a repressão do protesto e da rebelião, necessita da centralização: um conjunto
  de relações de poder no qual o controle máximo é exercido por uns poucos no
  cume (em particular o cérebro da organização), enquanto que aqueles das categorias
  médias tem muito menos controle e a maioria abaixo não tem nenhum.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Posto que o domínio, a coerção
  e a centralização são aspectos essenciais do autoritarismo, e dado que esses
  traços formam parte das hierarquias, toda instituição hierárquica é autoritaria.
  Mais ainda, para os anarquistas, qualquer organização marcada pela hierarquia,
  pelo centralismo e pelo autoritarismo é quase-estatal, ou "estadista". E como
  os anarquistas se opõem ao estado e às relações autoritárias, aquele que não
  busque desmantelar todas as formas de hierarquia não pode ser chamado anarquista.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sentimos a necessidade de
  enfatizar este ponto, pois alguns apologistas do capitalismo, pretendendo apropriar-se
  do termo "anarquista" por razão de sua associação com a liberdade, recentemente
  tem reivindicado que é possível ser capitalista e anarquista ao mesmo tempo
  (enquanto anarco-capitalista). Ora, uma vez que o capitalismo se baseia na hierarquia
  (sem mencionar o estadismo e a exploração), "anarco"-capitalismo é uma contradição.
  (Mais sobre este assunto na &lt;br&gt;
  Seção F).
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca29"&gt;&lt;/a&gt;QUE TIPO DE SOCIEDADE OS ANARQUISTAS DESEJAM?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Os anarquistas querem uma
  sociedade descentralizada, baseada na livre associação. Consideramos esta forma
  de sociedade a melhor para elevar ao máximo os valores que delineamos anteriormente
  -- a liberdade, a igualdade, a solidariedade. Apenas por meio de uma descentralização
  racional do poder, estruturalmente e territorialmente, a liberdade individual
  pode ser fomentada. A delegação de poderes nas mãos de uma minoria é uma negação
  da liberdade e da dignidade individual. Em vez de usurpar a gestão de seus próprios
  assuntos das mãos do povo, os anarquistas ajudam organizações que minimizam
  a autoridade, mantendo o poder na base, nas mãos dos afetados pelas decisões
  alcançadas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A livre associação é a pedra
  angular da sociedade anarquista. Os individuos devem ser livres para unirem-se
  da forma como julguem conveniente, uma vez que esta é a base da liberdade e
  da dignidade humana. Contudo, tais livres convenios devem basear-se na descentralização
  do poder, de outro modo ele será uma farsa (como no capitalismo), pois que somente
  a igualdade outorga o contexto social necessário para o desenvolvimento e o
  crescimento da liberdade. Portanto os anarquistas apoiam os coletivos diretamente
  democraticos, baseados em "uma pessoa, um voto" (ver a &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca211"&gt;Seção A.2.11&lt;/a&gt;&amp;nbsp;
  Por quê os anarquistas apoiam a democracia direta? que analiza a &lt;br&gt;
  racionalidade da democracia direta como o complemento político do livre acordo).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, os coletivos
  seriam regidos por assembleias em massa de todos seus membros, com os assuntos
  puramente administrativos geridos por comitês eleitos para o caso. Estes comitês
  comunais seriam formados por delegados temporarios revogaveis que executariam
  seus trabalhos sob vigilância da assembléia que os elegeu. Se os delegados atuarem
  contrarios ao seu mandato ou tratarem de extender sua influencia ou trabalho
  alem do decidido pela assembléia (i.e. se empenham a tomar decisões políticas),
  poderiam ser instantaneamente revogados e suas decisões canceladas. Deste modo,
  a organização permanece na união de individuos que a formou.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estes coletivos igualitarios,
  formados por livres acordos, por sua vez se associam livremente em confederações.
  Tal confederação livre se formaria de baixo para cima, as decisões fluindo desde
  as simples assembleias para cima. As confederações seriam geridas de maneira
  semelhante aos coletivos. Regularmente haveriam conferencias locais regionais,
  "nacionais" e internacionais nas quais todos os assuntos importantes e os problemas
  que afetam aos coletivos seriam discutidos. Alem disso, os principios fundamentais
  e as ideias da sociedade seriam debatidas e as decisões políticas seriam tomadas,
  postas em vigor, revistas e coordenadas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se formariam comitês de
  ação, caso necessário, para coordenar e administrar as decisões das assembleias
  e seus congressos, sob estrito controde desde baixo segundo discutimos antes.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mais importante ainda, as
  assembléias comunais básicas podem anular qualquer decisão tirada pelas confederações
  e desfiliar-se de uma confederação. Alem disso, podem convocar conferencias
  confederais para discutir novos assuntos e para informar aos comitês de ação
  acerca de novos desejos e para instruí-los sobre o que fazer com respeito às
  novas exigencias e idéias.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Organizados desta maneira,
  a hierarquia é abolida, já que o povo controla tudo desde a base da organização,
  não seus delegados. Somente esta forma de organização pode substituir ao governo
  (iniciativa e o fortalecimento de uns poucos) pela anarquia. Esta forma de organização
  existiria em todas as atividades que requerem trabalho de grupo e a coordenação
  de muita gente. Seria, como disse Bakunin, o meio "para integrar individuos
  dentro de estruturas que eles poderiam compreender e controlar". As iniciativas
  individuais seriam geridas pelo proprio individuo. &lt;br&gt;
  &amp;nbsp; &lt;br&gt;
  &amp;nbsp;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca210"&gt;&lt;/a&gt;O QUE SIGNIFICARÁ E O QUE SE OBTERÁ COM A ABOLIÇÃO DA HIERARQUIA?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A criação de uma nova sociedade
  baseada em organizações libertarias terá um incalculavel efeito na vida diária.
  O fortalecimento de milhões de pessoas transformará a sociedade de uma forma
  que hoje em dia apenas podemos imaginar. Contudo, há muitos que consideram estas
  formas de organização impraticaveis e condenadas ao fracasso.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contra os que dizen que
  tais organizações não autoritarias, confederadas, somente causarão confusão
  e desunião, os anarquistas sustentam que a forma de organização estadista, centralizada
  e hierárquica produz indiferença em vez de compromisso, dureza de coração em
  lugar de solidariedade, uniformidade em vez de unidade, e elites privilegiadas
  em lugar de igualdade. Mais importante, tais organizações destroem a iniciativa
  individual e a ação independente e o pensamento crítico. (Mais sobre hierarquia,
  ver a &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm"&gt;Seção B.1&lt;/a&gt; "Por
  quê os anarquistas são contra a autoridade e a hierarquia" e seções afins).


&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Que&amp;nbsp; a organização
  libertária é capaz de funcionar e se baseia (e fomenta) na liberdade se demonstrou
  no movimento anarquista espanhol. Fenner Brockway, secretario do Independent
  Labour Party britânico, visitando Barcelona durante a revolução de 1936, notou
  que "a grande solidaridade que existia entre os anarquistas se devia a que cada
  individuo dependía de suas proprias forças e não de liderança ... As organizações
  devem, para ter êxito, ser combinadas com gente de pensamento livre; não uma
  massa, mas individuos livres" [citado por Rudolf Rocker, Anarcosindicalismo,
  p. 58]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como já foi demonstrado
  abundantemente, as estruturas centralizadas limitam a liberdade. Como Proudhon
  anotou: "o sistema centralista é muito bom com relação ao tamanho, à simplicidade
  e à construção; lhe falta apenas uma coisa -- o individuo deixa de pertencer-se
  a si mesmo em tal sistema, não pode apreciar seu proprio valor, sua vida, e
  ninguem se dá conta dele" [citado en Paths in Utopia, Martin Buber, p.33].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os efeitos da hierarquia
  podem ser vistos ao derredor. Não funciona. A hierarquia e a autoridade existem
  por todas as partes, no trabalho, em casa, na rua. Como disse Bob Black, "Se
  passas a maior parte de tua vida recebendo ordens ou beijando cús, se te costumas
  à hierarquia, te converterás em passivo-agressivo, sado-masoquista, servil e
  estúpido, e levarás esse peso a todos os aspectos do resto de tua vida." [The
  Libertarian as Conservative].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto significa que o fim
  da hierarquia trará consigo uma transformação massiva na vida cotidiana. Implicará
  a criação de organizações centradas no individuo dentro das quais todos poderão
  exercitar suas habilidades ao máximo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Somente a autodeterminação
  e o livre acordo em cada nivel da sociedade poderá desenvolver a responsabilidade,
  a iniciativa, a inteligencia e a solidariedade dos individuos e a completa sociedade.
  Unicamente uma organização anarquista permite acesso e utilização do vasto talento
  que existe dentro da humanidade, enriquecendo a sociedade atraves do mesmo processo
  que enriquece e desenvolve o individuo. Somente envolvendo a todos no processo
  de imaginar, planejar, coordenar e implementar as decisões que os afetan poderá
  florescer a liberdade e poderá desenvolver-se e ser protegida a individualidade.
  A anarquia desatará a creatividade e o talento das massas populares escravizadas
  pela hierarquia.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A anarquia beneficiará inclusive
  aqueles que dizem beneficiar-se pelo capitalismo e suas relações autoritarias.
  Os anarquistas "sustentam que ambos, os que mandam e os que são mandados são
  deformados pela autoridade; ambos, exploradores e explorados são estropiados
  pela exploração" [Piotr Kropotkin, Act for Yourself, p. 38] É assim porque "em
  qualquer relação hierárquica o que domina tanto quanto o dominado pagam um preço.
  O preço pago pela 'glória de mandar' é verdadeiramente pesado. Cada tirano se
  ressente de suas obrigações. Ele está condenado a arrastar o peso morto do dormente
  potencial criativo de seus subordinatos pelo caminho de sua incursão hierárquica"
  [The Right to be Greedy, For Ourselves].
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca211"&gt;&lt;/a&gt;POR QUE OS ANARQUISTAS SÃO A FAVOR DA DEMOCRACIA DIRETA?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Para os anarquistas, o voto
  democrático direto sobre decisões políticas dentro das associações livres é
  o contraponto político do livre acordo. A razão é que "muitas formas de dominação
  podem ser empreendidas de 'uma maneira ...livre, não-coercitiva ... e é ingenuo
  ... pensar que a mera oposição ao controle político em sí nos levará ao final
  da opressão" [John P. Clark, Max Stirner's Egoism, p.93].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma vez que uma pessoa se
  associa a uma comunidade ou a um posto de trabalho, ele ou ela se converte em
  um/uma "cidadã" (por falta de melhor palavra) dessa associação. A associação
  se organiza em torno de uma assembleia de todos seus membros (no caso de grandes
  centros de trabalho e aglomerações, este pode ser um sub-grupo funcional como
  uma fábrica ou um bairro). Nesta assembleia, em acordo com outras, se define
  o conteúdo de suas obrigações políticas. Atuando dentro da associação, as pessoas
  exercem juizos críticos e escolhem, ou seja, gerenciam &lt;br&gt;
  suas atividades. Isso significa dizer que a obrigação política não se restringe
  a uma entidade aparte e acima do grupo ou sociedade, tal como o estado ou a
  empresa, sem os "concidadãos".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mesmo que o povo em assembleia
  legisle coletivamente as regras que governam sua associação, e estão sujeitos
  a elas como indivíduos, tambem são superiores a elas no sentido de que essas
  regras sempre podem ser modificadas ou abolidas. Coletivamente, os "cidadãos"
  associados constituem a autoridade política, mas como esta autoridade está baseada
  em relações horizontais entre eles e a elite, a "autoridade" é não-hierárquica
  ("racional" ou "natural", ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm"&gt;Seção B.1&lt;/a&gt; "Por
  quê os &lt;br&gt;
  anarquistas são contra a autoridade e a hierarquia").
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que se poderia alegar
  que se estás em minoria, serás governado por outros. Contudo, o conceito de
  democracia direta tal como descrevemos não está necessariamente ligado ao conceito
  de governo da maioria. Se alguns se encontram em minoria em uma votação particular,
  essa pessoa tem então que escolher se consente ou se nega a reconhecer a decisão
  como obrigatória. Negar à minoria a oportunidade de exercer seu juízo e sua
  escolha é infringir em sua autonomia e impor-lhe uma obrigação que não aceitou
  livremente. A imposição à força da vontade maioritaria é contrária ao ideal
  da obrigação auto-assumida, e por isso é contrária à democracia direta e à livre
  associação. Portanto, longe de ser uma negação da libertade, a democracia direta
  dentro do contexto da livre associação e a obrigação auto-asumida é a única
  maneira de alimentar a liberdade. Alem do mais, uma minoria, se permanece dentro
  da associação, pode apelar seu caso e tratar de convencer a &lt;br&gt;

  maioria de seu erro.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os laços entre as associações
  seguem o mesmo modelo que as associações. Em vez de individuos unidos em uma
  associação, temos associações unidas em confederações. Os enlaces entre associações
  dentro de uma confederação são da mesma natureza horizontal e voluntária que
  nas associações, com os mesmos direitos de "voz e saida" de seus membros. O
  funcionamento de tal confederação se perfila na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca29"&gt;Seção A.2.9&lt;/a&gt;
  (Quê tipo de sociedade desejam os anarquistas?) e se discute em maior detalhe
  na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secI.htm"&gt;Seção I&lt;/a&gt; (Como o
  anarquista gostaria que fosse a sociedade?). &lt;br&gt;
  &amp;nbsp; &lt;br&gt;
  &amp;nbsp;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca212"&gt;&lt;/a&gt;O CONSENSO É UMA ALTERNATIVA À DEMOCRACIA DIRETA?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O consenso, embora constitua
  a "melhor" opção para a tomada de decisões, visto que todos estão de acordo,
  também tem seus problemas. Como aponta Murray Bookchin ao descrever suas experiencias
  de consenso, este pode ter consequencias autoritarias, já que "para... criar
  pleno consenso em uma decisião os dissidentes minoritarios são muitas vezes
  sutilmente pressionados ou psicologicamente forçados a declinar seu voto em
  um assunto problemático, visto que sua dissidencia constituiria o veto por uma
  pessoa. Esta prática, chamada 'ficar de lado' no processo de consenso americano,
  muitas vezes acarreta a intimidação dos dissidentes, até ao ponto de se subtrair
  por completo o processo de tomada de decisões, antes de fazer uma honrosa e
  continuada expressão de seu desacordo com o voto, inclusive como minoria, de
  acordo com seus pontos de vista. Havendo-se retirado, sacrificando sua identidade
  política, para que possa tomar-se uma decisão. . . O consenso se obteve finalmente
  &lt;br&gt;
  apenas depois que os membros dissidentes se anulassem como participantes no
  processo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;"A nivel mais teórico, o
  consenso silenciou o aspecto mais vital do diálogo, a dissensão. A dissensão
  em curso, o diálogo apaixonado que ainda persiste inclusive depois que a minoria
  acede temporariamente à decisão maioritaria, ...[pode ser] substituido&amp;nbsp;
  ... por enfadonhos monólogos, e pelo apolêmico e soporífero tom do consenso.
  Na tomada de decisões maioritarias, a minoria derrotada pode entrar com um recurso
  para anular uma decisão na qual haviam sido derrotados; são livres para articular
  persistente e abertamente desacrodos razoaveis e potencialmente persuasivos.
  O consenso, por sua parte, não honra nenhuma minoria, as emudece a favor do
  "uno" metafísico do "grupo consensual" ["What Is Communality: The Democratic
  Dimension of Anarchism].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Bookchin não "nega que o
  consenso possa ser uma forma apropriada de tomada de decisões em pequenos grupos
  de pessoas que estão muito familiarizados uns com os outros". Ainda assim nota
  que na prática, sua experiencia lhe ensinou que "quando grupos maiores resolvem
  tomar decisões atraves do consenso, geralmente são forçados a tirar o mais baixo
  denominador comum intelectual ao domar decisões: a menos polêmica ou inclusive
  a mais medíocre das decisões que uma assembleia de certo tamanho pode alcançar
  é a aceita, precisamente porque cada um tem que estar de acuerdo com ela do
  contrario tem que abster-se de votar no assunto" [Op. Cit.]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por conseguinte, devido
  à sua natureza potencialmente autoritaria, os anarquistas em geral negam que
  o consenso seja o espectro político da livre associação. Embora seja vantajoso
  tratar de chegar a um consenso, em geral não é prático faze-lo, especialmente
  em grupos grandes, sem olhar seus outros efeitos negativos. Muitas vezes rebaixa
  uma sociedade ou livre associação com sua tendencia a subtrair a individualidade
  em nome da comunidade e a dissenção em nome da solidariedade. Nem a verdadeira
  comunidade nem a solidariedade evoluem quando o desenvolvimento do individuo
  e sua auto-expressão são abortados pela censura e pela pressão pública. Pelos
  individuos serem únicos, eles tambem tem pontos de vista únicos, cuja expressão
  deveria ser alentada. Agindo assim eles fazem com que a sociedade evolua e seja
  enriquecida pelas ações e pelas ideias do individuo.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca213"&gt;&lt;/a&gt;OS ANARQUISTAS SÃO INDIVIDUALISTAS OU COLETIVISTAS?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A resposta curta é: nenhuma
  das duas Pode-se ver pelos fatos que os liberais eruditos acusam anarquistas
  como Bakunin de serem "coletivistas" ao passo que os marxistas atacam Bakunin
  e os anarquistas em geral de serem "individualistas". Não é de surpreender,
  uma vez que os anarquistas rechaçam ambas ideologias como tolices. Gostem ou
  não, os individualistas não anarquistas e os coletivistas não anarquistas são
  as duas caras da moeda capitalista. Isto se demonstra considerando o capitalismo
  moderno, onde as tendencias "individualista" e "coletivista" continuamente se
  influem mutuamente, muitas vezes com o pêndulo da estrutura política e econômica
  oscilando de um extremo a outro. O coletivismo e o individualismo capitalista
  são aspectos parciais da existencia humana, e da mesma forma que todas as manifestações
  de desiquilibrio, estão profundamente degeneradas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para os anarquistas, a ideia
  de que os individuos deveriam sacrificar-se "pelo grupo" ou "pelo bem comum"
  não tem sentido. Os grupos são formados por individuos, e se as pessoas pensam
  somento no bem estar do grupo, esse grupo será uma casca sem vida. Somente a
  dinâmica do intercambio humano dentro de um grupo é o que lhe dá vida. Os "grupos"
  não podem pensar, apenas os individuos pensam. Ironicamente, este fato leva
  os "coletivistas" autoritarios à classe de "individualismo" mais peculiar, o
  "culto da personalidade" e a adoração do lider. É de se esperar, uma vez que
  tal coletivismo amontoa os individuos em grupos abstratos, lhes nega sua individualidade
  e acaba precisando que alguem com suficiente individualidade tome decisões;
  os &lt;br&gt;
  problemas se "resolvem" com as ideias do líder. O Stalinismo e o Nazismo são
  excelentes exemplos deste fenômeno.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estas considerações não
  significam que o "individualismo" encontre apoio entre os anarquistas. Como
  assinalou Emma Goldman, "o individualismo exacerbado ... não é mais que uma
  tentativa dissimulada de reprimir e de derrotar o individuo e a sua individualidade
  ... invariavelmente resulta no incremento das distinções de classe ... supondo
  todo o individualismo para os amos, enquanto que o povo é arregimentado em uma
  casta de escravos a serviço de um punhado de super homens egoístas" [Habla Emma
  La Roja, p. 89].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enquanto os grupos não pensarem,
  os individuos não poderão viver nem discutir por si sós. Todavia, devido a sua
  perspectiva desequilibrada, os "individualistas" acabam apoiando algumas das
  instituições mais "coletivistas" que existem: as empresas capitalistas, e alem
  disso, sempre defendem a necessidade de um estado apesar de suas frequentes
  acusaçõs contra ele. Estas contradiçòes nascem da dependencia do individualismo
  capitalista de contratos individuais em uma sociedade desigual, ou seja, um
  individualismo abstrato.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em contraste, os anarquistas
  acentuam o individualismo social. O anarquismo "insiste que o centro de gravidade
  da sociedade é o individuo, que tem que pensar por sim mesmo, atuar livremente,
  e viver plenamente ... Se alguem quer desenvolver-se livre e plenamente, tem
  que se ver livre da interferencia e da opressão dos outros... Isto nada tem
  a ver com ... individualismo exacerbado. Tal individualismo depredador é na
  realidade débil, não robusto. Ao menor perigo à sua segurança, corre em direção
  ao estado para buscar refúgio e ajuda pela sua proteção... seu individualismo
  exacerbado é simplesmente uma das muitas atitudes típicas da classe dominante
  com vistas à extorsão política e a usurpação dos trabalhadores" [Emma Goldman,
  Ibid., p.397].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O anarquismo rechaça o individualismo
  abstrato do capitalismo, com suas ideas "absolutas" de liberdade do individuo
  violentado por outros. Esta teoria ignora o contexto social que é o ambiente
  onde a liberdade existe e cresce.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma sociedade baseada em
  "contratos individuais" geralmente resulta da desigualdade de poder entre os
  individuos contratantes e gera a necessidade de uma autoridade baseada em leis
  acima deles e na coerção organizada para forçar o cumprimento dos contratos
  entre eles. Se vê claramente esta consequencia no capitalismo e, mais notavel
  ainda, na teoria do "contrato social" da qual se desenvolveu o estado. Nesta
  teoria se assume que os individuos são "livres" quando estão isolados uns dos
  outros, estando, como dizem, originalmente em um "estado natural". Uma vez agrupados
  em sociedade, se supõe que criaram um "contrato" e um estado para administrá-lo.
  Contudo, além de ser uma fantasia sem nenhuma base na realidade (os seres humanos
  sempre foram animais sociais) esta "teoría" não é mais que uma justificação
  dos extensos poderes do estado sobre a sociedade; o que por sua vez justifica
  o sistema capitalista, que requer um estado forte. Tambem copia os resultados
  das relações econômicas capitalistas sobre as que se constrói esta teoria. Dentro
  do capitalismo, os individuos se contratam "livremente", mas na prática o patrão
  manda sobre o trabalhador enquanto dura o contrato. (Ver Seções &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca214"&gt;A.2.14&lt;/a&gt;
  e &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB4.htm"&gt;B.4&lt;/a&gt; para
  mais detalhes)
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na prática, o individualismo
  e o coletivismo levam à negação da liberdade individual, à autonomia e à dinâmica
  de grupos. Ademais, um supõe o outro, o coletivismo nos leva a uma forma particular
  de individualismo e o individualismo nos leva a uma forma particular de coletivismo.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O coletivismo, com sua supressão
  implícita do individuo, no final das contas acaba por &lt;br&gt;
  empobrecendo à comunidade, uma vez que os grupos apenas tem vida atraves dos
  indivíduos que os formam. O individualismo, com sua supressão explícita da comunidade
  (i.e. as pessoas com que alguem vive) no final das contas empobrece ao individuo
  pois os individuos não existem aparte da sociedade, passa a existir dentro dela.
  Alem de tudo o individualismo acaba por restringir a uns "poucos eleitos" as
  intuições e habilidades dos individuos que formam o resto da sociedade, [agindo]
  desta maneira [se constituem] numa fonte de auto-negação. Esta é o erro (e a
  contradição) maior do individualismo, "a impossibilidade do individuo chegar
  a alcançar um pleno desenvolvimento em condições de opressão das massas pelas
  "belas aristocracias". Seu desenvolvimento permaneceria desequilibrado" [Piotr
  Kropotkin, Revolutionary Pamphlets, p.293].

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A verdadeira liberdade e
  comunidade existem em alguma outra parte.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca214"&gt;&lt;/a&gt;PORQUE O SISTEMA VOLUNTARIO NÃO É SUFICIENTE?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O sistema voluntario (voluntarismo)
  significa que a associação deveria ser voluntaria para maximizar a liberdade.
  Os anarquistas são, obviamente, voluntaristas, ao crerem que apenas na livre
  associação, criada por livres acordos, os individuos podem se desenvolver, crescer
  e expressar sua liberdade. Ë evidente, sem dúvida, que sob o capitalismo o voluntarismo
  não basta para maximizar a liberdade. O sistema voluntario supõe a promessa
  (i.e. a liberdade de entrar em contratos) e a promessa supõe a capacidade indivudual
  de juízo independente e deliberação racional. Também, ela &lt;br&gt;
  pressupõe que possa valorizar e auterar suas ações e relações. Sob o capitalismo
  os contratos contradizen estas consequencias de voluntarismo, já que, mesmo
  técnicamente "voluntarios" (vimos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB4.htm"&gt;Seção B.4&lt;/a&gt; que
  não é realmente assim) os contratos capitalistas resultam n negação da liberdade.
  É assim porque a relação social salario-trabalho supõe a promessa de obedecer
  em troca de pagamento. Todavia, como assinala Carole Patemen em The Problem
  of Political Obligation &lt;br&gt;

  "prometer obediencia é afirmar que, em certas areas, a pessoa que faz a promessa
  já não tem a liberdade de exercer suas capacidades e de decidir suas proprias
  ações, e deixa de ser um (uma) igual para ser um (uma) subordinado (a)." [p.19].

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Efetivamente, sob o capitalismo
  serás livre desde que escolhas a quem vais obedecer! A liberdade, contudo, deve
  significar mais que o direito de mudar de chefe. A servidão voluntária continua
  sendo servidão. Portanto os anarquistas realçam a necessidade da democracia
  direta nas associações voluntarias para assim assegurar que o conceito de "liberdade"
  nào é uma farsa e uma justificação para a dominação, como ocorre sob o capitalismo.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Toda relação social baseada
  no individualismo abstrato estará provavelmente baseada na força, no poder,
  na autoridade, e não na liberdade. Portanto isto não configura uma definição
  de liberdade na qual os individuos exercem suas capacidades e decidem suas proprias
  ações. Consequentemente, o voluntarismo não é suficiente para criar uma sociedade
  que eleve ao máximo a liberdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Certamente, poder-se-ia
  objetar que os anarquistas valorizam certas formas de relação social mais que
  outras e que um verdadeiro libertario deve permitir ao povo a liberdade de escolher
  suas proprias relações sociais. Contestando à segunda objeção primeiro, em uma
  sociedade baseada na propriedade privada (e no estadismo) os proprietarios tem
  mais poder, o qual podem usar para perpetuar sua autoridade. Por quê deveríamos
  evitar a servidão ou tolerar aqueles que desejam reprimir a liberdade dos outros?
  A "liberdade" de mandar é a liberdade de escravizar, e é de fato uma negação
  da liberdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com respeito à primeira
  objeção, os anarquistas nos declaramos culpaveis. Teríamos prejuízo reduzindo
  seres humanos à condição de robôs. Teríamos prejuízo sacrificando a dignidade
  e a liberdade humana. Teríamos prejuízo, evidentemente, sacrificando a humanidade
  e a liberdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca211"&gt;A.2.11&lt;/a&gt;
  explica por quê a democracia direta é o reflexo social necessario do voluntarismo
  (i.e. do livre acordo). A &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB4.htm"&gt;Seção B.4&lt;/a&gt; discute
  por quê o capitalismo não pode basear-se em uma igualdade de poder negociativo
  entre os proprietarios e os que não o são.

&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca215"&gt;&lt;/a&gt;E QUANTO À NATUREZA HUMANA?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Os anarquistas, longe de
  ignorar a "natureza humana", tem a única teoría política que pensa e reflete
  profundamente sobre este conceito. Muitas vezes, "a natureza humana" é lançada
  cini se fisse a última linha defensiva nos argumentos contra o anarquismo, supondo
  que não admite contestação. Todavia, não é assim.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em primeiro lugar, a natureza
  humana é algo muito complicado. Se por natureza humana se quer dizer "o que
  fazem os humanos" é obvio que a natureza humana é contraditoria: amor, ódio,
  compaixão e crueldade, paz e violencia, etc. tem sido expressões das pessoas
  e todas são produto da "natureza humana". Portanto aquilo que se considera natureza
  humana muda a medida que mudam as circunstancias sociais. Por exemplo, a escravidão
  foi considerada parte da "natureza humana" e "normal" durante milhares de anos,
  e a guerra só se converteu em parte da natureza &lt;br&gt;
  humana com o desenvolvimento dos estados. Portanto, o meio ambiente joga um
  papel importante na definição do que constitui a "natureza humana".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto não quer dizer que
  os seres humanos sejan infinitamente plásticos, cada individuo uma tábua plana
  (uma página em branco) ao nascer, esperando ser moldado pela "sociedade" (o
  qual na prática significa por aqueles que a gerem). Não queremos entrar em um
  debate sobre quais características humanas são ou não são "inatas". A única
  coisa que podemos dizer é que os seres humanos têm uma habilidade inata para
  pensar e aprender, o que julgamos evidente; e que os humanos são criaturas sociais,
  que necessitam da companhia dos demais para sentir-se completos e &lt;br&gt;
  para prosperar.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estes dois traços, segundo
  cremos, sugerem a viabilidade da sociedade anarquista. A habilidade inata para
  pensar por si mesmo automaticamente torna ilegítimas todas as formas de hierarquia,
  e nossa necessidade de relações sociais supõe que podemos nos organizar sem
  estado. O profundo descontentamento e alienação que afligem à sociedade moderna
  revela que a centralização e o autoritarismo do sistema capitalista e do estado
  negam necessidades inatas dentro de nós.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De fato, como foi dito anteriormente,
  durante a maior parte de sua existencia, a raça humana viveu em comunidades
  anárquicas, com pouca ou nenhuma hierarquia. Que a sociedade moderna qualifique
  essas pessoas de "selvágens" ou "primitivos" é pura arrogancia. Quem pode afirmar
  que o anarquismo vai contra a natureza humana? Os anarquistas acumularam provas
  suficientes que sugerem que não é assim.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No que diz respeito à acusação
  de que os anarquistas pedem demasiado à "natureza humana", são muitas vezes
  os não anarquistas os que fazem as maiores exigencias a ela. Posto que "enquanto
  nossos oponentes parecem admitir que há uma espécie de sal da terra: os governantes,
  os patrões, os líderes, os quais, afortunadamente, impedem que esses homens
  maus: os governados, os explorados, os dirigidos, se tornem muito piores do
  que são..., há uma diferença, uma muito importante. Nós reconhecemos as inperfeições
  da natureza humana, mas não excetuamos aos que mandam. Eles se excetuam, ainda
  que às vezes inconscientemente." [Piotr Kropotkin, Act for Yourself p. 83] Se
  a natureza humana é tão má, então dar a alguns o poder sobre outros e esperar
  que isto nos leve à liberdade e à justiça é uma utopia inútil.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hoje, contudo, com o auge
  da "sociobiologia" alguns afirmam (com muito poucas provas reais) que o capitalismo
  é um produto de nossa "natureza", à qual é determinada pelos gens. Estas declarações
  foram tomadas de assalto pelas autoridades. Considerando a escassez de provas,
  seu apoio a esta "nova" doutrina tem que ser necessariamente o resultado de
  sua utilidade pasra aqueles que estão no &lt;br&gt;
  poder: i.e. o fato de que é útil ter uma base "objetiva" e "científica" que
  justifique esse poder. Igualmente ao Darwinismo social que a precedeu, a sociobiologia
  procede primeiro projetando sobre a natureza as ideias dominantes da sociedade
  atual (muitas vezes inconscientemente, assim os cientistas consideram erroneamente
  as idéias em questão como "normais" e "naturais"). Depois as teorias sobre a
  natureza assim produzidas se transferem retroativamente à sociedade e à história,
  usando-as para "provar" que os principios do capitalismo (a hierarquia, a autoridade,
  a competencia, etc.) são leis eternas, que são depois usadas para justificar
  o statuos quo! Assombrosamente, há muita gente, supostamente inteligente, que
  levamjerarquía, la autoridad, la competencia, etc.) son leyes eternas, que son
  después usadas para justificar el status quo!. Asombrosamente, hay mucha gente,
  supuestamente inteligente, que leva este conto-do-vigário a sério.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este tipo de apologia passa
  a ser tida como natural, já que toda classe dominante reivindica seu direito
  de governar baseado na "natureza humana" e portanto apoia doutrinas que definem
  a natureza humana de maneira que pareçam justificar o poder da elite, sejam
  elas a sociobiologia, o direito divino, o pecado original, etc. Obviamente,
  tais doutrinas sempre foram falsas... até hoje, quando evidenciou-se que nossa
  sociedade atual está verdadeiramente moldada à "natureza humana" o que foi provado
  cientificamente pelo nosso atual sacerdocio científico!
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A arrogancia desta afirmação
  é verdadeiramente surpreendente. A historia não se detem. Daquí a mil anos,
  a sociedade será completamente diferente do que é agora, mais diferente do que
  se possa imaginar. Nenhum governo existente hoje em dia existirá mais, e o sistema
  econômico atual tampouco existirá. A única coisa que permanecerá igual é que
  pessoas ainda dirão que sua nova sociedade é o "verdadeiro sistema" que se molda
  completamente à natureza humana, mesmo que os &lt;br&gt;
  sistemas passados não o tenham feito.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro, não passa pela mente
  dos que apoiam o capitalismo que povos de diferentes culturas tiraram conclusões
  diferentes dos mesmos fatos, conclusões que podem ser mais válidas. Nem ocorre
  aos apologistas do capitalismo que as teorias dos cientistas "objetivos" possam
  estar contaminadas pelo contexto da sociedade dominante em que vivem. Contudo,
  não surpreende aos anarquistas que os cientistas trabalhando na Russia tzarista
  desenvolveram uma teoria da evolução baseada na cooperação das espécies, muito
  diferente da de seus colegas da Inglaterra capitalista, que desenvolveram uma
  teoria baseada na luta competitiva dentro e entre as espécies. Que a segunda
  teoria refletisse as teorias políticas e econômicas dominantes na sociedade
  Britânica (notavelmente o individualismo competitivo) é pura coincidencia, certamente.
  "El Apoyo Mutuo" de Kropotkin foi escrito em resposta aos evidentes erros que
  o Darwinismo Social inglês projetava sobre a natureza e a vida humana.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca216"&gt;&lt;/a&gt;O ANARQUISMO REQUER PESSOAS "PERFEITAS" PARA FUNCIONAR?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não. A anarquia não é uma
  utopia, uma sociedade "perfeita". Será uma sociedade humana, com todos os problemas,
  esperanças, e temores dos seres humanos. Os anarquistas não creen que os seres
  humanos têm que ser "perfeitos" para que a anarquia funcione. Somente necessitam
  ser livres.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Evidentemente, cremos que
  uma sociedade livre produzirá gente que estará muito mais afinada com sua individualidade,
  suas necesidades e as dos demais, o que diminuirá os conflitos individuais.
  As disputas restantes se resolveriam por métodos razoaveis, por exemplo, o uso
  de jurados, terceiros intermediarios, ou assembleias comunais e locais de trabalho.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como ocorre com o argumento
  "o anarquismo vai contra a natureza humana" (ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca215"&gt;Seção&lt;/a&gt;
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm#seca215"&gt;A.2.15&lt;/a&gt;)
  os oponentes do anarquismo geralmente assumem gente "perfeita", como gente que
  não será corrompida pelo poder quando ocuparem posições de autoridade, gente
  que permanecerá extranhamente imune aos efeitos degradadores da hierarquia,
  ao privilégio, etc. Contudo, os anarquistas não fazem tais exigencias sobre
  a perfeição humana. Reconhecemos que investir poder nas mãos de uma pessoa ou
  de uma elite nunca foi uma boa idéia, uma vez que ninguem é perfeito e &lt;br&gt;

  necessita prestar contas aos demais.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Cabe ressaltar que a noção
  de que o anarquismo requer um "novo" homem ou mulher é usada pelos "anarco-capitalistas"
  de direita para desacreditar o verdadeiro anarquismo e justificar a permanencia
  da autoridade hierárquica, em especial as relaciones capitalistas de produção.
  Todavia, um pouco de reflexão mostrará que suas observações desmentem suas próprias
  pretensões de serem anarquistas já que supõem explícitamente uma sociedade anarquista
  sen anarquistas! Não é exagero &lt;br&gt;
  dizer que uma "anarquia" formada por gente que ainda necessita da autoridade
  e do estado de pronto se tornaria autoritaria e estadista (i.e. não-anarquista)
  mais uma vez.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E isso porque se o governo
  fosse derrubado amanhã, o mesmo sistema renasceria outra vez, pois "a força
  do governo se assenta não em si mesma, mas no povo. Um grande tirano pode ser
  um idiota em vez de um super homem. Sua força não reside en si, mas na superstição
  do povo que crê que o correto é obedecer. Enquanto existir essa superstição
  é inútil que vennha um libertador para decapitar a tirania; o povo criará outra,
  posto que se acostumou a depender de algo fora de si mesmos." [George Barret
  Objections To Anarchism].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, a anarquia
  necessita anarquistas para ser criada e sobreviver. Mas esses anarquistas não
  tem por que serem perfeitos, simplemente pessoas que se libertaram, por seus
  proprios esforços, da superstição de que as relações de mando-obediencia são
  necessarias. A suposição implícita na ideia de um "novo" ser anarquista é que
  a liberdade será dada, não tomada; daí vem a conclusão evidente que uma anarquia
  que requeira seres "perfeitos" fracassará. Mas este arrazoamento ignora a necessidade
  de auto-atividade e auto-libertação para criar uma sociedade &lt;br&gt;
  livre.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os anarquistas não deduzem
  que gente "perfeita" seja necessaria, porque o anarquista não é um libertador
  com uma missão divina de libertar a humanidade, mas que é parte dessa humanidade
  lutando e avançando em direção à liberdade.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;"Então, se por algum meio
  externo pudesse ser dada ao povo, ou seja, uma Revolução &lt;br&gt;
  Anarquista confeccionada, imediatamente a rechaçariam e reconstruiriam a antiga
  &lt;br&gt;
  sociedade. Se, por outra parte, o povo desenvolvesse suas ideias de libertade,
  e eles mesmos se desfizessem do último vestigio de tirania, o governo, então
  a revolução será levada a cabo permanentemente." [Ibid.]. &lt;br&gt;
  &amp;nbsp; &lt;br&gt;
  &amp;nbsp;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca217"&gt;&lt;/a&gt;AS PESSOAS NÃO SERIAM ESTÚPIDAS DEMAIS PARA QUE UMA SOCIEDADE LIVRE POSSA FUNCIONAR?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Sentimos ter que incluir
  esta pergunta neste tratado de anarquismo, mas sabemos que muitas ideologias
  politicas assumen explícitamente que as pessoas comuns são demasiado estúpidas
  para serem capazes de gerir suas proprias vidas e sua sociedade. Em todos os
  ramos da agenda política capitalista, da esquerda à direita, há pessoas que
  fazem esta afirmação. Tanto os leninistas, como os fabianistas ou objetivistas,
  supõem que apenas uns poucos eleitos são inteligentes e criativos e que &lt;br&gt;
  estas pessoas devem governar aos demais. Geralmente, esse elitismo se esconde
  atras de uma retórica astuta sobre a "liberdade", a "democracia" e outros lugares
  comuns com os quais os ideólogos tratam de adormecer o senso crítico das pessoas
  dizendo o que elas querem ouvir.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tampouco surpreende, naturalmente,
  que aqueles que crêem nas elites "naturais" sempre se auto-classificam como
  no topo. Não encontramos ainda nenhum "objetivista", por exemplo, que se considere
  parte da grande massa dos "segunda categoria", que seria um gari no desconhecido
  "ideal" do capitalismo "real". Qualquer um que leia um texto elitista se considerará
  a si mesmo parte dos "poucos eleitos". É "natural em uma sociedade elitista
  a elites serem vistas como naturais e considerar-se ele mesmo como um membro
  potencial de uma delas"!
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um exame da nossa historia
  demonstra que há uma ideologia elitista básica que foi a racionalização essencial
  de todos os estados e clases dominantes desde seu nascimento nos principios
  da Idade do Bronze. Esta ideologia simplemente muda de roupa, não de conteúdo
  interno básico.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante a Alta Idade Media,
  por exemplo, estevo travestida de cristianismo, adaptando-se às necessidades
  da hierarquia eclesiástica. O dogma "divinamente revelado" mais útil para a
  elite sacerdotal foi "o pecado original": aa ideia de que os seres humanos são
  básicamente criaturas depravadas e incompetentes que necesitam ser "dirigidos
  desde cima", com os sacerdotes como convenientes e necessarios intermediarios
  entre os humanos ordinarios e "deus". A ideia de que as &lt;br&gt;
  pessoas normais e simples são básicamente estúpidas e incapazes de governar
  a si mesmo é uma herança desta doutrina, uma relíquia da Idade Média..
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para contestar àqueles que
  afirman que a maioria das pessoas não são mais que gente de "segunda categoria",
  "zé povinho" e incapazes de sesenvolver nada além da "conciencia sindical",
  tudo o que podemos dizer é que é absurdo e que não aguenta nem uma revisão superficial
  da história, particularmente no que se refere ao movimento operario. Os poderes
  creativos daqueles que lutam por liberdade são muitas vezes verdadeiramente
  surpreendentes, e se este potencial intelectual e esta &lt;br&gt;
  inspiração não é evidente na sociedade "normal", isso constitui a mais clara
  denuncia possivel dos efeitos adormecedores da hierarquia e do conformismo produzidos
  pela autoridade. (Ver tambem a Seção B.1 para saber mais sobre os efeitos da
  hierarquia.)

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como indica Bob Black, "És
  o que fazes. Se fazes um trabalho chato, estúpido, monótono, o mais provavel
  é que acabes sendo chato, estúpido e monótono. O trabalho é uma explicação muito
  melhor da crescente cretinização que ocorre ao redor de nós que esses mecanismos
  estupefacientes tão assinalados como a televisão e a educação. A pessoa que
  passa sua vida regimentada, guiada da escola para o trabalho e enjaulada pela
  familia primeiro e no asilo de velhos depois, está habituada à hierarquia e
  é psicologicamente escrava. Sua aptidão para a autonomia está tão atrofiada
  que seu medo à liberdade é uma de suas poucas fobias com fundamento real. Seu
  treinamento à obediencia no trabalho se transfere às familias que eles &lt;br&gt;
  formam, reproduzindo desta maneira o sistema em diferentes formas, e se transfere
  à política, à cultura e tudo o mais. Uma vez drenada a vitalidade da pessoa
  no trabalho, provavelmente se submeterá à hierarquia e à especialização em tudo.
  Estão acostumados a isso." [The Abolition of Work].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando os elitistas tratam
  conceber a libertação, apenas lhes ocorre que esta seja concedida aos oprimidos
  por elites benévolas (os leninistas) ou estúpidas (os objetivistas). Não surpreende
  pois, que fracasse. Unicamente a auto-libertação pode produzir uma sociedade
  livre. Os efeitos deprimentes e distorcivos da autoridade só podem ser superados
  pela auto-atividade. Os escassos exemplos de tal auto-libertação provam que
  a maioria das pessoas, considerada incapaz de ser livre, está muito bem disposta
  para a luta.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os que proclaman sua "superioridade"
  muitas vezes o fazem por medo de que sua autoridade e seu poder seja destruído
  uma vez que as pessoas se libertem da mão débil da autoridade e chegue a dar-se
  conta de que, segundo Max Stirner, "os grandes só o são porque estamos de joelhos."

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como aponta Emma Goldman
  acerca da igualdade das mulheres, "as extraordinarias conquistas das mulheres
  em todos os aspectos da vida silenciaram para sempre o falatorio da inferioridade
  feminina. Os que ainda se agarram a este fetiche o fazem porque não odeiam nada
  tanto como ver sua autoridade entre as pernas. Esta é uma característica de
  toda autoridade, seja ela do patrão sobre o escravo econômico ou a do homem
  sobre a mulher. Não obstante, a mulher escapa de sua jaula e segue adiante com
  passos livres, grandes."
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os mesmos comentarios podem
  aplicar-se, por exemplo, aos formidaveis experimentos bem sucedidos de auto-gestão
  operária durante a Revolução Espanhola. Citando Rousseau: "quando vejo multidões
  de selvagens totalmente desnudos depreciar a voluptuosidade européia e suportar
  fome, fogo, espada e morte unicamente para preservar sua independencia, penso
  que não cabe aos escravos discorrer sobre a liberdade" [citado por Noam Chomsky,
  Red and Black Revolution, número 2].
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;&lt;a name="seca218"&gt;&lt;/a&gt;OS ANARQUISTAS APOIAM O TERRORISMO?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não, por duas razões.
  O terrorismo significa que o praticante não se incomoda pelo assassinato de pessoas
  inocentes. Para que exista a anarquia, esta deve ser criada por pessoas comuns.
  Ninguem pode ganhar a simpatia do povo na base de massacres. Em segundo lugar,
  anarquismo é auto-libertação. Não se pode explodir as relações sociais com bombas.
  A liberdade não ser criada atraves das ações de uma elite minoritaria destruindo
  governantes em nome da maioria. Enquanto as pessoas necessitarem de governantes,
  a hierarquia existirá (ver Seção A.2.16). Como &lt;br&gt;
  destacamos antes, a liberdade não pode ser concedida, apenas tomada. Alem
  disso, os anarquistas não são contra indivíduos mas contra as instituições e
  as relações sociais resultantes de qie certps individuos tenham poder sobre
  outros e abusem (i.e. usem) esse poder. Portanto a revolução anarquista se baseia
  na destruição de estruturas, não pessoas. Como disse Bakunin: "não queremos
  a morte dos homens mas a abolição de posições e coisas" [The Lullers].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Então por que o anarquismo
  é associado com a violencia? Isto é em parte devido a que o estado e os meios
  de comunicação insistem em chamar de anarquistas a terroristas que não são anarquistas.
  Por exemplo o grupo alemão Bader-Meinhoff foi muitas vezes chadada "anarquista"
  apesar de dela haver-se proclamado Marxista-Leninista. As calunias, por desgraça,
  fazem seu trabalho. Mas a principal razção desta associação do anarquismo com
  o terrorismo foi o período da "propaganda pela ação" no movimento anarquista.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta etapa, de 1880 até
  1890 aproximadamente, se caracterizou pelo assassinato de membros das classes
  dominantes (realeza, políticos etc) pelas mãos de um pequeno número de anarquistas
  que atuavam individualmente. O fizeram por duas razões: primeiro, para vingar
  os mais de 20.000 mortos na brutal repressão da Comuna de París pelo governo
  francês, onde muitos anarquistas morreram (a propaganda pela ação começou e
  foi muito frequente na França); e segundo, como um meio para incitar o povo
  a rebelar-se mostrando-lhe que os opressores poderiam ser derrotados.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É necessario esclarecer
  que a maioria dos anarquistas não apoiaram esta tática, que em todo caso foi
  um fracasso, já que deu ao estado o pretexto para endurecer a repressão aos
  anarquistas e aos movimentos operários assim como também deu a oportunidade
  aos meios de informação de associar o anarquismo com a violencia sem sentido,
  distanciando do movimento uma grande parte da população.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Também, a suposição por
  tráz da propaganda pela ação, i.e. que o povo estava disposto a rebelar-se,
  era falsa. De fato, a pessoa é produto do sistema em que vive; portanto aceita
  quase todos os mitos utilizados para manter o sistema em pé. Com o fracasso
  da propaganda pela ação, os anarquistas regressaram ao que a maioria do movimento
  havia praticado por todos os modos: incitar a luta de classes e o processo de
  auto-libertação. Este retorno às raizes do anarquismo pode ser visto no auge
  das federações anarcosindicalistas a partir de 1890 (ver &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca53"&gt;Seção A.5.3&lt;/a&gt;).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Apesar da maioria dos anarquistas
  não estarem de acordo com a propaganda pela ação, poucos a considerariam como
  terrorismo ou descartariam o assassinato em todas as circunstancias. Bombardear
  uma aldeia porque pode ser esconderijo de inimigos é terrorismo, entretanto
  tirar a vida de um ditador assassino é na melhor das hipóteses legítima defesa
  e vingança na pior. Como os anarquistas tem dito por muito tempo, se por terrorismo
  se quer dizer "matar gente inocente" então o estado é o maior terrorista de
  todos. Se o povo, ao cometer "atos de terror" é realmente &lt;br&gt;

  anarquista, fará o possível para evitar provocar qualquer dano a inocentes e
  nunca usará a linha estatista de que "a represália" é lamentavel mas inevevitavel.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim pois, resumimos. Os
  anarquistas tem feito uso do terrorismo. Ele também tem sido usado por muitos
  outros grupos e partidos políticos, sociais e religiosos. Por exemplo, os cristãos,
  os marxistas, os hindús, os nacionalistas, os republicanos, os maometanos, os
  siks, os fascistas, os judeus e os patriotas todos tem cometido atos de terrorismo.
  Muito pouco destes movimentos ou ideologias tem sido qualificados de "terroristas
  por natureza", o qual demonstra como o anarquismo ameaça o status quo. Não há
  nada melhor para desacreditar e marginalizar uma ideia que gente maliciosa ou
  mal informada qualificando seus praticantes e adeptos como "bombardeadores loucos"
  sem opinião nem ideal algum, com nada mais que um insana propensão à destruição.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claro que a grande maioria
  dos cristãos e demais pessoas se opõem ao terrorismo como algo moralmente repugnante
  e contrapoducente. O mesmo ocorre à grande maioria dos anarquistas em todo tempo
  e lugar. Não obstante, parece que em nosso caso é necessário proclamar nossa
  oposição ao terrorismo mais e mais vezes.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para terminar, apenas uma
  pequena minoria de terroristas foram anarquistas, e apenas uma pequena minoria
  de anarquistas foram terroristas. O movimento anarquista em sua totalidade sempre
  reconheceu que as relações sociais não podem ser assassinadas ou bombardeadas
  para que possam desaparecer.
&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 16:16:48 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/o-que-pretende-o-anarquismo</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/o-que-pretende-o-anarquismo</guid></item><item><title>Que é Anarquismo?</title><description>&lt;p&gt;Anarquismo é uma teoria politica
  que pretende criar anarquia, &lt;i&gt;"a ausência do senhor, do soberano"&lt;/i&gt;. [P-J
  Proudhon, &lt;b&gt;What is Property&lt;/b&gt;, p. 264] Em outras palavras, anarquismo é
  uma teoria politica que almeja criar uma sociedade na qual os indivíduos cooperem
  livremente entre si como iguais. Assim, o anarquismo se opõe a todas as formas
  de controle hierárquico - venha ele do estado ou de capitalistas - por ser danoso
  tanto ao individuo quanto à sua individualidade e portanto desnecessário.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas palavras da anarquista L. Susan Brown:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Embora a compreensão
  polular de anarquismo seja de um movimento violento anti-estado, o anarquismo
  é uma tradição muito mais sutil e delicada do que a simples oposição ao poder
  governamental. Os anarquistas se opõem à idéia de que o poder e a dominação
  são necessários para a sociedade, e por isso defendem formas mais cooperativas
  e anti-hierárquicas de organização econômica, politica e social."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The
  Politics of Individualism&lt;/b&gt;, p. 106]&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
Portanto, "anarquismo" e "anarquia"
são sem dúvida as idéias mais deturpadas na teoria política. Geralmente, as palavras
usadas para significar "caos" ou "desordem", e portanto, por implicação, anarquistas
desejam o caos social e o retorno "à idade da pedra".
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este processo de falsificação tem
  paralelos na historia. Por exemplo, em países em o governo é exercido necessariamente
  por uma pessoa (monarquia), as palavras "república" ou "democracia" são usadas
  precisamente como "anarquia", significando desordem e confusão. Aqueles que
  se interessam em manter o status quo obviamente se dedicam a afirmar que a oposição
  ao corrente sistema não poderia funcionar na prática, e que uma nova forma de
  sociedade resultaria no caos. Ou, como Errico Malatesta expressou:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"enquanto pensarem que
  o governo é necessário e que sem governo tudo seria desordem e confusão, é natural
  e lógico que anarquia, que significa ausência de governo, soe como ausência
  de ordem."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Anarchy&lt;/b&gt;, p. 12].&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
Anarquistas querem mudar essa idéia
do "senso comum" de "anarquia", para que as pessoas vejam que o governo e outros
relacionamentos sociais hierárquicos são tão nocivos quanto desnecessários:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Mude as opiniões, convença
  o público de que o governo não é apenas desnecessário, mas extremamente nocivo,
  e então a palavra anarquia, justamente porque significa ausência de governo,
  significará para todos: ordem natural, conjunto das necessidades humanas e o
  interesse de todos, completa liberdade com completa solidariedade."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;,
  pp. 12-13].&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
Este FAQ é parte do processo de mudar
ideias banais em volta do anarquismo e do significado da anarquia.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="seca11"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;O que significa "anarquia"?&lt;/h2&gt;
A palavra &lt;b&gt;&lt;i&gt;"anarquia"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; vem
do grego, prefixo &lt;b&gt;an&lt;/b&gt; (ou &lt;b&gt;a&lt;/b&gt;), significando &lt;i&gt;"não", "que não quer",
"a ausência de",&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;"a falta de"&lt;/i&gt;, mais &lt;b&gt;archos&lt;/b&gt;, significando

&lt;i&gt;"um governo", "diretor", "chefe", "pessoa em um cargo",&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;"autoridade".&lt;/i&gt;
Ou, como Peter Kropotkin colocou, Anarquia vem de palavras gregas significando
&lt;i&gt;"contrario à autoridade".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Kropotkin's Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;,
p. 284]
&lt;p&gt;Embora as palavras gregas &lt;b&gt;&lt;i&gt;anarchos&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  e &lt;b&gt;&lt;i&gt;anarchia&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; sejam tidas como significando &lt;i&gt;"sem governo"&lt;/i&gt;
  ou &lt;i&gt;"estando sem governo", &lt;/i&gt;anarquismo, pode ser interpretado, em seu significado
  estrito, original, simplesmente como "nenhum governo". &lt;b&gt;&lt;i&gt;"An-archy"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  significa &lt;i&gt;"sem um governante",&lt;/i&gt; ou mais abrangente, &lt;i&gt;"sem autoridade",
  &lt;/i&gt;e é nesse sentido que os anarquistas tem continuamente adotado a palavra.
  Por exemplo, encontramos Kropotkin arguindo que o anarquismo &lt;i&gt;"ataca não apenas
  o capital, mas também todas as formas de poder do capitalismo: lei, autoridade,
  e o Estado".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 150] Para anarquistas, anarquia significa
  &lt;i&gt;"não necessariamente ausencia de ordem, como geralmente se supõe, mas ausencia
  de governo".&lt;/i&gt; [Benjamin Tucker, &lt;b&gt;Instead of a Book&lt;/b&gt;, p. 13] Veja o excelente
  resumo de Hence David Weick:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Anarquismo pode ser
  compreencido como uma ideia politica e social &lt;b&gt;genérica&lt;/b&gt; que expressa negação
  de &lt;b&gt;todo&lt;/b&gt; poder, soberania, dominação, e divisão hierárquica, e o desejo
  de sua dissolução. . . Anarquismo é portanto mais que anti-estatismo . . . o
  governo (estado) . . . é, apropriadamente, o foco central da crítica anarquista".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Reinventing Anarchy&lt;/b&gt;, p. 139]&lt;/blockquote&gt;
Por esta razão, mesmo sendo anti-governo
ou anti-estado, anarquismo é primariamente um movimento contra a &lt;b&gt;&lt;i&gt;hierarquia.&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
Porque? Por que a hierarquia é a estrutura organizacional que encorpora a autoridade.
Mesmo sendo o estado a "mais alta" forma de hierarquia, e os anarquistas serem,
por definição, anti-estado; isto &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; define suficientemente o anarquismo.
Os anarquistas verdadeiros se opõem a todas as formas hierárquicas de organização,
não apenas o estado. Nas palavras de Brian Morris:

&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"O termo anarquia vem
  do Grego, e essencialmente significa 'sem governo'. Anarquistas são pessoas
  que rejeitam todas as formas de governo ou autoridade coercitiva, todas as formas
  de hierarquia e de dominação. Eles são portanto opostos àquilo que o anarquista
  mexicano Flores Magon chamou de 'trindade sombria' -- o estado, o capital e
  a igreja. Os anarquistas opõem-se tanto ao capitalismo quanto ao estado, da
  mesma forma que opõem-se a todas especie de autoridade religiosa. Mas anarquistas
  tambem buscam estabelecer ou realizar por varias maneiras, uma condição de anarquia,
  que é, uma sociedade descentralizada sem instituições coercitivas, uma sociedade
  organizada atraves de uma federação de associações voluntarias".&lt;/i&gt; [&lt;i&gt;"Anthropology
  and Anarchism,"&lt;/i&gt;&lt;b&gt;Anarchy: A Journal of Desire Armed&lt;/b&gt;, no. 45, p. 38]&lt;/blockquote&gt;
A referencia à "hierarquia" neste contexto
passa por um desenvolvimento -- os anarquistas "classicos" como Proudhon, Bakunin
e Kropotkin não usaram essa palavra, mas raramente (eles usualmente preferiam
"autoridade", que foi usada como resumo de "autoritario"). De qualquer foma, pelos
seus escritos está claro que eles foram uma filosofia contra a hierarquia, contra
qualquer desigualdade de poder e privilegios entre individuos. Bakunin se referia
a isso quando atacou a autoridade &lt;i&gt;"oficial"&lt;/i&gt; mas defendeu a &lt;i&gt;"influencia
natural" &lt;/i&gt;quando afirmou:
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Quer tornar impossível
  que alguem oprima seus companheiros? Então faça algo para que ninguem possua
  poder"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Political Philosophy of Bakunin&lt;/b&gt;, p. 271]&lt;/blockquote&gt;

Da mesma forma Jeff Draughn escreveu,
&lt;i&gt;"coisas como essas sempre fizeram parte latente dos 'projetos revolucionarios',
apenas recentemente este conceito claro de anti-hierarquia afluiu para uma análise
mais específica. Todavia, a raiz disto é plenamente visível na raiz da palavra
grega 'anarquia'"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Between Anarchism and Libertarianism: Defining a New
Movement&lt;/b&gt;]
&lt;p&gt;Enfatizamos que esta oposição à hierarquia
  é, para anarquistas, não limitada apenas ao estado ou ao governo. Ela inclui
  toda economia autoritaria e relacionamento social tanto quanto politico, particularmente
  aqueles associados com a propriedade capitalista e trabalho assalariado. Isto
  pode ser visto no argumento de Proudhon de que &lt;i&gt;"&lt;b&gt;Capital&lt;/b&gt; . . . no campo
  político é análogo a &lt;b&gt;governo&lt;/b&gt; . . . A idéia economica de capitalismo .
  . . [e] as políticas de governo ou de autoridade . . . [são] identicas . . .
  [e] ligadas de farias formas . . . Aquilo que o capital faz com o trabalho...
  o Estado [faz] com a liberdade . . ."&lt;/i&gt; [extraido de Max Nettlau, &lt;b&gt;A Short
  History of Anarchism&lt;/b&gt;, pp. 43-44] Nesse sentido encontramos Emma Goldman
  opondo-se ao capitalismo inclusive por levar as pessoas a vender seu trabalho,
  resultando em que &lt;i&gt;"a inclinação e o julgamento dos trabalhadores acabam subordinados
  à vontade do patrão".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Red Emma Speaks&lt;/b&gt;, p. 36] Quarenta anos antes
  Bakunin expressou o mesmo ponto de vista quando arguia que sob o corrente sistema
  &lt;i&gt;"o trabalhadores vendem sua personalidade e sua liberdade pela doação de
  seu tempo"&lt;/i&gt; para o capitalista em troca de salario [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 187].


&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Deste modo "anarquia" significa mais
  que apenas "não governo", significa oposição a todas as formas de organização
  autoritaria e hierarquica. Nas palavras de Kropotkin, &lt;i&gt;"à origem da concepção
  anarquista da sociedade . . .&amp;nbsp; a critica . . . às organizações hierárquicas
  e às concepções autoritarias de sociedade; e . . . à analise das tendencias
  que são vistas nos progressivos movimentos da humanidade."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Kropotkin's
  Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, p. 158] Dessa forma, qualquer tentativa de afirmar
  que anarquia é puramente anti-estado é uma falsificação da palavra e da maneira
  como a tem sido usada pelo movimento anarquista. Conforme argui Brian Morris,
  &lt;i&gt;"quando alguem examina os escritos dos anarquistas classicos . . . tanto
  quanto o carater do movimento anarquista . . . fica claramente evidente que
  eles nunca tiveram uma visão limitada [de apenas ser contra o estado]. Eles
  sempre se opuseram a todas as formas de autoridade e exploração, e foram igualmente
  críticos do capitalismo e da religião quanto o foram do estado".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 40]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, só para frisar o óbvio, a anarquia
  não significa caos nem faz os anarquistas gente que quer criar o caos e a desordem.
  Pelo contrario, queremos criar uma sociedade baseada na liberdade individual
  e na cooperação voluntaria. Em outras palavras, ordem desde abaixo, não desordem
  imposta de cima pelas autoridades.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="seca12"&gt;&lt;/a&gt;

&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;O que significa "anarquismo"?&lt;/h2&gt;
Segundo Peter Kropotkin, Anarquismo
é &lt;i&gt;"um sistema de não governo socialista"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Kropotkin's Revolutionary
Pamphlets&lt;/b&gt;, p. 46]. Em outras palavras, &lt;i&gt;"a abolição da exploração e da opressão
do homem pelo homem, que é a abolição da propriedade privada [i.e. capitalismo]
e do governo".&lt;/i&gt; [Errico Malatesta, &lt;i&gt;"Towards Anarchism,"&lt;/i&gt; in &lt;b&gt;Man!&lt;/b&gt;,
M. Graham (Ed), p. 75]

&lt;p&gt;Anarquismo, portanto, é uma teoria
  política que almeja criar uma sociedade que funciona sem hierarquias politicas,
  economicas ou sociais. Anarquistas defendem que a anarquia, a ausencia de governos,
  é uma forma viavel para um sistema social e que funciona maximizando a liberdade
  individual e da igualdade social. Eles vêem as metas de liberdade e igualdade
  como mutuamente auto relacionadas. Ou, no famoso dito de Bakunin:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;"&lt;i&gt;Estamos convencidos
  que liberdade sem Socialismo é privilegio e injustiça, e que Socialismo sem
  liberdade é escravidão e brutalidade".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Political Philosophy of Bakunin&lt;/b&gt;,
  p. 269]&lt;/blockquote&gt;
A historia da sociedade humana prova
este ponto. Liberdade sem igualdade é apenas liberdade fpara o poderoso, e igualdade
sem liberdade é impossivel e uma desculpa para a escravidão.
&lt;p&gt;Embora existam muitos diferentes
  tipos de anarquismo (do anarquismo individualista ao comunismo anarquista --
  veja seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA3.htm"&gt;A.3&lt;/a&gt; para mais
  detalhes), sempre houve dois pontos comuns entre todos eles -- a oposição ao
  governo e a oposição ao capitalismo. Nas palavras do individualista anarquista
  Benjamin Tucker, o anarquismo insiste &lt;i&gt;"na abolição do Estado e na abolição
  da usura; em que nunca mais haja o governo do homem pelo homem, e que nunca
  mais haja a exploração do homem pelo homem".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Native American Anarchism
  - A Study of Left-Wing American Individualism&lt;/b&gt; por Eunice Schuster, p. 140]
  Todos os anarquistas visam lucro, vantagens e renda como &lt;b&gt;usuarios &lt;/b&gt;(i.e.
  como exploração) mas se opõem à forma [exploração] como essas coisas são conquistadas
  da mesma maneira que se opõem ao governo e ao Estado.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em termos gerais, nas palavras de
  L. Susan Brown, a &lt;i&gt;"ligação unificadora"&lt;/i&gt; no anarquismo &lt;i&gt;"é a condenação
  universal da hierarquia e da dominação e a disposição por lutar para a liberdade
  da individualidade humana".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Politics of Individualism&lt;/b&gt;, p. 108]
  Para anarquistas, uma pessoa não pode ser livre se estiverem sujeitos ao estado
  ou à autoridade capitalista.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto o Anarquismo é uma teoria
  política que defende a criação da anarquia, uma sociedade baseada no máximo
  de &lt;i&gt;"não governantes".&lt;/i&gt; Para conseguir isto, &lt;i&gt;"em comum com todos os
  socialistas, os anarquistas asseguram que a propriedade privada da terra, do
  capital, e do maquinário já teve seu tempo; e está condenada a desaparecer:
  e que todos os requisitos para a produção precisam, e serão, transformados em
  propriedade comum da sociedade, e serão administrados em comum pelos produtores
  da riqueza". E... eles sustentarão que o ideal na organização política da sociedade
  é alcançar uma condição onde o funcionamento do governo será reduzido ao mínimo.
  . . [e] que o desejo final da sociedade é a redução das funções do governo ao
  nível zero -- que é, para uma sociedade sem governo, tambem an-archy"&lt;/i&gt; [Peter
  Kropotkin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 46]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto, o anarquismo é tanto positivo
  quanto negativo, por ser ao mesmo tempo uma análise e uma crítica social a uma
  sociedade que nega aquilo que o homem necessita. Estas necessidades, apenas
  para citar as básicas, são liberdade, igualdade e solidariedade, que será discutida
  na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA2.htm"&gt;seção A.2&lt;/a&gt;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O anarquismo une analise crítica
  com esperança, conforme a afirmação de Bakunin, &lt;i&gt;"a ansia por criar é a ansia
  por destruir".&lt;/i&gt; Impossivel construir uma sociedade melhor sem compreender
  o que há de errado com a atual.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="seca13"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;Porque o anarquismo também é chamado de socialismo libertário?&lt;/h2&gt;
Muitos anarquistas, vendo a natureza
negativa da definição de &lt;i&gt;"anarquismo", &lt;/i&gt;tem usado outros termos para enfatizar
os aspectos inerentemente positivos e construtivos de suas ideias. Os termos mais
comuns usados são &lt;i&gt;"socialismo com liberdade", "comunismo com liberdade" "socialismo
libertario", &lt;/i&gt;e &lt;i&gt;"comunismo libertario".&lt;/i&gt; Para anarquistas, socialismo
libertario, comunismo libertario, e anarquismo são virtualmente identicos.

&lt;p&gt;Considerando as definições do &lt;b&gt;American
  Heritage Dictionary&lt;/b&gt;, encontramos:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;b&gt;LIBERTARIAN [LIBERTÁRIO]:&lt;/b&gt;
  &lt;i&gt;aquele que acredita na liberdade da ação e do pensamento; aquele que acredita
  no livre arbítrio.&lt;/i&gt;
  &lt;p&gt;&lt;b&gt;SOCIALISM [SOCIALISMO]:&lt;/b&gt;
    &lt;i&gt;um sistema social em que os produtores possuem tanto o poder político quanto
    os meios de produção e os bens de partilha.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
Fundindo estas duas deninições em uma::

&lt;blockquote&gt;&lt;b&gt;LIBERTARIAN SOCIALISM
  [SOCIALISMO LIBERTÁRIO]:&lt;/b&gt;&lt;i&gt;um sistema social que acredita na liberdade da
  ação e pensamento e no livre arbítrio, em que os produtores possuem tanto o
  poder político como os meios de produção e os bens de partilha.&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;

(É importante destacar que nos dicionários
em geral há uma lacuna de sofisticação política. Apenas usamos estas definições
para mostrar que "libertario" não implica em capitalismo de "livre mercado" nem
"socialismo" de propriedade do estado. Outros dicionarios, obviamente, darão outras
definições -- particularmente para socialismo. Aqueles que quiserem debater as
definições dos dicionarios, que sintam-se livres para fazê-lo (um hobby eterno
e politicamente inutil), quanto a nós estamos fora disto).
&lt;p&gt;Todavia, desde a criação do Partido
  Libertario [os libertarianos] nos EEUU, muitas pessoas agora consideram a ideia
  de &lt;i&gt;"socialismo libertario" &lt;/i&gt;ser, em termos, uma contradição. De fato,
  muitos "Libertarianos" pensam que os anarquistas estão apenas tentando associar
  as ideias "anti-libertarias" do "socialismo" (como os Libertarianos as concebem)
  com a ideologia Libertaria de forma a fazer aquelas ideias "socialistas" mais
  "aceitaveis" -- em outras palavras, tentando roubar o rótulo "libertario" de
  seus legitimos donos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nada poderia estar tão longe da verdade.
  Os Anarquistas tem usado o termo "libertario" para descrever a si mesmos e suas
  ideias desde 1850. O anarquista revolucionario Joseph Dejacque publicou &lt;b&gt;Le
  Libertaire, Journal du Mouvement social&lt;/b&gt; em New York entre 1858 e 1861 [Max
  Nettlau, &lt;b&gt;A Short History of Anarchism&lt;/b&gt;, p. 75]. Conforme o historiador
  anarquista Max Nettlau, o uso do termo &lt;i&gt;"comunismo libertario"&lt;/i&gt; data de
  novembro de 1880, quando um congresso anarquista frances o adotou [&lt;b&gt;Ibid.&lt;/b&gt;,
  p. 145]. O uso do termo "Libertario" por anarquistas tornou-se mais popular
  depois de 1890 quando foi usado na França na tentativa de desviar-se de leis
  anti-anarquistas e de evitar as associações negativas da palavra "anarquia"
  na mente do povo (Sebastien Faure e Louise Michel publicaram o jornal &lt;b&gt;Le
  Libertaire&lt;/b&gt; -- &lt;b&gt;O Libertario&lt;/b&gt; -- na França em 1895, por exemplo). Desde
  então, particularmente fora da America, este termo &lt;b&gt;sempre&lt;/b&gt; foi associado
  com ideias e movimentos anarquistas. Tomanto um recente exemplo, nos EU os anarquistas
  organizaram &lt;b&gt;&lt;i&gt;"A Liga Libertaria"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; em julho de 1954, que tinha fortes
  principios anarco-sindicalistas e que durou até 1965. O Partido "Libertario"
  dos EU, por seu turno começou a existir apenas nos principios dos anos 1970,
  ou seja, 100 anos depois que os primeiros anarquistas usaram o termo para descrever
  suas ideias politicas (e 90 anos depois que a expressão "comunismo libertario"
  foi adotada). Foi aquele partido, não os anarquistas, que "roubaram" a palavra.
  Depois, na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secBcon.htm"&gt;Seção B&lt;/a&gt;, discutiremos
  porque a ideia de capitalismo "libertario" (como desejava o Partido Libertario)
  é uma contradição em termos.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como tambem explicaremos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secIcon.htm"&gt;Seção I&lt;/a&gt;, apenas
  um sistema socialista-libertario da propriedade pode maximizar a liberdade individual.
  Desnecessario dizer que a propriedade estatal -- que comumente se chama "socialismo"
  -- para anarquistas, nada tem a ver com socialismo. Na verdade, conforme descrito
  na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secHcon.htm"&gt;Seção H&lt;/a&gt;, "socialismo"
  de estado é apenas uma forma de capitalismo, que não contempla qualquer conteúdo
  socialista.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="seca14"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;Os anarquistas são socialistas?&lt;/h2&gt;
Sim. Todos os ramos do anarquismo se
opõem ao capitalismo. Isto porque o capitalismo baseia-se na opressão e na exploração
(veja seções &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secBcon.htm"&gt;B&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secCcon.htm"&gt;C&lt;/a&gt;). Anarquistas
rejeitam a &lt;i&gt;"noção de que os homens não podem trabalhar juntos sem que haja
um senhor dirigente para tomar para si uma porcentagem do que é produzido"&lt;/i&gt;

e pensam que em uma sociedade anarquista &lt;i&gt;"os trabalhadores farão suas proprias
regulamentações, decidirão quando, onde e como as coisas serão feitas".&lt;/i&gt; Apenas
dessa forma os trabalhadores livrarão a si mesmos &lt;i&gt;"da terrivel escravidão do
capitalismo".&lt;/i&gt; [Voltairine de Cleyre, &lt;i&gt;"Anarchism,"&lt;/i&gt; pp. 30-34, &lt;b&gt;Man!&lt;/b&gt;,
M. Graham (Ed), p. 32, p. 34]
&lt;p&gt;(É necessário enfatizar aqui que
  os anarquistas se opõem a &lt;b&gt;toda e qualquer &lt;/b&gt;formula economica que esteja
  baseada na dominação e na exploração, incluindo feudalismo, "socialismo" estilo
  sovietico ou coisa parecida. Nos concentramos no capitalismo porque ele domina
  o mundo de hoje).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Individualistas como Benjamin Tucker
  da mesma forma que anarquistas sociais como Proudhon e Bakunin proclamaram a
  si mesmos &lt;b&gt;&lt;i&gt;"socialistas."&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; Eles fizeram isso porque, como Kropotkin
  inseriu em seu clássico ensaio &lt;i&gt;"Modern Science and Anarchism,"&lt;/i&gt; &lt;i&gt;"da
  mesma forma que o Socialismo foi incompreendido em seu vasto, generico, e verdadeiro
  sentido -- em seus esforços para &lt;b&gt;abolir&lt;/b&gt; a exploração do Trabalho pelo
  Capital -- os Anarquistas marcharam lado a lado com os Socialistas daquele tempo".
  &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Evolution and Environment&lt;/b&gt;, p. 81] Ou, nas palavras de Tucker, &lt;i&gt;"a
  base do Socialismo [é] que o trabalho deveria ser posse de seu executor", &lt;/i&gt;uma
  exigencia em que &lt;i&gt;"as duas escolas do pensamento Socialista. . . Socialismo
  de Estado e Anarquismo"&lt;/i&gt; concordam. [&lt;b&gt;The Anarchist Reader&lt;/b&gt;, p. 144]
  Consequentemente a palavra &lt;i&gt;"socialista"&lt;/i&gt; foi originalmente definida para
  incluir &lt;i&gt;"todos aqueles que acreditam nos direitos individuais de possuir
  aquilo que ele ou ela produziu".&lt;/i&gt; [Lance Klafta, &lt;i&gt;"Ayn Rand and the Perversion
  of Libertarianism,"&lt;/i&gt; in &lt;b&gt;Anarchy: A Journal of Desire Armed&lt;/b&gt;, no. 34]
  Esta oposição à exploração (ou usura) é compartilhada por todos os verdadeiros
  anarquistas e a colocam sob a bandeira socialista.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para a maioria dos socialistas, &lt;i&gt;"a
  única garantia de que não nos roubem os frutos de nosso trabalho é ter a posse
  dos instrumentos de trabalho".&lt;/i&gt; [Peter Kropotkin, &lt;b&gt;The Conquest of Bread&lt;/b&gt;,
  p. 145] Por esta razão Proudhon, por exemplo, apoiava as cooperativas de trabalhadores,
  onde &lt;i&gt;"cada participante na associação . . . tinha individualmente uma quota
  na propriedade da companhia"&lt;/i&gt; pela sua &lt;i&gt;"participação em perdas e ganhos
  . . . a força coletiva [e.e. mais valia] deixava de ser uma fonte de lucros
  para um pequeno número de diretores: tornando-se propriedade de todos os trabalhadores".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;The General Idea of the Revolution&lt;/b&gt;, p. 222 and p. 223] Dessa forma,
  em adição ao desejo de terminar com a exploração do trabalho pelo capital, os
  verdadeiros socialistas tambem desejam uma sociedade na qual os proprios produtores
  detenham e controlem os meios de produção. Os meios pelos quais os produtores
  farão isso é um foco de debates nos círculos anarquistas e socialistas, mas
  o desejo de chegar lá permanece comum. Os Anarquistas defendem o controle direto
  pelos trabalhadores. A posse seria controlada pelas associações de trabalhadores
  ou por comunas (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA3.htm"&gt;seção A.3&lt;/a&gt; nos
  diferentes tipos de anarquismo).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alem disso, os anarquistas tambem
  rejeitam o capitalismo por ser tão autoritario quanto explorador.. Sob o capitalismo,
  os trabalhadores não governam a si mesmos durante o processo de produção nem
  tem controle sobre o produto de seu trabalho. Desta forma, em situações onde
  raramente prevalece uma base de igualdade para todos, a exploração não deixa
  de se fazer presente, e é a isso que se opõem os anarquistas. Esta perspectiva
  pode ser melhor explicada na obra de Proudhon (que inspiraram tanto Tucker como
  Bakunin) onde ele argui que o anarquismo significaria &lt;i&gt;"a definitiva paralização
  da exploração por proprietários e capitalistas [e] a abolição do sistema de
  salarios" &lt;/i&gt;o fim de um sistema onde &lt;i&gt;"cada trabalhador. . . é simplesmente
  o empregado do promotor-capitalista-proprietario; ou participante. . . No primeiro
  caso o trabalhador é subordinado, explorado: sua condição permanente é de obediencia.
  . . No segundo caso ele avilta sua dignidade enquanto homem e enquanto cidadão.
  . . fazendo parte de uma organização produtiva, na qual ele não passa de um
  escravo . . . nós precisamos sem exitar, pois não temos escolha. . . formar
  uma ASSOCIAÇÃO de trabalhadores. . . porque sem ela, permaneceriamos como subordinados
  ou superiores, e ali [na associação] se daria fim. . . aos senhores e aos trabalhadores
  assalariados, figuras repugnantes em uma sociedade democratica e livre".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 233 e pp. 215-216]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Consequentemente &lt;b&gt;todos&lt;/b&gt; os
  anarquistas são anti-capitalistas (&lt;i&gt;"Se a riqueza produzida fosse de propriedade
  dos trabalhadores, o capitalismo não existiria"&lt;/i&gt; [Alexander Berkman, &lt;b&gt;What
  is Communist Anarchism?&lt;/b&gt;, p. 37]). Benjamin Tucker, por exemplo -- o anarquista
  mais influenciado pelo liberalismo (conforme discutiremos depois) -- chamou
  suas ideias de &lt;i&gt;"Socialismo Anarquista"&lt;/i&gt; e denunciou o capitalismo como
  um sistema baseado na &lt;i&gt;"usura, na captação de juros, no aluguel e no lucro".&lt;/i&gt;
  Tucker assegurou que em uma sociedade anarquista, não capitalista, de livre
  mercado [socialista], os capitalistas se tornariam redundantes e a exploração
  do trabalho pelo capital cessaria, uma vez que &lt;i&gt;"trabalho. . . significaria.
  . . seguramente seu salario natural, seu produto integral".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Individualist
  Anarchists&lt;/b&gt;, p. 82 e p. 85] Assim, a economia seria baseada no apoio mutuo
  e na livre troca de produtos entre cooperados, artesãos e camponeses. Para Tucker,
  e para outros anarquistas Individualistas, o capitalismo não é um verdadeiro
  mercado livre, sendo regido por numerosas leis e monopolios que garantem que
  os capitalistas tenham vantagens sobre os trabalhadores, tirando vantagem pela
  exploração e garantindo o lucro, juros e renda (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secGcon.htm"&gt;seção G&lt;/a&gt; para
  uma completa discussão sobre o assunto). Até mesmo Max Stirner, o arqui-egoista,
  considerava a sociedade capitalista tão desprezivel quanto seus "fantasmas",
  a propriedade privada, a competição, a divisão do trabalho, e coisas semelhantes.


&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, os anarquistas consideram
  a si mesmos como socialistas, mas socialistas de um tipo específico -- &lt;b&gt;&lt;i&gt;socialistas
  libertarios&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;. Conforme o anarquista individualista Joseph A. Labadie
  explicitou (repetindo tanto Tucker quanto Bakunin):
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Dizem que Anarquismo
  não é socialismo. Isto é um erro. Anarquismo é Socialismo voluntario. Existem
  duas expécies de Socialismo, arquista e anarquista, autoritario e libertario,
  estatal e livre. Na verdade, cada proposição para um melhoramento social é feita
  para aumentar ou diminuir o poder de vontades e forças externas sobre o individuo.
  Quando elas aumentam são arquistas; quando elas diminuem são anarquistas".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Anarchism: What It Is and What It Is Not&lt;/b&gt;]&lt;/blockquote&gt;
Labadie declarou em muitas ocasiões
que &lt;i&gt;"todos os anarquistas são socialistas, mas nem todos os socialistas são
anarquistas".&lt;/i&gt; Nessa linha, Daniel Guerin comentou que &lt;i&gt;"O Anarquismo é na
realidade um sinônimo de socialismo. O anarquista é primariamente um socialista
cuja meta é abolir a exploração do homem pelo homem"&lt;/i&gt; e isto ecoa atraves da
historia do movimento anarquista, seja no plano social ou individual [&lt;b&gt;Anarchism&lt;/b&gt;,
p. 12]. Na verdade, o martir Adolph Fischer do Haymarket usou exatamente as mesmas
palavras que Labadie para expressar o mesmo fato -- &lt;i&gt;"cada anarquista é um socialista,
mas cada socialista não é necessariamente um anarquista"&lt;/i&gt; -- reforçando a compreensão
de que o movimento está &lt;i&gt;"dividido em duas facções; os comunistas anarquistas
e os Proudhon ou anarquistas classe-média".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Autobiographies of the
Haymarket Martyrs&lt;/b&gt;, p. 81]

&lt;p&gt;Dessa forma, anarquistas sociais
  e individualistas discordam em muitos assuntos -- por exemplo, suponhamos que
  um não capitalista, dissesse que o mercado livre seria a melhro maneira de maximizar
  a liberdade -- eles combatem o capitalismo e se opõem à exploração e à opressão
  e concordam que uma sociedade anarquista precisa, por definição, ser baseada
  na associação, não no salario, no emprego. Apenas trabalhadores associados &lt;i&gt;"diminuirão
  o poder de vontades e forças externas sobre os individuos" &lt;/i&gt;durante as horas
  de trabalho e que a autogestão do trabalho por aqueles que o executam é a essencia
  do real socialismo. Esta perspectiva pode ser vista nos argumentos de&amp;nbsp;
  Joseph Labadie quando ele argumenta que o sindicato foi &lt;i&gt;"um exemplo de conquista
  da liberdade pela associação"&lt;/i&gt; e que &lt;i&gt;"sem o sindicato, o trabalhador é
  bem mais escravo de seu empregador do que com ele".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Different Phases
  of the Labour Question&lt;/b&gt;]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De qualquer modo, o significado das
  palavras mudam com o tempo. Hoje "socialismo" na maioria das vezes refere-se
  a socialismo de &lt;b&gt;estado&lt;/b&gt;, um sistema que ao qual todos os anarquistas se
  opõem como uma negação à liberdade e aos ideais genuinos do socialismo. Todos
  os anarquistas concordam com a afirmação de Noam Chomsky neste assunto:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Se por esquerda compreende-se
  'Bolshevismo', então quero dissociar-me da esquerda. Lenin foi um dos maiores
  inimigos do socialismo".&lt;/i&gt; [&lt;i&gt;"Anarchism, Marxism and Hope for the Future"&lt;/i&gt;,
  &lt;b&gt;Red and Black Revolution&lt;/b&gt;, no. 2]&lt;/blockquote&gt;
O Anarquismo desenvolveu-se em constante
oposiçao às ideias do Marxismo, social democracia e Leninismo. Muito tempo antes
de Lenin subir ao poder, Mikhail Bakunin avisou aos seguidores de Marx contra
a &lt;i&gt;"burocracia vermelha"&lt;/i&gt; que instituiria &lt;i&gt;"o pior de todos os governos
despóticos"&lt;/i&gt; se as ideias socialistas estatais de Marx fossem mesmo colocadas
em prática. De fato, a obra de Stirner, Proudhon e especialmete Bakunin todas
elas preveram o horror do Socialismo de estado com grande precisão. Acrescente-se
a isso que os anarquistas foram os primeiros e mais ardorosos criticos e opositores
ao regime Bolshevik na Russia.
&lt;p&gt;Não obstante, enquanto socialistas,
  os anarquistas compartilham de &lt;b&gt;algumas &lt;/b&gt;ideias com &lt;b&gt;alguns &lt;/b&gt;Marxistas
  (certamente com nenhum Leninista). Tanto Bakunin como Tucker aceitaram a análise
  e a crítica de Marx ao capitalismo tanto quanto sua teoria do trabalho e do
  valor (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secCcon.htm"&gt;seção C&lt;/a&gt;). O
  proprio Marx foi profundamente influenciado pelo livro de Max Stirner &lt;b&gt;The
  Ego and Its Own&lt;/b&gt;, que continha uma brilhante crítica àquilo que Marx chamou
  de comunismo "vulgar" que equivalia ao socialismo de estado. There have also
  been elementos do movimento Marxista se apropriando de visões muito semelhantes
  ao anarquismo social (particularmente o ramo anarco-sindicalista do anarquismo
  social) -- por exemplo, Anton Pannekoek, Rosa Luxembourg, Paul Mattick e outros,
  qye estão muito longe de Lenin. Karl Korsch e outros escreveram com simpatia
  acerca da revolução anarquista na Espanha. Há muita coesão entre Marx e Lenin,
  mas há tambem coesão entre Marx e muitos Marxistas libertarios, que teceram
  ásperas críticas contra Lenin e contra o Bolshevismo. As ideias de tais Marxistas
  libertarios se aproximam do ideal anarquista pela livre associação de iguais.


&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Consequentemente o anarquismo é basicamente
  uma forma de socialismo, que se coloca em oposição direta àquilo que usualmente
  se define como "socialism" (i.e. propriedade e controle estatal). Em vez de
  "planejamento central" que muitas pessoas associam com a palavra "socialismo",
  os anarquistas defendem a livre associação e cooperação entre individuos, agrupamentos
  de trabalhadores e comunidades, opondo-se ao socialismo de "estado" como uma
  forma de capitalismo de estado em que &lt;i&gt;"cada homem [e mulher] será um assalariado,
  e o Estado o único pagador de salario". &lt;/i&gt;[Benjamin Tucker, &lt;b&gt;The Individualist
  Anarchists&lt;/b&gt;, p. 81] Assim, a rejeição anarquista ao Marxismo (que a maioria
  das pessoas imagina como "socialismo") tanto quanto à &lt;i&gt;"ideia do Capitalismo
  de Estado . . . que a fração Social-Democrata do grande Partido Socialista está
  agora tentando converter em Socialismo".&lt;/i&gt; [Peter Kropotkin, &lt;b&gt;The Great
  French Revolution&lt;/b&gt;, p. 31] A objeção anarquista em se identificar com o Marxismo,
  "planejamento centralizado" e Socialismo/Capitalismo de Estado com socialismo
  será discutido na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secHcon.htm"&gt;seção H&lt;/a&gt;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por causa destas diferenças como
  os socialistas de estado, e para reduzir a confusão, muitos anarquistas chamam
  a si mesmos apenas de "anarquistas", embora todos concordem que anarquistas
  são socialistas. Seja lá como for, com o advento dos chamados "libertarios"
  de direita nos EU, alguns pro-capitalistas passaram a chamar-se a si mesmos
  de "anarquistas". Do ponto de vista histórico e lógico, anarquismo implica em
  anti-capitalismo, i.e. socialismo, que é algo, frizamos, que todos os anarquistas
  concordam (para acompanhar uma discussão completa do porque "anarco"-capitalistas
  não são anarquistas veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secFcon.htm"&gt;seção F&lt;/a&gt;).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="seca15"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;De onde vem o anarquismo?&lt;/h2&gt;
De onde vem o anarquismo? A melhor coisa
que podemos fazer para responder é apresentar &lt;b&gt;A Plataforma Organizacional dos
Comunistas Libertarios&lt;/b&gt; produzida pelos participantes do movimento Makhnovista
na Revolução Russa (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA5.htm#seca54"&gt;Seção A.5.4&lt;/a&gt;).
Ela afirma que:
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"A luta de classes surgiu
  pela escravidão dos trabalhadores e de sua aspiração pela liberdade, na opressão
  surgiu a ideia de anarquismo: a ideia da total negação de um sistema social
  baseado nos principios de classes e no Estado, a ser substituido por uma sociedade
  livre não estatista, uma sociedade de trabalhadores organizados sob a auto-gestão.&lt;/i&gt;

  &lt;p&gt;&lt;i&gt;"Assim, anarquismo não se deriva
    de reflexões abstratas de um intelectual ou de um filósofo, o anarquismo nasce
    a partir da luta direta dos trabalhadores contra o capitalismo, nasce a partir
    do necessario e das necessidades dos trabalhadores, nasce a partir de suas
    aspirações por liberdade e igualdade, aspirações que tornam-se particularmente
    incisivas nos melhores períodos heróicos da vida e da luta das massas trabalhadoras.&lt;/i&gt;


  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;"Os pensadores da resistencia
    anarquista, Bakunin, Kropotkin e outros, não inventaram a ideia de anarquismo,
    mas, o descobriram dentro das massas, simplesmente ajudaram pela força de
    seu pensamento e conhecimento a defini-lo e a espalha-lo". &lt;/i&gt;[pp. 15-16]&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
Como o movimento anarquista em geral,
os Makhnovistas foram um movimento de massa formado por gente da classe trabalhadora
resistindo às forças da autoridade, tanto Vermelhas (Comunistas) como Brancas
(Tsaristas/Capitalistas) na Ukraine entre1917 e 1921. Peter Marshall relata que
o &lt;i&gt;"anarquismo . . . tradicionalmente tem seu carro chefe entre os trabalhadores
e os camponeses."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Demanding the Impossible&lt;/b&gt;, p. 652]
&lt;p&gt;O Anarquismo foi criado na, e pela,
  luta do oprimido pela liberdade. Para Kropotkin, por exemplo, &lt;i&gt;"Anarquismo
  . . . originado nas lutas do dia a dia"&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;"o movimento Anarquista se
  renova cada vez que recebe as impressões de uma grande lição prática: ele deriva
  sua origem dos ensinamentos da vida em si mesma"&lt;/i&gt; (veja tambem &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secJ5.htm"&gt;seção J.5&lt;/a&gt;). [&lt;b&gt;Evolution
  and Environment&lt;/b&gt;, p. 58 e p. 57] Para Proudhon, &lt;i&gt;"a prova"&lt;/i&gt; de suas
  ideias mutualistas repousam na &lt;i&gt;"prática corrente, na prática revolucionaria"&lt;/i&gt;
  das &lt;i&gt;"associações de trabalhadores . . . que expontaneamente. . . se formaram
  em Paris e Lyon . . . organizações de credito e organizações de trabalho. .
  .".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;No Gods, No Masters&lt;/b&gt;, vol. 1, pp. 59-60] Na realidade, conforme
  um historiador demonstra, existiam, &lt;i&gt;"patentes semelhanças entre a ideia associativa
  de Prodhon . . . e o programa dos Mutualistas de Lyon" &lt;/i&gt;e que aquilo foi
  &lt;i&gt;"uma destacada convergencia [entre as ideias], esse fato possibilitou a Proudhon
  uma articulação mais coerente de seu positivo programa, por causa do exemplo
  dos trabalhadores de Lyon. O ideal socialista que ele perseguia já estava sendo
  realizado, em certo gráu, por aqueles trabalhadores".&lt;/i&gt; [K. Steven Vincent,
  &lt;b&gt;Piere-Joseph Proudhon and the Rise of French Republican Socialism&lt;/b&gt;, p.
  164]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O anarquismo surge da luta pela liberdade
  e dos nossos desejos por alcançar uma vida completamente humana, uma vida em
  que tenhamos tempo para viver, para amar e para brincar. O anarquismo não foi
  inventado por algumas pessoas divorciadas da vida, em torres de marfim olhando
  de cima para a sociedade e fazendo julgamentos baseados em suas noções daquilo
  que é certo e errado. Pelo contrario, o anarquismo foi o produto da luta da
  classe trabalhadora e de sua resitencia à autoridade, à opressão e à exploração.
  Conforme Albert Meltzer observou, &lt;i&gt;"eles nunca foram propriamente teóricos
  do Anarquismo, um escritor surge e escreve sobre aquilo que já foi produzido
  na prática pelos trabalhadores e pelos camponeses; historiadores burgueses se
  referem a eles como sendo líderes, e sucessivos escritores burgueses (citando
  historiadores burgueses) relegam a classe trabalhadora a líderes burgueses".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Anarquismo: Argumentos pró e contra&lt;/b&gt;, pp. 10-12] Aos olhos de Kropotkin,
  todos os escritores anarquistas &lt;i&gt;"trabalharam fora da expressão geral dos
  principios [anarquistas], e das bases teoricas e cientificas de seus ensinamentos"&lt;/i&gt;
  retirando das experiencias das pessoas da classe trabalhadora em luta toda sua
  análise acerca das tendencias evolutivas da sociedade em gera. [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
  p. 57]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contudo, as tendencias anarquistas
  e as organizações na sociedade existem bem antes de Proudhon colocar a pena
  no papel em 1840 e declarar-se a si mesmo um anarquista. Portanto, anarquismo,
  enquanto teoria política específica, nasceu com o advento do capitalismo (O
  Anarquismo &lt;i&gt;"emergiu no fim do século dezoito. . . [e] e assumiu o dualístico
  desafio de destruir tanto o Capital como o Estado".&lt;/i&gt; [Peter Marshall, &lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 4]) Escritores anarquistas tem analizado a historia para tendencias
  libertarias. Kropotkin argumentou, por exemplo, que &lt;i&gt;"eles são o tempo todo
  Anarquistas e Estatistas".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 16] Em &lt;b&gt;Mutual Aid&lt;/b&gt;
  (e em outros trabalhos) Kropotkin analisou os aspectos libertarios das sociedades
  anteriores e notou algumas implementaram com sucesso (em certo gráu) organizações
  anarquistas ou aspectos do anarquismo. Foi particularmente o caso dos povos
  indígenas, por exemplo, a maioria das tribos nativas americanas organizaram
  a si mesmas das mais anarquisticas maneiras.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Kropotkin reconheceu nestas tendencias
  um exemplo real das ideias anarquistas anteriores à criação do movimento anarquista
  "official" e argumentou que:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Desde tempos remotos,
  a antiga idade da pedra, homens [e mulheres] tem percebido os males resultantes
  da delegação de alguma autoridade pessoal. . . Consequentemente eles desenvolveram
  em um clã primitivo, a comunidade tribal, uma associação medieval . . . e finalmente
  em uma cidade medieval livre, tais instituições com a autorização deles resistiu
  à usurpação de suas vidas e fortunas tanto por parte de estranjeiros que queriam
  conquistá-los, como de homens do seu próprio clã empenhados em estabelecer sua
  autoridade pessoal".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Kropotkin's Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, pp. 158-9]&lt;/blockquote&gt;
Kropotkin situou a luta das pessoas
da classe trabalhadora (conforme admitem os anarquistas modernos) paralelamente
a estas velhas formas de organização popular. Ele argumentou que &lt;i&gt;"as combinações
de trabalho . . . foram resultantes da mesma resistencia popular ao crescente
poder de alguns&amp;nbsp; -- a saber, os capitalistas"&lt;/i&gt; tanto que o clã e as comunidades
nas vilas eram &lt;i&gt;"estritamente livres, com atividades federadas independente
das 'Seções' de Paris e de todas as grandes cidades, assim funcionavam as diminutas
'Comunas' durante a Revolução Francesa" &lt;/i&gt;em 1793. [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 159]


&lt;p&gt;Desse modo, o anarquismo enquanto
  teoria política é uma expressão da luta da classe trabalhadora e de sua auto-atividade
  contra o capitalismo e contra o estado moderno, as ideias de anarquismo tem
  expressado continuamente a si mesmo em ação atraves da existencia humana. A
  maior parte dos povos da America do Norte e alhures, por exemplo, praticou anarquismo
  por centenas de anos antes do anarquismo existir enquanto teoria política específica.
  De forma semelhante, tendencias anarquistas e organizações tem existido em todas
  as grandes revoluções -- the New England Town Meetings durante a Revolução Americana,
  a Parisian 'Sections' durante a Revolução Francesa, os conselhos de trabalhadores
  e comites de fábrica durante a Revolução Russa só para dar alguns exemplos (veja
  o livro de Murray Bookchin &lt;b&gt;The Third Revolution&lt;/b&gt; para mais detalhes).
  É de se esperar que o anarquismo seja, conforme argumentamos, um produto da
  resistencia à autoridade, pois qualquer sociedade com autoridades provocarão
  resistencia a elas e darão origem a tendencias anarquistas (e, naturalmente,
  qualquer sociedade sem autoridade não pode ajudar se não for anarquista).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, anarquismo é
  uma expressão de luta contra a opressão e a exploração, uma generalização das
  experiencias do povo trabalhador e uma análise daquilo que está errado com o
  corrente sistema e uma expressão de nossas esperanças e sonhos de um futuro
  melhor. Esta luta existiu antes e foi chamada anarquismo, mas o movimento anarquista
  histórico (i.e. grupos de pessoas que deram a suas idéias o nome de anarquismo
  e anelando por uma sociedade anarquista) é essencialmente um produto da luta
  da classe trabalhadora contra o capitalismo e o estado, contra a opressão e
  a exploração, e &lt;b&gt;por&lt;/b&gt; uma sociedade livre e de individuos iguais. </description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 15:53:19 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/que-e-anarquismo</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/introducao/que-e-anarquismo</guid></item><item><title>É o controle estatal do dinheiro que provoca o ciclo econômico?</title><description>Conforme foi explicado na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm"&gt;última seção&lt;/a&gt;,
enquanto houver pressões objetivas voltadas para a obtenção do lucro o capitalismo
sempre estará sujeito aos ciclos de crescimento e retração, mesmo se não levarmos
em consideração a subjetiva revolta das classes trabalhadoras contra a autoridade.
Essa mão dupla gerada pela obtenção de lucros, a subjetiva e a objetiva, é a causa
do ciclo econômico e de problemas como a "estagflação". Contudo, para os defensores
do livre mercado, esta conclusão é inaceitável e geralmente tentam explicar o
ciclo econômico em termos de influências &lt;b&gt;externas&lt;/b&gt; em vez de reconhecer
que é gerado pela forma como o capitalismo funciona. A maioria dos capitalistas
pró- "livre mercado" culpam a intervenção governamental no mercado, particularmente
o controle estatal sobre o dinheiro, como a fonte do ciclo econômico. Esta análise
é falsa, como vamos demonstrar a seguir.
&lt;p&gt;É impressionante a forma como tantos
  defensores do capitalismo ignoram as pressões "subjetivas" no capitalismo que
  discutimos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc71"&gt;seção C.7.1&lt;/a&gt;.
  Além disso, os problemas associados com o aumento dos investimentos de capital
  (como esclarecido na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc73"&gt;seção C.7.3&lt;/a&gt;)
  são também usualmente ignorados, porque eles em geral consideram o capital como
  sendo "produtivo" e não conseguem perceber como o seu uso pode resultar em crises.
  Resultando em problemas associados com o mecanismo de preços, conforme discutido
  na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc72"&gt;seção C.7.2&lt;/a&gt;.
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A idéia por traz das crises da teoria
  do "c&lt;i&gt;ontrole-estatal-do-dinheiro"&lt;/i&gt; é que a taxa de juros proporciona às
  companhias e indivíduos as informações sobre como a mudança nos preços afetará
  as variações futuras na produção. Especificamente, afirmam que as mudanças nas
  taxas de juros (i.e. as mudanças na procura e na oferta do crédito) indiretamente
  informam as companhias da reação de seus competidores. Por exemplo, se o preço
  do estanho sobe, isso provocará uma expansão dos investimentos da indústria
  de latas, resultando numa subida nas taxas de juros (por causa do aumento na
  procura por crédito). Este aumento nas taxas de juros proporciona lucros antecipados
  e abre caminho para a expansão. O controle estatal do dinheiro estanca esse
  processo (pela distorção da taxa de juros) tornando o sistema de crédito incapaz
  de cumprir sua função econômica. Tudo isso gera uma superprodução na medida
  em que as taxas de juros não refletem as &lt;b&gt;reais&lt;/b&gt; necessidades fazendo com
  que os capitalistas super invistam no novo capital, capital que parece lucrativo
  apenas pelo fato da taxa de juros estar artificialmente alta. Quando a taxa
  inevitavelmente se ajusta retornando a seu "real" valor, o capital investido
  torna-se prejuízo trazendo à luz o super investimento. Assim, de acordo com
  esse argumento, a eliminação do controle estatal do dinheiro acabaria com esses
  efeitos negativos do capitalismo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Antes de discutir se o controle estatal
  do dinheiro &lt;b&gt;é&lt;/b&gt; a causa do ciclo econômico, é necessário deixar claro que
  o controle das taxas de juro, de fato, não explica o fenômeno do super investimento
  (e portanto, do ciclo econômico). Apontar o ciclo econômico como algo resultante
  da performance do sistema de crédito não passa de um engodo. Isso porque &lt;b&gt;não&lt;/b&gt;
  está claro que surjam informações &lt;b&gt;relevantes&lt;/b&gt; a partir das alterações
  das taxas de juros. Taxas de juros apenas e tão somente refletem a demanda geral
  agregada pelo crédito em uma economia. Ou seja, a informação que uma companhia
  &lt;b&gt;específica&lt;/b&gt; dispõe diz respeito ao excesso na produção de um bem específico
  produzido por ela. Um nível de procura por crédito que diga respeito a competidores
  de um determinado ramo da indústria não reflete necessariamente a procura geral
  por crédito na economia como um todo. Um aumento na produção de algum bem específico
  por um grupo de competidores refletiria proporcionalmente no aumento das taxas
  de juros apenas se o incremento na procura de crédito por aquela indústria fosse
  idêntico ao encontrado na economia como um todo.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não há nenhuma razão para supor que
  é o controle estatal do dinheiro que provoca o ciclo econômico, inclusive, por
  causa dos diferentes ciclos de produção de diferentes indústrias e de suas diferentes
  necessidades por crédito (tanto em termos de montante como de intensidade).
  Portanto, a diversidade de possibilidades da procura por crédito entre as indústrias
  refletem a diversidade de possibilidades de suas necessidades, isso elimina
  a possibilidade de um investimento excessivo (e de super produção) ocorrer,
  mesmo se o sistema de crédito teoricamente funcionasse como deveria (i.e. a
  taxa de juros, de fato, refletindo exatamente a &lt;b&gt;realidade&lt;/b&gt;). Por não comunicar
  informação&lt;b&gt; relevante&lt;/b&gt;, o sistema de crédito não é um indicativo válido
  que explique o ciclo econômico como sendo um desvio do "sistema ideal" (i.e.
  o laissez-faire capitalista).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto, é inteiramente falsa a
  premissa de que basta remover o controle estatal do dinheiro para que o ciclo
  econômico tenha fim. Contudo, o argumento de que &lt;i&gt;"o controle estatal do dinheiro
  proporciona &lt;b&gt;uma parcela&lt;/b&gt; de contribuição para a ocorrência do ciclo econômico"&lt;/i&gt;
  tem um fundo de verdade. A expansão do crédito acima do nível "natural" que,
  diga-se de passagem, resulta em extraordinários lucros para o sistema financeiro.
  Fato que pode e deve conduzir a uma movimentação de capital exagerada gerando
  o super investimento (ou seja, em vez de criá-lo ele surge por causa das tendências
  já existentes). Assim, nós minimizamos o papel da expansão do crédito em nossos
  comentários acima e insistimos que o crédito não é fundamental para o ciclo
  econômico, essa discussão é de suma importância pois se constitui num fator
  essencial na real economia capitalista. Ou seja, sem crédito a economia capitalista
  não cresceria da forma como tem crescido. Em outras palavras, o crédito é fundamental
  para o capitalismo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Existem duas principais abordagens
  à questão referente à eliminação do controle estatal sobre o dinheiro na economia
  do "livre mercado" capitalista -- a &lt;b&gt;monetarista,&lt;/b&gt; muitas vezes chamada
  por "&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#free"&gt;free banking&lt;/a&gt;."
  Vamos analisar uma de cada vez (uma terceira possível "solução" seria estabelecer
  100% em reservas de ouro como limite para os bancos, mas além disso ser altamente
  intervencionista, bem distante do laissez-faire, é simplesmente impossível por
  não haver ouro suficiente para isso, fora todos os problemas associados com
  regimes monetários inflexíveis que já discutimos antes, não falaremos mais disso).
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O monetarismo foi muito popular nos
  anos 70 e é associado com a escola de Milton Friedman. Tal regime é bem menos
  radical que a escola do "free banking". O monetarismo defende que em vez de
  abolir o dinheiro estatal, ele deveria ser controlado. Friedman destacou, da
  mesma forma que a maioria dos economistas capitalistas, que os fatores monetários
  são importantes instrumentos para a explicação de certos problemas relacionados
  ao ciclo econômico capitalista, como a inflação e daí por diante. Isso não é
  de se estranhar, uma vez que exerce um efeito ideológico de muita utilidade
  desobrigando o núcleo capitalista de qualquer envolvimento com tais problemas.
  A &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt;, por
  exemplo, pode ocorrer, mas isso decorre pela interferência estatal na economia,
  arrazoam. É dessa forma que Friedman explica a Grande Depressão dos anos 30
  nos E.U., por exemplo (veja seu &lt;i&gt;"The Role of Monetary Policy"&lt;/i&gt; em &lt;b&gt;American
  Economic Review&lt;/b&gt;, Março, 1968). Ele também explica a inflação com o argumento
  de que ela é um fenômeno puramente monetário causado quando o estado imprime
  mais moeda do que o necessário para o crescimento da atividade econômica (por
  exemplo, se a economia cresce em 2% mas a oferta de dinheiro aumenta em 5%,
  a inflação subirá em 3%). Esta análise da inflação é profundamente equivocada,
  conforme veremos mais adiante.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estes Monetaristas defendem um controle
  da oferta de dinheiro, subordinando o estado a uma &lt;i&gt;"constituição monetária",
  &lt;/i&gt;uma legislação que obriga os bancos centrais a emitir uma quantidade de
  dinheiro numa taxa constante de 3 a 5% ao ano. Isso faria com que a inflação
  fosse banida, a economia se ajustaria ao seu equilíbrio natural, o ciclo econômico
  se tornaria residual (ou desapareceria) e o capitalismo finalmente funcionaria
  como está predito nos livros de economia. Essa &lt;i&gt;"constituição monetária"&lt;/i&gt;
  do dinheiro tornaria a economia "despolitizada" da influencia estatal e o controle
  do dinheiro seria eliminado. O dinheiro voltaria a ser aquilo que é apresentado
  na teoria neoclássica, como algo essencialmente neutro, capaz de ligar a produção
  e o consumo sem exercer qualquer interferência.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Desgraçadamente para o Monetarismo,
  esta análise está simplesmente errada. E mais desgraçadamente ainda para um
  vasto número de pessoas que pagaram o preço desse erro não apenas teoricamente
  mas também impíricamente. O Monetarismo foi imposto tanto nos E.U. como no U.K.
  no começo da década de 80, teve resultados desastrosos. A seguir analisaremos
  detidamente o dogma monetarista aplicado pelo governo Thatcher em 1979, cuja
  catástrofe em muito se assemelhou à ocorrida sob o governo
  Reagan.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Qualquer tentativa de exercer controle
  sobre a emissão de dinheiro falharia completamente, conforme previu em 1970
  o keynesiano radical Nicholas Kaldor (veja seu ensaio &lt;i&gt;"The New Monetarism"&lt;/i&gt;
  em &lt;b&gt;Further Essays on Applied Economics&lt;/b&gt;, por exemplo). Isto porque a oferta
  de dinheiro, em vez de ser uma atribuição do banco central ou do estado (conforme
  a opinião de Friedman), deve ser resultante da procura por crédito, gerada pela
  atividade econômica. Utilizando &lt;i&gt;economês&lt;/i&gt;, o próprio Friedman declarou
  que a oferta de dinheiro deveria estar relacionada a fatores &lt;b&gt;&lt;i&gt;"exógenos"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;
  (fatores externos e não econômicos, como as manchas do sol, as condições climáticas,
  guerras, inovações, etc.) e que o estado deveria interferir apenas quando tais
  fatores fossem &lt;b&gt;&lt;i&gt;"endógenos"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; por natureza (isto é, quando viessem
  de &lt;b&gt;dentro&lt;/b&gt; da economia). Em outras palavras, isso significa que qualquer
  tentativa de controlar a oferta de dinheiro resultaria em fracasso. Charles
  P. Kindleburger comenta:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Historicamente generalizando,
  é possível afirmar que sempre que as autoridades estabilizam ou controlam alguma
  quantidade de dinheiro. . . a produção aumenta por causa da&amp;nbsp; euforia que
  isso provoca. Se o dinheiro é fixado em termos de bens particulares, a euforia
  vem pela "monetarização" do crédito em novas bases que por definição não são
  levadas em consideração, o montante de dinheiro determinado pela velha fórmula
  não crescerá, pelo contrário, diminuirá. . . a fixidez [definição de dinheiro]
  e o mercado criarão novas formas de dinheiro em períodos de &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#boom"&gt;boom&lt;/a&gt; para
  que haja uma compensação."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Manias, Panics and Crashes&lt;/b&gt;, p. 48]&lt;/blockquote&gt;
A experiência dos regimes de Thatcher
e Reagan ilustra isso muito bem. O governo Thatcher perdeu-se inteiramente no
controle do dinheiro -- a emissão de moeda chegou a 74%, 37% e 23% acima das metas
determinadas em 1980 [Ian Gilmore, &lt;b&gt;Dancing With Dogma&lt;/b&gt;, p. 22]. Esse descontrole
permaneceu até 1986 quando o governo Tory abandonou essa postura econômica convencido
de sua ineficácia. Além disso, essas variações na emissão de moeda também mostraram
que o argumento de Milton Friedman sobre a causa da inflação estava totalmente
equivocado. De acordo com sua teoria, a inflação surgia toda vez que se emitia
dinheiro em percentuais maiores que o crescimento da economia, e a inflação caia
toda vez que a emissão de dinheiro diminuía. De acordo com o conservador moderado
Ian Gilmore, &lt;i&gt;"Os opositores do monetarismo friedmaníaco. . . estavam certos,
a inflação chegou em 16 por cento em 1982-3, 11 por cento em 1983-4, e 8 por cento
em 1984-5. No final das contas. . .&amp;nbsp; o que se pode constatar mesmo é que
os índices de inflação nem mesmo chegaram perto dos níveis preditos pela 'infalível'
doutrina monetarista."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 52] Do ponto de vista anarquista,
todavia, a queda na inflação foi o resultado do alto índice de desemprego naquele
período. Quanto mais aumentava a quantidade de desempregados nas ruas, mais diminuíam
os índices de inflação. Quando o trabalho se fortalece o sistema capitalista produz
a inflação para manter os salários baixos, quando essa situação se torna insustentável
o sistema capitalista deliberadamente aumenta os níveis de desemprego como instrumento
eficaz para a deterioração salarial, isso faz com que os lucros obtidos pela produção
sejam maiores que os obtidos pela especulação financeira (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc71"&gt;seção C.7.1&lt;/a&gt;).
Se não houvesse necessidade dos capitalistas manterem seus lucros via aumento
de preços, a inflação naturalmente decairia pelo poder de barganha dos trabalhadores,
o qual se torna enfraquecido pelo desemprego em massa. Longe de ser um fenômeno
puramente monetário como Friedman proclamava, a inflação é resultado das necessidades
de lucro do capital, e do estado de luta de classes.

&lt;p&gt;Importante notar também que se Friedman
  testasse seus argumentos mais básicos, a Grande Depressão de 1929-33, eles se
  revelariam novamente falhos. Kaldor destacou: &lt;i&gt;"conforme ilustrado pelo próprio
  Friedman, o grau de importância da 'moeda toda-poderosa'. . . para o crescimento
  dos Estados Unidos, não diminuiu durante a Grande &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#contra%C3%A7%C3%A3o"&gt;Contração&lt;/a&gt;,
  em julho de 1932, quando o crescimento foi 10 por cento acima de julho de 1929.
  . . A Grande Contração da oferta da moeda . . . ocorreu a &lt;b&gt;despeito&lt;/b&gt; do
  crescimento na base monetária."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, pp. 11-12] Outros economistas
  que questionaram os postulados de Friedman, chegaram a resultados semelhantes
  -- &lt;i&gt;"Peter Temin abordou Friedman e Schwartz referindo-se ao ponto de vista
  keynesiano [no livro &lt;b&gt;Did Monetary Forces Cause the Great Depression?&lt;/b&gt;]
  perguntando se a queda no crescimento é provocado pelo declínio na emissão de
  moeda ou coisa parecida. . . [Eles responderam que] a emissão de moeda não diminuiu,
  na realidade aumentou em 5 por cento entre agosto de 1929 e agosto de 1931.
  . . Diante disso, Temin concluiu que não há qualquer prova de que foi a moeda
  que provocou a depressão no período entre a quebra da bolsa de valores e. .
  . setembro de 1931."&lt;/i&gt; [Charles P. Kindleburger, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 60]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, a causalidade,
  a relação que une a causa a seu efeito na economia real da moeda, e não vice-versa,
  a flutuação na oferta de moeda, é que rege as flutuações na economia. Se as
  variações na oferta de moeda ocorrem por motivos endógenos, como sempre acontece,
  tudo que vem a seguir é perfeitamente previsível. Diante da ineficácia do controle
  da emissão de moeda, a única ferramenta disponível toma a forma do aumento na
  taxa de juros, que reduz a inflação, por exemplo, pela queda nos investimentos,
  gerando desemprego, e por tabela (eventualmente) frenando o crescimento dos
  salários. Foi exatamente isso que ocorreu na década de 80. A tentativa de "controlar"
  a emissão de moeda, na verdade resultou mesmo foi numa brutal elevação da taxa
  de juros que alcançou patamares extremamente altos, fato que contribuiu para
  produzir a pior depressão desde o fim da guerra (uma depressão que Friedman
  notavelmente nunca pode prever).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Diante do fracasso absoluto do monetarismo,
  tanto na teoria como na prática, é inútil perder tempo com ele. Contudo, nos
  anos 70 ele foi a principal bandeira do dogma econômico da direita -- a mesma
  direita que geralmente aprecia retratar-se a si mesma como sendo a força motriz
  da economia. Desnecessário dizer que esse não é o caso. Além disso, essa discussão
  sobre o fracasso do monetarismo traz luz sobre problemas relacionados ao &lt;i&gt;"free
  banking" &lt;/i&gt;e o controle estatal sobre a moeda. Esta escola de pensamento associa-se
  à escola "austríaca" de economia e aos libertarianos (direita) em geral (também
  discutimos essa teoria na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secF10.htm#secf101"&gt;seção F.10.1&lt;/a&gt;).
  Ela se baseia na total privatização do sistema bancário e na criação de um sistema
  no qual os bancos e outras companhias privadas possam disputar entre si no mercado
  a aceitação pela população em geral de suas moedas e papeis. Esta posição não
  tem nenhuma relação com o banco mútuo anarquista pois não funciona no sentido
  de reduzir a usura a zero, mas como um meio de disputar parcelas do valor do
  trabalho alheio, a razão de ser da teoria capitalista.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A escola do "free banking" defende
  que subordinados às pressões competitivas, os bancos dedicam 100% de seu rateio
  para o crédito, ou seja emitem crédito com o dinheiro que realmente possuem
  em suas (ou seja, as forças de mercado garantiriam o fim dos lucros retidos
  pelos bancos). Eles acreditam que sob o sistema atual, os bancos geram mais
  créditos do que as reservas disponíveis, fazendo com que as taxas de juros sejam
  empurradas para baixo de seu "patamar natural" (ou seja, o nível que iguala
  poupança com investimento). Capitalistas, desinformados pela baixa artificial
  nas taxas de juros, investem em equipamentos e isto, eventualmente, resulta
  em uma crise, uma crise causada pelo super investimento (o termo utilizado pelos
  economistas "austríacos" é &lt;i&gt;"malinvestment"&lt;/i&gt;). Se os bancos estivessem
  sujeitos às forças de mercado, dizem, eles não gerariam crédito monetário, as
  taxas de juro refletiriam a realidade e coisas como super investimento, portanto
  as crises, seriam coisas do passado.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta análise, contudo, é falsa. É
  visível um grande buraco no casco desse barco. A questão principal é que as
  taxas de juro não proporcionam informações suficientes ou necessariamente corretas
  para bancar decisões sobre investimentos. Dessa forma, a possibilidade do super
  investimento continua intacta. Outro problema que surge, relacionada à nossa
  discussão anterior sobre monetarismo, diz respeito à naturesa endógena da moeda
  e as pressões que isso exerce nos bancos. O destacado economista pós-keynesiano
  Hyman Minsky desenvolveu uma análise que proporciona um perfeito discernimento
  sobre os fantasmas que se escondem nas penumbras do sistema &lt;i&gt;"free banking",&lt;/i&gt;
  o qual dificilmente resistiria à tentação de criar crédito monetário (ou seja,
  oferecer mais moeda que a poupança disponível). Este modelo é muitas vezes chamado
  de &lt;i&gt;"The Financial Instability Hypothesis".&lt;/i&gt;

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vamos supor que a economia está caminhando
  para a recuperação após um período de falências e depressão. Inicialmente as
  empresas adotariam uma postura conservadora em seus investimentos, enquanto
  que os bancos emprestariam dinheiro dentro de seus limites de poupança, adotando
  investimentos de baixo risco. Dessa forma, os bancos asseguram que a taxa de
  juros reflita o índice natural. Todavia, esta combinação de crescimento econômico
  e investimento financeiro conservador significa que a maioria dos projetos serão
  bem sucedidos e gradualmente isso ficará bem nítido aos executivos, capitalistas
  e banqueiros. Como resultado, tanto executivos como banqueiros irão considerar
  a bonificação do risco presente como um excesso. Novos projetos de investimentos
  serão avaliados sob uma perspectiva menos conservadora no que diz respeito a
  futura liquidez. Estas são as bases de um novo boom e de seu eventual colapso.
  Nas palavras de Minsky, &lt;i&gt;"estabilidade é instabilidade".&lt;/i&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na medida em que as companhias começam
  a crescer, elas progressivamente buscam por finanças externas e tais recursos
  surgem porque uma fração do setor bancário adota o otimismo dos investidores.
  Não podemos nos esquecer que os bancos são companhias privadas sedentas por
  lucros. Tendo o fornecimento do crédito como o caminho mais curto para o lucro,
  os bancos passam a suprir seus clientes provocando uma expansão no crédito.
  É uma corrida contra o tempo, se não fizerem isso o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; logo se trasformará
  em colapso, na medida em que os investidores não dispõem dos fundos necessários
  e as taxas de juros logo começarão a crescer, obrigando as empresas a pagar
  cada vez mais pelo serviço da dívida, uma carga que muitas empresas não serão
  capazes de suportar ou suportarão com dificuldade. Essa queda nos investimentos
  diminuirá a produção, gerando desemprego (como as companhias não podem "demitir"
  os investimentos, demitem os trabalhadores), com a redução do consumo vem a
  redução nos investimentos e por conseguinte o colapso.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, devido à expansão econômica
  os banqueiros emprestam dinheiro a seus clientes gerando um crédito fácil com
  uma reduzida taxa de juros. Dessa forma eles aderem a estruturas incertas tanto
  para si mesmos quanto para seus clientes &lt;i&gt;"que, em um clima de expectativa
  mais sóbria, teriam rejeitado."&lt;/i&gt; [Minsky, &lt;b&gt;Inflation, Recession and Economic
  Policy&lt;/b&gt;, p. 123] Os bancos inovam seus produtos financeiros adaptando-se
  à linha da procura. Enquanto as empresas aumentam seu endividamento os bancos
  se tornam mais que propensos a permitir isso, até surgirem os primeiros sinais
  de retração financeira na economia. Tanto as empresas como os bancos aumentam
  seus passivos financeiros, fazendo com que toda a economia se mova em direção
  a uma estrutura creditícia.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A festa continua até o momento em
  que a taxa de juros sobe (quando expansão do crédito atinge níveis muito altos)
  afetando todas as empresas, desde a mais conservadora até a mais especulativa,
  "empurrando" muitas delas à beira da insolvência (nem mesmo as firmas conservadoras
  conseguem pagar seus débitos com facilidade, as empresas menos conservadoras
  não cumprem seus compromissos contaminando todo o conjunto). A margem de erro
  se retrai e as firmas e bancos tornam-se mais vulneráveis nas expectativas de
  desenvolvimento, de modo que os novos competidores, greves, investimentos que
  não geraram a taxa de retorno esperada, o crédito se torna mais difícil de obter,
  as taxas de juros se elevam e daí por diante. No final das contas, o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;
  se transforma num colapso gerando uma quebradeira generalizada de empresas e
  bancos.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A escola do defensora do &lt;i&gt;"free
  banking"&lt;/i&gt; rejeita esses argumentos e argumenta que os bancos privados em
  competição &lt;b&gt;não&lt;/b&gt; agiriam dessa forma pois se fizessem isso se tornariam
  menos competitivos no mercado e perderiam clientes para outros bancos (esse
  é o mesmo processo pelo qual o sistema "free banking" resolveria a questão da
  inflação). Contudo, é exatamente &lt;b&gt;pelo fato&lt;/b&gt; dos bancos estarem competindo
  que eles inovam -- se eles não fizerem isso, outro banco ou companhia o fará
  de forma a obter mais lucros. Isso pode ser observado no fato de que &lt;i&gt;"títulos
  bancários. . . e certificados de exportação. . . surgiram a partir de um suprimento
  inelástico de moeda"&lt;/i&gt; [Kindleburger, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 51] e &lt;i&gt;"qualquer
  deficiência no fornecimento dos convencionais tipos [de dinheiro] é logo preenchida
  por novos tipos emergênciais; essa foi a forma como, historicamente, surgiram
  os primeiros títulos bancários e despontaram as primeiras contas correntes"&lt;/i&gt;
  [Kaldor, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 10]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esse processo pode ser observado
  na obra de Adam Smith &lt;b&gt;The Wealth of Nations&lt;/b&gt;. A Escócia do tempo de Smith
  adotara um sistema bancário competitivo e, como Smith observou, os bancos emprestavam
  mais dinheiro do que possuiam em seus cofres:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Como essas notas [os
  títulos bancários] retornavam continuamente na forma de pagamento, parte delas
  permaneciam circulando por meses e anos a fio. Dessa maneira ele [o banco] mantinha
  em circulação títulos que chegavam a cem mil pounds. Vinte mil pounds em ouro
  e prata podia freqüentemente ser uma provisão suficiente para atender a demandas
  ocasionais."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Wealth of Nations&lt;/b&gt;, pp. 257-8]&lt;/blockquote&gt;
Em outras palavras, um sistema bancário
por mais competitivo que seja jamais eliminará os papeis sem lastro de suas reservas
bancárias. De uma forma irônica, Smith observou: &lt;i&gt;"o Banco da Inglaterra paga
muito caro, não apenas pela sua própria imprudência, mas também pela imprudência
de quase todos os bancos escoceses"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 269]. Isso ocorre
mesmo que o banco central se revele mais conservador na geração do crédito do
que os bancos sob pressão competitiva! Ou seja, o argumento de Smith vai no sentido
de que os bancos, de fato, fazem qualquer coisa desde que atenda seus próprios
interesses, diferente do indicado pela escola do &lt;i&gt;"free banking":&lt;/i&gt;

&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"cada banco privado deve
  ser compreendido como uma instituição que busca sempre atender a seus próprios
  interesses particulares, o capital circulante nunca deveria ser estocado como
  papel moeda. Todavia, cada uma das instituições bancárias nunca assume essa
  compreensão, e busca atender a seus interesses particulares, de forma que o
  capital circulante é freqüentemente estocado como papel moeda".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 267]&lt;/blockquote&gt;
Assim, em um sistema bancário competitivo,
o que temos são bancos atuando sem o suficiente lastro e trabalhando no sentido
de atender a seus &lt;i&gt;"interesses particulares"&lt;/i&gt; (ou seja, aquilo que os economistas
capitalistas consideram como de interesse público, funciona como algo que atende
aos interesses particulares dos banqueiros!). Porque isso acontece? Segundo as
observações de Smith, por uma possível razão. Ele ressalta que &lt;i&gt;"os altos lucros
obtidos em transações comerciais dá margem à grande tentação do &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#abuso"&gt;abuso do limite&lt;/a&gt;"&lt;/i&gt;
onde a &lt;i&gt;"multiplicação das instituições bancárias. . . induz segurança ao público"&lt;/i&gt;

forçando-os a &lt;i&gt;"ser mais circunspectos em sua conduta"&lt;/i&gt; além de &lt;i&gt;"obrigar
todos os bancos a serem mais liberais com seus clientes em suas metas, para que
estes não sejam conquistados pelos seus concorrentes"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p.
274, p. 294].
&lt;p&gt;Assim, o &lt;i&gt;"free banking"&lt;/i&gt; segue
  em duas direções simultâneas, busca conquistar seus clientes enquanto gira em
  torno de si mesmo. O fator que prevalece depende do estado da economia, onde
  o que libera os empréstimos é o aquecimento da economia (conforme descrito por
  Minsky). Embora a escola do "free banking" argumente que é a geração do crédito
  que produz o ciclo econômico, o caso dos competitivos bancos escoceses não revela
  isso, na realidade, os bancos é que interrompem o crédito (gerando o ciclo econômico,
  conforme a teoria "austríaca"). Parece que este também foi o caso quando, no
  século XIX na América, onde mesmo sem qualquer banco central em sua maior parte
  -- &lt;i&gt;"a freqüencia dos ciclos foi extraordinária [como os colapsos], fortalecido
  pela perda de crédito e pelas freqüentes distorções (como os títulos bancários
  privados)."&lt;/i&gt; [Doug Henwood, &lt;b&gt;Wall Street&lt;/b&gt;, p. 94]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A maior parte dos adeptos do &lt;i&gt;"free
  banking"&lt;/i&gt; defendem que os sistemas regidos pelo free banking seriam mais
  flexíveis por não serem regulados. Talvez isso ocorra, mas isso implica em que
  os sistemas regulados não poderão livremente acomodar seus clientes pela geração
  de crédito e o regime de moeda inflexível criaria problemas pelo aumento nas
  taxas de juros e pela redução do montante de moeda disponível, que levaria a
  um colapso. Assim, uma exagerada oferta de crédito em vez de ser a &lt;b&gt;causa&lt;/b&gt;
  da crise é na realidade um sintoma. Investimentos competitivos também levam
  à expansão do ciclo econômico. Uma expansão incentivada e encorajada pela competição
  entre os bancos na oferta do crédito. No bojo desta expansão -- e ao longo dela
  -- outras tendências objetivas levarão à uma inevitável crise devido ao super
  investimentos e às distorções.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, o puro &lt;i&gt;"livre
  mercado"&lt;/i&gt; capitalista carrega consigo a maldição do ciclo econômico, pois
  esse ciclo é causado pela própria natureza do capitalismo, não pela intervenção
  do estado. Na realidade (isto é, em sua "real existência" capitalista), a manipulação
  estatal do dinheiro (via taxa de juros) é essencial para a classe capitalista
  pois diz respeito a uma atividade indireta de geração de lucro, a manutenção
  de um nível "natural" de desemprego é essencial para manter os lucros elevados,
  um nível aceitável de inflação garante o crescimento dos lucros, e assim por
  diante, tudo isso se constitui nos ingredientes que se misturam no caldeirão
  do ciclo econômico, proporcionando saídas de emergência e injetando dinheiro
  na economia durante o pânico. Se os problemas do capitalismo fossem provocados
  pela manipulação de dinheiro por parte do estado, não teríamos testemunhado
  o sucesso econômico das experiências keynesianas do período pós guerra, nem
  o ciclo econômico nos dias pre keynesianos, mesmo em países que tinham mais
  de um sistema &lt;i&gt;free banking&lt;/i&gt; (quase toda a segunda metade do século XIX
  nos Estados Unidos, por exemplo, se alternou entre períodos de recessão e depressão,
  comparável ao período que se seguiu ao fim da II Grande Guerra).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Embora seja verdade que toda crise
  venha após um aumento especulativo na expansão da produção e do crédito, isso
  não significa que a crise &lt;b&gt;resulta&lt;/b&gt; da especulação e da expansão do crédito.
  Essa conecção não é causal no &lt;i&gt;"livre mercado"&lt;/i&gt; capitalista. A expansão
  e a retração do crédito é um mero sintoma das periódicas alterações no ciclo
  econômico, pois o declínio da lucratividade retrai o crédito e seu aumento o
  amplia.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Paul Mattick nos proporciona uma
  análise correta sobre isso:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"A moeda e a política
  creditícia não podem por si só mudar nada que diga respeito a lucratividade
  ou lucros insuficientes. Os lucros vêm apenas da produção, da mais valia produzida
  pelos trabalhadores. . . A expansão do crédito sempre foi tida como um sinal
  de uma crise que se aproxima, no sentido de que ele reflete a tentativa do capital
  individual existente para se expandir a despeito da aguda competição, e consequentemente
  sobreviver à crise. . . Apesar da expansão do crédito conter a crise por um
  curto período de tempo, ela nunca a evita, no final das contas o que prevalece
  como fator decisivo é a relação real entre o lucro total e a necessidade da
  expansão do capital social em valor, e estas coisas não podem ser alteradas
  pelo crédito".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Economics, Politics and the Age of Inflation&lt;/b&gt;, pp.
  17-18]&lt;/blockquote&gt;
Em suma, os apologistas do &lt;i&gt;"livre
mercado"&lt;/i&gt; confundem o sintoma com a doença.
&lt;p&gt;Onde não houver nenhum lucro a ser
  extraído, não haverá também nenhuma procura por crédito. Ao mesmo tempo em que
  a expansão do crédito &lt;i&gt;"se constitui num fator de retardamento da crise, no
  momento em que a crise aflorar, essa expansão se constitui também num fator
  agravante por causa do grande montante de capital que será desvalorizado".&lt;/i&gt;
  [Paul Mattick, &lt;b&gt;Economic Crisis and Crisis Theory&lt;/b&gt;, p. 138] Mas este é
  também um problema enfrentado pelas companhias privadas que fazem uso ouro como
  lastro, conforme argumentam os direitistas libertarianos (que apoiam o &lt;i&gt;"livre
  mercado"&lt;/i&gt; e o sistema bancário capitalista). O nível de oferta de dinheiro
  reflete a atividade econômica exercida dentro de um país e se essa oferta não
  se ajusta, a taxa de juros se eleva provocando uma crise. Assim surge a necessidade
  de uma oferta de dinheiro flexível (como desejam, por exemplo, os anarquistas
  individualistas estadunidenses). Conforme Adam Smith observou,, &lt;i&gt;"a quantidade
  de moeda em cada país é regulada pelo valor das mercadorias que circulam neles:
  o aumento desse valor . . . implica em quantidades adicionais de moeda, um requisito
  necessário para que elas circulem."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 385]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O &lt;i&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#dinheiro"&gt;dinheiro
  podre&lt;/a&gt;&lt;/i&gt; ou papel-moeda regularmente emitido que assume um valor nominal
  superior ao valor real surge por causa da inflexibilidade do valor da mercadoria
  disponibilizada. Quando &lt;i&gt;"a expansão da produção ou do comércio não é acompanhada
  pelo crescimento da base monetária ocorre uma queda no índice de preços. . .
  A desvalorização do dinheiro surge para resguardar o comercio da deflação forçada
  que aparece toda vez que o volume de negócios aumenta. . . O pagamento em espécie
  (a vista) se torna inadequado porque seu montante não pode ser alterado. O valor
  de um certo montante disponível em ouro pode se elevar em um certo percentual
  ao ano, mas não em algumas semanas, como ocorre repentinamente diante de uma
  expansão de transações. Esse dinheiro podre empresarial pode trazer consigo
  uma acentuada queda nos preços, o que induz a um colapso e ao aumento do desemprego".&lt;/i&gt;
  [Karl Polyani, &lt;b&gt;The Great Transformation&lt;/b&gt;, p. 193]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um suma, &lt;i&gt;"não é o crédito mas
  apenas o crescimento na produção que torna possível o crescimento da mais valia.
  Quando o grau de exploração determina a expansão do crédito"&lt;/i&gt; [Paul Mattick,
  &lt;b&gt;Economics, Politics and the Age of Inflation&lt;/b&gt;, p. 18] O gráu de tomada
  de dinheiro aumenta ou diminui na medida da lucratividade capitalista, conforme
  predito pela teoria econômica capitalista. Mas isto não afeta o ciclo econômico,
  que tem suas raízes na produção pelo capital (isto é, no lucro) e nas relações
  autoritárias capitalistas, onde a oferta de crédito está obviamente entrelaçada,
  e não vice-versa.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
&lt;/p&gt;&lt;hr /&gt;
&lt;br&gt;
&lt;b&gt;termos técnicos&lt;/b&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="free"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;free
  banking.&lt;/i&gt; Situação em um sistema econômico em que o banco privado age sem
  qualquer interferência estatal e quando os preços são determinados pelas chamadas
  forças do mercado.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="contração"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;contração.&lt;/i&gt;
  Termo que, muitas vezes é intercambiável com depressão (depression) e recessão
  (recession), descreve o declínio geral nas atividades econômicas. Tem início
  quando a atividade econômica atinge um pico (peak) e imediatamente entra em
  descenso até atingir o seu ponto mais baixo (trough); essa é a faixa da contração
  e, evidentemente, pode comportar depressão e recessão, dependendo de seu rigor.
  Se a curva não subir nem descer, atinge um patamar. Contrapõe-se a prosperidade
  (boom).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="boom"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;boom.
  &lt;/i&gt;Prosperidade rápida. Surto de prosperidade durante o ciclo econômico (business
  cycle), quando a economia está em recuperação (recovery) após uma depressão;
  há pleno emprego (full employment) dos recursos e os preços se elevam rapidamente.
  Depois de atingido o pico da prosperidade, quase certamente começará um período
  de recessão (recession).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="abuso"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;abuso
  de limite&lt;/i&gt;. Termo aplicável a uma empresa que faz negócios
  que vão muito além de seu capital social.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="dinheiro"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;dinheiro
  podre. &lt;/i&gt;token money&lt;i&gt;. &lt;/i&gt;Dinheiro ou papel-moeda regularmente emitido que tem
  valor nominal superior ao valor real. &lt;br&gt;
  &amp;nbsp; &lt;br&gt;
  &amp;nbsp;
&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;

&lt;h2&gt;&lt;a name="secc81"&gt;&lt;/a&gt;De que forma o keynesianismo funciona?&lt;/h2&gt;
Se o controle estatal do crédito não
causa o ciclo econômico, como é que o capitalismo keynesiano consegue funcionar?
A economia keynesiana, oposta ao &lt;i&gt;livre mercado&lt;/i&gt; capitalista, sustenta que
o estado pode e deve intervir na economia de forma a inpedir a ocorrência das
crises econômicas. O &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; do pós guerra representa uma fase do ciclo econômico
pelo início do desenvolvimento a partir de uma profunda depressão
&lt;p&gt;O período do keynesianismo social
  depois da guerra foi marcado pela redução das desigualdades, pelo aumento dos
  direitos dos trabalhadores, a queda do desemprego, um estado social que de fato
  poderia ser utilizado. Comparado com os dias atuais do capitalismo, há uma distancia
  razoável. Contudo, o capitalismo keynesiano não deixa de ser capitalismo e naturalmente
  tem como base a opressão e a exploração. Na verdade, o keynesianismo foi a mais
  refinada forma de capitalismo, onde ao mesmo tempo que se utilizava intervenção
  estatal para proteger o capitalismo de si mesmo, ela era utilizada também no
  sentido de garantir que a luta de classes dos trabalhadores fosse dirigida,
  via níveis de produtividade, de forma a permitir que o sistema seguisse funcionando.
  Para a população como um todo, a idéia geral era de que o &lt;i&gt;estado do bem estar&lt;/i&gt;
  (especialmente na Europa) foi o caminho para a sociedade controlar o capitalismo
  investindo-o de uma certa humanidade. Por um caminho confuso, o &lt;i&gt;estado do
  bem estar&lt;/i&gt; foi apoiado como uma tentativa de criar uma sociedade em que a
  economia existisse para o povo, e não o povo para a economia.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O estado sempre abocanhou uma fração
  do valor excedente total produzido pela classe trabalhadora. Sob o keynesianismo
  essa fração aumenta e é usada ativamente na administração da economia. Tradicionalmente,
  a prática da apropriação estatal do valor excedente tem sido uma das metas do
  pensamento capitalista clássico (em termos simples, significa mais valor excedente
  disponível nas mãos do governo para os capitalistas disputar). Mas com a acumulação
  de capital, o estado cresceu da mesma forma que aquela fração do excedente social
  (usado para controlar inimigos domésticos e para a proteger a sociedade da destruição
  causada pelo livre mercado capitalista).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todavia, tal intervenção estatal
  não é coisa &lt;b&gt;totalmente&lt;/b&gt; nova &lt;i&gt;"desde suas origens, os Estados Unidos
  tem investido pesadamente na intervenção e na proteção estatal para o desenvolvimento
  da indústria e da agricultura, da indústria têxtil desde o início do século
  dezenove, da indústria siderúrgica desde o final do século dezenove, dos computadores,
  aparelhos eletrônicos, até a biotecnologia em nossos dias. Além disso, o mesmo
  é verdadeiro para as demais indústrias bem sucedidas de nossa sociedade".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;World Orders, Old and New&lt;/b&gt;, p. 101]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As raízes da nova política de alto
  nível e diferentes formas de intervenção estatal repousa na Grande Depressão
  nos anos 30 e o êxito das tentativas em forçar a redução generalizada de salários
  e custos (o meio tradicional mais utilizado para controlar a depressão) se revelou
  impossível de ser realizado por causa dos custos sociais e econômicos que seria
  bastante elevados. Uma onda de militantes em greve envolveu meio milhão de trabalhadores
  no ano de 1934, onde não faltaram ocupações de fábricas e outras formas corriqueiras
  de ação direta.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em vez de apelar para a usual luta
  de classes (que poderia descambar para o campo revolucionário), as seções da
  classe capitalista compreenderam a necessidade de empreender uma nova abordagem
  ao problema. Que envolveu o uso do estado para manipular o crédito de forma
  a aumentar os fundos disponíveis pelo capital e assim aumentar a procura pela
  diretiva estatal. Conforme Paul Mattick destaca:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Uma produção adicional
  tornou-se possível através do financiamento do déficit, reativando a procura,
  embora essa procura não fosse acompanhada pelo correspondente crescimento nos
  lucros. . . acabou estimulando a economia como um todo tornando-se um ponto
  de partida em direção a uma nova era de prosperidade"&lt;/i&gt; se houvesse condições
  objetivas para isso. [&lt;b&gt;Economic Crisis and Crisis Theory&lt;/b&gt;, p. 143]&lt;/blockquote&gt;

A intervenção estatal pode, em curto
prazo, postergar as crises estimulando a produção. Um exemplo disso pôde ser observado
no período do New Deal nos anos 30 sob Roosevelt quando a economia cresceu cinco
anos em sete comparada com a retração a cada ano sob o &lt;i&gt;pro-laissez-faire&lt;/i&gt;
do Presidente Republicano Herbert Hoover (sob Hoover, o PNB encolheu em média
8,4 por cento ao ano, sob Roosevelt ele cresceu 6,4 por cento). O colapso de 1938
após 3 anos de crescimento sob Roosevelt deveu-se ao declínio na intervenção estatal:

&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"As forças de recuperação
  operaram em meio à depressão, tanto que diminuíram o desemprego via gastos públicos,
  aumentando a produção acima dos níveis de 1929. Isso foi suficiente para a administração
  de Roosevelt reduzir drasticamente as obras públicas. . . em um novo esforço
  para balancear a receita diante das exigências do mundo dos negócios. . . A
  recuperação ocorreu em um curto prazo. Ao final de l937 o Business Index caiu
  de 110 para 85, levando a economia de volta aos patamares de 1935. . . Milhões
  de trabalhadores perderam seus empregos novamente."&lt;/i&gt; [Paul Mattick, &lt;b&gt;Economics,
  Politics and the Age of Inflation&lt;/b&gt;, p. 138]&lt;/blockquote&gt;
Com o sucesso da intervenção estatal
durante a segunda grande guerra, o keynesianismo foi encarado como uma forma de
garantir a sobrevivência do capitalismo. O &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; resultante foi bem conhecido,
com a intervenção estatal sendo apontada como um caminho eficaz para a prosperidade
da sociedade como um todo. Antes da Segunda Grande Guerra, os Estados Unidos (por
exemplo) sofreram oito depressões, depois da guerra foram nove (alternados com
períodos de recessão). Não há qualquer dúvida de que, por um tempo considerável,
os capitalistas através de intervenções governamentais foram capazes de conter
as depressões que infestaram o mundo pré guerra.
&lt;p&gt;Isso ocorreu porque o keynesianismo
  proporcionou um novo crescimento postergando crises pela expansão do crédito.
  Isto pode mitigar as condições da crise, uma vez que um de seus efeitos de curto
  prazo é oferecer ao capital privado uma grande área de atuação e uma melhora
  nas bases de seus próprios esforços para escapar da deficiência de lucros pela
  acumulação. Além disso, o keynesianismo pode aplicar o Fundo de Reservas e Desenvolvimento
  em novas tecnologias e métodos de trabalho (como a automação), garantindo mercados
  para bens e transferindo riqueza da classe trabalhadora para o capital via taxação
  e inflação.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A longo prazo, o keynesianismo &lt;i&gt;"administrou
  a economia através de políticas monetárias e creditícias através da produção
  induzida pelo estado que mais tarde esbarraria nas contradições do processo
  acumulativo."&lt;/i&gt; [Paul Mattick, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 18]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De qualquer forma, tais intervenções
  não podem se colocadas à parte quando estudamos as causas das crises econômicas
  e sociais. As alterações no sistema capitalista, por mais radicais que sejam,
  jamais revogarão as limitações objetivas e subjetivas de um sistema baseado
  na escravidão assalariada e na hierarquia social. Isto pode ser facilmente observado
  quando o panorama róseo da prosperidade do pós guerra foi drasticamente alterado
  nos anos 1970 quando a crise econômica retornou virulenta, com alto desemprego
  acompanhado por elevada inflação. Isto logo conduziu ao retorno a um tipo de
  capitalismo mais "livre mercado", com, nas palavras de Chomsky, o &lt;i&gt;"subsídio
  público e a proteção do estado para o rico, e a disciplina do mercado para o
  pobre".&lt;/i&gt; Este processo, e seus efeitos, serão discutidos nas próximas duas
  seções.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="secc82"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;O que aconteceu com o keynesianismo nos anos 70?&lt;/h2&gt;
Basicamente, as limitações subjetivas
e objetivas do keynesianismo foram ilustradas na última seção, até chegar os anos
70. &lt;br&gt;

As crises econômicas retornaram com desemprego em massa acompanhado com altos
índices de inflação, com as intervenções estatais longe de resolver a situação,
tornava a crise cada vez pior. Em outras palavras, a combinação de luta social
e um vácuo no valor excedente disponível para o capital resultou numa quebra do
consenso resultante do sucesso do período pós guerra.
&lt;p&gt;As raízes e o legado deste colapso
  no keynesianismo, na melhor das hipóteses, é altamente instrutivo. O período
  pós guerra marcou uma distinta mudança no capitalismo, com novos, altos níveis
  de intervenção estatal. Porque a mudança? Em termos simples, por que o capitalismo
  não é um sistema viável. Ele não se recuperou da Grande Depressão e o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;
  econômico durante a guerra foi obviamente obscurecido pelo abismo da estagnação
  dos anos 1930. Acrescente-se, claro, que a classe trabalhadora militante, após
  anos de luta contra o fascismo/capitalismo não estava nem um pouco disposta
  a retornar à pobreza e ao desemprego em massa. Assim, politicamente e economicamente
  era necessário uma mudança. Essa mudança foi providenciada pelas idéias de Keynes,
  uma mudança que ocorreu sob a pressão e a resistência da classe trabalhadora
  mas no interesse das classes dominantes.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A mescla da intervenção obviamente
  diferiu de país para país, dependendo das necessidades e ideologias dos partidos
  governantes e das elites sociais. No caso da Europa, a nacionalização se espalhou
  com a falta de capital sendo compensada pelo estado e refinanciada a longo prazo,
  ao mesmo tempo em que os partidos sociais democratas tentavam implementar reformas.
  Chomsky descreve o processo nos Estados Unidos:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Os altos executivos
  reconheceram que os gastos sociais poderiam estimular a economia, mas muitos
  preferiram a alternativa bélica keynesiana - por razões ligadas a privilégio
  e poder, não 'racionalidade econômica'. Esse caminho foi adotado imediatamente,
  a Guerra Fria serviu como desculpa. . . . O sistema do Pentágono foi considerado
  ideal para cumprir estes propósitos. Ele se estendeu para além dos estabelecimentos
  militares, incorporando também o Departamento de Energia. . . e a agência espacial
  NASA, convertida pela administração Kennedy em um componente significante do
  subsídio público dirigido pelo estado para a indústria de ponta. Tais arranjos
  impuseram ao público o pesado encargo dos custos da indústria (pesquisa e desenvolvimento)
  e proporcionaram um mercado garantido ao excesso de produção, um alívio para
  as decisões administrativas. Além disso, essa espécie de política industrial
  não possuía os indesejáveis efeitos colaterais dos gastos sociais dirigidos
  às necessidades humanas. Diante dos efeitos redistributivos, essa política tendeu
  a interferir nas prerrogativas administrativas; uma produção competente poderia
  interferir nos ganhos privados, enquanto que uma produção ruinosa subsidiada
  pelo estado. . . seria uma dádiva para o proprietário e para o administrador,
  para os quais qualquer negócio que pudesse ser descartado seria prontamente
  aceito. Gastos sociais poderiam também despertar o interesse público e participação,
  especialmente aqueles ligados a coisas como 'ameaça à democracia' e assim por
  diante. . . Essas coisas não atrapalharam a alternativa militar keynesiana.
  Por estar razões, o &lt;b&gt;Business Week&lt;/b&gt; escreveu, 'existe uma monumental diferença
  entre estado de refração na economia e refração na economia militar', a última
  é bem mais preferível".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;World Orders, Old and New&lt;/b&gt;, pp. 100-101]&lt;/blockquote&gt;

Com o tempo, o keynesianismo social
adquiriu um forte impulso pelos Estados Unidos, em parte em resposta à luta da
classe trabalhadora, em parte devido à necessidade de apoio popular às eleições
e em parte devido à &lt;i&gt;"popularidade da oposição à guerra do Vietname [que] frustrou
Washington em implementar uma mobilização nacional. . . que poderia ter ocorrido
para completar a conquista sem dano à economia doméstica. Washington foi forçado
a enfrentar uma guerra interna para apaziguar a população, com consideráveis custos
econômicos".&lt;/i&gt; [Noam Chomsky, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, pp. 157-8]
&lt;p&gt;O keynesianismo social dirige parte
  da &lt;i&gt;mais valia total&lt;/i&gt; para os trabalhadores e desempregados enquanto que
  o keynesianismo militar transfere&lt;i&gt; mais valia&lt;/i&gt; da população em geral para
  o capital e do capital para o capital. Isso faz com que P&amp;amp;D e capital sejam
  subsidiados com dinheiro público, ambos essenciais à sobrevivência do capital
  improdutivo. Enquanto os salários reais não ultrapassarem o aumento na produtividade,
  o keynesianismo continuará firme.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A ausência de capital lucrativo foi
  em parte responsável pelo colapso do consenso de pós guerra. No livro que aborda
  a queda econômica de 1966, &lt;b&gt;Monopoly Capital&lt;/b&gt;, o economista radical Baran
  e Sweezy destacam que &lt;i&gt;"se os gastos militares fossem progressivamente reduzidos
  até atingirem as proporções&amp;nbsp; pre-Segunda Grande Guerra a economia das nações
  retornaria a um estado de profunda depressão."&lt;/i&gt; [p. 153]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, a economia dos
  Estados Unidos repousa em um estado de depressão, compensado pelo estado de
  &lt;i&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#disp%C3%AAndio"&gt;dispêndio&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;
  (sobre essas críticas de Baran e Swezzy há um livro excelente, embora um tanto
  quanto pesado para amadores em economia: a obra de Paul Mattick &lt;i&gt;"Monopoly
  Capital"&lt;/i&gt; em &lt;b&gt;Anti-Bolshevik Communism&lt;/b&gt;).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além disso, o mundo vem se tornando
  economicamente "tripolar," com a revitalização da Europa e a emergencia asiática
  com base no Japão compondo as maiores forças econômicas. Isso coloca os Estados
  Unidos sob uma crescente pressão, semelhante à que ocorreu durante a Guerra
  do Vietname. Contudo, a razão principal para seu inevitável colapso é a luta
  social pela classe trabalhadora. O limite na taxa de crescimento necessário
  para que o keynesianismo funcione não vem dos investimentos, mas do nível de
  produção final que consiste naquilo que a população atualmente empregada consome.
  E o investimento é o meio mais rudimentar pelo qual o trabalho, isto é, dominação
  capitalista, é imposto. O capitalismo e o estado não conseguirão segurar por
  muito tempo as lutas da classe trabalhadora represadas pelo sistema.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Essa pressão sofrida pelo capitalismo
  nos Estados Unidos exerce um forte impacto na economia mundial e vem acompanhada
  por uma luta social generalizada através do mundo. Esta luta está sendo dirigida
  contra a hierarquia em geral, com a participação de trabalhadores, estudantes,
  mulheres, grupos étnicos, manifestantes anti-guerra e desempregados, todos prosperamente
  bem organizados na luta contra a autoridade. Esta luta atinge diretamente o
  núcleo hierárquico do capitalismo pois força um aumento no montante da renda
  que vai para o trabalho, o que resulta em arrocho nos lucros (veja a seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm"&gt;C.7&lt;/a&gt;) gerando uma
  crise econômica.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, o keynesianismo
  pós guerra falhou simplesmente por que não pode, em longo prazo, estancar as
  pressões objetivas e subjetivas que o capitalismo sempre enfrentou. &lt;br&gt;
 
&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;p&gt;&lt;small&gt;
&lt;b&gt;termos técnicos&lt;/b&gt; &lt;br /&gt;
&lt;a name="dispêndio"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;dispêndio.&lt;/i&gt; Ato de
efetuar um gasto, muitas vezes sinônimo de despesa (expense). Em termos contábeis,
consiste em efetuar um pagamento ou incorrer na obrigação de fazê-lo, para a aquisição
de um bem ou liquidar uma despesa.
&lt;/small&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;a name="secc83"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;h2&gt;Como o capitalismo se ajustou à crise no keynesianismo?&lt;/h2&gt;
Basicamente pela administração da crise
da década de 1970 disciplinando a classe trabalhadora de forma a colher crescentes,
seguros e extensos lucros, no sentido de elevar o poder das classes dominantes.
Tudo isso foi feito combinando crise, livre mercado e um ajuste no keynesianismo
de forma a fortalecer uma elite da classe governante em sua luta contra o trabalho.

&lt;p&gt;Diante das crises na década de 1970,
  o keynesianismo direcionou seus lucros para o capital enquanto que os trabalhadores
  lançaram-se contra o capital como um todo. O aumento das expectativas e a militancia
  dos trabalhadores foi de tal magnitude que alcançou níveis perigosos. As crises,
  contudo, ajudaram a controlar o poder da classe trabalhadora e foram posteriormente
  utilizadas como meio para salvar o capitalismo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Inicialmente as crises foram utilizadas
  para justificar ataques às pessoas da classe trabalhadora em nome do livre mercado.
  E, de fato, o capitalismo foi construído com base no mercado, amparado por uma
  "rede de segurança", um "estado cujo governo proporciona o bem-estar de seus
  cidadãos, por meio de leis sociais" e pela expectativa da riqueza. Vimos um
  retorno parcial&amp;nbsp; &lt;i&gt;"àquilo que os economistas chamam de liberdade da indústria
  e do comércio, mas que realmente significa o alívio da indústria diante do fustigamento
  e da supervisão repressiva do Estado, e proporcionar inteira liberdade para
  explorar o trabalhador, ao ponto de privá-lo de sua liberdade."&lt;/i&gt; [Peter Kropotkin,
  &lt;b&gt;The Great French Revolution&lt;/b&gt;, p. 28] A "crise de democracia" foi superada
  e substituída pela &lt;i&gt;"liberdade de explorar o trabalho humano sem qualquer
  salvaguarda para as vítimas de tal exploração e pelo poder político organizado
  de forma a garantir liberdade de exploração pela classe média."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op.
  Cit.&lt;/b&gt;, p. 30]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São estas coisas que se escondem
  atrás da retórica do "livre mercado" capitalista, o keynesianismo foi usado
  para administrar as crises da mesma forma que foi usado para administrar a prosperidade.
  O "Lado da Oferta" na economia (combinado com o dogma neoclássico) foi usado
  para suprimir e destruir o poder da classe trabalhadora para que o capital possa
  usurpar mais lucro da classe trabalhadora. O desemprego foi usado para disciplinar
  a força de trabalho militante e fazendo com que os trabalhadores lutassem &lt;b&gt;por&lt;/b&gt;
  trabalho em vez de &lt;b&gt;contra&lt;/b&gt; a escravidão assalariada. O medo de perder
  seu emprego faz com que o trabalhador trabalhe mais depressa, mais horas, em
  péssimas condições, sem equipamentos de segurança e com baixos salários, aumentando
  os lucros que são extraídos diretamente dos trabalhadores pela redução dos custos
  operacionais e pela reduzida estabilidade e segurança do emprego, e assim por
  diante. O "mercado" de trabalho foi fragmentado em larga escala pela pobreza,
  atomisado em unidades onde os sindicatos lutam em uma batalha que já está perdida
  em face do estado de recessão.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este disciplinamento da classe trabalhadora
  resultou em que mais que o dobro da renda fosse direcionada ao capital comparado
  com aquilo que vai para o "trabalho". Entre 1979 e 1989, a renda total do trabalho
  subiu em 22.8%, a renda total do capital subiu em 65.3% e o lucro em ganhos
  de capital em 205.5%. O valor real oriundo de benefícios sociais "standard welfare
  benefit packag" também declinaram algo em torno de 26 por cento desde 1972.
  [Edward S. Herman, &lt;i&gt;"Immiserating Growth: The First World"&lt;/i&gt;, &lt;b&gt;Z Magazine&lt;/b&gt;].
  O economista Victor Fuch da Universidade de Stanford estima que as crianças
  nos Estados Unidos foram privados de 10 a 12 horas da presença de seus pais
  entre 1960 e 1986, conduzindo a uma deterioração nos valores e nas relações
  de família. O desemprego e o subemprego continuam se espalhando por toda parte,
  com os novos empregos sendo temporários.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É importante destacar também que
  neste índice de crescimento da renda que vai para o trabalho está incluído também
  os "salários" dos altos executivos (CEOs) e da nata dos administradores. Conforme
  já notamos, tais "salários" são parte da mais valia extraída dos trabalhadores
  e não podem ser tidos como renda para o "trabalho". O fato de Reagan se defrontar
  com a luta de classes da década de 80 é que enquanto as rendas dos altos executivos
  subiam como um foguete, o salário dos trabalhadores permaneciam estáveis ou
  caiam em termos absolutos. Por exemplo, o salário médio por hora dos trabalhadores
  na produção dos Estados Unidos caiu cerca de 13% desde 1973 (isso não quer dizer
  que apenas os trabalhadores na área da produção criam mais valia ou são "a classe
  trabalhadora"). Em contraste, os executivos estadunidenses hoje recebem 150
  vezes mais que a média dos ganhos dos trabalhadores. Previsivelmente 70% dos
  recentes ganhos em renda percapita foram abocanhados pelos 1% mais ricos (enquanto
  que os mais pobres perderam em termos absolutos). [Chomsky, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
  p. 141]. A desigualdade nas rendas tem aumentado, com a renda do quinto mais
  pobre da população dos Estados Unidos caindo em 18%, enquanto que a do quinto
  mais rico aumentou em 8%.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os meios indiretos de crescimento
  das quotas de capital na renda social também são utilizados, tais como a redução
  na regulação do meio ambiente, transferindo os custos da poluição para a corrente
  e futuras gerações. Na Inglaterra, os monopólios de propriedade estatal foram
  privatizados para derrubar os preços proporcionando ao capital privado um aumento
  em seus recursos por pagarem apenas uma fração do custo real. Na verdade, algumas
  das indústrias nacionais foram privatizadas &lt;b&gt;como monopólios&lt;/b&gt; permitindo
  que os lucros monopolísticos fossem extraídos dos consumidores por muitos anos
  até que o estado promovesse a competição nestes mercados. A taxação indireta
  também cresceu, sendo usada para reduzir o consumo da classe trabalhadora, no
  mais alto estilo do keynesianismo adotado pelo Pentágono.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A exploração das nações subdesenvolvidas
  aumentou com os $418 bilhões que foram transferidos para o mundo desenvolvido
  entre 1982 e 1990 [Chomsky, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 130].&amp;nbsp; O capital também
  se ampliou em todo mundo pela utilização dos avanços tecnológicos movendo capital
  para países do terceiro mundo onde a repressão do estado assegura uma menor
  militancia da classe trabalhadora. Essa transferência trouxe o aumento do desemprego
  para o mundo desenvolvido, exercendo mais pressão na resistência da classe trabalhadora.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Essa política de luta de classes,
  uma resposta ao sucesso da luta de classe implementada pelos trabalhadores nas
  décadas de 1960 e 1970, obviamente ceifou todos os benefícios conquistados do
  capital. A renda obtida pelo capital aumentou e a renda obtida pelo trabalho
  declinou. O "mercado de trabalho" acabou disciplinado em ato grau (embora não
  totalmente). Os trabalhadores passaram, em alto gráu, de participantes para
  espectadores, bem a gosto de qualquer sistema hierárquico. O impacto humano
  dessa política é incalculável. Foi espantosa a utilidade do dogma neoclássico
  para a elite - ele pode ser usado pelo rico, e pelos poderosos para justificar
  a implementação de politicas sociais que criam pobreza e provocam a morte de
  crianças.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conforme Chomsky argüi, &lt;i&gt;"um aspecto
  marcante da internacionalização da economia é a extensão do abismo que separa
  o Terceiro Mundo dos países do Primeiro Mundo. A doutrina do mercado tornou-se
  uma arma ideológica essencial&amp;nbsp; que pode ser usada a vontade, sua aplicação
  altamente seletiva é seguramente obscurecida pelo sistema doutrinal. Riqueza
  e poder se concentram progressivamente. Os serviços para o público em geral
  - educação, saúde, transporte, bibliotecas, etc. - tornaram-se supérfluos para
  os responsáveis por esses serviços, restringindo-os ou descartando-os inteiramente".&lt;/i&gt;
  [&lt;b&gt;Year 501&lt;/b&gt;, p. 109]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A recessão administrada pelo estado
  tem obtido seu sucesso. Os lucros das companhias sobem a medida que os "custo
  competitivo" dos trabalhadores é reduzido devido ao medo do desemprego. O &lt;b&gt;Wall
  Street Journal&lt;/b&gt; referindo-se à performance da economia nos três primeiros
  meses de 1995, deu a seguinte manchete &lt;i&gt;"Lucro das Companhias Oscilam 61%,
  Sobem os Preços, Custos são Cortados".&lt;/i&gt; A taxa de lucros subiu 62% em 1993,
  e apenas de julho a setembro subiu 34%. Enquanto os trabalhadores estadunidenses
  enfrentam as forças de mercado, as Corporações alcançam lucros recordes em 1994.
  O &lt;b&gt;Business Week&lt;/b&gt; estimou que os lucros em 1994 ultrapassaram &lt;i&gt;"o fantástico
  lucro de 41% obtido [em 1993],"&lt;/i&gt; a despeito da queda em 9% nas vendas. Um
  &lt;i&gt;"sucesso colossal",&lt;/i&gt; em grande parte resultado de um &lt;i&gt;"corte" &lt;/i&gt;na
  &lt;i&gt;"quota destinada ao trabalho" &lt;/i&gt;embora &lt;i&gt;"os economistas digam que o trabalho
  será beneficiado -- eventualmente".&lt;/i&gt; [citado por Noam Chomsky, &lt;i&gt;"Rollback
  III"&lt;/i&gt;,&lt;b&gt;Z Magazine&lt;/b&gt;, April 1995]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alem disso, para o capital, o keynesianismo
  continua funcionando como antes, combinado (usualmente) com orações e milagres
  do mercado. Por exemplo, Michael Borrus, co-diretor do Berkeley Roundtable do
  International Economy (uma corporação comercial e tecnológica formada por institutos
  de pesquisa), menciona um estudo de 1988 do Departamento do Comércio que revela
  que &lt;i&gt;"cinco das seis indústrias estadunidenses que mais cresceram de 1972
  a 1988 foram patrocinadas ou sustentadas, direta ou indiretamente, por investimentos
  federais. . . Computadores, biotecnologia, equipamentos, e aviões"&lt;/i&gt; tudo
  proporcionado como &lt;i&gt;"subproduto de gastos públicos". &lt;/i&gt;[citado por Chomsky,
  &lt;b&gt;World Orders, Old and New&lt;/b&gt;, p. 109]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conforme James Midgley destaca, &lt;i&gt;"a
  participação agregada do setor público não diminuiu durante os anos 1980, apenas
  alterou sua aplicação. A politica orçamentaria suprimiu os recursos existentes
  no campo social dirigindo-os para o campo militar e para o aparato repressivo".&lt;/i&gt;
  [&lt;i&gt;"The radical right, politics and society"&lt;/i&gt;, &lt;b&gt;The Radical Right and
  the Welfare State&lt;/b&gt;, Howard Glennerster e James Midgley (eds.), p. 11]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na realidade, os Estados Unidos bancam
  um terço de todos projetos civís de pesquisa e desenvolvimento (P&amp;amp;D), um
  subsídio semelhante ao que ocorre no Reino Unido. [Chomsky, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;,
  p. 107].&amp;nbsp; Após o colapso generalizado das Associações de Empréstimo e Poupança
  pela corrupção e especulação desenfreada, os anos 1980 pro-"livre mercado" trouxeram
  consigo a alegre e saltitante administração republicana, revelando que as forças
  do mercado pertenciam a uma só classe.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;As corporações proprietárias dos
  meios de comunicação de massa atacam o keynesianismo social, quando não permanecem
  em silêncio ou justificam a intervenção estatal pró-empresarial. Combinado com
  as monumentais corporações da direita &lt;i&gt;"solucionadora de problemas"&lt;/i&gt; contratadas
  para explicar porque os programas sociais são contra-produtivos, enquanto que
  o sistema corporativo estatal tenta trapacear a população induzindo-a a pensar
  que não existe outra alternativa que não seja o mercado, enquanto uma elite
  enriquece a si mesma às custas do dinheiro público.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, o keynesianismo social foi
  substituído pelo keynesianismo do Pentágono disfarçado sob a retórica do dogma
  do "livre mercado". Combinado como uma estranha mistura de livres mercados (para
  muitos) e intervenção estatal (para uma seleta minoria), o estado tem se tornado
  mais forte e mais centralizado e &lt;i&gt;"prisões também oferecem um estímulo keynesiano
  para a economia, tanto o negócio da construção como o emprego do colarinho branco;
  as profissões que mais crescem são aquelas relacionadas à segurança pessoal".&lt;/i&gt;
  [Chomsky, &lt;b&gt;Year 501&lt;/b&gt;, p. 110]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enquanto isso, a resistência da classe
  trabalhadora persiste, em grande parte na defensiva, mas, como ocorreu no passado,
  essa situação pode e deve mudar. Até mesmo a noite mais escura chega a um fim
  com o alvorecer e as luzes da resistência da classe trabalhadora que podem ser
  vistas através de todo o globo. Por exemplo, a luta contra os impostos na Inglaterra
  sob o governo de Thatcher foi vitoriosa da mesma forma que muitas lutas semelhantes
  que tem sido travadas através dos Estados Unidos e Europa Ocidental, o levante
  zapatista no México é inspirador como também o é as contínuas manifestações
  e greves através do mundo. Mesmo sob a repressão do estado e a recessão econômica
  administrada, a classe trabalhadora está retornando à luta. A função dos anarquistas
  é encorajar esses lampejos de liberdade e ajudar em sua vitória.&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 13:25:28 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/e-o-controle-estatal-do-dinheiro-que-provoca-o-ciclo-economico</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/e-o-controle-estatal-do-dinheiro-que-provoca-o-ciclo-economico</guid></item><item><title>O laissez-faire capitalista reduz o desemprego conforme afirmam os defensores do"livre mercado" capitalista?</title><description>&lt;p&gt;Antes de mais nada, é bom que fique claro que o "capitalismo que
realmente existe" atualmente no mundo ocidental administra o desemprego
para garantir altas taxas de lucro para a classe capitalista (veja &lt;a href="secC8.htm#secc83"&gt;section
C.8.3&lt;/a&gt;) - proporcionando disciplina de mercado para a classe trabalhadora
e proteção de estado para a classe dominante. Ou, em outras
palavras, conforme Edward Herman destaca:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Os economistas conservadores vêm desenvolvendo um
conceito de 'taxa natural de desemprego' [que Herman define como "a taxa
de desemprego preferida pelas classes dominates"] . . . [que] é
definida como um nível mínimo harmonioso com a estabilidade
do nível de preços, mas, pelo fato disso ser baseado em um
modelo altamente abstrato impossível de ser diretamente testado,
essa taxa natural pode apenas ser aferida apenas pelo próprio patamar
dos preços. Ou seja, se os preços sobissem, o desemprego
cairia para sua "taxa natural" e cairia bastante. . . Aparte da vulgaridade
dessa espécie de mágica metafísica, a verdade é
que este conceito de taxa natural de desemprego possui uma enorme carga
de preconceito imbutida dentro dele. Tal conceito despreza todos os outros
fatores institucionais que influenciam tanto nos preços como no
nível de desemprego (estruturas de mercado e independência
na tomada de preços, política de investimento comercial doméstica
ou extrangeira, distribuição de renda, confusão monetária
e fiscal, etc.) focando rigidamente apenas o mercado de trabalho como a
variável válida para verificação. Quando a
inflação é a principal ameaça, o mercado de
trabalho (ou seja, o valor dos salários e os índices de desemprego)
passa a ser o local para a solucão do problema".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Beyond
Hypocrisy&lt;/b&gt;, p. 94]&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
De certo modo, é compreensível que a classe dominante dentro
do capitalismo manipule o desemprego a seu bel prazer, arraste brasa para
sua sardinha, aumente seu poder e lide com o mercado de trabalho como sendo
mais uma de suas muitas propriedades. Da mesma forma que a administracão
da hierarquia proporciona segurança, a administração
da depressão (caracterizada pelo alto índice de desemprego)
proporciona a extração de altos lucros às custas dos
trabalhadores. Em tempos difíceis os trabalhadores pensam duas vezes
antes de enfrentar seus patrões, trabalham mais intensamente, por
mais tempo e em piores condições. Isso faz com que haja um
aumento da&lt;i&gt; mais valia&lt;/i&gt; extraída do salário real (na
realidade, nos E.U., o salário real permanece estagnado desde 1973
enquanto que os lucros crescem vertiginosamente). Além disso, essa
situacão faz com que a discussão política sobre investimento,
lucros, poder e daí por diante (&lt;i&gt;"os outros fatores institucionais"&lt;/i&gt;)
seja minimizada e desviada porque a classe trabalhadora está ocupada
demais para poder se reunir.
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naturalmente, o que se pode concluir é que essa taxa "natural"
invisível e mutável é tão inútil quanto
tresloucada -- do ponto de vista da evidência histórica você
pode provar qualquer coisa com um valor invisível, mutável.
Nessa mesma linha, qualquer tentativa de manter uma taxa "natural" também
é uma atitude tresloucada na medida em que estabelece um único
método, a observação dos níveis de inflação
(e com um valor invisível, variável, a teoria é sempre
verdadeira após o fato -- se a inflação sobe junto
com o desemprego, então a taxa natural aumenta; se a inflação
cai e o desemprego sobe, ela cai!). O que significa que a medida que as
pessoas se tornam desempregadas e quase nula a possibilidade de que a taxa
de desemprego desça aproximando-se da (invisível e variável)
taxa&amp;nbsp; "natural", prejudicando os interesses da classe dominante (inflação
alta atrapalha ganhos de renda, pleno emprego esmaga lucros pelo crescimento
do poder dos trabalhadores). Diante do fato de que os principais economistas
subscrevem essa falácia, fica evidente o quanto essa "ciencia" se
adapta às necessidades dos poderosos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, os defensores do "livre mercado" capitalista estão diante
de algo inegável, "o capitalismo de nossos dias" criou altos níveis
de desemprego. A questão que surge agora é: o capitalismo
"puro" criará pleno emprego?

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alguns defensores do "livre mercado" capitalista dizem que o mercado
em geral não tem nenhuma tendência ao equilíbrio, significando
que o pleno emprego é impossivel-- uma "óbvia" conclusão
dificilmente explicável até mesmo do ponto de vista de suas
próprias teorias. Contudo, a maioria admite que o pleno emprego
pode ocorrer. Os anarquistas concordam, o pleno emprego pode ocorrer em
um "livre mercado" capitalista, mas não para sempre (nem por longos
períodos). Conforme o economista polonês Michal Kalecki pontuou
referindo-se ao capitalismo pre-keynesiano, a &lt;i&gt;"reserva de equipamentos
de capital e a reserva do exército de desempregados são caracteristicas
típicas da economia capitalista que integram, de ponta a ponta,
uma consideravel parcela do ciclo [econômico]".&lt;/i&gt; [citado por George
R. Feiwel, &lt;b&gt;The Intellectual Capital of Michal Kalecki&lt;/b&gt;, p. 130]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ciclos de curtos períodos de pleno emprego e longos períodos
de alta e queda do desemprego são, na verdade, resultado das intervenções
do "livre mercado" capitalista no sentido de impedir o pleno emprego. Conforme
demonstramos nas seções
&lt;a href="secB4.htm#secb44"&gt;B.4.4&lt;/a&gt;
e &lt;a href="secC7.htm#secc71"&gt;C.7.1&lt;/a&gt; o capitalismo necessita do desemprego
para funcionar com sucesso, de forma que o "livre mercado" capitalista
experimente períodos de &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; e colapso, com o desemprego
crescendo e decrescendo através do tempo (como pode ser visto no
capitalismo desde o século 19). Assim, é improvável
que ocorra o pleno emprego por um longo tempo sob o capitalismo (ou que
o boom do pleno emprego prevaleça durante a maior parte de um ciclo
econômico completo). Além do mais, a noção de
que o capitalismo naturalmente tenda ao equilíbrio ou que o desemprego
é um ajuste temporário e falsa, mesmo diante da lógica
da economia neo-clássica. Conforme Proudhon argüi:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Os economistas admitem isso [que o maquinário causa
desemprego]: mas aqui eles repetem seu eterno refrão de que, após
um lapso de tempo, a procura pelos produtos crescerá quando os preços
cairem [causado pelo investimento], no fim, o trabalho voltará a
ser grandemente necessário para atender à demanda. Não
há dúvida de que, &lt;b&gt;com o tempo,&lt;/b&gt; o equilíbrio
será restaurado; mas preciso dizer mais uma vez que essa posição
de equilíbrio não se manterá por muito tempo sem que
seja perturbada, porque o espírito da astúcia nunca para.
. ."&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;System of Economical Contradictions&lt;/b&gt;, pp. 200-1]&lt;/blockquote&gt;

Que o capitalismo cria desemprego permanentemente e, de fato, necessita
dele para poder funcionar é uma conclusão que poucos, ou
quase nenhum, capitalistas pro-"free market" subscreveria. Diante da empírica
evidência de que o pleno emprego é raro no capitalismo, eles
argumentam que a realidade não é suficientemente conclusiva
para suas teorias e que precisa ser mudada (geralmente pelo enfraquecimento
do poder do trabalho por uma"reforma" que provoque o bem estar reduzindo
o "poder sindical"). Esta realidade é o fato, não a teoria
(citando Proudhon novamente, &lt;i&gt;"A economia política -- ou seja,
o despotismo dos proprietários -- nunca pode induzir ao erro: ele
sempre vem do proletariado".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 187]). Assim, se
o desemprego existe, é porque os salários reais estão
muito altos, não porque os capitalistas necessitam do desemprego
para disciplinar o trabalho (veja na &lt;a href="#secc92"&gt;section C.9.2&lt;/a&gt;
as provas de que a teoria neo-clássica é falsa). Ou se os
salários reais caem na medida em que o desemprego aumenta, isso
pode apenas significar que o salário real não está
caindo suficientemente rápido -- a evidência empírica
nunca é suficientemente empírica para jogar por terra as
deducões lógicas dos enunciados!
&lt;p&gt;(Apenas como aparte, este é um dos assombrosos aspectos da "ciência"
econômica onde a evidência impírica nunca é suficiente
para refutar suas alegações. Como o economista da ala esquerda
Nicholas Kaldor uma vez colocou, &lt;i&gt;"contrapondo-se a qualquer teoria científica,
onde as premissas básicas são fundamentadas na observação
direta do fenômeno e da performance do objeto de estudo da teoria,
as premissas básicas da teoria econômica se apresentam de
tal forma que não podem ser verificadas. . . ou são diretamente
desmentidas pela observação"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Further Essays on Applied
Economics&lt;/b&gt;, pp. 177-8]. Por exemplo, se tomarmos uma expressão
econômica padrão "a longo prazo", podemos afirmar que a menos
que o tempo seja efetivamente fornecido sempre haverá margem à
obcuridade por mais que se juntem evidencias para a aceitação
ou rejeição da teoria).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Naturalmente, muitas vezes a realidade fala mais alto que qualquer ideologia.
Por exemplo, desde o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980
os partidos da direita capitalista tomaram o poder em muitos paises através
do mundo. Tais regimes estabeleceram muitas reformas pro livre mercado,
argüindo que uma boa dose de forças de mercado diminuiria o
desemprego, aumentaria o&amp;nbsp; crescimento e daí por diante. A realidade
demonstrou algo muito diferente. Por exemplo, no Reino Unido, durante o
tempo em que o Partido Trabalhista voltou à ativa em 1997 sob a
batuta de Tony Blair , o desemprego (até então em queda)
disparou de tal forma que quando o governo Trabalhista saiu de cena em
maio de 1979 os indicadores mostravam um índice de desemprego mais
elevado do que quando entrou. Nas palavras de dois críticos do neo-liberalismo,
a &lt;i&gt;"performance do mundo econômico sob o capital liberalizado ficou
ainda pior do que quando era rigidamente controlado"&lt;/i&gt; e que &lt;i&gt;"sem
sombra de duvida, a atual performance [do capitalismo liberalizado] não
sobreviveria sem a propaganda".&lt;/i&gt; [Larry Elliot e Dan Atkinson, &lt;b&gt;The
Age of Insecurity&lt;/b&gt;, p. 274, p. 223]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por fim, uma rápida olhadela na história do capitalismo
durante o auge de seu laissez-faire no século XIX é suficiente
para ver que "livre" competição entre trabalhadores por emprego
não conduz ao pleno emprego. Entre 1870 e 1913, o desemprego alcançou
um patamar de 5,7% nos 16 paises capitalistas mais avançados. Comparando-o
aos patamares de 7,3% entre 1913-50 e 3,1% entre 1950-70, é fácil
concluir que se o laissez-faire realmente conduzisse ao pleno emprego,
tais números seriam opostos. Conforme discutimos anteriormente (na
&lt;a href="secC7.htm#secC71"&gt;seção
C.7.1&lt;/a&gt;), o pleno emprego
&lt;b&gt;jamais&lt;/b&gt; será uma característica
capitalista, devido à natureza autoritária do capitalismo
e por necessitar da produção voltada para o lucro. Para resumir,
o desemprego está mais ligado à propriedade privada que com
os salários de nossos companheiros trabalhadores.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto, é bastante proveitosa essa discussão que demonstra
que os defensores do "livre mercado" capitalista estão errados quando
afirmam que o desemprego dentro de seu sistema não existirá
por longos períodos de tempo. Além disso, a pobreza dessa
teoria é tal que em vez de ser "solução" ela causa
ainda mais desemprego e aumenta a miséria humana. Trataremos disso
na &lt;a href="#secc91"&gt;próxima secão&lt;/a&gt;.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="secc91"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;Corte salarial reduz desemprego?&lt;/h2&gt;
Segundo os defensores do capitalismo "livre mercado" (neoclássico,
neo-liberal ou "austríaco") o desemprego surge quando o salário
real dos trabalhadores atinge patamares mais elevados do que aqueles que
o mercado pode comportar. Os trabalhadores, dizem, têm mais interesse
em salário monetário do que em salário real (o montante
de bens que pode ser adquirido com o salário monetário).
Isso resulta em oposição ao corte salarial quando os preços
caem, provocando um aumento no salário real. Em outras palavras,
há aumento de salário sem aumento de trabalho (a validade
dessa afirmação de que o desemprego é causado pela
elevação dos salários será discutida na &lt;a href="#secc92"&gt;próxima
seção&lt;/a&gt;).
&lt;p&gt;Desta análise surge o argumento de que se os trabalhadores competissem
"livremente" entre si pelas vagas, os salários reais cairiam. Isso
reduziria os custos de produção e paulatinamente produziria
uma expansão na produção que geraria novos empregos.
Assim, o desemprego cairia. A intervenção do Estado (ou seja,
auxílio desemprego, programas sociais, direitos de organização,
leis de salário mínimo, etc.) e a atividade sindical, de
acordo com esta teoria, é a causa do desemprego, por suas intervenções
e atividades elevarem os salários a patamares que o mercado não
pode suportar, aumentando os custos de produção e "forçando"
os patrões a "mandar gente embora".

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto, de acordo com a teoria econômica neo-clássica,
as empresas ajustam sua produção equalizando o custo marginal
de seus produtos (o custo de producão de um ou mais ítens)
com os preços dos produtos determinados pelo mercado. Uma queda
nos custos conduziria teoricamente a uma expansão na producão,
gerando empregos para os desempregados "temporários" e movendo a
economia em direção a uma equilibrada condição
de pleno emprego.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dessa forma, segundo a teoria neo-clássica, o desemprego diminuiria
pela redução do salário real dos trabalhadores atualmente
empregados. Assim, na teoria neo-clássica, o desemprego pode ser
reduzido pela redução dos salários reais dos trabalhadores
correntemente empregados. De qualquer forma, estes argumentos são
falsos. Embora o corte nos salários possa fazer sentido para uma
determinada empresa, ele pode não surtir este efeito na economia
como um todo (ou reduzir o desemprego no país como um todo). Em
todas as versões da teoria neo-clássica, presume-se que os
preços dependem (pelo menos em parte) dos salários. Segundo
eles, se todos os trabalhadores aceitassem cortes em seus salários,
todos os preços cairiam trazendo uma diminuta redução
no poder de compra dos salários. Em outras palavras, a queda do
salário monetário reduziria os preços mantendo os
salários reais quase inalterados enquanto que o desemprego diminuiria.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além disso, mesmo que os preços permanecessem inalterados
ou caissem um pouco, o efeito deste corte nos salários reais não
geraria novos empregos, pelo contrário os reduziria. O consumo das
pessoas depende de seus salários, e se seus salários caem,
em termos reais, o mesmo ocorre com seu consumo. Conforme Proudhon destacou
em 1846, &lt;i&gt;"se o produtor ganhar menos, ele comprará menos. . .
gerando. . . &lt;a href="#superprodu%C3%A7%C3%A3o"&gt;superprodução&lt;/a&gt; e
escassez"&lt;/i&gt; porque &lt;i&gt;"embora os trabalhadores representem algum custo
para você [capitalista], eles são seus clientes: o que você
fará com seus produtos, quando estiverem fora de seu controle, não
serão mais consumidos? Dessa maneira, o maquinário. . . não
afetará . . . os empregados; pois, na medida em que não há
consumo, ele [o maquinário] logo terá que parar".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;System
of Economical Contradictions&lt;/b&gt;, p. 204, p. 190]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todavia, alguém pode argumentar que a renda real não cairia:
as rendas provenientes dos lucros cresceria. Mas devido à extração
de renda dos trabalhadores pelos capitalistas. Um grupo que tende a gastar
uma pequena parcela de sua renda consumindo menos que os demais trabalhadores,
poderá reduzir a procura efetiva e criar desemprego. Conforme David
Schweickart pontuou, quando os salários caem, o poder aquisitivo
dos trabalhadores despenca junto; se não houver uma espécie
de compensação, a demanda total irá declinar. [&lt;b&gt;Against
Capitalism&lt;/b&gt;, pp. 106-107]. Em outras palavras, ao contrário do
que reza a cartilha econômica neo-clássica, o equilíbrio
do mercado pode ser estabilizado mediante um determinado nível de
desemprego.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas para a teoria capitalista do "livre mercado", tal possibilidade
de equilíbrio do mercado é impossível. O neo-liberalismo
rejeita a tese de que o corte nos salários reais apenas diminuem
a procura pelos bens de consumo sem que os investimentos automaticamente
cresçam o suficiente para compensa-lo. Os neoclássicos argumentam
que os investimentos crescerão compensando o declínio do
consumo da classe trabalhadora.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contudo, para que isso ocorra, essa teoria depende de três hipóteses
críticas, que as empresas possam expandir a produção,
que elas expandam de fato a produção e que, se isso ocorrer,
elas possam vender sua produção excedente. Contudo, tal teoria
e suas hipóteses são questionáveis.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A primeira hipótese admite que sempre é possível
para uma companhia contratar novos trabalhadores. Ora, se a produção
de bens e serviços não estão disponíveis, não
serão gerados novos empregos. Portanto a hipótese de que
sempre é possível contratar mais empregados para poder aumentar
a produção não condiz com a realidade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quanto à outra, será que as empresas aumentam sua produção
quando os custos do trabalho caem? Dificilmente. Aumento na produção
aumentará a oferta corroendo os altos lucros devido a queda nos
salários. Se o desemprego produziu uma queda generalizada nos salários
de mercado, as companhias podem usar essa oportunidade para substituir
seus atuais empregados ou forçá-los a aceitar um corte salarial.
Se isso acontecer, não haverá aumento nem na producão
nem no emprego. Contudo, pode ser alegado que os altos lucros aqueceriam
os investimentos de capital na economia (uma tese chave do neo-liberalismo).
A resposta é óbvia: talvez sim, talvez não. Um colapso
na economia pode induzir a precauções financeiras e muitos
capitalistas podem paralisar seus investimentos convencidos de que obterá
lucros maiores mais tarde.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isso interfere diretamente na última hipótese, que os
bens produzidos serão vendidos. Mas quando os salários caem,
levam consigo o poder aquisitivo dos trabalhadores, e sem a compensação
de um crescimento generalizado, a demanda total cairá. Conseqüentemente
queda salarial pode resultar no mesmo ou em maior desemprego na medida
em que&amp;nbsp; o excesso de demanda agregada e as companhias não encontram
mercado para seus produtos. Assim, as corporações não
conseguem (não podem) naquele momento movimentar seus grandes fundos
provocando subtração dos salários por lucros de investimento
(inclusive por causa de precauções financeiras ou mesmo de
ausencia de recursos disponíveis). Isso reduzirá a demanda
agregada devido aos lucros estarem acumulados mas não aplicados,
gerando encalhamento de produtos e freqüentes reduções
nos preços. Isso significa que o corte nos salários reais
será neutralizado pelos cortes nos preços necessários
ao descarte de produtos encalhados e pelo conseqüente desemprego.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, a tradicional resposta neo-clássica de que o investimento
aumenta na medida em que os custos baixam e geram grandes lucros revela-se
falsa, pois o que ocorre na realidade é uma grande poupança,
que, no final das contas, acaba enfraquecendo o investimento. Custos mais
baixos significa grandes lucros apenas se os produtos forem vendidos, coisa
difícil de ocorrer uma vez que a procura é afetada de forma
adversa. Em outras palavras, uma &lt;i&gt;alta margem de lucro&lt;/i&gt; &lt;b&gt;não&lt;/b&gt;
resulta em &lt;i&gt;altos lucros&lt;/i&gt; devido à queda no consumo causada
pela redução do poder aquisitivo dos trabalhadores. E, conforme
Michal Kalecki argüi, no combate à queda econômica o
corte nos salários pode ser ineficaz porque os ganhos nos lucros
não são sentidos imediatamente e a reducão do poder
de compra resultante dos cortes nos salários provocam uma queda
nas vendas, significando que altas margens de lucro não resultam
necessariamente em maiores lucros. O próprio Keynes destacou muito
tempo atráz a diferença entre a força e a motivação
da &lt;i&gt;poupança&lt;/i&gt; governamental e a força e a motivacão
do &lt;i&gt;investimento&lt;/i&gt; governamental. Conseqüentemente não
há qualquer necessidade desses dois valores sempre coincidirem.
Assim, conforme as empresas reduzem os salários, tornam-se incapazes
de vender como vendiam antes. Nesse ponto implementarão cortes na
produção, aumentando o desemprego e uma futura queda na demanda.
Isso pode gerar uma queda em parafuso na procura, estancando a produção
e conduzindo à depressão (os resultados políticos
de tal processo seria perigoso para a continuacão e sobrevivência
do próprio capitalismo). Essa queda em parafuso é descrita
por Kropotkin (aproximadamente 40 anos antes de Keynes fazer a mesma colocação
em sua obra

&lt;b&gt;General Theory of Employment, Interest and Money&lt;/b&gt;):
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Os lucros constituem a base da indústria capitalista,
baixos lucros explicam tudo o que vem depois.&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;"Baixos lucros levam patrões a reduzir salários, ou
o número de trabalhadores, ou o número de dias de trabalho
durante a semana. . . Baixos lucros, em última análise, significa
redução de salários, baixos salários significa
redução do consumo pelo trabalhador. Baixos lucros significa
em certo grau também uma redução de consumo pelo patrão;
tudo isso significa baixos lucros e redução de consumo da
imensa classe média que cresce nos países industrializados,
o que, por sua vez, significa uma futura redução nos lucros
dos patrões".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Fields, Factories and Workshops Tomorrow&lt;/b&gt;,
p. 33]&lt;/blockquote&gt;
Assim, o corte de salários agrava ainda mais a queda econômica,
tornando-a mais profunda e ampla do que poderia ter sido. Em vez de ser
a solução para o desemprego, o corte nos salários
a tornará pior (mais abaixo discutiremos mais sobre essa questão
sobre salários altos enquanto causa número um do desemprego,
conforme sustentado pelos economistas neoclássicos). Conforme argüimos
na &lt;a href="secC7.htm#secc71"&gt;seção C.7.1&lt;/a&gt;, a inflação
é causada por lucros insuficientes dos capitalistas (eles tentam
manter suas margens de lucro aumentando preços) esse efeito espiral
de corte de salários ajuda a explicar aquilo que os economistas
chamam de "estagflacão" -- aumento de desemprego combinado com alta
de inflação (conforme ocorreu nos anos 1970). Na medida em
que aumenta o exército de desempregados, a demanda agregada cai,
cortanto progressivamente os lucros marginais. Reagindo a isso, os capitalistas
aumentam os preços tentando repor perdas. Apenas uma profunda recessão
pode interromper esse ciclo (com prejuízos incalculáveis
à militancia do trabalho e à maioria dos trabalhadores e
suas famílias). Em outras palavras, a classe trabalhadora paga um
alto preço pelas contradições do capitalismo.
&lt;p&gt;Tudo isso significa que as pessoas que compõem a classe trabalhadora
tem duas opções diante de uma queda econômica -- aceitar
uma profunda depressão de forma a recomeçar novamente o ciclo
prosperidade-queda ou libertar-se do capitalismo e da natureza contraditoria
da produção capitalista que coloca o ciclo econômico
acima de tudo (sem mencionar outros males como hierarquia e desigualdade).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O &lt;a href="#efeito"&gt;efeito Pigou&lt;/a&gt; (ou "balança real") é
outro argumento neoclássico que pretende provar que (no final) o
capitalismo passará da queda econômica para a prosperidade.
Esta teoria argüi que quando o desemprego é suficientemente
alto, ele derruba os índices de preços, aumenta o valor real
da oferta de moeda e eleva o valor real da poupança. As pessoas
com tais recursos enriquecerão trazendo uma época de prosperidade
onde as pessoas compram mais bens aquecendo novamente os investimentos.
Desta forma, a queda econômica, naturalmente, se transforma em prosperidade.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todavia, esse argumento é falso em muitos aspectos. Como resposta,
Michal Kalecki argüi que, primeiramente, Pigou &lt;i&gt;"assumira que o
sistema bancário manteria a base monetária constante diante
da queda na renda, embora não revelasse nenhuma razão particular
para isso".&lt;/i&gt; Se a base monetária mudasse, o valor monetário
também mudaria. Em segundo lugar, que &lt;i&gt;"o ganho monetário&amp;nbsp;
permanece quando os preços caem devido ao prejuízo dos provedores
de dinheiro. Quando os preços caem o valor real de um depósito
bancário aumenta para o correntista, enquanto que a dívida
do banco representada por aquele depósito aumenta".&lt;/i&gt; E, terceiro,
&lt;i&gt;"que
a queda nos preços e salários significa que o valor real
dos débitos não liquidados aumenta, seus tomadores encontram
uma crescente dificuldade em pagá-los em virtude do aumento real
do valor do débito. De fato, quando preços e salários
desabam isso ocorre em virtude dos baixos níveis de demanda, quando
a renda de valor agregado cai. Então virão falências,
dívidas não serão pagas, e será instalada uma
crise de confiança".&lt;/i&gt; Em outras palavras, os devedores acabam
derrubando os preços quando gastam mais que os credores desejariam,
fazendo com que a depressão continue porque a demanda não
sobe. [Malcolm C. Sawyer, &lt;b&gt;The Economics of Michal Kalecki&lt;/b&gt;, p. 90]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tais considerações, de Schweickart, Kalecki e outros pela
sua absoluta correção destroçam a argumentação
neo-clássica de que os sindicatos e a intervenção
estatal são responsáveis pelo desemprego (ou que as depressões
facilmente ou naturalmente terminarão por obra do mercado). Muito
pelo contrário, na medida em que os sindicatos e as intervencões
de cunho social, na medida do possível, impedem a queda da demanda
durante uma queda econômica, isso funciona como um freio na espiral
da queda. Longe de serem responsáveis pelo desemprego, na realidade,
o mitigam. Salários (e benefícios) que hoje representam custos
para algumas empresas, amanhã acabam virando receita.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="laissez"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;laissez-faire.&lt;/i&gt; Doutrina defendida
principalmente por Adam Smith, e que teve origem na França e na
Grã-Bretanha, segundo a qual os produtores diziam ao governo "laissez-nous
fair", isto é, deixe-nos agir, o que implicava a não interferência
governamental. De acordo com a doutrina, o governo deve limitar-se à
manutenção da ordem e da lei, removendo todas as barreiras
por ele impostas ao comércio e aos preços. Segundo seus adeptos,
essa diretriz permite maior liberdade individual, melhor uso dos recursos
e crescimento econômico. A responsabilidade do governo seria principalmente
a de controlar as condições de concorrência, a oferta
de moeda e certas atividades da previdência social (social security).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="superprodução"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;superprodução&lt;/i&gt;.
Produção acima da demanda (demand) que quase certamente causará
uma
baixa nos preços dos bens produzidos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="efeito"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;efeito-Pigou&lt;/i&gt;. Aumento em consumo
com recurso a uma dada renda real que resulta à medida que o nível
de preços declina e o valor real dos saldos monetários se
eleva. A significação está em demonstrar que, não
se considerando fatores dinâmicos, um equilíbrio de desemprego
é incompatível com salários flexíveis.
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="secc92"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;Salários muito altos produzem desemprego?&lt;/h2&gt;
Conforme demonstrado na &lt;a href="#secc92"&gt;última seção&lt;/a&gt;,
a maioria dos economistas capitalistas argumentam que o
&lt;br&gt;desemprego surge quando os salários ficam muito altos. Se você
perguntar sobre esse assunto a qualquer estudante de economia ele lhe responderá
que os altos salários reduzem a quantidade de trabalho demandado,
em outras palavras:
&lt;br&gt;o desemprego surge quando os salários ficam altos demais --
um simples caso de "oferta e procura". Diante dessa
&lt;br&gt;teoria aquelas áreas onde se praticam os salários mais
altos seriam justamente as áreas onde haveria um maior nível
de desemprego. Desafortunadamente para essa teoria, esse parece não
ser o caso.

&lt;p&gt;As evidencias empíricas não dão qualquer suporte
a esse argumento neoclássico de que salários muito altos
produzem desemprego. O fenômeno do crescimento real dos salários
durante o período de ascensão do ciclo econômico (quando
o desemprego cai) e do arrocho salarial durante a recessão (quando
o desemprego cresce) rendeu a neoclássica interpretação
de que os salários reais influenciam dificultando a manutenção
do emprego (usando o economês, os salários reais seriam
&lt;br&gt;"pró-cíclicos"). Mas esta não é a única
evidência contra a teoria neoclássica do desemprego. Will
Hutton, um economista neo-keynesiano instalado no Reino Unido, conclui
suas pesquisas sugerindo que altos salários não causam desemprego
conforme alegam os economistas neoclássicos):
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"os economistas britânicos David Blanchflower e Andrew
Oswald [coletaram] . . . dados em doze países sobre a real relação
entre salários e desemprego - e aquilo que descobriram permitiu
mais uma grande objeção ao livre mercado por conta do mercado
de trabalho. . . [Eles concluíram que] a relação [entre
salários e desemprego] é absolutamente oposta [àquilo
que predica a teoria neoclássica]. A elevação dos
salários [conduz] à queda do desemprego local - e a queda
dos salários [conduz] à elevação do desemprego
local. Conforme disseram, esta conclusão não se enquadra
nas cartilhas do livre mercado sobre o funcionamento de um mercado de trabalho
competitivo". &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;The State We're In&lt;/b&gt;, p. 102]&lt;/blockquote&gt;
As pesquisas de Blanchflower e Oswald indicaram que os empregados "que
trabalhavam em áreas de alto desemprego ganhavam menos que aqueles
que trabalhavam em áreas de baixo desemprego".&amp;nbsp; [&lt;b&gt;The Wage
Curve&lt;/b&gt;, p. 360]
&lt;br&gt;Resultado semelhante, que revela exatamente o oposto dos enunciados
econômicos neoclássicos, foi obtido nos mais variados países
e em diversos períodos de tempo, ou seja, a curva basicamente era
sempre a mesma. Assim, essa evidência sugere que o alto nível
de desemprego está associado aos baixos e não aos altos salários,
e vice-versa.
&lt;p&gt;Existem muitas outras provas que levam à mesma conclusão,
tomando o exemplo dos Estados Unidos, se o salário mínimo
e os sindicatos provocassem mesmo desemprego, porque os estados do sudeste
(com um reduzido salário mínimo e sindicatos fracos) tiveram
uma alta taxa de desemprego durante os anos de 1960 e 1970? Poderíamos
perguntar também porque quando o salário mínimo (relativo)
declinou sob Reagan e Bush, foi acompanhado por um desemprego crônico?
[Allan Engler, &lt;b&gt;The Apostles of Greed&lt;/b&gt;, p. 107]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma pesquisa chamada "O Preço da Pobreza" publicada pelo "Low
Pay Network" relata que 18 meses antes de ser abolido, o Conselho de Salários
Britânico (que determinava salários mínimos para vários
ramos de indústrias) verificou o aumento de 18.200 novos empregos
em tempo integral, ao passo que os 18 meses posteriores trouxeram consigo
39.300 demissões.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A extinção do Conselho Salarial provocou uma queda de
15% em média nos salários, esse fato (segundo o argumento
neoclássico) deveria ter elevado os níveis de emprego nesses
setores. Aconteceu exatamente o oposto.
&lt;br&gt;Essa pesquisa mostra claramente que a queda nos salários provocada
pela abolição do Conselho Salarial não criou mais
empregos. Pelo contrário, contribuiu mesmo para extinguir muitas
vagas existentes. Assim, longe de resultar em mais empregos disponíveis,
a abolição do Conselho Salarial, pela erosão nos níveis
salariais, resultou em um maior número de famílias lançadas
à rua da amargura.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;(Isto não significa que os anarquistas defendam a imposição
de um salário mínimo oficial. A maior parte dos anarquistas
repudiam isso porque transfere a responsabilidade da luta por melhores
salários dos sindicatos e outras organizações da classe
trabalhadora para as mãos do estado. Mencionamos estes exemplos
de forma a trazer luz ao fato dos argumentos neoclássicos serem
falhos e falsos.)
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao mesmo tempo em que estas evidências entram em choque com a
economia neo-clássica, elas comprovam as análises anarquistas
e socialistas. Para os anarquistas, o desemprego é um artifício
utilizado para controlar o trabalho e manter uma taxa apropriada de lucro
(ou seja, o desemprego é o fator chave na garantia de que os trabalhadores
continuarão sendo explorados). Na medida em que os trabalhadores
avançam e se aproximam do pleno emprego, o poder do trabalho cresce,
reduzindo o grau de exploração e portanto aumentando a remuneração
do trabalho nos valores que produz (gerando altos salários). Assim,
do ponto de vista anarquista, o fato de que salários sejam altos
em áreas de baixo desemprego não é uma surpresa, nem
um fenômeno pró ciclo de salários reais. De qualquer
forma, conforme verificado na &lt;a href="secC3.htm"&gt;seção C.3&lt;/a&gt;,
&lt;br&gt;a relação entre salários e lucros é, em
algo grau, um produto do poder de barganha, de forma que é de se
esperar que os salários estejam elevados no topo da curva do ciclo
econômico, caiam na depressão e estejam altos nas áreas
de baixo desemprego. E, o que é mais importante, estas evidências
sugerem que a afirmação neo-clássica de que os sindicatos
e os salários "muito altos" é que são os responsáveis
pelo desemprego, é inteiramente falsa. Na verdade, impedir que os
capitalistas se apropriem ainda mais das rendas criadas pelos trabalhadores,
faz com que os altos salários sustentem a demanda agregada e contribuam
para manter um alto índice de emprego (apesar, naturalmente, do
alto nível de emprego não possa ser mantido indefinidamente
sob a escravidão assalariada devido às implicações
da elevação do poder dos trabalhadores). Além disso,
o desemprego constitui o aspecto chave do sistema capitalista e sempre
é abordado pelos neoclássicos como "provocado pelos próprios
trabalhadores" numa abordagem inteiramente equivocada na compreensão
da natureza e dinâmica do sistema.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, na medida em que os salários dos trabalhadores aumentam
em termos reais, aumenta também a demanda agregada gerando uma situação
mais propícia a criar vagas do que se os salários fossem
cortados. Na verdade, isso pode ser visto pela análise das "curvas
de salários" de numerosas cidades. Isto significa que o "livre mercado"
capitalista, com seus competitivos mercados de trabalho, sem programas
sociais, sem auxílio desemprego, com altos níveis de desigualdades
e fortalecimento do poder corporativo esmagando os sindicatos e sufocando
greves provocarão um constante sobe e desce na demanda agregada,
acompanhando o ciclo econômico, trazendo o desemprego consigo. Além
do mais, o desemprego torna-se mais elevado durante o ciclo econômico
(particularmente no ponto mais profundo da depressão) sob um capitalismo
sem programas sociais, sem sindicatos combativos e sem direitos legais
favoráveis ao trabalho ou sem condições de organização
dos trabalhadores, porque o salário real não é capaz
de se manter em níveis que sustentem a demanda agregada nem de estimular
a produção pelo consumo de bens.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, um mercado de trabalho plenamente competitivo aumenta
a instabilidade do mercado. Na medida em que os programas sociais e as
atividades sindicais sustentam a demanda agregada, a classe trabalhadora
acaba consumindo mais, estabilizando a demanda agregada -- esta análise
foi confirmada durante a década de 1980 (&lt;i&gt;"a relação
entre grau de desigualdade e estabilidade econômica . . . era frágil
mas trouxe mais igualdade entre os países proporcionando um crescimento
mais estável após 1979"&lt;/i&gt; [Dan Corry e Andrew Glyn, "A
Macroeconomia da igualdade, estabilidade e crescimento", em Paying for
Inequality, Andrew Glyn
&lt;br&gt;e David Miliband (Eds.) pp. 212-213]).
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;A solução para o desemprego está em um mercado de trabalho "flexível"?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O argumento mais utilizado pelos economistas neoliberais para resolver
o problema do desemprego é tornar o mercado de trabalho mais "flexível".
Essa "flexibilidade", por sua vez,&amp;nbsp; invariavelmente é acompanhada
pelo enfraquecimento dos sindicatos, e pela redução (quando
não total destruição) dos serviços públicos
e sociais prestados pelo estado (educação, saúde,
transporte), e daí por diante. Contudo, é necessário
destacar que os correntes argumentos a favor dessa grande "flexibilização"
dentro do mercado de trabalho visando reduzir o desemprego, na verdade
não passa de um grande cavalo de Tróia para os trabalhadores.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O argumento de que um aumento na flexibilização tornará
o mercado de trabalho mais "perfeito", inclui a adoção de
um índice "natural" de desemprego (cada vez que a inflação
surgir ameaçadora) que com o tempo cairia, de um controle eficaz
da inflação, e daí por diante. Claro que o fato da
verdadeira origem da inflação – a tentativa dos capitalistas
de manter seus níveis de lucros – não é mencionada,
assim como não se fala sobre os lucros e as desigualdades salariais
que serão maximizados pela flexibilização. Todos silenciam
também quanto à conhecida tragédia desse filme de
horror da flexibilização do mercado de trabalho onde o final
é exatamente o oposto do previsto pela teoria capitalista.
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;"essa onda de apelos por flexibilização do mercado
de
&lt;br&gt;trabalho nos Estados Unidos com o pretexto de diminuir as
&lt;br&gt;taxas de desemprego parece coisa recente, mas o fato é que
&lt;br&gt;tal tentativa de flexibilização não tem nada de
novo.
&lt;br&gt;Comparando, por exemplo, os Estados Unidos com o Reino
&lt;br&gt;Unido, nos anos 60 os Estados Unidos possuíam uma taxa de
&lt;br&gt;desemprego de 4,8 por cento, no Reino Unido ela era de
&lt;br&gt;1,9 por cento; nos anos 70 os Estados Unidos chegaram a 6,1
&lt;br&gt;por cento, com o Reino Unido alcançando 4,3 por cento, esse
&lt;br&gt;ranking foi revertido apenas nos anos 80 quando os Estados
&lt;br&gt;Unidos alcançaram 7,2 por cento com o Reino Unido
&lt;br&gt;batendo nos 10 por cento . . . É importante destacar que essa
&lt;br&gt;reversão do ranking nos anos 80 ocorreu a despeito dos
&lt;br&gt;esforços de Margaret Thatcher na flexibilização
do mercado de
&lt;br&gt;trabalho . . .&amp;nbsp; Se flexibilização de mercado de
trabalho implica

&lt;br&gt;realmente em queda do nível de desemprego. . . então
porque o
&lt;br&gt;nível de desemprego permaneceu alto nesse país, Inglaterra,
&lt;br&gt;onde fortes medidas foram tomadas no sentido da
&lt;br&gt;flexibilização?" [Keith Cowling and Roger Sugden, Beyond
&lt;br&gt;Capitalism, p. 9]&lt;/blockquote&gt;
Se nos concentrarmos na taxa média de desemprego nos Estados Unidos,
iremos verificar que de 3,4% em 1969 (ou 7,3% incluindo o subempregado)
ela saltou para 6,1% em 1987 (ou 16,8% incluindo o subempregado). Usando
dados mais recentes, deparamos com uma média de desemprego na faixa
de 6,2% entre 1990-97 comparável aos 5,0% no período entre
1950-65. Em outras palavras, a "flexibilização" no mercado
de trabalho em vez de reduzir as taxas de desemprego fez com que elas ficassem
ainda mais altas.
&lt;p&gt;Claro que estamos comparando diferentes períodos de tempo. Muita
coisa mudou entre os anos 60 e os anos 90 e uma comparação
que envolva tais períodos pode não trazer uma resposta precisa.
Mas, de qualquer forma, o aumento na flexibilização e o crescimento
do desemprego permanecem atados um ao outro. Se observarmos diferentes
países durante o mesmo período de tempo poderemos constatar
que a "flexibilização" na realidade está longe de
reduzir o desemprego. Veja o que diz um economista britânico a esse
respeito:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"O desemprego aberto é, naturalmente, menor nos&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;Estados Unidos. Mas se nos concentrarmos em toda forma&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;de não-emprego [o&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; subemprego, trabalhadores
sem registro,&lt;/i&gt;

&lt;br&gt;&lt;i&gt;e daí por diante], veremos que aquilo que ocorreu na Europa&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;em pouco difere daquilo que ocorreu nos Estados Unidos&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;entre os anos de 1988 e 1994 quando 11 por cento dos&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;homens entre 25-55 anos estavam desempregados na&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;França, 13 por cento no Reino Unido, 14 por cento nos USA
e&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;15 por cento na Alemanha." [Richard Layard citado por&lt;/i&gt;
&lt;br&gt;&lt;i&gt;John Gray em False Dawn, p. 113]&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;/blockquote&gt;
Além disso, é bom lembrar também que na análise
das estimativas de desemprego nos Estados Unidos é necessário
levar em conta os índices de encarceramento. Mais de um milhão
de pessoas estariam procurando um emprego se as cortes penais dos USA agissem
de forma semelhante às de outras nações ocidentais.
[John Gray, Op. Cit., p. 113]
&lt;p&gt;Tomando o período de 1983 a 1995, notamos que cerca de 30 por
cento da população do OECD europeu viveu em países
com um índice médio de desemprego abaixo dos Estados Unidos
e cerca de 70 por cento viveu em países com desemprego menor que
no Canadá (onde os empregos são comparativamente menos flexíveis
que nos E.U.). Concomitantemente, os países europeus com os índices
mais baixos de desemprego estavam longe de se caracterizar pela flexibilidade
salarial (Áustria 3,7%, Noruega 4,1%, Portugal 6,4%, Suécia
3,9% e Suíça 1,7%). A Inglaterra sozinha, com um mercado
de trabalho mais flexível tinha um índice de desemprego maior
que a metade da Europa. Descontando o nível de desemprego na Alemanha
altamente influenciado pelas áreas da Alemanha Oriental e considerando
apenas as regiões da Alemanha Ocidental, o desemprego entre 1983
e 1995 foi de 6,3%, ao passo que nesse mesmo período foi de 6,6%
nos USA (e 9,8% na Inglaterra).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esses dados revelam que a "flexibilização", ao contrário
do que os neoliberais dizem, está longe de ser a solução
para o
&lt;br&gt;desemprego (além disso, a completa ausência de &lt;i&gt;&lt;a href="#estatismo"&gt;estatismo&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;
no século 19 não significou ausência de desemprego
nem ausência de longos períodos de depressão). Na verdade,
o alto índice de desemprego verificado na Europa tem muito pouco
a ver com "rígidas" estruturas e "benefícios públicos
e sociais" dos cidadãos, mas tem muito a ver com a austeridade monetária
e fiscal requerida pela unificação da Europa, conforme expresso
pelo Tratado de Maastricht. Basta olhar sua agenda política para
verificar o apoio que esse tratado recebeu da maior parte da classe dominante
européia.
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além disso, se observarmos o que há de racional por trás
da "flexibilização" encontraremos um fato muito estranho.
Na
&lt;br&gt;medida em que o mercado de trabalho torna-se mais "flexível"
e se alinha ao ideal da "competição perfeita", do lado do
capitalista absolutamente nada é feito para alinhar essa flexibilidade
ao modelo. Não devemos esquecer que a perfeita competição
(a teórica condição em que todos os recursos, incluindo
o trabalho, serão eficientemente utilizados) determina que haverá
um grande número de vendedores e de compradores. Enquanto isso ocorre
no lado dos vendedores no mercado de trabalho "flexível", o mesmo
não acontece no lado dos compradores (onde, conforme vimos na &lt;a href="secC4.htm"&gt;seção
C.4&lt;/a&gt;, reina o oligopólio). A maior parte dos defensores da "flexibilização"
do mercado de trabalho são exatamente aqueles que se alinham às
grandes corporações e aos imensos mercados monopolísticos,
onde os mais fortes impõem barreiras intransponíveis impedindo
que os pequenos participem dos mercados.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se o modelo requer que ambos os lados se tornem "flexíveis,"
como esperar algum benefício no todo se apenas um lado torna-se
mais "flexível"? Não há nenhuma razão lógica
para alguém concluir que os trabalhadores serão beneficiados.
Na verdade, a resultante perda de poder por parte do trabalho trará
consigo uma transferência de renda do trabalho em direção
ao capital. Esperar que a "flexibilização" do mercado de
trabalho traga algum benefício ao trabalhador é o mesmo que
esperar que ocorra paz entre duas facções em guerra pelo
desarme de um dos lados e pelo número de armas dobrar do outro lado!
É claro que a única "paz" que se pode esperar é a
paz do cemitério ou a paz de um povo subjugado -- se você
olhar de longe, subserviência pode ser confundida com paz. Por fim,
aquilo que chamam de "flexibilidade" do trabalho indica o clichê
de que, sob o capitalismo, o trabalho existe apenas para atender as necessidades
do capital (ou que o trabalho vivo existe para atender às necessidades
do trabalho morto, uma forma verdadeiramente insana de organização
da sociedade).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nada disso é novidade para os anarquistas que sempre reconheceram
que "flexibilização" tem apenas um significado: enfraquecimento
do poder de barganha do trabalho de forma a aumentar o poder e o lucro
do rico (daí a expressão "flexploração"!).
O aumento da "flexibilização" associa-se diretamente com
altos, não baixos níveis de desemprego. Isto, novamente,
não é novidade alguma, uma vez que o mercado de trabalho
"flexível" significa basicamente algo que eventualmente beneficiaria
o trabalhador por supostamente lhe proporcionar emprego, mas que na realidade
lhe traz uma crescente insegurança em seu trabalho (na verdade,
a palavra "insegurança" é muito mais apropriada para descrever
o ideal do mercado de trabalho competitivo do que a palavra "flexibilização",
é por isso que o charlatão sempre traz um coringa escondido
debaixo da manga). Em tais circunstancias, o poder dos trabalhadores é
reduzido, significando que o capital se apropria em larga escala da renda
nacional enquanto que o trabalho e os trabalhadores ficam menos inclinados
a lutar pelos seus direitos. Isso contribui para uma queda na &lt;i&gt;&lt;a href="#demanda"&gt;demanda
agregada&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, aumentando o desemprego. Além disso, como já
dissemos, além da "flexibilização" exercer um efeito
devastador nos trabalhadores (mas não no lucro dos patrões)
pela redução do poder de barganha do trabalho, ela resulta
em maior e não em menor desemprego. Isso ocorre porque as empresas
podem demitir a vontade o "excesso" de trabalhadores, aumentar a jornada
de trabalho (o paradoxo entre hora extra e desemprego apenas exprime como
o capitalismo funciona), congelar ou diminuir os salários reduzindo
a &lt;i&gt;&lt;a href="#demanda"&gt;demanda agregada&lt;/a&gt;.&lt;/i&gt; Este paradoxo da crescente
"flexibilização" provocando altos níveis de desemprego
é apenas mais um dos paradoxos da estrutura neoclássica.
Do ponto de vista da perspectiva anarquista, é dessa forma que o
sistema funciona.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Poderíamos também acrescentar que toda vez que o governo
tenta tornar o mercado de trabalho "inteiramente competitivo" quando não
faz uso de instâncias ditatoriais (o Chile sob Pinochet, por exemplo)
ele aumenta a centralização do poder do estado elevando o
poder da polícia e dos patrões (a Inglaterra sob Thatcher,
os Estados Unidos sob Reagan, por exemplo). Na tentativa de introduzir
o neoliberalismo em seus países os Presidentes latino-americanos
também adotam artifícios como "pisotear as instituições
democráticas, fazendo uso da tradicional técnica latino-americana
de governar por decreto [como FHC no Brasil] de forma a passar por cima
da oposição no Congresso . . . Os direitos civis também
ficam sob um cerrado ataque. Na Bolívia, na tentativa de neutralizar
a oposição, o governo . . . declarou estado de sítio
e aprisionou 143 líderes sindicais . . . Enquanto que na Colômbia,
o governo fez uso de uma legislação anti-terrorista de 1993
contra 15 líderes sindicais que se opunham à privatização
da companhia de telecomunicações estatal. O exemplo mais
extremo partiu de Alberto Fujimori no Perú que acabou com a oposição
do Congresso, simplesmente dissolvendo-o . . . substituindo-o por um poder
de emergência." [Duncan Green, The Silent Revolution, p. 157]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tudo isso é previsível. O povão, quando lhe é
permitido agir em paz, cria comunidades, se organiza no conjunto para
&lt;br&gt;coletivamente buscar sua própria felicidade, protegendo suas
comunidades e meio ambiente. Em outras palavras, ele forma associações
e sindicatos para influenciar nas decisões que lhe dizem respeito.
Agora, para que seja criado um "plenamente competitivo" mercado de trabalho
é necessário que os indivíduos sejam atomizados, e
que seus sindicatos, comunidades e associações sejam todos
enfraquecidos, senão destruídos, de forma a transformar tudo
aquilo que vive e que permite a vida em um tipo de propriedade privada.
O poder do Estado precisa ser usado para enfraquecer massivamente a população,
restringir sua liberdade, controlar as organizações populares
e as manifestações sociais e garantir que o livre mercado
possa funcionar sem resistência por causa do sofrimento, da miséria
e do medo que ele provoca. O povão, usando a infeliz frase de Rousseau,
"precisa ser forçado a ser livre". E, desgraçadamente para
a teoria neoliberal, os países que tentaram reformar seus mercados
de trabalho amargam índices de desemprego jamais vistos, aumentaram
ainda mais as desigualdades sociais e a pobreza, tornaram-se mais do que
nunca um frágil barco à deriva ao sabor das marés
de crescimento e depressão do ciclo econômico capitalista.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para terminar, a única real solução para o desemprego
é a humanidade dar um fim ao trabalho assalariado, libertando-se
da necessidade do capital.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="estatismo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;estatismo.&lt;/i&gt; O mesmo que
estado do bem-estar (welfare state). Situação tacitamente
atribuída ao governo como responsável pelo bem- estar de
seus cidadãos. Na filosofia do (laissez-faire) supunha-se que o
bem-estar dos indivíduos era conseguido por seus próprios
esforços, e que cada um era um reflexo de sua própria energia
e aptidão. Depois de 1930, muitos achavam que o bem-estar geral
dependia do governo. Por isso, passaram a exigir previdência social
(social security), abolição da segregação racial,
auxílio à educação, banco de habitação,
eliminação de guetos e favelas, etc. Sob certos aspectos,
o estatismo lembra o regime social teoricamente apregoado pelos países
socialistas e comunistas.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a name="demanda"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;demanda agregada&lt;/i&gt;. Em palavras
gerais, é a demanda total de bens e serviços dentro de uma
economia. Mostra quanto dinheiro se espera que a comunidade gaste nos produtos
da indústria dentro de um certo período. O esquema de demanda
agregada é o fator vital na teoria do emprego.
&lt;/p&gt;
&lt;h2&gt;As pessoas optam pelo desemprego?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Isso soa bem estranho, mas é exatamente o que argumenta a teoria
neoclássica. Aqui vamos considerar alguns aspectos envolvendo esse
argumento neoclássico da "culpa dos trabalhadores", onde o ataque
aos sindicatos e aos direitos dos trabalhadores faz parte de uma estratégia
bem delineada. Um dos argumentos mais utilizados é o de que o desemprego
não é involuntário, ou seja, só não
trabalha quem não quer. Conforme nos explica o economista de esquerda
Nicholas Kaldor, do ponto de vista dos economistas do "livre mercado" o
desemprego involuntário "não existe porque as pessoas simplesmente
decidem ficar desempregadas". [Further Essays on Applied Economics, p.
x].&amp;nbsp; Os economistas neoclássicos afirmam que os trabalhadores
desempregados ficam o tempo todo procurando por altos salários (ou
vivendo de pensões do governo) em vez de trabalhar, ou seja, só
não trabalham porque não querem. Argumentos como este são
levados tão a sério que revelam muito sobre a natureza da
moderna teoria econômica capitalista. Porque tal argumento é
tão popular nos círculos da direita? É isso que vamos
ver aqui.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em primeiro lugar, em termos gerais, o desemprego surge em virtude do
patrão &lt;a href="#dispensa"&gt;mandar o empregado embora&lt;/a&gt;, não
porque o empregado decide parar de trabalhar. Quando uma companhia demite
certa quantidade de trabalhadores, dificilmente alguém interpretaria
isso como uma decisão que partiu dos trabalhadores que concluíram
que vale mais a pena procurar por um novo emprego do que continuar trabalhando.
Eles não tem outra escolha. Em segundo lugar, trabalhadores desempregados
normalmente aceitam o primeiro emprego que aparece. Nenhum desses fatos
corrobora a hipótese de que a maioria dos desempregados chegam a
essa condição "voluntariamente".

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Naturalmente, que existem numerosas ofertas de emprego na media. Mas
será que isso é uma prova de que os capitalistas estão
a todo momento oferecendo vagas para aqueles que querem trabalhar? Dificilmente,
pelo fato de que a quantidade de vagas oferecidas estão bem aquém
do número de desempregados. Diante do fato de que 100 vagas são
oferecidas em áreas onde existem 1.000 desempregados, afirmar que
o capitalismo tende ao pleno emprego é um escárnio.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além disso, é importante destacar que as suposições
direitistas de que auxílio desemprego e serviços públicos
e sociais promovem desemprego não possuem nenhuma base fatual, o
que acontece é exatamente o contrário. De acordo com as
&lt;br&gt;palavras de um membro moderado do Partido Conservador Britânico,
o "OECD pesquisou setenta países industrializados e não encontrou
qualquer conexão entre a taxa de desemprego de um país com
seus pagamentos de serviços sociais". [Dancing with Dogma, p. 118].
Além disso, os economistas David Blanchflower e Andrew Oswald constataram
que a "curva de salários" em muitos e diferentes países é
aproximadamente a mesma, tanto que isso foi verificado em cada um dos cinqüenta
países que eles pesquisaram. O que leva a crer que o nível
de desemprego no mercado de trabalho não tem nada a ver
&lt;br&gt;com as condições de vida proporcionadas pelos serviços
públicos e sociais, ao contrário do que ocorre com a flexibilização
salarial que influi diretamente na "curva salarial". Ambos estes fatos
sugerem que o desemprego é involuntário por natureza e que
toda vez que se deterioram as condições de vida dos trabalhadores
devido a cortes nos serviços públicos e sociais o desemprego
se torna ainda mais agudo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outro fator a ser considerado sobre a natureza do desemprego é
o efeito provocado pelos últimos 20 anos de "reforma" do &lt;a href="#estatismo"&gt;estatismo&lt;/a&gt;
conduzido tanto nos E.U. como no R.U. Durante os anos 60, mesmo com desemprego
menor, o "estatismo" foi mais generoso do que nos anos 90. Se o desemprego
fosse "voluntário" devido à &lt;a href="#social"&gt;securidade
social&lt;/a&gt; ser elevada, seria de se esperar que o desemprego caísse
com o corte nos serviços públicos e sociais (afinal de contas,
a desculpa utilizada para cortá-los foi exatamente essa). Na realidade,
aconteceu exatamente o contrário, o desemprego disparou com o corte
nos serviços públicos e sociais. A queda nos pagamentos de
securidade social não conduziu a uma queda no desemprego, ocorreu
o oposto.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Diante desses fatos, alguém pode concluir que como o desemprego
não depende dos pagamentos de securidade social então os
serviços públicos e sociais podem ser cortados a vontade.
Todavia, este não é o caso pois a quantidade de serviços
públicos e sociais prestados afeta diretamente os níveis
de pobreza e o tempo em que as pessoas permanecem na pobreza. Nos E.U.,
os índices de pobreza eram de 11.7% em 1979 e subiram para 13% em
1988, e continuaram a subir atingindo 15.1% em 1993.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O efeito cascata no corte dos serviços públicos e sociais
contribuiu para aumentar ainda mais a pobreza. De forma semelhante, no
R.U. durante o mesmo período, de acordo com o ex-Thatcherista John
Gray, houve "um crescimento da miséria. O percentual de famílias
britânicas (não pensionistas) formadas por trabalhadores --
ou seja, onde nenhum de seus membros era economicamente ativo -- cresceu
de 6,5 por cento em 1975 para 16,4 por cento em 1985 e para 19,1 por cento
em 1994 . . . Entre 1992 e 1997 houve um crescimento no desemprego entre
as famílias. . .&amp;nbsp; Este dramático crescimento da miséria
ocorreu por conseqüência direta das reformas neoliberais cortando
serviços públicos, particularmente na área de habitação".
[False Dawn, p. 30]. Isto se opõe à cartilha e à retórica
das teorias da direita. Conforme John Gray corretamente afirma, a "A lição
número um do Novo Direito Americano é que a pobreza e as
classes baixas [nos E.U.] são produto do abandono dos serviços
públicos e sociais". E ele prossegue destacando que a miséria
"não se enquadra na experiência dos países do continente
europeu onde o nível de provisão social é bem mais
amplo que o praticado nos E.U. que há muito tempo adotou uma prática
de profundo desprezo para com as classes mais pobres da sociedade". [Op.
Cit., p. 42]. Referindo-se a outros países anglo-saxãos,
ele destaca que:
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Na Nova Zelândia, as teorias do Novo Direito Americano
proporcionaram uma evento raro e curioso - uma auto-rejeição
à sua aplicação prática. Contrariamente ao
que o Novo Direito proclama, a abolição quase que total dos
tradicionais serviços públicos e a estratificação
dos grupos por renda com o propósito de proporcionar benefícios
sociais de modo seletivo criou uma espécie de armadilha de pobreza
neoliberal".&lt;/i&gt; [Ibid.]&lt;/blockquote&gt;

&lt;p&gt;&lt;br&gt;Assim, na medida em que o auxílio desemprego e os serviços
públicos e sociais amortecem o impacto do desemprego (o que é
de esperar pela natureza do desemprego ser essencialmente involuntária),
eles também influenciam na natureza, na profundidade e na persistência
da pobreza. O corte dos serviços públicos e sociais prestados
pelo estado faz com que a pobreza aumente ainda mais tornando-se crônica
(pela ausência de redistribuição, também aumenta
a desigualdade).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se compararmos o percentual do PNB que uma nação aplica
em securidade social com sua taxa de pobreza relativa encontraremos uma
correlação direta entre ambos. Aquelas nações
que possuem uma altos percentuais do PNB aplicados na securidade social
tem baixa taxa de pobreza. Além disso, há também uma
estreita correlação entre esses percentuais e a pobreza crônica.
Aquelas nações que mais canalizam recursos para os pobres
permite que uma quantidade maior de cidadãos escapem da pobreza.
A Suécia, por exemplo, que tem uma taxa de pobreza fixa anual de
3% possui uma taxa de escape da pobreza de 45%, enquanto que as taxas na
Alemanha são de 8% e 24% respectivamente (e uma taxa de pobreza
crônica de 2%). Em contraste com esses índices, os E.U. figuram
com 20% e 15% (e com uma taxa de pobreza crônica de 42%) [Greg J.
Duncan of the University of Michigan Institute for Social Research, 1994].
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Devido ao fortalecimento dos serviços públicos e sociais
atuar como uma espécie de complemento ao salário e proporcionar
uma forma de suporte às condições de trabalho, é
fácil descobrir porque os capitalistas e os defensores do "livre
mercado" capitalista querem exterminá-lo. Através do enfraquecimento
dos serviços públicos e sociais, da "flexibilização"
do mercado de trabalho, os lucros e o poder permanecem fora do alcance
dos trabalhadores que se levantam na defesa de seus direitos e interesses.
É surpreendente como essa "flexibilização" que supostamente
traria benefícios à uma vasta maioria do povo tem resultado
de fato em uma explosão de desigualdade. Os serviços públicos
e sociais, em outras palavras, atrapalham o sistema capitalista na comercialização
do trabalho, e ampliam as opções disponíveis à
classe trabalhadora. Embora não reduzam a necessidade de procurar
um emprego, os serviços públicos e sociais enfraquecem a
dependência de qualquer empregador em particular e assim aumentam
a independência e o poder dos trabalhadores. Não é
nenhuma coincidência que os ataques aos sindicatos e aos serviços
públicos e sociais foram e são estruturados na retórica
da proteção do "direito de administrar para dirigir" e conduzir
as pessoas novamente à condição de escravidão
assalariada. Em outras palavras, uma tentativa de aumentar a mercantilização
do trabalho tornando-o tão inseguro que os trabalhadores silenciam
diante de seus direitos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os custos humanos do desemprego estão muito bem documentados.
Existe uma estável correlação entre índices
de desemprego e índices de internamentos em hospitais psiquiátricos.
Existe uma conexão entre desemprego e criminalização
de adolescentes e adultos jovens. Os efeitos no auto-respeito do indivíduo
e as vastas implicações para sua comunidade e sociedade são
catastróficos. Conforme David Schweickart concluíu:
&lt;br&gt;&amp;nbsp;
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Os custos do desemprego, quando medidos em termos da fria
moeda da perda de produção e da perda de impostos ou do calor
da alienação sindical, da violência, e do desespero,
são muito maiores do que parecem sob o Laissez Faire". &lt;/i&gt;[&lt;b&gt;Against
Capitalism&lt;/b&gt;, p.109]&lt;/blockquote&gt;

&lt;p&gt;&lt;br&gt;Naturalmente, alguém poderia argumentar que o desempregado
que procura por emprego conta com seus familiares, seus amigos, e com a
comunidade para que encontre um emprego. Todavia, este argumento pressupõe
que as pessoas podem mudar suas vidas, o que se torna impossível
diante das "forças de mercado" (e dos desejos -- "espírito
animal", usando as palavras de Keynes -- daqueles que possuem capital).
Em outras palavras, trata-se do reconhecimento de que o capitalismo além
de impedir o crescimento das pessoas também lhes usurpa qualquer
possibilidade de organizar suas vidas (por suprimir seu senso de identidade,
dignidade e auto-respeito), retirando-lhes a honra e em alguns casos, a
própria alma.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A lógica capitalista funciona através do contínuo
estupro dos valores sobre os quais diz estar construindo, o que mais o
caracteriza é o profundo desrespeito aos valores humanos e sua obsessão
pelo isolamento dos indivíduos. E isso não é novidade
para ninguém, uma vez que o capitalismo é baseado no aniquilamento
do indivíduo transformando-o em uma mercadoria como qualquer outra
(chamada "trabalho"). Citando mais uma vez Karl Polanyi:
&lt;/p&gt;
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Em termos humanos tais postulados [como o do mercado de
trabalho] implicam em uma extrema instabilidade na renda do trabalhador,
uma total ausência de critérios profissionais, onde as pragas
do imponderável sempre estão prontas a passar por cima de
tudo e de todos indiscriminadamente, submissas aos caprichos do mercado.
[Ludwig Von]. Mises, por sua vez, argumentou com precisão que se
os trabalhadores não atuarem através de seus sindicatos,
e ficarem a mercê das demandas que altera seu local de trabalho e
sua profissão de acordo com o mercado de trabalho, eles eventualmente
acabam encontrando emprego sim. Mas um emprego sob a égide de um
sistema que tem por base o postulado de que o trabalho não passa
de uma mercadoria como qualquer outra. Uma mercadoria não decide
onde será colocada a venda, não sabe para quais propósitos
será usada, não determina qual o preço que fará
com que ela mude de dono, uma mercadoria que pode tanto ser consumida como
destruída". [The Great Transformation, p. 176]&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;
&lt;p&gt;
Portanto, pessoas não são mercadorias, elas vivem, pensam,
sentem. O "mercado de trabalho" mais do que uma instituição
econômica é uma instituição social onde pessoas
e trabalho são tidos como meras mercadorias. Se a humanidade rejeitar
os absurdos desses preceitos neoliberais com todas suas tolices, extirpando
de uma vez por todas esse câncer da teoria neoclássica, finalmente
os trabalhadores poderão usufruir dias melhores que os atuais. Em
última análise, o capitalismo jamais proporcionará
pleno emprego pelo simples fato do trabalho não ser uma mercadoria
(na seção C.7 discutimos de que forma a revolta contra a
mercantilização é uma questão chave para a
compreensão do ciclo econômico e do desemprego).
&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;small&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="dispensa"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;dispensa temporária de
empregado.&lt;/i&gt; Empregado dispensado temporariamente por diminuição
dos negócios; não perde a situação de antiguidade
(seniority) de que desfrutava, quando for novamente chamado a trabalhar,
salvo se tiver arranjado emprego em outro lugar. [não é o
sentido do termo usado no texto]. É também o intervalo de
tempo de desemprego forçado. [é o caso do termo usado no texto]
&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="securidade-social"&gt;&lt;/a&gt;&lt;i&gt;securidade social.&lt;/i&gt; Aquí
esse termo é utilizado em um sentido bem mais amplo referindo-se
ao conjunto de serviços públicos e benefícios disponíveis
gratuitamente a todo e qualquer cidadão&lt;/p&gt;
&lt;/small&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 13:20:32 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/o-laissez-faire-capitalista-reduz-o-desemprego-conforme-afirmam-os-defensores-dolivre-mercado-capitalista</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/o-laissez-faire-capitalista-reduz-o-desemprego-conforme-afirmam-os-defensores-dolivre-mercado-capitalista</guid></item><item><title>O que provoca o ciclo econômico capitalista?</title><description>&lt;p&gt;&lt;i&gt;Ciclo econômico&lt;/i&gt; é a expansão
  (&lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;) ou contração alternada na atividade econômica capitalista. Em
  algumas épocas há pleno emprego, com os locais de trabalho produzindo mais e
  mais bens&amp;nbsp; e serviços, a economia cresce juntamente com os salários. Contudo,
  conforme Proudhon argumentou, a alegria desta situação não dura muito:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Mas a indústria, sob
  a égide da propriedade, nunca será estável. . .&amp;nbsp; Ao menor sinal de crescimento
  da demanda, as fábricas enchem, e há trabalho para todos. Os negócios prosperam.
  . . [contudo] sob a égide da propriedade, o florescer da indústria vira uma
  coroa de flores funerária, [onde o papel do] trabalhador é cavar sua própria
  sepultura. . . [o capitalista] tenta. . . continuar produzindo com menos despesas.
  Então vem a ameaça de corte nos salários; a introdução de maquinário; a admissão
  de mulheres e de crianças . . . a diminuição nos custos cria um grande mercado.
  . . [mas] o poder produtivo tende a ser maior que a capacidade de consumo. .
  . [Se] hoje a fábrica está fechada. Amanhã o povo passará fome nas ruas. . .
  Em virtude da falência nos negócios e da extrema queda nos preços das mercadorias.
  . . os credores apavorados se apressam em resgatar seus fundos. A produção é
  suspensa, e o trabalho é paralizado".&lt;/i&gt; [P-J Proudhon, &lt;b&gt;What is Property&lt;/b&gt;,
  pp. 191-192]&lt;/blockquote&gt;

Por que isso acontece? Para os anarquistas,
conforme observado por Proudhon, isso faz parte da natureza da produção capitalista
e da relação social que ela cria (&lt;i&gt;"a égide da propriedade"&lt;/i&gt;). A chave para
o entendimento do &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt; é a percepção de que, usando as palavras
de Proudhon, &lt;i&gt;"O proprietário vende produtos para o trabalhador por mais do
que paga por eles; isto se configura em um embuste".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p.
194]. Em outras palavras, a necessidade que os capitalistas tem de obter lucros
às custas dos trabalhadores que empregam é a causa fundamental do &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;.
Se a classe capitalista não pode produzir suficiente lucro, ela para a produção,
promove o saque às pessoas, arruina vidas e comunidades até obter vantágens suficientes
para novamente voltar a extrair lucros dos trabalhadores.
&lt;p&gt;O que influencia estes níveis de
  lucro? Existem dois principais tipos de pressões nos lucros, que podemos chamar
  de &lt;b&gt;&lt;i&gt;"subjetivas"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; and &lt;b&gt;&lt;i&gt;"objetivas".&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; As pressões objetivas
  estão relacionadas àquilo que Proudhon sugeriu quando disse que &lt;i&gt;"o poder
  produtivo tende a ser maior que a capacidade de consumo", &lt;/i&gt;veremos isso com
  mais detalhes nas seções &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc72"&gt;C.7.2&lt;/a&gt; e
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc73"&gt;C.7.3&lt;/a&gt;.
  As pressões "subjetivas" tem a ver com a natureza da relação social gerada pelo
  capitalismo, as relações de dominação e de sujeição são a raiz da exploração
  e da resistencia a ela. Em outras palavras as pressões subjetivas resultam do
  fato de que &lt;i&gt;"propriedade é despotismo"&lt;/i&gt; (usando a expressão de Proudhon).
  Discutiremos o impacto na luta de classes (dessas pressões "subjetivas") na
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc71"&gt;próxima seção&lt;/a&gt;.
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Antes de continuar, gostaríamos de
  destacar que estes três fatores operam juntos em uma economia real, os dividimos
  aqui apenas para ajudar a explicar as questões envolvidas com cada um deles.
  Na luta de classes, a "comunicação" no mercado cria desproporcionalidades e
  excesso de investimento que interagem entre si. Devido às necessidades internas
  (luta de classes) e externas (inter-companhias) de competição, os capitalistas
  tem que investir em novos meios de produção. Como o poder dos trabalhadores
  cresce durante a expansão (&lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;), os capitalistas inovam e investem de
  forma a contê-lo. De maneira semelhante, para conquistar vantágens no mercado
  (visando lucros) sobre seus competidores, uma companhia investe em máquinas
  novas. Contudo, devido à ausencia de uma comunicação efetiva dentro do mercado
  causada pelo mecanismo de preços e por informações incompletas fornecidas. Conforme
  o gráu de interesse, este investimento torna-se concentrado em certas partes
  da economia. Pode ocorrer um relativo super investimento, criando a possibilidade
  de crises. Além disso, o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; encoraja novas companhias e competidores
  estangeiros a tentar obter uma quota no mercado ameaçando a queda no &lt;i&gt;"gráu
  de monopólio"&lt;/i&gt; em uma indústia, reduzindo o aumento nos preços e os lucros
  das &lt;i&gt;gandes coporações&lt;/i&gt; (que, por sua vez, pode provocar um aumento de
  fusões entre as empresas acelerando o fim do &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;). Dessa forma, o poder
  dos trabalhadores além de diminuir, passa a ser apontado como a causa da erosão
  nas márgens dos lucros patronais. Daí surgem super investimentos pela introdução
  de novos equipamentos e de tecnicas visando manter a demanda pelos &lt;i&gt;bens acabados.&lt;/i&gt;
  Este efeito contraditório da luta de classes é o estopim do efeito contraditório
  do investimento. O investimento causa crise por que ele é útil (i.e. ele ajuda
  a aumentar os lucros para as companhias individualmente em curto prazo, mas
  provoca o super investimento coletivo e derruba os lucros a longo prazo). A
  luta de classes atrapalha tanto a super acumulação de capital como também mantem
  a &lt;i&gt;demanda agregada&lt;/i&gt; (postergando as crises) ao mesmo tempo em que provoca
  uma erosão nas márgens de lucros no ponto da produção (acelerando essa erosão).
  Estes fatores subjetivos e objetivos interagem e interferem entre si. Mas no
  final virá uma crise simplesmente porque o sistema é baseado no trabalho assalariado
  e os produtores não produzem para si mesmos. Em última análise, a crise é provocada
  quando a classe capitalista não angaria suficientes taxas de lucro. Se os trabalhadores
  produzissem para si mesmos, este fator decisivo não seria um problema uma vez
  que não existiria nenhuma classe capitalista.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É interessante notar que tais fatores
  funcionam inversamente durante um colapso econômico provocado pela recessão,
  onde é criado o potencial para um &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;. Durante as crises, os capitalistas
  tentam restabelecer sua lucratividade (i.e. aumentando a &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt;).
  O trabalho fica em uma posição de fragilidade devido ao grande aumento do desemprego
  e assim, geralmente, aumenta o gráu de exploração àqueles que permanecem em
  seus empregos. Na &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt;, muitas empresas param de funcionar,
  reduzindo o montante de capital fixo na economia. Além disso, o &lt;i&gt;"gráu de
  monopólio"&lt;/i&gt; de cada indústria aumenta, elevando os preços e os lucros das
  &lt;i&gt;grandes corporações&lt;/i&gt;. Eventualmente este aumento da produção de &lt;i&gt;mais
  valia&lt;/i&gt; é relativamente suficiente para que o (reduzido) estoque de &lt;i&gt;capital
  imobilizado&lt;/i&gt; aumente a taxa de lucro. Isto encoraja os capitalistas a voltar
  a investir novamente em direção a um novo &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; (um &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; que já
  contem as sementes do seu próprio fim).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dessa forma o &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;
  continua, ao sabor das pressões "subjetivas" e "objetivas" -- pressões que são
  diretamente relacionadas com a natureza da produção capitalista e com o trabalho
  assalariado, sua base.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
&lt;/p&gt;&lt;hr&gt;
&lt;br&gt;
&lt;i&gt;ciclo econômico. &lt;/i&gt;Diz-se da expansão ou contração alternada
na atividade econômica geral de um país. Segundo alguns economistas, o intervalo
entre a expansão e a contração é bastante regular. O ciclo, geralmente, tem quatro
fases: expansão, nivelamento, contração e recuperação. Nos períodos de expansão
(boom), o volume de produção, emprego, lucros e preços aumenta, acontecendo o
contrário na contração. Quando a contração é muito forte, denomina-se depressão
(depression), mas quando não é tão intensa, passa a chamar-se recessão (recession).
&lt;p&gt;&lt;i&gt;bens acabados.&lt;/i&gt; Bens
  que um fabricante tem prontos para vender e que por ele não serão ulteriormente
  transformados. Esses bens podem ser finais ou intermediários, de acordo com
  as circunstâncias de seu uso.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;demanda agregada.&lt;/i&gt;
  Em palavras gerais, é a demanda total de bens e serviços dentro de uma economia.
  Mostra quanto dinheiro se espera que a comunidade gaste nos produtos da indústria
  dentro de um certo período. O esquema de demanda agregada é o fator vital na
  teoria do emprego.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;depressão. &lt;/i&gt;Período
  prolongado em que a atividade econômica se encontra muito abaixo da normal e
  há grande pessimismo em todos os setores. Há grande redução em produção, investimento,
  consumo, surge o desemprego (unemployment) e ocorrem falências (bankruptcies).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;capital imobilizado.&lt;/i&gt;
  Parte do acervo de uma companhia que se acha investido em bens do ativo fixo.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;boom.&lt;/i&gt; Prosperidade
  rápida. Surto de prosperidade durante o ciclo econômico (business cycle), quando
  a economia está em recuperação (recovery) após uma depressão; há pleno emprego
  (full employment) dos recursos e os preços se elevam rapidamente. Depois de
  atingido o pico da prosperidade, quase certamente começará um período de recessão
  (recession). &lt;br&gt;
 
&lt;/p&gt;&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="secc71"&gt;&lt;/a&gt;

&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;Qual o papel da luta de classes
  no &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;?&lt;/h2&gt;
Ela exerce um papel básico no ciclo
econômico. A luta de classes (a resistencia à hierarquia em todas suas formas)
é a causa principal do &lt;i&gt;ciclo econômico.&lt;/i&gt; Conforme argumentamos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secB1.htm#secb112"&gt;seção B.1.2&lt;/a&gt;
e na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC2.htm"&gt;seção C.2&lt;/a&gt;. Para
que o capitalista possa explorar um trabalhador ele precisa primeiro oprimi-lo.
Mas onde há opressão, há resistencia; onde há autoridade, há o desejo de liberdade.
Consequentemente o capitalismo é marcado por uma contínua luta entre trabalhador
e patrão no que diz respeito à produção tanto fora como dentro do local de trabalho,
e&amp;nbsp; contra todas as formas de hierarquia.
&lt;p&gt;Esta luta de classes reflete um conflito
  entre trabalhadores que tentam se libertar e se fortalecer contra capitalistas
  que por sua vez tentam transformar o trabalho individual em um pequeno dente
  da engrenagem de uma grande máquina. Ela reflete a procura por parte dos oprimidos
  de tentar viver suas vidas em toda sua plenitude, que se expressa quando o &lt;i&gt;"trabalhador
  reclama sua parte nas riquezas que produz; reclama sua participação na administração
  da produção; reclama não apenas viver um pouco melhor, mas usufruir integralmente
  de todos os seus direitos nos benefícios proporcionados pelas ciências e pelas
  artes".&lt;/i&gt; [Peter Kropotkin, &lt;b&gt;Kropotkin's Revolutionary Pamphlets&lt;/b&gt;, pp.
  48-49]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Confome Errico Malatesta argumentou,
  se os trabalhadores &lt;i&gt;"tiverem sucesso em alcançar aquilo que procuram, eles
  estarão em melhor situação: eles ganharão mais, trabalharão menos horas e terão
  mais tempo e energia para refletir naquilo que lhes diz respeito, e desejarão
  imediatamente fazer grandes exigencias e satisfazer suas grandes necessidades
  . . . Não existirá nehuma lei natural (lei de salário) que determine qual porção
  do labor do trabalhador caberia a ele [ou ela]... Salário, horas e outras condições
  empregatícias são resultantes da luta entre patrões e empregados. O patrão procura
  fazer com que os trabalhadores tenham o mínimo possível; estes últimos procuram,
  ou pelo menos tentam, trabalhar o mínimo e ganhar o máximo, na medida do possível.
  Quando os trabalhadores acatam as condições que lhes são impostas contra sua
  vontade, sem saber como exercer uma efetiva resistencia às exigências dos patrões,
  eles acabam logo submetidos a uma condição bestial&amp;nbsp; de vida. Quando, em
  vez disso, eles tem idéias sobre como seres humanos devem viver, sabem como
  juntar forças, resolvem recusar trabalhar, de forma latente ou aberta ameaçam
  a rebelião, [agindo assim eles acabam] conquistando o respeito do patrão, em
  tais casos, eles serão tratados de uma forma relativamente decente. . . Através
  da luta, pela resistencia contra os patrões, portanto, os trabalhadores podem,
  até certo ponto, garantir uma melhora nas suas condições tanto quanto obter
  um progresso real".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Life and Ideas&lt;/b&gt;, pp. 191-2]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É essa luta que determina os salários
  e os benefícios indiretos tais como assistencia médica, auxílio educação e daí
  por diante. Esta luta também influencia na concentração de capital, na medida
  em que o capital usa a tecnologia para controlar trabalhadores (extraindo o
  máximo de &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt; possível) para obter vantágens contra seus competidores
  (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC2.htm#secc23"&gt;seção C.2.3&lt;/a&gt;).
  Conforme discutido na seção D.10 (&lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secD10.htm"&gt;Como o capitalismo
  afeta a tecnologia?&lt;/a&gt;), o aumento do investimento de capital também reflete
  a tentativa de controle dos trabalhadores pelo capital (ou substituí-los por
  máquinas que nunca dizem "não"), e de transformar o indivíduo em uma "massa
  trabalhadora" que pode ser demitida e substituida com pouco ou nenhum incômodo.
  Por exemplo, Proudhon mencionou uma "fábrica inglesa" que confessou investir
  em maquinário precisamente para substituir humanos porque máquinas são mais
  fáceis de controlar:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"A insubordinação de
  nossa força de trabalho nos deu a idéia de que ela é dispensável. Nós empreendemos
  e estimulamos grandes esforços na mente para substituir o serviço dos homens
  por ferramentas mais dóceis, e alcançamos este objetivo. As máquinas libertaram
  o capital da opressão do trabalho".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;System of Economical Contradictions&lt;/b&gt;,
  p. 189]&lt;/blockquote&gt;
(Ao que Proudhon responde &lt;i&gt;"quão desafortunado
é aquele cujo maquinário não pode também libertar o capital da opressão dos consumidores!"&lt;/i&gt;
A super produção em um mercado inadequado provocada pela substituição de pessoas
por maquinário fará com que a ilusão da produção automática seja substituida por
um profundo colapso -- veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc73"&gt;seção C.7.3&lt;/a&gt;).

&lt;p&gt;Portanto, a luta de classes influencia
  tanto salários como investimento de capital e preços das mercadorias no mercado.
  Ela também, e isso é muito importante, determina níveis de lucro e são esses
  mesmos níveis de lucro que originam o &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;. É por isso que,
  sob o capitalismo, a produção &lt;i&gt;"apenas ajuda aumentar os lucros dos capitalistas.
  Assim surgem, consequentemente, - as contínuas flutuações da indústria, crises
  que se alternam periodicamente. . . "&lt;/i&gt; [Kropotkin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 55]
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um mito capitalista muito comum,
  derivado da Teoria do Valor Subjetivo, é a idéia de que o livre mercado capitalista
  resultará em um contínuo &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;, e que a causa das &lt;i&gt;quedas econômicas&lt;/i&gt;
  surgem devido a um suposto controle estatal do crédito e do dinheiro. Vamos
  assumir, por um momento, que este fosse o caso. (De fato, não é o caso, como
  veremos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm"&gt;seção C.8&lt;/a&gt;). Na
  "economia &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;" dos sonhos do "livre mercado", haveria pleno emprego.
  Mas em um período de pleno emprego, essa condição ajuda &lt;i&gt;"aumentar a demanda
  total, [contudo] sua característica fatal do ponto de vista do empregador é
  que ela mantém o exército reserva de desempregados em um baixo patamar, isso
  proteje os níveis de salário e fortalece o poder de barganha dos trabalhadores".&lt;/i&gt;
  [Edward S. Herman, &lt;b&gt;Beyond Hypocrisy&lt;/b&gt;, p. 93]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em outras palavras, os trabalhadores
  estão em uma forte posição sob as condições do &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;, um fortalecimento
  que pode inclusive vir a instabilizar o sistema. E isto porque o capitalismo
  sempre caminha sobre uma corda bamba. Se o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; prossegue sereno, os
  salários reais permanecem dentro de uma certa faixa. Se seu crescimento for
  muito pequeno os capitalistas terão dificuldades para vender os produtos que
  seus trabalhadores produzem, por causa disso, enfrentarão aquilo que se chama
  de &lt;b&gt;&lt;i&gt;"crise de realização"&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; (i.e. o fato dos capitalistas não poderem
  lucrar pois não tem a quem vender seus produtos). Se o salário real crescer
  mais da conta então as condições para produzir lucros serão arruinadas pelo
  fato do trabalho receber mais valor do que produz. Isto significa que em períodos
  de &lt;i&gt;boon&lt;/i&gt;, quando o desemprego está em baixa, as condições para o lucro
  melhoram pelo fato da procura para o consumo de bens aumentar, esta expansão
  nos mercados encoraja os capitalistas a investir. Contudo, tal crescimento nos
  investimentos (como tambem no emprego) tem um efeito adverso nas condições para
  &lt;b&gt;produção&lt;/b&gt; de &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt; em virtude do trabalho passar a reivindicar
  seus direitos no ponto da produção, aumentando sua resistencia às exigências
  dos administradores e, muito mais importante, fazendo suas próprias.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Se uma indústria ou país experimenta
  alto desemprego, os trabalhadores farão muitas horas extras, os salários ficarão
  estagnados, haverá péssimas condições de trabalho e novas tecnologias serão
  criadas para substituir a mão de obra. Tudo isso faz com que o capital extraia
  um alto índice de lucro às custas dos trabalhadores, sinalizando para que outros
  capitalistas invistam também naquela área. Na medida que o investimento cresce,
  o desemprego cai. Conforme o poço da mão-de-obra disponível começa a secar,
  os salários voltam a subir, enquanto os empregadores vascilam os trabalhadores
  se conscientizam do seu próprio potencial. Como os trabalhadores estão em melhor
  posição eles podem avançar resistindo à agenda do capital e apresentando a sua
  própria (p.e. exigindo elevação de salários, melhores condições de trabalho
  e até mesmo autonomia e controle pelos próprios trabalhadores). Na medida que
  o poder dos trabalhadores aumenta, a quota de renda que vai para o capital sofre
  uma queda, o mesmo ocorre com o rateio nos lucros, o capital passa a experimentar
  uma pressão nos lucros e reage cortando os investimentos, empregos e salários.
  O corte nos investimentos faz reaparecer o desemprego nos setores de bens de
  capital da economia, que por sua vez reduz a demanda pelos bens de consumo pelo
  fato dos trabalhadores desempregados não poderem comprar tanto quanto antes.
  Este processo se acelera na medida em que os patrões demitem os trabalhadores
  ou cortam seus salários fazendo com que a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; se aprofunde,
  e assim se renovam os ciclos vez após vez. Todas estas coisas podem ser chamadas
  de pressões "subjetivas" para aumento do rateio de lucros.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta interação entre lucros e salários
  pode ser observada na maioria dos &lt;i&gt;ciclos econômicos&lt;/i&gt;. Por exemplo, vamos
  considerar a crise keynesiana do pós guerra que terminou no princípio dos anos
  70 e que preparou o caminho para as "revoluções na oferta" de Thatcher e Reagan.
  Esta crise, que ocorreu em 1973, teve suas raízes no &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; dos anos 60.
  Se olharmos para os EEUU veremos que esse país experimentou um contínuo crescimento
  entre 1961 e 1969 (o mais longo de sua história). De 1961 em diante, o desemprego
  manteve-se estável, efetivamente havia pleno emprego. A partir de 1963, o número
  de greves e o total de tempo gasto teve um aumento constante (de cerca de 3.000
  greves em 1963 para perto de 6.000 em 1970). O número de &lt;i&gt;greves relâmpago&lt;/i&gt;
  subiu de 22% (total das greves em 1960) para 36.5% em 1966. Em 1965 tanto as
  quotas como o rateio de lucros das corporações chegaram ao seu pico. Daí em
  diante começou uma queda na participação e na taxa de lucro que continuou até
  1970 (quando o desemprego começou a crescer), daí ela passou a crescer levemente
  até o ano de 1973 quando ocorreu a &lt;i&gt;queda econômica.&lt;/i&gt; Além disso, após
  1965, a inflação botou o pé no acelerador com as empresas capitalistas tentando
  desesperadamente manter suas márgens de lucro repassando suas crescentes despesas
  para os consumidores (conforme discutiremos mais abaixo, a inflação tem mais
  a ver com lucro dos capitalistas do que com &lt;i&gt;oferta de moeda&lt;/i&gt; ou &lt;i&gt;salário
  monetário&lt;/i&gt;). Tudo isso ajudou a reduzir os ganhos reais no salário e a manter
  a lucratividade alta de 1968 até 1973, fato que ajudou a postergar, mas não
  interrompeu a &lt;i&gt;queda econômica &lt;/i&gt;que estava a caminho.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Analisando bem este quadro, vemos
  que nos países capitalistas desenvolvidos em geral, a massa salarial subiu constantemente
  de 1962 até 1971 quando a produtividade despencou. Essa massa salarial (quanto
  realmente custa ao empregador os salários dos trabalhadores) equiparou-se à
  produtividade em 1965 (ao redor dos 4%) -- que também foi o ano em que as quotas
  e as taxas de lucros alcançaram seu pico. De 1965 até 1971, a produtividade
  continuou a cair enquanto os salarios aumentavam. Este processo resultou na
  queda do desemprego e no aumento do poder dos trabalhadores (expresso, em parte,
  pela eclosão de greves pela Europa e em outros lugares). Tudo isso garantiu
  que os salários reais e a produtividade nos paises capitalistas desenvolvidos
  crescesse alcançando os mesmos índices de 1960 a 1968 (4%). Mas entre 1968 e
  1973, os salários reais cresceram uma média de 4.5% comparado com o aumento
  da produtividade de apenas 3.4%. Alem disso, devido ao aumento da competição
  internacional as companhias não puderam repassar os aumentos de salários para
  os consumidores elevando os preços das mercadorias (de forma que, novamente,
  isso serviu apenas para postergar, não impedir, a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt;). Como
  resultado destes fatores, a taxa de lucros obtida pelas corporações caiu em
  cerca de 15% no período.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Além disso, fora do local de trabalho
  uma &lt;i&gt;"serie de fortes movimentos por libertação eclodiram entre as mulheres,
  estudantes e minorias étnicas. Estava em curso uma crise das instituições sociais,
  extensos grupos sociais passaram a questionar os fundamentos da sociedade moderna
  e hierárquica: o patriarcado familiar, o autoritarismo na escola e na universidade,
  a hierarquia no local de trabalho e nas oficinas, a burocracia partidária e
  sindical".&lt;/i&gt; [Takis Fotopoulos, &lt;i&gt;"The Nation-state and the Market,"&lt;/i&gt;
  p. 58, &lt;b&gt;Society and Nature&lt;/b&gt;, Vol. 3, pp. 44-45]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estas lutas sociais resultaram em
  uma crise econômica pois o capital não conseguia oprimir e explorar suficientemente
  as pessoas da classe trabalhadora de forma a manter uma satisfatória taxa de
  lucros. Esta crise foi então usada para &lt;br&gt;
  "disciplinar" a classe trabalhadora e restaurar a autoridade capitalista dentro
  e fora do local de trabalho (veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC8.htm#secc82"&gt;seção C.8.2&lt;/a&gt;).
  Convem também lembrar que este processo de revolta social, a despeito, ou talvez
  por causa de, do crescimento da riqueza material, foi prevista por Malatesta.
  Em 1922 ele argumentou:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"O erro fundamental dos
  reformistas é sonhar com uma solidariedade, uma sincera colaboração, entre senhores
  e servos. . .&lt;/i&gt;
  &lt;p&gt;&lt;i&gt;"Aqueles que visualizam uma
    sociedade de porcos gordos gingando satisfeitos sob a palmatória de um pequeno
    número de porqueiros; não levam em conta a necessidade de liberdade e o sentimento
    de dignidade humana. . . [eles] podem também imaginar e aspirar por uma organização
    técnica de produção que assegure abundancia para todos e ao mesmo tempo vantágens
    materiais tanto para patrões como para os trabalhadores. Mas na realidade
    "paz social" baseada em abundancia para todos não passará de um sonho enquanto
    a sociedade estiver dividida em classes antagônicas, entre empregadores e
    empregados. . .&lt;/i&gt;
  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;"O antagonismo é tanto espiritual
    quanto material. Jamais haverá um sincero entendimento entre patrões e trabalhadores
    para uma melhor exploração [sic!] das forças da natureza no interesse da humanidade,
    porque os patrões almejam sobretudo continuar sendo patrões e garantir cada
    vez mais poder às custas dos trabalhadores, mesmo competindo com outros patrões,
    uma vez que os trabalhadores recebem seu suprimento dos patrões e não querem
    nada mais além disso!"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;Life and Ideas&lt;/b&gt;, pp. 78-79]&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
A experiencia dos compromissos de pós-guerra
e a reforma social democrática revela com clareza que, definitivamente, a questão
social não é tanto a pobreza mas a liberdade, pelo impacto que ela exerce na luta
de classes sob o capitalismo.

&lt;p&gt;Mais recentemente, o pânico em Wall
  Street que sucedeu à notícia de que o desemprego estava declinando nos EEUU
  reflete este medo do poder da classe trabalhadora. Sem o fantasma do desemprego,
  os trabalhadores podem começar a lutar por melhores condições, contra a opressão
  capitalista, a exploração, &lt;b&gt;por&lt;/b&gt; liberdade e por um mundo justo. Cada &lt;i&gt;depressão&lt;/i&gt;
  dentro do capitalismo ocorre a partir do momento em que os trabalhadores começam
  a ver o desemprego cair e seu padrão de vida melhorar -- e isso não é uma coincidência.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A &lt;i&gt;Curva de Philips&lt;/i&gt;, que indica
  que a inflação aumenta na medida em que o emprego cai é também uma indicação
  desse relacionamento. Inflação é a situação onde existe um aumento geral de
  preços. Economistas neo-classicos (e outros pró-"livre mercado" capitalista)
  argumentam que inflação é um fenômeno puramente monetário, o resultado de existir
  mais dinheiro em circulação do que é necessário para a venda das variadas mercadorias
  no mercado. Contudo, isto não é verdade. Em geral, não há qualquer relação entre
  oferta de dinheiro e inflação. O montante de dinheiro pode aumentar ao mesmo
  tempo em que a inflação cai, por exemplo (este foi o caso nos EEUU entre 1975
  e 1984). A inflação tem outras raízes. Sabidamente, ela é &lt;i&gt;"uma expressão
  de lucro inadequado que precisa ser compensado pelo preço e pela política monetária.
  . . Sob quaisquer circunstâncias, inflação expressa a necessidade por altos
  lucros. . ."&lt;/i&gt; [Paul Mattick, &lt;b&gt;Economics, Politics and the Age of Inflation&lt;/b&gt;,
  p. 19]. Inflação conduz a altos lucros por tornar o trabalho barato. Isto é,
  ela reduz &lt;i&gt;"os salários reais dos trabalhadores. . . [fato que] beneficia
  diretamente os empregadores. . . [na medida] que os preços sobem mais rápido
  que os salários, os rendimentos que iriam para os trabalhadores acabam indo
  direto para os cofres dos patrões".&lt;/i&gt; [J. Brecher and T. Costello, &lt;b&gt;Common
  Sense for Hard Times&lt;/b&gt;, p. 120]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Inflação, em outras palavras, é o
  sintoma de que há uma contínua luta em torno da distribuição da renda entre
  as classes, pelo fato dos trabalhadores não terem nenhum controle sobre os preços,
  ela surge quando as márgens de lucro dos capitalistas estão reduzidas (por diversas
  razões, subjetivas ou objetivas). Isto significa que é errado concluir que aumento
  de salário "provoca" inflação. Dizer isso é ignorar o fato de que não são os
  trabalhadores que estabelecem os preços, mas os capitalistas. A inflação, por
  si própria, mostra a hipocrisia do capitalismo. Os salários aumentam, acima
  de tudo, devido às forças "naturais" de procura e de oferta no mercado. A inflação
  reflete a ação dos capitalistas tentando avançar no mercado recusando aceitar
  os lucros baixos provocados pelas condições daquele mercado. Obviamente, para
  usar a expressão de Tucker, sob o capitalismo, as forças do mercado são boas
  para os peixinhos (trabalho) mas má para os tubarões (capital).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto não significa que num processo
  inflacionário todos os que estão sob o regime capitalista serão igualmente atingidos
  (obviamente que não, neste processo as camadas sociais que vivem de rendas fixas
  são as que mais sofrem quando os preços aumentam, mas tais pessoas são irrelevantes
  aos olhos do capital). Na verdade - durante os períodos de inflação, o emprestador
  tende a perder e o que pede emprestado tende a ganhar. A oposição aos altos
  índices de inflação por parte de muitos defensores do capitalismo é baseado
  neste fato e a divisão entre as classes também aponta isso. Há dois principais
  grupos de capitalistas, os capitalistas financeiros e os capitalistas industriais.
  Estes últimos podem e tiram proveito da inflação (como mencionamos anteriormente)
  mas o outro vê a inflação como uma ameaça. Quando a inflação está acelerada
  ela pode empurrar a real taxa de juro para o território negativo e isto se torna
  uma horripilante perspectiva para aqueles cujos ganhos com juros são fundamentais
  (i.e. o capital financeiro). Além disso, altos níveis de inflação podem também
  ser o combustível para lutas sociais, com os trabalhadores e outros setores
  da sociedade tentando preservar seus rendimentos em um patamar seguro. Dessa
  forma, a luta social exerce um efeito político naqueles que estão envolvidos,
  uma condição de inflação elevada pode trazer sérios impactos à política de estabilidade
  do capitalismo, causando problemas para a classe dominante.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A forma como o governo e os meios
  de comunicação encaram a inflação reflete a correlação de forças dessas duas
  seções da classe capitalista e a amplitude da luta de classes dentro da sociedade.
  Por exemplo, nos anos 70, com o crescimento da mobilidade internacional do capital,
  a balança do poder se estabilizou com a ajuda do capital financeiro, ao mesmo
  tempo em que a inflação era apontada como a fonte de todo o mal e o bode expiatório
  para todos os problemas. O sinal da influencia do capital financeiro pode ser
  facilmente notado quando os agiotas começam a ganhar muito dinheiro. A distribuição
  dos lucros nas fábricas dos EEUU revela este processo -- comparando os períodos
  1965-73 com 1990-96, notamos que os &lt;i&gt;pagamentos em juros&lt;/i&gt; subiram de 11%
  para 24%, os &lt;i&gt;pagamentos em dividentos&lt;/i&gt; de 26% para 36% enquanto que os
  &lt;i&gt;lucros retidos&lt;/i&gt; cairam de 65% para 40% (&lt;i&gt;lucros retidos&lt;/i&gt; são a fonte
  mais importante dos fundos de investimentos, pois o aumento do capital financeiro
  ajuda a expandi-lo. Ao contrário do que diz a direita, o crescimento econômico
  torna-se firme na medida em que o mercado torna-se mais liberalizado -- os fundos
  que recebem investimentos reais acabam se tornando uma verdadeira máquina financeira).
  O problema, do ponto de vista do capital, é que os salários oriúndos de greves
  e de protestos que a inflação produz tem implicações preocupantes para a classe
  dominante. Na medida em que as razões fundamentais para a inflação permanecem
  (sabidamente o desejo pelo aumento nos lucros) a inflação por si só acaba apenas
  reduzida a níveis aceitáveis, níveis que asseguram um rateio de juros positivos
  reais e lucros aceitáveis.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É por isso que a condição de pleno
  emprego é considerada ruim para o empresário. A base da chamada &lt;i&gt;"Non-Accelerating
  Inflation Rate of Unemployment"&lt;/i&gt; (NAIRU). Em português, &lt;i&gt;"taxa não acelerada
  de inflação do desemprego".&lt;/i&gt; Esta é a taxa de desemprego para uma economia
  para que a inflação, conforme dizem, comece a acelerar. Embora esta "teoria"
  seja débil em sua base (a NAIRU é uma taxa invisível, móvel, e enquanto "teoria"
  pode explicar cada evento histórico simplesmente porque você não pode provar
  nada pois seus detalhes não são transparentes aos olhos de meros mortais) ela
  é muito útil para justificar políticas cuja meta é atacar o povo trabalhador,
  suas organizações e atividades. A NAIRU relaciona-se com um &lt;i&gt;"espiral de salários-preços"&lt;/i&gt;
  causada pela queda do desemprego e pelo aumento dos direitos e do poder dos
  trabalhadores. Naturalmente, você nunca fica sabendo de nenhuma &lt;i&gt;"espiral
  de salários-preços",&lt;/i&gt; de uma &lt;i&gt;"espiral de renda-preço"&lt;/i&gt; ou de uma &lt;i&gt;"espiral
  de lucros-preços"&lt;/i&gt; mesmo quando todos sabemos que estas coisas também fazem
  parte na composição de algum preço. Aparece apenas e tão somente a tal de &lt;i&gt;"espiral
  de salários-preços"&lt;/i&gt;, simplesmente por causa dos juros, &lt;i&gt;renda econômica&lt;/i&gt;
  e lucros são rendimentos para o capital e portanto, por definição, do ponto
  de vista do capital estão acima de qualquer reprovação. Ora, a simples aceitação
  da lógica da NAIRU, é uma prova de que o sistema capitalista implicitamente
  reconhece sua incompatibilidade com o pleno emprego (são mutuamente exclusivos)
  jogando por terra o mito de sua eficiencia na alocação de recursos e a ilusão
  de que o contrato de trabalho beneficia igualmente ambas as partes.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por estas razões, os anarquistas
  argumentam que um contínuo &lt;i&gt;"boom"&lt;/i&gt; economico torna-se uma impossibilidade
  simplesmente pelo fato de que o capitalismo vive em função do lucro. As pressões
  subjetivas para obtê-lo devido a luta de classes entre trabalhadores e capitalistas,
  &lt;b&gt;necessariamente&lt;/b&gt; produz o contínuo ciclo &lt;i&gt;prosperidade-colapso&lt;/i&gt;.
  Quando o caldo começa a engrossar, tudo aquilo que vem depois torna-se absolutamente
  previsível, assim &lt;i&gt;"necessariamente, a abundancia de alguns baseia-se na pobreza
  de outros, e as circunstancias restritivas de um grande número [de pessoas]
  precisa ser mantida a todo custo, para que a mão-de-obra possa vender-se a si
  mesma, de forma que uma parte dela seja capaz de produzir, sem o que a acumulação
  privada de capital torna-se impossível!"&lt;/i&gt; [Kropotkin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p.
  128]
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Naturalmente, quando tais pressões
  "subjetivas" são levadas a efeito dentro do sistema, quando a acumulação de
  capital é ameaçada pela melhora das condições de vida de um número crescente
  de pessoas, a classe dominante acusa a classe trabalhadora de "gananciosa" e
  de "egoísta". Quando isto ocorre precisamos nos lembrar das palavras de Adam
  Smith sobre esse tema:

&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Na realidade, altos
  lucros tendem muito mais a aumentar preço de trabalho do que elevar salários...
  Aquele componente do preço da mercadoria que de per si determina salários. .
  . cresce apenas em proporção aritmética no que diz respeito ao aumento de salários.
  Mas se os lucros de todos os diferentes empregadores daquelas pessoas subisse
  cinco por cento, aquele componente do preço da mercadoria que de per si determina
  lucros. . . cresceria em proporções geométricas no que diz respeito ao aumento
  nos lucros. . . Nossos comerciantes e proprietários de fábricas reclamando dos
  maus efeitos dos altos salários aumentam os preços fazendo com que haja uma
  redução das vendas de seus produtos tanto no plano doméstico como externo. [Todavia]
  calam-se com relação aos efeitos noscivos dos altos lucros. Permanecem em silêncio
  com relação aos perniciosos efeitos de sua própria ganância. O mal sempre está
  nos outros nunca neles próprios"&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The Wealth of Nations&lt;/b&gt;, pp. 87-88]&lt;/blockquote&gt;
Smith, é bom lembrar, tira suas conclusões
a partir de uma análise fria sobre o pensamento e o comportamento dos &lt;i&gt;"comerciantes
e proprietários de fábricas"&lt;/i&gt; de seu tempo&lt;i&gt;.&lt;/i&gt; Não é de surpreender, que
uma determinada teoria econômica avance (ou degenere) tendo como ponto de partida
a desinteressada análise de Smith e como ponto de chegada a apologética contida
na ação patronal (um exemplo clássico, importante destacar, da procura e da oferta,
com o mercado local de idéias respondendo a uma demanda de funcionamento a partir
de &lt;i&gt;"nossos comerciantes e proprietários de fábricas"&lt;/i&gt;). Qualquer "teoria"
que procure imputar os problemas do capitalismo à "ganancia" dos trabalhadores
sempre entrará em choque com qualquer outra que corretamente apresente as contradições
criadas pela escravidão assalariada. Proudhon resumiu a teoria econômica capitalista
quando ele afirmou que &lt;i&gt;"A política econômica -- ou seja, o despotismo do proprietário
-- nunca incorre em erro: ele tem que esstar no proletariado".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;System of
Economical Contradictions&lt;/b&gt;, p. 187]. Nada mudou desde 1846 (ou 1776!) quando
os economistas começaram a "explicar" os problemas do capitalismo (tais como &lt;i&gt;ciclo
econômico&lt;/i&gt; ou desemprego). Em nosso dias os economistas capitalistas apontam
o dedo para a classe trabalhadora acusando-a de culpada por cada problema que
o capitalismo enfrenta, afirmam que as adversidades surgem pela recusa dos trabalhadores
em se ajoelhar devidamente diante dos patrões (por exemplo, o desemprego é provocado
deliberadamente quando os salários se tornam elevados porque os patrões precisam
do desemprego para a manutenção de seu poder e lucros -- veja &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC9.htm#secc92"&gt;seção C.9.2&lt;/a&gt;

uma evidência impírica que indica que a segunda explanação é a mais correta).

&lt;p&gt;Antes de concluir, resta ainda um
  último ponto. Embora nossa análise da pressões "subjetivas" no capitalismo possa
  parecer similar à dos principais economistas, este não é o caso. Isso porque
  nossa análise reconhece que tais pressões são inerentes ao sistema, tem efeitos
  contraditórios (e portanto não podem ser facilmente resolvidas sem que as coisas
  fiquem pior que antes) e retem o potencial para a criação de uma nova sociedade.
  Nossa análise reconhece que o poder e a resistencia dos trabalhadores &lt;b&gt;é&lt;/b&gt;
  ruim para o capitalismo (como o é para qualquer sistema hierárquico), mas ela
  também indica que não existe nada que o capitalismo possa fazer sem a criação
  de regimes autoritarios (tais como a Alemanha nazista) ou pela produção de maciços
  amontoados de desempregados (como foi o caso no princípio da década de 80 nos
  EEUU e no Reino Unido, quando governos de direita deliberadamente provocaram
  profundas recessões). Mesmo assim, a exemplo dos anos 30 na América do Norte
  ou nos anos 70 na Inglaterra, não conseguiram eliminar a luta das classes dos
  trabalhadores.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nossa análise demonstra as limitações
  e as contradições do sistema tanto quanto a necessidade dos trabalhadores sempre
  estarem em uma posição de fraqueza na hora da barganha para que ele possa "trabalhar"
  (fato que por si só destrói o mito de que o capitalismo é uma sociedade livre).
  Além disso, mais que retratar o povo trabalhador como vítima do sistema (como
  é o caso de muitas análises marxistas do capitalismo) nossa análise reconhece
  que nós, tanto individualmente como coletivamente, temos o poder de influenciar
  e &lt;b&gt;mudar&lt;/b&gt; este sistema através de nossa atividade. Temos que nos orgulhar
  do fato de que o povo trabalhador se recusa negar-se a si mesmo, resiste submeter
  seus interesses a outros ou exercer o papel de tarefeiro requerido pelo sistema.
  Expressões do espírito humano como a luta pela liberdade contra a autoridade,
  por exemplo, não podem ser ignoradas nem menosprezadas, pelo contrário, devem
  ser celebradas. Esta luta contra a autoridade causa muitos problemas ao sistema
  e não é um argumento contra a luta social, é um argumento contra um sistema
  baseado na hierarquia, na exploração e na negação da liberdade.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Resumindo, de muitas maneiras, a
  luta social torna-se a expressão dinâmica da decadência do sistema, de sua mais
  básica contradição: onde o capitalismo tenta transformar a maioria das pessoas
  em meras mercadorias (precisamente, portadores da força de trabalho). Daí surge
  a resposta humana a este processo de objetificação (precisamente, a luta de
  classes). Portanto, jamais poderemos concluir que crises se resolvem com cortes
  de salários -- muito pelo contrário, conforme argumentaremos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC9.htm#secc91"&gt;seção C.9.1&lt;/a&gt;,
  o corte nos salários aprofunda ainda mais a crise, tornando a situação pior
  que antes. Não podemos concluir tampouco que, uma vez eliminada a luta social,
  o capitalismo passaria a funcionar tranquilamente. Mesmo que assumamos que a
  força de trabalho seja uma mercadoria como qualquer outra, alegando que seu
  preço subirá na medida em que crescer sua procura (produzindo inflação ou achatando
  os lucros, provavelmente ambos). Mesmo sem a luta social que acompanha o fato
  de que a força de trabalho não pode ser separada do indivíduo que a vende. Enfim,
  o capitalismo deve ser confrontado com o fato de que apenas o trabalho excedente
  (desemprego) garante a criação de um montante adequado de &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt;.
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E as coisas não param por aí. Mesmo
  assumindo que os indivíduos podem ser totalmente felizes em uma economia capitalista,
  o fato de vender sua liberdade e criatividade por um punhado de dinheiro, coloca-os,
  inquestionavelmente, diante das exigencias e caprichos de seus patrões (negando,
  assim, sua própria personalidade e individualidade por esse processo), o capitalismo
  não tem pressões "objetivas" limitando seu desenvolvimento. A luta social, conforme
  argumentamos acima, pode exercer um efeito decisivo na saúde da economia capitalista,
  e este não é o único problema que os sistema enfrenta. Isto porque há pressões
  objetivas dentro do sistema além e acima das relações sociais que ele produz
  (e a resistencia a elas). Tais pressões serão discutidas a seguir, nas seções
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc72"&gt;C.7.2&lt;/a&gt; e
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc73"&gt;C.7.3&lt;/a&gt;.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
&lt;/p&gt;&lt;hr&gt;
&lt;br&gt;
&lt;i&gt;greve-relâmpago.&lt;/i&gt; Interrupção súbita do trabalho que ocorre
em violação ao contrato trabalhista e contraria os desejos dos líderes sindicais.
&lt;p&gt;&lt;i&gt;participação nos lucros.&lt;/i&gt;
  Plano que permite a empregados elegíveis receber uma proporção dos lucros da
  empresa em que trabalham.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;recessão. &lt;/i&gt;Movimento
  descendente do ciclo econômico (economic cycle), geralmente de curta duração.
  Durante a recessão diminui o crescimento econômico do país, há desemprego e
  a demanda geral baixa. Tem certo relacionamento com depressão (depression) e
  contração (contraction).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;oferta de moeda.&lt;/i&gt;
  Montante total da moeda que circula em um país, em dado momento, não estando
  incluído o estoque de moeda reservado pelas autoridades. Essencialmente, a moeda
  é geralmente aceita como um meio de troca, mas esta característica não permite
  uma definição única de oferta de moeda; outros meios de pagamento também são
  aceitos.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;salário monetário. &lt;/i&gt;Remuneração
  por serviços de um assalariado, em termos do dinheiro recebido. Comparar com
  salário real (real wage), que é o poder aquisitivo da moeda quanto às necessidades
  da vida e outras coisas desejadas pelo assalariado. Também se chama salário
  nominal (nominal wage).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;Curva de Phillips. &lt;/i&gt;Curva
  que estabelece uma relação entre o índice de aumento nos salários e o percentual
  de desemprego da mão-de-obra (labor) civil. A intenção é demonstrar a substitutibilidade
  (trade-off) entre emprego e aumentos salariais. É também um relacionamento hipotético
  entre desemprego e inflação.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;lucros retidos. &lt;/i&gt;Diz-se
  da retenção dos lucros após a dedução dos impostos e dos dividendos das sociedades
  anônimas. Nos balanços (balance sheets) podem figurar como "reservas".
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;espiral de salários-preços&amp;nbsp;&lt;/i&gt;
  ou&lt;i&gt; inflação de custo.&lt;/i&gt; Alta no nível de preços que, segundo se acredita,
  ocorre quando os salários aumentam mais do que a produtividade. Embora possa
  significar aumento em qualquer dos custos de produção, o uso mais comum da expressão
  é para descrever aumentos salariais, sendo usada como sinônimo de inflação salarial
  (wage inflation) e de inflação de entidades vendedoras (seller's inflation).
  De acordo com as teorias, os preços sobem somente quando a demanda (demand)
  excede o volume de produção, havendo emprego total (full employment); todavia,
  parece que o volume de produção pode estar abaixo de tal nível e ainda assim
  os preços subam. Em inglês, a expressão quer dizer, literalmente, "inflação
  impelida por custo".

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;renda econômica.&lt;/i&gt;
  1. Importância monetária paga pelo uso da terra ou dos edifícios porventura
  existentes. 2. Excedente pago a qualquer fator de produção (factor of production)
  acima do que é necessário para mantê-lo em sua ocupação. Por exemplo, se um
  aviador ganha 20, mas conseguisse apenas 15 em alguma outra ocupação, sua renda
  econômica (rent) seria 5. Esta quantia poderia desaparecer sem afetar a produção.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;i&gt;colapso.&lt;/i&gt; Baixa acentuada
  nas atividades econômicas em geral, resultando em desemprego (unemployment),
  poucas rendas (incomes) e lucros, baixa nos preços e valores de bens de todos
  os tipos. Geralmente ocorre depois de um período de prosperidade algo exagerada.
  &lt;br&gt;
 
&lt;/p&gt;&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="secc72"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;Qual o papel do mercado no
  &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;?&lt;/h2&gt;

Um dos maiores problemas no capitalismo
é o funcionamento do próprio mercado capitalista. Para os defensores do "livre
mercado" capitalista, o mercado provê todas as informações necessárias para fazer
investimentos e tomar decisões na área produtiva. Isto significa que o ato de
aumentar ou diminuir o preço de uma mercadoria funciona como sinal para cada um
no mercado que, por sua vez reage a esse sinal. Estas respostas bem coordenadas
pelo mercado, resultarão numa economia saudável. Por exemplo, o aumento no preço
de uma mercadoria resultará no aumento da produção e na redução do consumo de
tal bem, e isso moverá a economia em direção ao equilíbrio.
&lt;p&gt;Embora possamos concordar que essas
  considerações acerca do mercado não sejam sem fundamento, é também claro que
  o mecanismo do preço não transmite todas as informações relevantes e necessárias
  para as companhias e para os indivíduos. Isto quer dizer que o capitalismo não
  funciona da forma como é apresentado nos livros de economia. É a própria dinâmica
  do mecanismo de preços que conduz ao &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; ou à &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt;
  da atividade econômica e aos custos sociais e humanos resultantes. Isto pode
  ser observado se investigarmos o real processo que se esconde por traz do funcionamento
  do mecanismo de preços.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando indivíduos e companhias fazem
  planos concernentes a uma futura produção, eles não planejam pensando na demanda
  &lt;b&gt;agora&lt;/b&gt; mas pensando na demanda em um &lt;b&gt;tempo no futuro&lt;/b&gt; quando seus
  produtos penetrarem no mercado. A informação que o mecanismo de preços provê,
  portanto, é a relação entre oferta e procura (ou preço de mercado relacionado
  com o preço de produção no mercado) no momento atual. Embora esta informação
  &lt;b&gt;seja&lt;/b&gt; relevante para o planejamento das pessoas, ela não representa o
  conjunto de &lt;b&gt;todas&lt;/b&gt; as informações relevantes ou que são requeridas por
  aqueles que estão envolvidos.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A informação que o mercado &lt;b&gt;não
  &lt;/b&gt;provê é de que forma as &lt;b&gt;outras&lt;/b&gt; pessoas reagirão com relação às informações
  fornecidas. Esta informação, além disso, não pode ser fornecida devido à competição.
  Em termos simples, se A e B competem entre si, se A informa B de suas atividades
  e B não é recíproco, então B está em uma posição que lhe permite competir mais
  efetivamente que A. Consequentemente a comunicação com o mercado é desencorajada
  e cada unidade de produção permanece isolada das demais. Em outras palavras,
  cada pessoa ou companhia respondem ao mesmo sinal (a mudança no preço) mas cada
  um reage independente da resposta dos outros produtores e consumidores. O resultado
  é geralmente um choque no mercado, causando desemprego e colapso econômico.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vamos supor, por exemplo, um aumento
  de preço devido à deficiência de uma mercadoria. Isto resulta em lucros exorbitantes
  neste mercado, levando os donos do capital a investir neste ramo de produção
  de forma a abocanhar uma parte desses lucros acima da média. Todavia, os consumidores
  responderão ao aumento do preço reduzindo o consumo daquele bem. Isto significa
  que quando os resultados dessas decisões independentes começa a aparecer, existe
  uma superprodução daquele bem no mercado com relação à efetiva demanda por ele.
  Os bens não podem ser vendidos e é instalada uma crise uma vez que os produtores
  não conseguem lucro com seus produtos. Diante desta superprodução, surge a &lt;i&gt;queda
  econômica&lt;/i&gt;, a retração no capital, e o mercado de preços desaba. Isto eventualmente
  conduz ao aumento da oferta se contrapondo à procura, e a produção se expande
  conduzindo a um outro &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; e assim por diante.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Proudhon descreveu este processo
  como resultante de uma &lt;i&gt;"contradição"&lt;/i&gt; do &lt;i&gt;"&lt;/i&gt;duplo caráter do valor"
  (i.e. entre o valor de uso e o valor de troca). Esta contradição resulta em
  que o &lt;i&gt;"valor [do bem] decresçe na medida em que a produção desse bem aumenta,
  e um produtor pode chegar à escassez pelo contínuo enriquecimento de si mesmo"
  &lt;/i&gt;via superprodução. Isto porque um produtor &lt;i&gt;"que ceifou vinte sacas de
  trigo. . . imagina a si mesmo duas vezes mais rico do que se tivesse ceifado
  apenas dez. . . Relativamente a seus negócios domésticos, [ele] está correto;
  [mas] olhando do ponto de vista de suas relações externas, ele pode estar completamente
  enganado. Se a dupla safra de trigo ocorre em todo o país, vinte sacas venderão
  por menos do que ele conseguiria com dez se tivesse colhido apenas a metade
  de sua safra normal".&lt;/i&gt; [&lt;b&gt;The System of Economical Contradictions&lt;/b&gt;, p.
  78, pp. 77-78]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Isto, como pode ser observado, não
  se trata de pessoas cometendo uma série de erros desconexos. Pelo contrário,
  resulta por causa do mercado comunicar a mesma informação para todos os envolvidos
  e esta informação não ser suficiente para uma tomada de decisão racional. Embora
  ela seja racional para cada agente no que diz respeito a expandir ou retrair
  a produção, ela não é racional para todos os agentes que agem da mesma maneira.
  Em uma economia capitalista, o mecanismo de preços não fornece todas as informações
  necessárias para a tomada de uma decisão racional. De fato, ele ativamente encoraja
  a supressão das informações extras necessárias que dizem respeito a uma resposta
  planejada à informação original.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É esta irracionalidade e lacuna nas
  informações que alimenta o &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;. Aquele &lt;i&gt;crescimento econômico&lt;/i&gt;
  e &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; local na produção na forma como delineamos aqui pode
  transformar-se em uma crise generalizada devido às informações insuficientes
  que permeiam dentro da economia através do mercado. Todavia, as desproporcionalidades
  de capital entre as indústrias não resultam de &lt;b&gt;per si&lt;/b&gt; em uma crise geral.
  Se este fosse o caso o capitalismo estaria em um constante estado de crise porque
  o capital se move dentro dos mercados durante períodos de prosperidade tanto
  quanto antes dos períodos de depressão. Isto significa que os deslocamentos
  no mercado não são a base para a expansão de uma crise generalizada na economia
  (embora eles possam explicar &lt;i&gt;quedas econômicas&amp;nbsp;&lt;/i&gt; localizados).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Portanto, a tendência para uma crise
  generalizada que se expressa a si mesma em uma abundância generalizada no mercado
  é o produto da profundidade das mudanças econômicas. Enquanto a supressão da
  informação pelo mercado exercer seu papel produzindo depressão, um &lt;i&gt;colapso&lt;/i&gt;
  generalizado apenas se desdobrará em ciclos locais alternados de &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt;
  e &lt;i&gt;slump&lt;/i&gt; quando eles ocorrerem ao lado de atividades de efeitos secundários
  da economia capitalista, sabidamente o crescimento da produtividade como resultado
  do investimento em capital, tanto quanto as pressões subjetivas da luta de classes.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O problema resultante do crescimento
  da produtividade e dos investimentos de capital serão distutidos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc73"&gt;próxima seção&lt;/a&gt;.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;
&lt;/p&gt;&lt;hr&gt;

&lt;br&gt;
&lt;i&gt;slump.&lt;/i&gt; n 1 queda brusca (de preços), baixa, colapso. 2 Fig.
fracasso.&amp;nbsp; // vi cair, baixar, afundar, mergulhar, baixar repentinamente
(preços, valores), fracassar, ter postura ou andar curvados. &lt;br&gt;

&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;a name="secc73"&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;&lt;h2&gt;Qual o papel dos investimentos
  no &lt;i&gt;ciclo econômico&lt;/i&gt;?&lt;/h2&gt;
Outros problemas do capitalismo surgem
devido ao crescimento da produtividade que ocorre como resultado dos investimentos
de capital ou das novas práticas trabalhistas que ajudam a incrementar lucros
de curto prazo em uma companhia. A necessidade de maximizar lucros resulta em
mais e mais investimentos de forma a melhorar a produtividade da força de trabalho
(i.e. aumentando o montante de &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt; produzida). O aumento na produtividade,
contudo, significa que qualquer que seja o lucro produzido ele ocorre em função
da produção de um crescente número de mercadorias. Este lucro necessita ser angariado
no mercado mas isso pode ser dificultado porque os capitalistas não produzem para
um mercado existente mas para uma espectativa de mercado. Como as firmas individualmente
não podem prever o que seus competidores farão, é racional para elas tentar maximizar
suas ações no mercado pelo aumento na produção (investindo mais). Como o mercado
não provê as informações necessárias para coordenar suas ações, essa situação
leva a oferta a exceder à demanda dificultando o rateio dos lucros através das
mercadorias produzidas. Em outras palavras, um período de super produção ocorre
devido à super acumulação de capital.

&lt;p&gt;Devido ao crescimento dos investimentos
  nos meios de produção, o capital variável (trabalho) utilisa um grande, extenso
  e constante capital (os meios de produção). Em virtude do trabalho ser a fonte
  da &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt;, isso significa que em curto prazo os lucros terão que
  aumentar através dos novos investimentos, i.e. os trabalhadores precisam produzir
  mais, em termos relativos, do que antes de forma a reduzir o custo de produção
  das empresas para as mercadorias e os serviços que elas produzem. Isto faz com
  que o crescimento nos lucros seja realizado pelo corrente preço de mercado (que
  reflete os velhos custos de produção). A exploração do trabalho precisa crescer
  de forma a trazer de volta o capital total (i.e. constante &lt;b&gt;e &lt;/b&gt;variável)
  para aumentar, ou na pior das hipoteses, tornar-se constante.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Contudo, ao mesmo tempo em que isso
  é racional para uma companhia, não o é para todas as firmas que fazem isso,
  procurando manter seus negócios. Na medida em que os investimentos crescem,
  a &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt; dos trabalhadores precisa produzir cada vez mais rápido.
  Se a massa dos lucros disponíveis na economia é muito pequena comparada com
  o total do capital investido isso fará com que a companhia encontre diante de
  si problemas para obter lucros em um mercado específico devido a uma &lt;i&gt;queda
  econômica&lt;/i&gt; localizada em um mercado específico causada pelo mecanismo de
  preços que espalha seus efeitos para a economia como um todo. Em outras palavras,
  a queda na taxa de lucro (o rateio dos lucros para investimento em capital e
  trabalho) na economia como um todo pode resultar em uma já produzida &lt;i&gt;mais
  valia&lt;/i&gt;, sinalizando a expansão do capital remanescente na forma de dinheiro
  mas que falha em atuar como capital. Nenhum novo investimento é feito, os bens
  não podem ser vendidos resultando em uma redução geral da produção e num aumento
  do desemprego com as companhias demitindo trabalhadores ou indo para outros
  mercados. Isto remove mais e mais capital constante da economia, aumentando
  o desemprego que força aqueles que continuam trabalhando a trabalharem mais
  duramente que antes de forma a aumentar a massa de lucro produzido, resultando
  (eventualmente) num aumento da taxa de lucro. Uma vez que as taxas de lucro
  estão suficientemente altas, os capitalistas são incentivatos a fazer novos
  investimentos e a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; se transforma em &lt;i&gt;crescimento econômico&lt;/i&gt;.
 

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Alguem pode argumentar que essa análise
  é falha porque nenhuma companhia precisa investir em maquinário pois isto reduziria
  sua taxa de lucros. Mas tal objeção é fraca, simplesmente porque (conforme observamos)
  tal investimento é perfeitamente sensato (verdadeiramente, uma necessidade)
  para uma empresa específica. Investir o que ganham (potencialmente) agita o
  mercado e aumenta os lucros. Infelizmente, enquanto isso é individualmente perceptível,
  coletivamentte não o é e a consequencia resultante desses atos individuais é
  o super investimento na economia como um todo. Diferente do modelo de perfeita
  competição, em uma verdadeira economia capitalista não há qualquer meio de conhecer
  o futuro, nem o resultado de suas próprias ações, nem tampouco das ações dos
  seus competidores. Tal super acumulação de capital é o resultado natural da
  competição simplesmente porque ela é individualmente racional e o futuro é desconhecido.
  Ambos estes fatores asseguram que as firmas atuem dessa forma, investindo em
  maquinarios que, no fim, resultarão em uma crise de super acumulação.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ciclos de prosperidade, seguidos
  por super produção e depois depressão são resultantes naturais do capitalismo.
  A super produção é o resultado da super acumulação, e a super acumulação ocorre
  devido à necessidade de maximizar os lucros em curto prazo de forma a permanecer
  no mundo dos negócios. Enquanto a crise aparece na forma de uma abundância de
  mercadorias no mercado, existe mais mercadorias em circulação do que podem ser
  adquiridas pela demanda agregada (&lt;i&gt;"A propriedade vende produtos para o trabalho
  por um preço maior do que paga por ele" &lt;/i&gt;usando as palavras de Proudhon),
  suas raízes são profundas. Ela repousa na própria natureza da produção capitalista.
 
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um exemplo clássico dessas pressões
  "objetivas" no capitalismo é o "estrondo dos anos vinte" que precedeu a Grande
  Depressão dos anos 30. Após a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; em 1921, houve um rapido
  aumento nos investimentos nos EEUU que quase dobraram entre 1919 e 1927.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por causa deste investimento em equipamentos
  pelo capital, a produção fabril cresceu para 8.0% ao ano entre 1919 e 1929 e
  a produtividade dos trabalhadores cresceu para uma taxa anual de 5.6% (computando-se
  a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; de 1921-1922). Este aumento na produtividade foi refletido
  no fato de que mais que o pós &lt;i&gt;prosperidade rápida&lt;/i&gt; de 1922, a quota de
  rendimentos industriais paga em salários aumentou de 17% para 18,3% e a quota
  de capital aumentou de 25,5% para 29,1%. Os salários dos administradores subiu
  para 21,9% e o excesso empresarial para 62,6% entre 1920 e 1929. Com os custos
  caindo e os preços relativamente estáveis, os lucros cresceram de tal forma
  que proporcionaram um alto índice de capital direcionado para os investimentos
  (a produção de bens de capital aumentou para uma média anual de 6,4%).

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como era de se prever, em tais circunstancias,
  na década de 20 a prosperidade se concentrou no topo das 60% famílias mais ricas
  que detinham menos que $2000 por ano, 42% menos que $1000. Um décimo das 1%
  das famílias recebiam rendimentos no patamar de 42% e apenas 2,3% da população
  detinha rendas acima de $10000. Ao passo que os 1% mais ricos possuiam 40% da
  riqueza nacional no ano de 1929 (e o número de pessoas que detinham meio milhão
  de dólares em rendas subiu de 156 em 1920 para 1489 em 1929) enquanto isso o
  patamar de 93% da população amargava a migalha de 4% de renda per capita entre
  1923 and 1929.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Todavia, a despeito de tudo isso,
  o capitalismo dos Estados Unidos estava em fase de crescimento econômico e o
  laissez-faire capitalista havia alcançado seu pico. Mas em 1929 tudo mudou com
  a quebra da bolsa de valores -- seguida por uma produnda depresssão. Mas, qual
  foi sua causa? Sob a luz do que apresentamos acima, era de se esperar que ela
  tenha sido provocada pela &lt;i&gt;"prosperidade rápida"&lt;/i&gt; e pela queda no desemprego,
  pelo aumento do poder da classe trabalhadora e por ter conduzido a um arocho
  nos lucros, mas este não foi o caso.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esta &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; &lt;b&gt;não&lt;/b&gt;
  foi resultante da resistencia da classe trabalhadora, na verdade os anos 20
  foram marcados pelo mercado de trabalho que persistia continuamente favorável
  aos trabalhadores. E isto acontecia por duas razões. Primeiramente, o &lt;i&gt;"Palmer
  Raids"&lt;/i&gt; nos finais da década de 10 viu o estado enfraquecido pelos radicais
  do movimento operário dos EEUU que detinham uma ampla base de apoio na sociedade.
  Em segundo lugar, a profunda depressão de 1920-21 (durante a qual a taxa média
  nacional de desemprego subiu para mais de 9%) combinada com o uso de injunções
  legais pelos empregadores contra os protestos dos trabalhadores e o uso de espiões
  industriais para identificar e sacar membros dos sindicatos fez com que o trabalho
  enfraquecesse provocando a queda na influencia e no tamanho dos sindicatos na
  medida em que os trabalhadores eram obrigados a assinar o "yellow-dog", literalmente
  "cão amarelo", um contrato que o mantinha entre seus empregos.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante os anos pós &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; de
  22, esta posição não foi alterada. A taxa dos 3,3% de desemprego nacional omitiu
  a média dos 5,5% dos desempregados não rurais entre 1923 e 1929. Em todas as
  indústrias, o crescimento na produção fabril não aumentou a procura por trabalho.
  Entre 1919 e 1929, o emprego de trabalhadores na produção caiu para 1% e o emprego
  dos trabalhadores na não produção caiu para cerca de 6% (durante o ano de 1923
  até o &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; de 29, onde o emprego de trabalhadores na produção cresceu
  apenas em 2%, enquanto que o emprego de trabalhadores em setores não produtivos
  permaneceu constante). Isto foi devido à introdução do trabalho sendo efetuado
  pelas máquinas e o aumento nos estoques de capital. Além disso, a alta produtividade
  associada com a produção agrícola resultou em uma enchurrada de trabalhadores
  rurais que se deslocaram em direção aos mercados de trabalho urbano.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enfrentando um grande desemprego,
  os trabalhadores abandonaram suas reivindicações pelo medo de perder seus empregos
  (particularmente aqueles trabalhadores com salários relativamente altos e com
  empregos estáveis). Isto combinado com o constante declínio dos sindicatos e
  o reduzido número de greves (o menor índice desde os princípios da década de
  1880) indicavam que o trabalho estava fraco. Os salários, assim como os preços,
  permaneceram comparativamente estáveis. Na verdade, a quota total das rendas
  industriais que iam para os salários caiu de 57.5% em 1923-24 para 52.6% em
  1928/29 (entre 1920 e 1929, ela caiu para 5.7%). É interessante notar que mesmo
  &lt;b&gt;com&lt;/b&gt; o mercado de trabalho favorável aos patrões por mais de 5 anos, o
  desemprego continuou alto. Isto indica que o "argumento" neo-clássico de que
  o desemprego dentro do capitalismo e causado por sindicatos fortes ou por salários
  reais altos é outra ilusão que estudaremos mais detalhadamente mais tarde (veja
  a &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC9.htm"&gt;seção C.9&lt;/a&gt;).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A chave para a compreensão daquilo
  que aconteceu repousa na natureza contraditória da produção capitalista. As
  condições do &lt;i&gt;"boom"&lt;/i&gt; foram resultado dos investimentos de capital, que
  aumentaram a produtividade, o que fez com que os custos fossem reduzidos e os
  lucros aumentassem. A amplificação e o crescimento nos investimentos em bens
  de capital foram os principais setores onde os lucros foram aplicados. Além
  disso, tais setores da economia dominados pelas &lt;i&gt;grandes corporações&lt;/i&gt; (i.e.
  oligopolio, um mercado monopolizado por algumas empresas) passaram a pressionar
  aqueles mais competivivos. As &lt;i&gt;grandes corporações&lt;/i&gt;, como sempre, angariaram
  uma alta quota de lucros devido à sua privilegiada posição no mercado (veja
  &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC5.htm"&gt;seção C.5&lt;/a&gt;), isto
  levou muitas empresas em setores mais competitivos da economia a enfrentar uma
  crise de lucratividade durante os anos 20.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O aumento no investimento, ao mesmo
  tempo em que esmagou diretamente os lucros dos concorrentes nos setores mais
  competitivos da economia, também eventualmente levou suas taxas de lucro à estagnação,
  e depois para a queda, interferindo na economia como um todo. Embora a massa
  de lucros disponíveis na economia aumentasse, ela eventualmente tornara-se muito
  pequena comparada com o total de capital investido. Além disso, com a diminuição
  da quota de renda para o trabalho e o aumento da desigualdade, a demanda agregada
  por bens não se coadunou com a produção, impedindo a venda de bens (que é também
  uma expressão do processo de super investimento conduzindo à super produção,
  com a super produção levando ao sub consumo e vice versa). Na medida em que
  o esperado retorno (lucratividade) nos investimentos hesitam chegar, ocorre
  um declínio na demanda por investimentos, o que por sua vez representou o início
  da &lt;i&gt;queda econômica &lt;/i&gt;(um crescente predomínio dos estoques de capital que
  aumentam mais depressa que os lucros). Os investimentos se acomodaram em 1928
  e tornaram a crescer em 1929. Com a estagnação nos investimentos, ocorreu uma
  grande orgia especulativa em 1928 e 1929 numa tentativa de alcançar lucratividade.
  Como não poderia deixar de acontecer veio o fracasso e em outubro de 1929 com
  a quebra da bolsa de valores, abrindo caminho para a Grande Depressão dos anos
  30.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A quebra de 1929 é um indicativo
  dos limites "objetivos" do capitalismo. Mesmo com uma débil posição do trabalho,
  a crise pode ocorrer e a prosperidade transforma-se em "tempos ruins". Contradizendo
  a teoria economica neo-clássica, os eventos dos anos 20 indicaram que mesmo
  se aceitassemos a afirmação capitalista de que o trabalho é uma mercadoria como
  as demais, o capitalismo ainda assim estaria sujeito a crises (ironicamente,
  um ativo movimento sindical nos anos 20 procurou postergar a crise deslocando
  renda do capital para o trabalho, aumentanto a demanda agregada, reduzindo investimentos
  e apoiando os setores mais competivivos da economia!). Contudo, qualquer argumento
  neo-clássico que "culpe o trabalho" pela a crise (coisa que foi muito popular
  tanto nos anos 30 como nos anos 70) conta apenas metade da história (se é que
  conta algo). Mesmo se os trabalhadores agissem como servís diante da autoridade
  capitalista, o capitalismo sempre estará marcado pelo &lt;i&gt;boom&lt;/i&gt; e pela &lt;i&gt;queda
  econômica&lt;/i&gt; (conforme vimos nas décadas de 20 e 80).
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tomando outro exemplo, as 100 maiores
  empresas da América, empregaram 5 milhões de pessoas e possuiam ativos de $126
  bilhões, considerando o montante de ativos dividido pelo número de trabalhadores
  que o produziu verificamos que a média cresceu de $12.200 em 1949 para $20.900
  em 1959 e para $24.000 em 1962. [First National City Bank, &lt;b&gt;Economic Letter&lt;/b&gt;,
  June 1963]. Conforme podemos verificar, a taxa de crescimento em ativos médios
  por trabalhador cai com o passar do tempo. O período inicial da alta formação
  de capital foi seguida por um período recessivo entre 1957 e 1961. Tais anos
  foram marcados por um violento crescimento no desemprego (de 3 milhões em 1956
  subiu para 5 milhões em 1961) uma taxa elevada de desemprego após uma &lt;i&gt;queda
  econômica&lt;/i&gt; e não antes dela (um crescimento de 1 milhão em 1956 para cerca
  de 4 milhões em 1962). [T. Brecher and T. Costello, &lt;b&gt;Common Sense for Hard
  Times&lt;/b&gt;, chart 2]

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estamos fornecendo estes dados a
  respeito deste período, porque alguns defensores do "livre mercado" capitalista
  costumam usar este mesmo período para argumentar sobre as vantágens dos investimentos
  em capital. Estes dados na realidade indicam que uma crescente formação de capital
  ajuda a criar o potencial para a recessão, porque através dele aumentam a produtividade
  (portanto os lucros) por um período, isto reduz as taxas de lucros a longo prazo
  por existir uma relativa escassez de &lt;i&gt;mais valia&lt;/i&gt; na economia (comparada
  ao investimento de capital). Esta queda na taxa de lucros é uma indicação da
  queda na formação de capital no ponto da produção, aumentando o desemprego durante
  tal período.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, se a taxa de lucros cai para
  índices que não permitem a continuação da formação de capital, tem uma &lt;i&gt;queda
  econômica&lt;/i&gt; embutida aí. Essa &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; é usualmente iniciada
  pela superprodução de uma mercadoria específica, possivelmente provocada por
  processos que descreveremos na &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC7.htm#secc72"&gt;seção C.7.2&lt;/a&gt;.
  Se existem suficientes lucros na economia, &lt;i&gt;quedas econômicas&lt;/i&gt; localizadas
  terão uma reduzida tendencia a se propagar e se generalizar. Uma &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt;
  apenas se generaliza quando a taxa de lucro começa a cair na economia como um
  todo. Uma &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; local contamina o mercado por causa da ausência
  de informações sobre o mercado por parte dos produtores. Quando uma indústria
  produz em excesso, isso faz com que o processo de produção seja interrompido,
  provocando medidas como o corte nos custos, trabalhadores passam a ser demitidos
  de forma a tentar obter mais lucros. Isto reduz a procura pelas indústrias que
  abastecem aquela indústria afetada reduzindo a demanda geral devido ao desemprego.
  Quando uma indústria começa a apresentar sinais de super-produção a resposta
  natural daqueles que abastecem aquela indústria é a imediata redução da produção,
  demissão de trabalhadores, etc., que novamente leva ao declínio da demanda.
  Fica muito difícil realizar lucros no mercado, o que conduz a mais cortes nas
  despesas, aprofundando a crise. Mesmo isso sendo racional no plano individual,
  não o é no plano coletivo e logo todas as empresas enfrentarão o mesmo problema.
  Surge uma &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; e ela se propaga através da economia porque
  a economia capitalista não comunica informações suficientes para que os produtores
  possam tomar decisões racionais ou coordenar suas atividades.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A "super-produção", é importante
  destacar, existe apenas do ponto de vista do capital, nunca do ponto de vista
  da classe trabalhadora:
&lt;/p&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Aquilo que os economistas
  chamam de superprodução não passa de uma produção que está acima da capacidade
  de compra do trabalhador. . . este tipo de superprodução torna-se uma característica
  fatal da presente produção capitalista, porque os trabalhadores ao mesmo tempo
  que não podem comprar com seus salários aquilo que eles mesmos produziram, alimentam
  copiosamente os parasitas que vivem de seu trabalho".&lt;/i&gt; [Peter Kropotkin,
  &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, pp. 127-128]&lt;/blockquote&gt;
Em outras palavras, superprodução e
subconsumo possuem implicações recíprocas entre si. Não haveria nenhuma superprodução
exceto no que diz respeito a determinado nível de uma demanda solvente. Não há
qualquer deficiencia na procura exceto em relação a determinado nível de produção.
Os bens "superproduzidos" podem ser adquiridos por consumidores, mas o preço de
mercado é muito deficiente para gerar lucro e a produção precisa ser reduzida
de forma a artificialmente aumentá-lo. Assim, por exemplo, ver comida sendo destruída
enquanto pessoas passam fome é muito comum durante anos de depressão.
&lt;p&gt;Assim, quando a crise surge no mercado
  na forma de um "excesso de mercadorias" (i.e. com a redução da demanda efetiva)
  e se propaga através da economia pelo mecanismo de preços, é fácil verificar
  que as raízes desta crise estão fincadas na produção. Até mesmo quando os níveis
  de lucro se estabilizam em índices aceitáveis, devido à constante necessidade
  de expansão capitalista a &lt;i&gt;queda econômica&lt;/i&gt; permanece. Os custos sociais
  do corte de custos se constituem em outra "externidade" do ponto de vista do
  poder e da riqueza capitalista.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Existem maneiras, naturalmente, pelas
  quais o capitalismo posterga (mas não interrompe) o desenvolvimento de uma crise
  generalizada. O imperialismo, sob a sombra do qual os mercados crescem e os
  lucros são extraídos dos países menos desenvolvidos e usados para impulsionar
  os lucros dos paises imperialistas, é um método (&lt;i&gt;"estando o trabalhador incapacitado
  de comprar com seus salários as riquezas que eles mesmo produziram, as indústrias
  passam a buscar mercados no exterior"&lt;/i&gt; - Kropotkin, &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 55).
  Um aspecto importante é a manipulação do crédito e de outros fatores econômicos
  (como salário mínimo, a incorporação dos sindicatos pelo sistema, produção de
  armas, manutenção de índices "naturais" de desemprego para manter os trabalhadores
  "disciplinados", etc.). Outro é o estado gastando para aumentar a demanda agregada,
  procurando incentivar o consumo e abrandar o perigo da superprodução. Ou o gráu
  de exploração produzido pelos novos investimentos que podem ser altos o suficiente
  para manter o aumento do capital constante e preservar a taxa de lucros da queda.
  Contudo, todos estas alternativas (objetivas e subjetivas) tem um alcance limitado
  e nunca são suficientes para estancar efetivamente uma depressão que está a
  caminho.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por essa razão o capitalismo sempre
  passará pelo ciclo do &lt;i&gt;crescimento acelerado/queda econômica&lt;/i&gt; devido às
  acima citadas pressões objetivas para a produção do lucro, mesmo se ignorarmos
  a revolta subjetiva contra a autoridade pelos trabalhadores, conforme explicamos
  anteriormente. Em outras palavras, mesmo se aceitassemos como verdade que os
  trabalhadores não são seres humanos mas apenas "capital variável", isto não
  implicaria em que o capitalismo se transformaria em um sistema livre de crises.
  Embora, para muitos anarquistas, essa discussão de que seres humanos não são
  mercadorias soe um tanto quanto acadêmica, a verdade é que o "mercado" de trabalho
  não é como o mercado do ferro. A subjetiva revolta contra a dominação capitalista
  existirá sempre enquanto existir capitalismo.
&lt;/p&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 13:12:05 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/o-que-provoca-o-ciclo-economico-capitalista</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/o-que-provoca-o-ciclo-economico-capitalista</guid></item><item><title>Um mercado dominado por grandes corporações pode ser alterado?</title><description>&lt;p&gt;Concentração de capital, naturalmente, não significa que em um determinado mercado,
o domínio continuará sendo exercido sempre pelas mesmas empresas,
sejam elas quais forem. O fato da possibilidade de companhias que dominam o mercado,
com o tempo, cederem seu lugar a outras não é motivo para regozijo
(conforme os defensores do livre mercado capitalista afirmam). E isto porque o
domínio do mercado apenas se alterna entre as companhias, isto é,
&lt;b&gt;velhas&lt;/b&gt; &lt;i&gt;grandes corporações&lt;/i&gt; são substituídas
por &lt;b&gt;novas &lt;/b&gt;&lt;i&gt;grandes corporações&lt;/i&gt;:
&lt;blockquote&gt;&lt;i&gt;"Se um oligopólio
  emerge em uma indústria, isso não significa que sua vantágem
  competitiva permanecerá para sempre. . . após se instalar em um
  determinado mercado, o oligolólio imediatamente cria barreiras de entrada
  que podem ser ultrapassadas apenas por formas mais poderosas e desenvolvidas
  de organização que passam a coordenar divisões mais complexas
  da divisão do trabalho".&lt;/i&gt; [William Lazonick, &lt;b&gt;Business Organisation
  and the Myth of the Market Economy&lt;/b&gt;, p. 173]&lt;/blockquote&gt;
A transição no
domínio do mercado de uma &lt;i&gt;grande corporação &lt;/i&gt;para outra
não altera o impacto da concentração de capital na economia.
A cara pode mudar, nas o sistema em si continua o mesmo.

&lt;p&gt;Em um mercado desenvolvido
  e com um alto gráu de monopólio (i.e. um mercado altamente concentrado
  e com custos de capital que criam barreiras de entrada), em geral, as novas
  companhias podem entrar somente sob estas quatro condições:
&lt;/p&gt;&lt;ol&gt;
  1) Tenham capital disponível
  suficiente para pagar os &lt;i&gt;custos de ajustamento&lt;/i&gt; e alguns prejuízos
  iniciais. Tal capital pode vir de duas fontes de recursos, de outros setores
  de suas companhias ou de grandes firmas de outras áreas/nações
  que entram no mercado. A primeira fonte faz parte do processo de diversificação
  associado com a &lt;i&gt;grande corporação&lt;/i&gt; e a segunda fonte é
  associada com a globalização dos mercados resultante das pressões
  pelos oligopólios nacionais (veja seção &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC4.htm"&gt;C.4&lt;/a&gt;).
  Tanto uma como a outra aumenta a competição dentro de um determinado
  mercado por um período de tempo na medida em que o número de empresas
  cresce em seu setor oligopolístico. Com o tempo, contudo, as forças
  de mercado resultarão em fusões e crescimento, aumentando o gráu
  de monopólio novamente.
  &lt;p&gt;2) Obtenham ajuda do estado
    que as proteje contra a competição estrangeira (p.e. a economia
    dos "Tigres" do sudeste asiático ou a economia dos EEUU no século
    19) - &lt;i&gt;"Historicamente, as estratégias políticas para o desenvolvimento&amp;nbsp;
    das economias nacionais tem proporcionado uma proteção crítica
    e de apoio ao domínio... barreiras para entrada".&lt;/i&gt; [William Lazonick,
    &lt;b&gt;Op. Cit.&lt;/b&gt;, p. 87]
  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;3) A procura excedendo
    à oferta, resultando em um nível de lucro tal que atraia outras
    grandes companhias para o mercado ou que proporcione às firmas menores
    um excesso em lucros, expandido-as. Contudo, a procura exerce um papel limitado
    nos mercados mais ologopolizados (dificilmente retira as barreiras de entrada/saida
    ou as tendencias oligopólicas a longo prazo).
  &lt;/p&gt;&lt;p&gt;4) As companhias dominantes
    aumentam seus preços excessivamente ou tornam-se complacentes cometendo
    erros, fazendo com que outras empresas ocupem suas posições
    no mercado (e, eventualmente, permitem às companhias menores de se
    expandir e fazer o mesmo). Por exemplo, muitos grandes oligopólios
    dos EEUU na década de 70 surgiram devido à pressão dos
    oligopólios japoneses. Contudo, conforme revelado na seção
    &lt;a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secC4.htm#secc42"&gt;C.4.2&lt;/a&gt;,
    tais oligopólios decadentes puderam ver seus mercados sob controle
    durante décadas até serem dominados por outros oligopólios
    (grandes empresas são geralmente substituídas por empresas similares,
    ou maiores).

&lt;/p&gt;&lt;/ol&gt;
Vamos tomar a indústria
siderúrgica dos EEUU como exemplo. A década de 80 ela viu o surgimento
das chamadas &lt;i&gt;"minimills"&lt;/i&gt; com a queda nos custos de capital. As &lt;i&gt;minimills,&lt;/i&gt;
um novo segmento na indústria, desenvolveram-se apenas após a indústria
siderúrgica ter entrado em declínio durante a competição
japonesa. A criação da Nippon Steel, igual em tamanho às
companhias siderúrgicas dos EEUU, foi um fator chave para o crescimento
da indústria siderúrgica japonesa, que investiu pesado em moderna
tecnologia aumentando a produção de aço em 2.216% no espaço
de 30 anos (de 5,3 milhões de toneladas em 1950 para 122,8 milhões
em 1980). Em meados da década de 80, as &lt;i&gt;minimills&lt;/i&gt; e a somatória
das importações detinham a quarta parte do mercado dos EEUU, com
muitas companhias do ramo siderúrgico se espalhando em direção
a novos mercados.
&lt;p&gt;Somente após investir
  $9 bilhões no aumento da competividade teconológica, diminuir
  as vagas nas empresas pelo aumento na produtividade do trabalho, afrouxar as
  leis anti poluição e (muito importante) a ação do
  governo dos EEUU restringindo as importações para apenas um quarto
  do total do mercado doméstico, pode a indústria siderúrgica
  dos EEUU sobreviver. A queda no valor do dólar também ajudou tornar
  as importações mais caras. Além disso, as empresas siderúrgicas
  voltaram a crescer ligadas com suas "rivais" japonesas, resultando em um crescimento
  centralizado (concentrado) de capital.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por essa razão, bastou
  o capital estrangeiro entrar em cena para criar espaço em um mercado
  previamente dominado. Foi necessário portanto, a insersão de capital
  externo combinada com a intervenção estatal protegendo e ajudando
  a produção doméstica para que um novo segmento da indústria
  doméstica tivesse lugar no mercado. Com a queda do valor do dólar,
  muitas companhias estáveis fecharam suas portas partindo para outros
  mercados por serem forçadas a importar por preços acima da média.
  Assim, a intervenção estatal reduziu a competição
  estrangeira, deixando as &lt;i&gt;minimills&lt;/i&gt; em uma excelente posição
  pelo aumento de suas ações no mercado dos EEUU.

&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este período da indústria
  siderúrgica dos EEUU foi marcado pela crescente "cooperação"
  entre os EEUU e as companhias japonesas. No que diz respeito as &lt;i&gt;minimills&lt;/i&gt;,
  o ciclo de formação de capital e de concentração
  teve um novo início, com as maiores companhias expulsando as menores
  para fora da competição.
&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Assim, as companhias que
  dominam o mercado podem mudar com o tempo, mas a economia como um todo será
  sempre o mercado da &lt;i&gt;grandes corporações &lt;/i&gt;devido à
  própria natureza do capitalismo. É dessa forma que o capitalismo
  funciona -- lucros para poucos às custas de muitos.
&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;small&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;custo de ajustamento.&lt;/i&gt; Quantia que tem de ser gasta na transformação
de máquinas, quando um tipo de produto deixa de ser fabricado e um outro
entra em manufatura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;minimil.&lt;/i&gt; Menor taxa
  por (milliline) ou uma média das mais baixas.&lt;/p&gt;
&lt;/small&gt;</description><pubDate>Mon, 03 Nov 2008 12:55:00 +0000</pubDate><link>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/um-mercado-dominado-por-grandes-corporacoes-pode-ser-alterado</link><guid>http://cirandas.org/anarquismo/faq-anarquista/mitos/um-mercado-dominado-por-grandes-corporacoes-pode-ser-alterado</guid></item></channel></rss>